Chiquinho do Bituva
Por Eugenio Pereira
Guerra do Contestado... paranaenses e catarinas, irmanados numa guerra
tão estúpida quanto sangrenta, na mesma intensidade da garra de seus
contendores. Irmãos, filhos da nação brasileira, se digladiando na luta pela
fronteira mais acima ou mais abaixo num pedaço de papel, chamado mapa.
Neste ambiente começa a história do nosso herói. Entre os
sobejos da guerra estavam dois vagões, os “vagões das viúvas”, lotados de
mulheres e crianças sobreviventes entre os derrotados nas batalhas. Os seus
homens, maridos e pais ficaram fertilizando o solo catarinense com seu sangue,
seus suor e seus cadáveres. Num dos vagões veio Chiquinho do Bituva. O nome vem
da junção do nome Francisco, que sua mãe lhe dera, e da região serrana do
Bituva, Terra da guerra, onde vencidos eram recolhidas pelos vencedores.
Sobre seu nome
verdadeiro paira um mistério. Dizem que seu verdadeiro nome era Eugênio, nome
de seu avô, dado pelo pai que morrera na ponta de uma baioneta na noite que sua
mãe lhe dava a luz, escondida nas matas do Irani. A mãe disse que era Francisco
porque ele nasceu pobrezinho, no meio da mata, entre os animais, igual a
história de um santo que ela conhecia.
Não me meto em questões desse tipo, porém sei que Chiquinho
criou-se entre os irmãos, como enteado do Coronel, mas de tantos enteados que
este recolhera da guerra, não se sabia quem era filho legitimo ou quem era
enteado. Diz-se que se não fosse enteado de guerra, seria seu próprio filho,
num romance de soldado que está longe de casa. Quem diz isso são as comadres
mais antigas e que o nome Francisco vinha do nome do coronel que acolhera uma
das amantes, fingindo de viúva, e decidira que seu nome seria Francisco também.
De meninote franzino acabou homem feito, porém raquítico, de
poucos atributos, mas cheio de peripécias. Uma delas é essa aqui.
O Coronel, nas negociações daquela época, decidiu que
Chiquinho casaria com a filha de Deodato, famoso por ser homem rude, camponês,
que se bandeara para o lado das milícias e companheiro aguerrido do Coronel. A
contragosto, para agradar o padrasto e não destratar um miliciano, Chiquinho
anuiu, mas não queria casar. Fez a corte com a moça, visitou a casa, namorou na
sala, com Dona Cotinha, mãe da noiva, sentada no meio. Mas, por fim, o rapaz
desprezou a moça, não casou, e que de tanto desgosto, morreu de tristeza... um
mês depois da morte da mãe. Comenta-se
pela região que Chiquinho ficou carregando a culpa das mortes e jurara nunca
mais se casar...
Mas o coronel
não se deu por vencido, negociou novo matrimônio, e decidiu casar o
enteado/filho com Anabela, moça formosa e fornida, criada na base do chucrute e
leite de cabra. Chiquinho reagiu a contragosto novamente, mas, aparentemente,
não negou sua missão. Ajudou a noiva a escolher os móveis, os padrinhos, a
arrumar o casório, comprou até um terno e chapéu novos. Porém, aquela cara não
enganava ninguém, Chiquinho não queria casar. No dia do casório, em casa do
Coronel estava a parentada reunida. Da família da noiva todo mundo, da família
de Chiquinho só ele e a mãe. O Coronel fora negociar erva-mate e voltava com o
padre.
De manhã
Chiquinho encilhou o cavalo, montou de mansinho e disse à mãe que ia até Mafra,
distante umas léguas de Bituva, comprar um chapéu novo.
-
Mas
tu já tem chapéu novo filho – disse a mãe, já receosa do desfecho da conversa.
-
Não
mãe, este eu não gostei, vou buscar outro, já volto – retrucou o rapaz. Subiu
no cavalo e saiu de fininho.
Chega perto da hora do casório vão chegando os
convidados da noiva, chegam devagar, chegando de mansinho, um olhar
desconfiado, murmurando um cumprimento. Da família do noivo? Ninguém, ma-le-má
a mãe, já acabrunhada, e uma tia, que viera desavisada. No meio da parrela, os
churrasqueiros, as comadres e os amigos, atraídos pelo cheiro da carne assando.
Na hora do
casório chegam o Coronel e o vigário, que dá de ombros, como quem diz – “não
tem noivo, então não tem casório” e ameaçava voltar, olhando frustrado para os
espetos na brasa.
Logo atrás chega
a noiva... um olhar curioso procurando o seu par. Nada do noivo. A mãe arremeda
uma explicação pela ausência do filho, mas ela também está envergonhada. Todo
mundo se olha, meio acabrunhado com a situação.
A noiva não se
entrega... Cata um mancebo que estava sentado perto do curral olhando a esmo
para o céu, como quem mede as nuvens para confirmar chuva para o dia seguinte.
Puxa o rapaz pelo braço e grita para o padre.
-
Toca
a reza seu vigário, daqui não saio solteira, não. Taqui meu noivo.
O Coronel olha de soslaio para o pai da
noiva. Este acena discretamente para o padre, que vai rapidinho executando sua
função. Meia hora depois a sanfona começa a chiar, os pares vão se formando e a
noite vem como que atraída pela animação da gentarada...
Três dias depois
chega Chiquinho... O Coronel, deitado na rede, remunga qualquer coisa, talvez
um palavrão. A mãe, secando as mãos no avental, oferece a testa para dar a
bença ao filho, não olha em seus olhos, não diz nada e serve a mesa para ele.
Parece que a conversa ficou por aí.
Anos depois dá
um estalo em Chiquinho. Resolvera casar. Com quem? Com a Neusa Papuda (coitada,
hoje se sabe que aquilo era bócio), das bandas de Rio Negro. Dizem que a polaca
era ruim de danar, que até o capeta tremia perto dela. Não se sabe se pela
ruindade ou pela feiúra. Mas Chiquinho não correu, ou se correu Neusa foi atrás
e pegou-o. Chiquinho casou, não foi com a filha de Deodato, que ninguém lembra
o nome daquela que morreu de tristeza, nem com Anabela, a moça mais linda da
região. Casou com quem mandou seu coração.
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