Vale nota? Tem certificado?:
Uma reflexão sobre o “capitalismo” acadêmico.[1]
Eugenio Pereira de
Paula Jr. [2]
Resumo: O artigo trata da
cultura meritória que se instalou na educação brasileira, em todos os níveis.
Procura denunciar o mecanismo perverso que escraviza professores e alunos na
busca de "títulos" em detrimento das competências. E levanta a
questão; é possível uma educação que seja isenta da preocupação com a mera nota
ou com certificados?
Palavras chaves: meritocracia,
educação, competência X titulação.
Nestes 10 anos de vida docente, nos
30 de vida discente e com a ajudinha de alguns pensadores percebi que no
contexto da educação atual existe uma “febre” pelos certificados e titulações.
No velho oeste a febre do ouro levou muitos incautos ao ouro
de tolo (Pirita) e, conseqüentemente, ao desastre e à ruína. Os filmes de
faroeste não trazem a real proporção que tal febre alcançou e nem quantas
pessoas pereceram ingenuamente, na busca da riqueza fácil.
Nos dias atuais vejo que a febre da titulação se abate sobre outros
incautos. Vejo muitos alunos, profissionais e até professores sedentos por um
certificado. Vejo professores e promotores de congressos dizendo: “vai ter
certificado para quer for”. Em palestras, vejam só!
Palestras sim!, já encontrei
alunos comentando: “vão dar certificados? senão eu não vou!”. Vi, e sei que
aqui alguém também já viu, muitos participantes de congressos entrarem no
curso, assinarem a lista de presença, dizer: “já garanti o certificado” e
saírem em seguida. Aqui, nesta semana acadêmica, vemos um exemplo disto, o
certificado vale presença se você apresentá-lo ao professor na semana que vem.
Talvez esta visão “mercenária” da titulação seja
reflexo de uma cultura muito arraigada na nossa academia, a cultura da
nota em primeiro ligar. É comum ouvir de meus alunos frases como: “o trabalho
vale nota?”, “quanto vale a prova?”, “quanto eu tenho que tirar?” Diante disto
convido-os a uma reflexão e pergunto: “aluno estuda ou contabiliza?”. Os alunos
pensarem que nota resolve me escandaliza menos quando vejo,
nós, professores correndo atrás de pontinhos ou décimos para aprovar ou
reprovar um aluno... E talvez seja ingenuidade pensar que no mundo capitalista
em que vivemos isto pudesse ser diferente.
Estamos na cultura do Ter, onde a posse e a ostentação estão acima do
Ser. O material, as coisas, estão acima do humano. Se você tem você é se
não tem, mesmo sendo não é.
A cultura meritória subverte a motivação e o desejo humano. A motivação
que era e deveria ser intrínseca, deu lugar à motivação extrínseca. Vemos que
esta lógica já se desenvolve cedo na escola com o exemplo dos vestibulinhos, ou seja, uma criança de seis anos já tem uma
meta anterior ao aprender. Estudos (Bzuneck, 2000)
têm demonstrado que não é saudável nos pautarmos apenas por uma delas. E é isto
que quero denunciar, esta exacerbação da motivação extrínseca, este mercenarismo que nos desumaniza. É tempo de buscar o
equilíbrio motivacional, dando mais atenção aos
motivos subjetivos para nossas ações. Hoje só fazemos algo pensando: “e o que
eu ganho com isto?” Ou “qual vai ser minha recompensa?”. Vejo que tal atitude
promove a omissão e o mercenarismo. A omissão vem
quando deixamos de fazer algo que nos é de competência pela simples ausência do
prêmio ou da recompensa. O mercenarismo decorre de
uma visão mesquinha onde nosso suor passa a ter um valor maior se for premiado
– geralmente por alguns centavos - e caímos na lógica do capital – O mercenário
não deixa de ser um proxeneta.
Nietzsche, o médico da civilização, coitado morreu deixando sua paciente
moribunda, já advertia sobre a ilusão dos títulos, prêmios e reconhecimento.
Para ele o valor das coisas deve estar na ação de fazer algo. Fazer é a
essência da glória.
A vida não dá diploma, mas exige competência. A faculdade dá um diploma,
em alguns casos ele é vendido, mas isto garante a competência que ele diz ter?
Ouro de tolo!
Mas antes que você, ávido por certificados, saia correndo daqui por
considerar estas idéias como asneiras, gostaria de lembrar três personagens da
história... Jean Paul Sastre
em 1964, é eleito o Prêmio Nobel
de Literatura, mas ele o recusa. Receber a honraria significaria reconhecer a
autoridade dos juízes, o que considera inadmissível concessão. Marlon Brando também recusou um oscar em 1972 (The Godfather) e Emil Cioran que, acompanhado de Nietzsche, já denunciava as ilusões da humanidade.
Numa vertente mais otimista, dependendo da interpretação é
claro, Freud em Toten e Tabu já
explicava a necessidade humana
de ter algo para sustentar e justificar sua existência, assim o certificado, como as medallas, troféus,
estatuas seriam totens portáteis que usamos para simbolizar nossas
conquistas e nosso territorio. Em
resumo, nosso narcisismo não
se contém em apenas ser. È
preciso exibirmos.
Em outra
vertente, mais otimista ainda, do behaviorismo,
explicaríamos o certificado como um reforço secundário que aumentaria a probabilidade de resposta, ou o operante de produção do trabalho. Mas Skinner já advertia
que o reforço deve estar na tarefa em
si, no fazer. Em
educação o que deve ser reforçador é o estudo em si e não as artificialidades da
nota. “Quando aprendemos a viver, a própria vida é a recompensa”.
Numa cena da série Star Trek
(localizar) o capitão J. L. Picard ao ser interpelado por
quanto ele estava fazendo
aquele determinado trabalho
a resposta do capitão foi algo assim: “nao faço isto por dinheiro
nem por honraria alguna, faço isto em
prol da humanidade, em favor do progresso da espécie humana”. E nós ainda estamos aquí, correndo
atrás de uns centavos e certificados.
Mas temos como nos livrar desta mentalidade? Só nos livramos daquilo pelo
que lutamos contra. Vou fazer minha parte... meu
certificado já está pronto? (rasgar o certificado). Talvez seja um gesto vão,
mas isto vale mais para mim que qualquer certificado. Talvez você argumente que os certificados
sejam necessários, pois oficializam e comprovam uma competência. É preciso
comprovar? A resposta parece quase óbvia, mas o que um
comprovante falso, mentiroso ou oco comprova? Que tal pensarmos em uma
outra forma? Algumas empresas já fazem a seleção de funcionários por
competência, onde a titulação não basta, é preciso mostrar que o que o papel diz
que você saberia fazer é verdadeiro e não comprado de um mercenário ou camelô
de esquina. Você já ouviu falar no Zé Moleza? (Site
da Internet de onde se compra trabalhos acadêmicos prontos).
Mas não se preocupem, esta reflexão não cai na
prova, não tem importância, não vale nota e você já tem o seu certificado
garantido...
Referencias bibliográficas
BERNHOEFT, R. Trabalhar &
Desfrutar: equilíbrio entre vida pessoal e profissional. São Paulo : Nobel, 1991.
BZUNECK, J. A. Motivar seus alunos: sempre um desafio
possível http://www.unopar.br/2jepe/motivacao.pdf (acessado em 19/nov./2004)
CARVALHO, J. D.
D. Totem e tabu: Uma reflexão sobre
o complexo de Édipo na origem da civilização.
http://www.cientefico.frb.br/Textos%20CienteFico%202002.2/PSciologia
/Epistemologia/Temas%20Livres/Freud%201913/Totem%20E%20Tabu.pdf (acessado em 19/nov./2004)
MCLS http://www.mcls-rj.org/biosartre.htm
(acessado em 18/nov./2004)
http://www.bullz-eye.com/entertainers/marlon_brando.htm (acessado em 18/nov./2004)
http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/poderoso-chefao/poderoso-chefao.htm#Curiosidades (acessado em 19/nov./2004)
[1] Texto agraciado como “melhor tema livre” da semana de pesquisa e extensão do curso de Educação física (novembro/2004)
[2] Psicólogo, mestre em educação, professor do Dom Bosco Ensino Superior – www.fly.to/genio