É patética?: reflexões sobre a ética no esporte e na atividade física[1]

 

Eugenio Pereira de Paula Jr.[2]

 

 

S1 - O texto analisa a ética no esporte e na aatividade física. Inicia com uma crítica ao quadro de desvalor e ausência do comportamento ético, segue com uma interpretação dos motivos que geram esta situação e finaliza com a proposição de alternativas na busca ao resgate da prática ética.

1 – A ética está patética.

S2 - A posição é desconfortável, talvez surja esta pergunta “Mas você vai falar disso?”. Serei anti-ético Vou usar da psicologia reversa, onde se diz o contrário para conseguir o oposto... Qual o é o oposto da ética? Davi (ética) e Golias (???? A anti-ética) “Então não sejamos éticos, está demodê....

É ético (normal) sermos éticos atualmente? Faço um desafio... seria anti-ético eu perguntar se alguém aqui é ético? Ou se pelo menos uma vez na vida você deixou de ser ético? A ética virou sátira... ou porque você acha graça quando assiste Os Simpsons? S3 - Veja a fala de Bart Simpson num determinado episódio “Neste mundo louco, sem pé e nem cabeça, quem pode diferenciar o que certo do que é errado?

O momento histórico caracteriza-se pela forte inversão de valores e, para aqueles que ainda guardam um resquício de dignidade, nos assustamos diante de comportamentos que tornam esta questão motivo de mofa, riso e escárnio. O discurso que é honesto acaba ridicularizado e estigmatizado.

S4 - O jornal, fazendo uma analogia com outro que dizia-se “pingava sangue”, pinga escândalo e corrupção.

S5 - Mas o que é ética? 1 - Princípios da conduta humana e dos valores morais, e 2 - princípios  de exercício de uma profissão  - o código de ética. Isso não pode e isso não deve.

Vivemos a pós-modernidade, onde o mundo aparentemente virou terra de ninguém onde todos os momentos históricos parecem ressurgir ao mesmo tempo e a ética, além de ser um impecílio aos nossos desejos subjetivados no discurso pós-moderno, não parece ter   força diante do poderio  que a  possessividade (materializada no dinheiro) adquiriu sobre os valores humanos. Qual a única coisa que o dinheiro não pode comprar? (...dignidade) quando tempo ainda vamos resistir?

Este conjunto de premissas incita-nos a sermos éticos? Temos as duas possibilidades: uma é, escandalizados contra esta podridão, tenhamos, doravante, condutas de resgate dos valores éticos. A outra possibilidade é, já que estamos imersos neste mar de hipocrisia mesmo, acabemos por assumir de vez aquela nossa vontade de desbundar e, como já advertia Cioran, cobrar logo todos estes anos que passamos sendo bons rapazes e moças e cair na gandaia...

            Vejamos isto no esporte e atividade física.

S6 - No esporte a ética mostra-se bruxuleante:: 1 - ante a força do capital, que financia atletas e paga os eventos esportivos, 2 - inclusive alguns árbitros, 3 - ante a mentalidade do sucesso a qualquer custo, pois dinheiro ainda é poder e  4 - que reflete num pensamento subjetivo, levando atletas a parecerem a encarnação do famoso “Dick Vigarista” dos desenhos animados. E por falar em Desenhos, onde anda aquele anjinho que aparecia nos ombros dos personagens quando havia algum conflito de consciência?

No esporte o importante tem sido os resultados, não importando se a ética esta sendo ferida. Ética? No esporte é patética.

Na atividade física, ainda que de forma mais velada, também acontece o mesmo. Interesses financeiros (manter clientes  ou o emprego), estéticos (culto ao corpo) e pessoais (satisfação própria) são parâmetros que se sobrepõem aos valores morais e éticos. Ética? Na atividade física? Perde para a frivolidade estética.

Veja o Caso X (x para ser ético) um aluno me pergunta “como motivar meus clientes...” que querem sair da sua academia...

 

 

 

 

 

2  - As causas da falta de ética

S7 - Vejamos o problema, porque é difícil sermmos éticos? Tenho algumas hipóteses:

1.      Não somos éticos por ( X ) ignorância? Escolha (valores), preguiça, alienação 

2.       S8 - A ética já nasceu em desvantagem... - A vida, convivência é concreta, natural -  a Ética é  Abstrata – artificial : fingida e não natural. Agora me parece sobrenatural...

3.      caminho da anomia (sem lei), passando pela heteronomia (obediência ao outro que me policia.... e me autoriza a ser não ético),  para a  autonomia (aderência a lei) é longo e árduo e, segundo Piaget, só poucos alcançam esta maturidade. Você é maduro?.

4.      Shogum está morto – a identidade de grupo está frágil. O  pensamento individual (Eu primeiro) predomina ao coletivo –

5.      A  fama dos anti-éticos – A mídia veicula mensagens ambíguas, ao mesmo tempo que prega a prática de boas ações veicula programas (noticiário,  novelas) que promovem a não ética. Depor, aparecer, ser preso, ficar famoso e candidatar-se de repente ficou trivial. No Japão, por muito menos, os envolvidos cometem suicídio, aqui... É um sintoma.

6.      O  politicamente correto ficou demodê, como denuncia o filme “cronicamente inviável”

7.      O Zeitgeist adolescente - O adolescente é ético? Com o dístico do “abaixo as normas” e do “vamos delinqüir”? – Veja o problema – se a adolescência começa aos 9 anos, quaaase oito, e vai até aos trinta e poucos, quaaaase quarenta, a tal adultescência, como fica? De onde vamos extrair modelos éticos?

8.      S9 - A ética equivale à auto-realização de Maslow, ou seja, é preciso satisfazer as necessidade básicas para esperar ações humanas dos indivíduos (“Dai o pão antes da moral” B. Brecht - Slide

9.      Ética é igual à coerência, cobramos de todos mas odiamos quando nos cobram e tentamos de alguma forma subverter esta lógica quando é de nosso interesse. “Mas o outro também não faz...

            Os discursos de austeridade,  honra, moral e valores humanos ainda recheiam as falas de governantes, dirigentes, gestores e atletas, porém a prática destas mesmas pessoas e, assumamos, de nós mesmos, mostram-se incongruentes entre o que é dito e o que é feito.

            Nada disto é novidade e, pior ainda, nem provoca, mais escândalo ou indignação. Ou tem alguém indignado aqui? Decadence avec elegance Slide

 3 - alternativas

O momento histórico aponta para dois caminhos: Ou começamos a reconstruir uma cultura ética, ou  assumimos de vez nossos “instintos mais primitivos”  e retornarmos ao comportamento de horda dos primórdios da humanidade onde o pensamento ético não existia e ficamos a mercê do “cada um por si”.

Quando custa ser ético e quanto custa não ser ético - a economia burra...

Ética é investimento...a  longo prazo. Tanto a ética como anti-ética são dois bumerangues que cedo ou tarde voltam ao local de origem. Qual deles temos lançado ultimamente?

S10 - A solução? Eu tenho umaa...A opção ética – temos que assumir que para ser ético é preciso pagar o preço de sermos caretas, paias, babacas, retrógrados, conservadores, quadrados (gesto       ), antigos,  legalistas, etc. Você se propõe a pagar este preço?

Temos 3 caminhos para reconstruir esta opção ética: 1 - pela via otimista da educação (familiar, escolar, social e, principalmente, pessoal), pela via 2- pessimista de esperar que a inversão de valores chegue a um ponto tal que a presença de limites seja imperativo, e  já vejo estes sinais... e ainda 3 pela via da ética capitalista, com a agregação de valor – com ética o trabalho fica mais caro... Slide

Contudo ainda creio no ser humano e convido-vos a buscar uma solução na educação. Reensinar nossos filhos, alunos, iramos, colegas e, no nosso caso, atletas, desportistas e profissionais da área a sermos mais humildes e pensarmos na coletividade, no bem comum, acima de egoísmo...

Instrumentos? - A resolução CNS  196/96 convida-nos para um mundo ético... os códigos  e  os estatutos Os jornalistas, aparentemente e guardadas as devidas proporções, estão sendo os arautos da ética.

            S11 - Como diria o homem simplório e, talvez por isso, um exemplo de ética “É  pá tê ética”, Slide

 



[1] Texto apresentado na mesa redonda “A ética no esporte e na atividade física”, no III simpósio paranaense de psicologia do esporte – 23/set/2005 - Curitiba/PR

[2] Neuropsicólogo (CRP08/6099), mestre e especialista em educação, professor de psicologia nas faculdades Dom Bosco e Colaborador da comissão de educação do CRP/08.

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