Encontro Nepsi - 2007

A consciência, pela vertente da práxis sócio-histórica da atividade.

Por Eugenio Pereira de Paula Júnior[1]

 

Introdução

            Temos consciência do que é consciência? O que é consciência, então?

            O objetivo deste artigo é mostrar isto; 1 - que não temos consciência do que é consciência; 2 - que temos consciência da consciência e, por fim; 3 - definir, ou melhor, nos conscientizarmos mais sobre a consciência.

            Pelo título da mesa, teremos, antes de tudo, que posicionar nossa fala pela vertente sócio-histórica da atividade. E aí já aparece um equívoco, pois o título fala apenas de sócio-histórico, mas onde está a atividade, ponto fundamental da consciência? Outro equívoco, não tão aparente, mas que se constitui pela própria concepção, é o conceito de práxis ao invés de teoria. Agora sim, podemos contextualizar esta fala – “A consciência pela vertente da práxis sócio-histórica da atividade”. Talvez seja um preciosismo meu, mas vejamos cada conceito em separado;

Por que Práxis ao invés de teoria? Fica óbvia a diferença, pois práxis transpõe a teoria. Sendo a integração entre teoria e prática e a escola russa, fonte da práxis sócio-histórica da atividade, tem base na concepção marxista de mundo, como veremos logo adiante.

Restam agora os conceitos sócio-histórico e atividade, que você consegue deduzir naturalmente;

É sócio por quê? Porque as ações humanas acontecem de forma coletiva e é isto que permite o aparecimento, ou a emergência, das funções cognitivas e afetivas em cada indivíduo. E não é isto que estamos fazendo agora, discutindo coletivamente, no social, a consciência?

É histórico por quê? Porque as ações da humanidade avançam, evoluem progressivamente com a passagem do tempo. Basta um olhar de relance na evolução da humanidade, numa concepção macroscópica. Da mesma forma, como veremos numa concepção microcóspica (do início desta mesa ao seu final), teremos evoluído históricamente nossa concepção sobre consciência. Um exemplo é esta caneta (pegar uma caneta). Há quanto tempo ela existe? E há quinhentos anos atrás ela era assim? E há mil anos? E daqui a quinhentos ou mil anos? Então, se você consegue ver este processo na caneta, poderá entendê-lo no aparecimento e na evolução das funções cognitivas e afetivas de cada indivíduo. Este conceito vai ser fundamental para aceitarmos as duas primeiras premissas que abrem este artigo, ou seja, temos consciência, mas não temos, pois o processo evolutivo a transforma permanentemente. Mas já voltamos a isto, basta, por ora, entender o que é o processo histórico (ele é evolutivo).

O terceiro conceito, o da atividade, tão importante quanto os dois anteriores, mas muitas vezes ignorado, esquecido ou omitido, faz a distinção entre o homem e os animais. Atividade remete ao processo intencional e interno de cada indivíduo para apropriação ativa das ferramentas e conceitos construídos pela coletividade e que sofre uma evolução permanente.

Agora, feitos os posicionamentos, poderemos investigar melhor a consciência, já com uma melhor consciência da práxis sócio-histórica da atividade.

            Na clássica cena de Matrix, Orfeu oferece a Neo duas pílulas, uma azul e outra vermelha e lhe dá a opção entre uma e outra a adverte “depois da escolha não tem volta”. Neo escolheu a pílula da consciência. Você escolheria qual delas?

            É estranho, mas a busca pela consciência parece algo inerente a nós. Diante da escolha entre a alienação, continuarmos como somos, e a busca pela consciência, deixarmos de ser como somos, a tendência é a escolha pela conscientização. Historicamente a consciência já foi negada (lembra dos behavioristas metodológicos?), proibida (lembra da conferência de 1928 em Leningrado onde Vigotski conquistou o mundo, falando sobre este tema proibido para os acadêmicos materialistas?) e idolatrada (o que estamos fazendo aqui hoje?).

 

A definição de consciência

Mas o que é consciência? Pela etiologia do termo consciência é a composição de dois termos: com (junto) e ciência (conhecer). Então consciência é a propriedade cognitiva que os humanos possuem de conhecer a realidade junto, ou pelo intermédio, de outra pessoa.

Vejamos quantas consciências podemos elencar:

A consciência biológica – reflexo psíquico que permite o animal perceber o mundo. 

“A consciência, como um reflexo da realidade objetiva, tem uma função biológica essencial, habilitando o organismo a encontrar seus propósitos, a analisar a informação que chega a ele e a armazenar seus traços.” [...] “por esta razão, a consciência é a habilidade em avaliar as informações sensórias, em responder a elas com pensamentos e ações críticas e reter traços de memória de forma que traços ou ações passadas possam ser usados no futuro”.(Luria, 1981, p. 196)

 

Qual seria o substrato biológico desta consciência? A formação reticular, no tronco encefálico.

Consciência psíquica – reflexo psíquico que permite ao animal perceber-se no mundo. “A consciência é um sistema estrutural com função semântica” (Luria, 1988, p. 197). A consciência de si, produto complexo da evolução e com intima participação da fala. “...uma criança que dominou a ferramenta cultural da “Linguagem nunca será a mesma criança...” (Vygotsky, 1998a)

A consciência da consciência resulta do animal que percebeu-se no mundo e, por isso, se autodenominou de Humano.

Qual seria o substrato biológico desta consciência? – O córtex e, principalmente, o córtex frontal (o cérebro humanizado)

A Consciência seria então o cume, o ápice das funções mentais superiores e talvez seu acúleo fosse a criatividade, a ponta que abre caminho para novas conscientizações, para novas construções e/ou sua autoconstrução (autopoiese)...

 

O processo de conscientização

Sabemos o que é consciência, mas como e por que isto acontece?

Porque o homem é sócio histórico e ativo em uma práxis dialética... O fator social faz com que surjam novos desafios, pelas mudanças que ele faz no mundo, uma intervenção externa que age sobre o indivíduo que reage, reorganizando suas funções mentais superiores. A reorganização das FMS provoca alterações na estrutura e no funcionamento cerebral. Este novo cérebro ganha novas configurações (ou estruturas) a cada momento, pela dinâmica do processo de mediação. As novas estruturas (principalmente os lobos frontais) tornam o homem ativo com novas formas de reação ou seja uma ação inédita, voluntária, intencional, emergente que cria ferramentas de interação. E este processo tem um fator Histórico (evolutivo) e faz com que este processo vá se reorganizando e aprimorando numa dinâmica dialética.

O princípio é apresentado no seguinte esquema;

Este mundo fica mais complexo (1). O resultado é um fenômeno cíclico onde as novas realidades criam novas questões (2) que exigem uma reorganização cerebral (3) para gerar mais conhecimento e ferramentas (4) que permitem uma nova intervenção no mundo (1) e o processo reinicia. 2 - Questões novas (problemas ou desafios). Conforme o esquema abaixo;

 

Problemas ou Desafios (2)

 

Mundo/sociedade (1)

Consciência

(fator histórico/evolutivo)

Cérebro plástico (3)

 

Educação – sócio-gênese (4)

(fator social)

 (Fator da atividade)

Esquema 1 – processo sinérgico da consciência.

Na abordagem sócio-histórica da atividade isto se dá na clássica relação do homem com o mundo;

Luria (atividade) Homem                          Mundo Leontiev (história)

    

                        X (mediação) Vigotski

Daí a contribuição de cada pensador da tróika (Luria – com o cérebro humanizado - atividade), Vigotski com o conceito de mediação (social) e Leontiev como conceito evolutivo (histórico).

Consciência social – Emerge da soma das consciências psíquicas (individuais) para formar a coletividade, a sociedade.

 

Como é o processo de conscientização?

            Relacionando a hipótese da Zona de Desenvolvimento Proximal, proposta pela abordagem sócio-histórica atividade, com a conscientização temos que nosso nível atual é de alienação (NDR). Pela mediação, com o questionamento e a alteridade, entramos em processo de desenvolvimento (ZDP), progredindo para um estado de maior consciência (NDP), que se tornará um novo momento de alienação e ensejará a busca de nova consciência.

            Este processo é identificado nas manifestações da consciência (Artes – música, dança, literatura, etc., esporte, ciência, tecnologia, ações e criações.), pois as pessoas sempre partem de um momento histórico e, através da intencionalidade, fazem esta manifestações evoluírem para um nível mais avançado.

            Ao mesmo tempo, dialeticamente, quando observamos estes fenômenos, estamos em manifestações de conscientização, que nos tiram do nível de desenvolvimento real (alienação) e nos levam aos mesmos processos da consciência (Artes, esporte, ciência, tecnologia, ações, convivência, mediação, comunicação, interação), criando novos nível de conscientização.

 

Você é uma pessoa consciente ou alienada?

            Antes de respondermos vejam a seguinte dialética – “Eu sou um alienado” é uma frase consciente e “Eu sou consciente” é uma frase alienada. Para compreender este processo é fundamental que se discuta um pouco a dialética, pois, segundo Vigotski, quando discute o método dialético, “Estudar alguma coisa historicamente significa estudá-la no processo de mudança: esse é o requisito básico” - (“Do método dialético”) - (Vygotsky, 1998, p.85 apud PASSERINO e SANTAROSA, 2007). Então vejamos se conseguimos entender a mudança a alienação para a consciência.

            A Leis da dialética:

Lakatos e Marconi (1995) fazem um bom resumo (apesar de ser um resumo) sobre esta forma de pensar. As autoras apresentam quatro princípios da dialética que convém relembrar:

1º princípio: Da ação recíproca

O mundo deve ser visto como um processo e não como coisas prontas e acabadas. A idéia de sistema aberto (começo e recortes) deve predominar sobre a idéia de sistema fechado (de começo, meio e fim). Na ação recíproca tudo se relaciona, existindo um efeito de influência ente as coisas e nada é por acaso ou sem conseqüências (o chamado efeito dominó). Assim, cada ação humana desencadeia infinitos fenômenos, de grande e pequena escala. Um bom exemplo disto é o filme “Efeito borboleta” que mostra que uma mudança nunca é isolada e reflete, positivamente e negativamente, no futuro.

2º princípio – Da mudança dialética

É a famosa série “Tese, antítese e síntese”, que se torna uma nova tese e... A mudança dialética diz que tudo é potencialidade (O ser e o vir a ser). É este princípio que ajuda a entender porque o animal se torna humano (Autodinamismo), isto não é uma mudança mecânica. É este autodinamismo que ajuda-nos a entender as mudanças que encontramos no mundo, ou seja, sempre haverá uma nova forma de ver o mundo, de construir novas realidades e de ser humano, sempre “emergirá” uma nova possibilidade (ou possibilidades) para a humanidade e para a consciência.

3º princípio – Da quantidade à qualidade

Este princípio diz que o aumento (quantidade) de um determinado fator gera uma mudança (qualidade) no conjunto do fenômeno. A quantidade gera um salto qualitativo naquilo que se constitui. A quantidade da mediação interpsicológica determinará a qualidade, que se manifesta na mudança intrapsicológica. O Cérebro, que é uma quantidade grande de neurônios, permite o aparecimento de algo que tem uma qualidade diferente; a consciência.

4º princípio – Da interpenetração dos contrários

É este princípio que nos ajuda a entender o porquê da contradição humana. Ele quer dizer que as contradições são inerentes ao sistema. A filogênese disponibiliza as mudanças cognitivas (é interno), porém o mundo externo é o catalisador da mudança para a emersão de uma ou outra função mental.

           

Conclusão  

Estes quatro princípios nos levam a concluir que a consciência é dinâmica, é processo, é transitória... Ao mesmo tempo em que está presente, quando temos consciência de sua existência, é o devir e o vislumbre de algo que se transforma no próprio processo de percepção, análise e projeção futura.

            A consciência vem depois. Depois que vivenciamos um determinado processo é que podemos fazer a análise (histórica) dele e ver que outras alternativas poderiam ser assumidas, mas que não poderíamos vê-las, embora presentes, porque ainda não tínhamos consciência delas. É comum os alunos falarem; “ah se seu tivesse a cabeça que tenho agora, no 5º. Ano, no primeiro ano da faculdade”. A consciência só vem depois!

            A consciência é reflexiva (as ações retornam ao homem, sob a forma de informação) e sinérgica (reverbera de forma cíclica, como vimos no esquema 1).

            A consciência Reflete em ação – o exemplo do fumante. Um fumante que diz que fumar faz mal, mas continua fumando, é uma pessoa informada. O fumante que tem consciência que fumar faz mal, age, parando de fumar. Consciência é ação!

A consciência é uma Utopia, que nos move adiante. Como a história do burro, que puxa uma carroça, tentando alcançar uma cenoura que está pendurada à sua frente.

A consciência se manifesta nos Insights quando, de repente, descobrimos que há algo novo em nosso psiquismo, quer na forma de perceber o mundo, quer na forma de agir sobre o mundo. Este processo se reflete no desgaste e na dor que estão presentes quando tomamos consciência da alienação/consciência. Para entender isto é imperativo que você assista ao filme “Pão e rosas”, que descreve o processo de alienação/consciência que existe em cada um de nós.

            Por fim, chegamos ao nosso objetivo, temos mais consciência de que não sabemos o que é consciência, uma vez que ela é dialética, dinâmica e um devir... sabemos que temos consciência dela, ou estamos falando de outra coisa? Estamos mais conscientes, ou menos alienados, da consciência...

            Parodiando o poeta que disse; “Caminante, el camino se hace al andar.” Podemos dizer; “Alienado, la consciencia se constrói al pensar, cuestionar, criar, destruir, falar, … pero nunca ao calar.”

            Muito Obrigado.

 

Referências bibliográficas

LURIA, Alexsandr R. Fundamentos de neuropsicologia.  Rio : LTC; São Paulo : Edusp, 1981.

 

PASSERINO, Liliana M. & SANTAROSA, Lucila M. Uma visão sócio-histórica da interação dentro de ambientes computacionais In. V CONGRESSO IBERO-AMERICANO DE INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO, 2000, Vina del mAR Memorias do V CONGRESSO IBERO-AMERICANO DE INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO (disponível em - http://lsm.dei.uc.pt/ribie/docfiles/txt200372911757Uma%20vis%C3%A3o%20s%C3%B3cio-hist%C3%B3rica.pdf) Acesso em 25/08/2007.



[1] Neuropsicólogo (CRP-08/6099), mestre e especialista em educação. Professor das Faculdades Dom Bosco.

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