Não tinha o que fazer...

 

            Vejam ! 5ª. Feira à tarde, eu cheio de coisas para fazer e máquina me pede uma senha. Tic tic tic tic... nada! Ou melhor, uma mensagem dizendo que a senha não confere.. Tic tic tic tic novamente e... a mesma coisa. Ô bichinho determinado este computador, quando coloca uma coisa na cabeça... quer dizer “cabeça” no sentido genérico, mas então quando coloca uma coisa na cabeça empaca mais que burro.

            Então vejo-me sitiado, não tenho acesso ao mundo exterior, nem interior pois todos os meus arquivos estão presos no HD (Rarde draive). Caminhar? Acabei de chegar de uma caminhada de 2 horas (bem! Para ser honesto foram uma hora e meia e, para ser beeem honesto, foram 45 minutos) e acho que já cumpri minha boa ação para com meu coração hoje. Ler? Não consigo ler com a luz do dia, acostumei-me, mal talvez, a ler com aquela luz esmaecida de lâmpada fosforescente. Namorar? Minha namorada esta trabalhando a esta hora, no trabalho dela os computadores não implicam com a senha dela e, ademais, ela é ciumenta, só posso namorar com ela.

            Olho o relógio, uma vez um aluno me disse: “professor! Se o senhor fica olhando o relógio o tempo passa mais devagar” E não é que o rapaz tinha razão! Olho de novo e o ponteiro não se mexeu enquanto eu escrevia a frase, olho de novo... o tempo lógico não tem lógica, é cruel. Cada ponteiro é um flagelo de cronos, que tem sua própria coerência. Quando temos pressa ele anda devagar, quando queremos que demore (geralmente quando estamos fazendo algo bom – Ãããh! mas já acabou?)ele passa rápido.

            Tudo bem! arranjo algo para fazer... e fazer o quê? Cochilar? Já cochilei antes de andar. Ah! sei! vou mandar um e-mail... ops não posso, sem acesso sem e-mail. Humm que tal jogar paciência no computador... a vergonha não deixa, talvez seja o medo... jogar paciência dá justa causa? Acho que vou escrever um texto, não não! Não sei escrever, ou melhor, sei mas não gosto, falta prática. Mas um texto sobre o quê? Tanto o tema quando o conteúdo são coisas difíceis.

            ...

            O ócio! Arte de nada fazer. Dia 02 de maio, engraçado, no dia seguinte ao dia do trabalho (quando ninguém trabalha) é o dia de fazer o nada. Mas nesse dia, desde que não seja domingo, todos trabalham.

            Acho que os grandes pensadores e inventores surgiram daí, de um não ter o que fazer! Hoje temos aviões, trens, elevadores, televisores, rádios, etc. e, pasmem, até o computador porque alguém não tinha o que fazer e fez estas coisas. Agora que eu queria fazer alguma coisa, como corrigir uma monografia e responder aos e-mails de quem não tinha o que fazer e me mandou, tenho que arranjar o que fazer, pois o engraçadinho do sistema não me libera a senha para fazer o que eu queria.

            Dostoievski, Shakespeare, Schopenhauer, os grandes escritores, escreveram quando? Quando estavam comendo? Quando estavam amando? Quando estavam

            Em 2003, no Fórum Social Mundial, ouvi um indiano e um escritor da Bahia falarem sobre o papel fundamental que a escrita tem na transformação da humanidade. Diziam eles que todos temos, na escrita, a ferramenta para a construção de um mundo melhor. Na escrita estaria o germem da paz mundial, da harmonia do universo, da felicidade. Escrever, escrever, escrever... É! Pensando bem eles têm razão, vejam o que todos aqueles que não tinham o que fazer fizeram, escreveram e, se não escreveram, alguém escreveu sobre a vida deles e, de um forma ou de outra, é um jeito particular de escrita

            Então que tal, quando você estiver sem ter o que fazer faça isto, Escreva! A humanidade agradece.

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