Música:

No Brasil

A década de 60 foi marcante na música brasileira pelo fato de surgirem artistas e movimentos que abriram a visão do povo para os fatos que todos já estavam habituados a conviver no dia-a-dia, mas até então não era comum citá-los em canções.

Os estilos musicais que perambulavam pelos anos 50 eram as marchinhas, sambas-canções e as moonlight serenades (um estilo musical tipicamente americano). Com os anos 60, vieram também a criatividade e a coragem de falar sobre problemas do cotidiano, tendo em vista todas as restrições de uma época de censura e repressão política.

No início da década de 60, a Bossa Nova ganhou adeptos que já eram fã de Jazz e samba. Artistas como João Gilberto, Tom Jobim e Baden Powell se destacaram nesse estilo, criando uma versão mais trabalhada e moderna do samba já conhecido no país.

Baden Powell

Em 1965, época da extinção dos partidos políticos e instituição do bipartidarismo (ARENA e MDB), iniciou-se a era dos festivais. A extinta TV Excelsior produz o primeiro Festival de Música Popular Brasileira. Nos dois anos seguintes, a TV Record realiza outros dois. Também foram realizados os Festivais Universitários de Música Popular Brasileira, da TV Tupi, do Rio de Janeiro. Nesses festivais surgem nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues, Os Mutantes, Caetano Veloso, Nara Leão e muitos outros.
Com o crescimento e a expansão da televisão no Brasil, grandes ídolos da nova música popular brasileira se afirmam. Ainda em 1965, com o surgimento da Jovem Guarda, a juventude teve sua versão em português da beatlemania. Aliados a esse movimento, surgem nomes como Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléia, Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Os Fevers, entre outros. Todos se apresentavam semanalmente no programa homônimo que era exibido aos domingos à tarde.

Programa Jovem Guarda

A Jovem Guarda ganhou força entre os jovens de classe média baixa que se identificavam com as bandas inglesas e americanas e não tinham contato com a Bossa Nova. Era como um desabafo cantar versos do tipo: "... quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá pro inferno...". Isso era um grito de liberdade, tendo em vista uma época de educação ainda muito rígida. Quando Roberto Carlos gravou essa e outras canções como Lobo Mau, É proibido Fumar e É papo firme, talvez não tivesse noção da legião de jovens que iria usar suas gírias e frases ousadas no seu dia-a-dia.
Em 1966, uma matéria de um jornal trazia um comentário sobre a Jovem Guarda, cujo título era: Roberto Carlos - O rei da juventude. Essa frase tomou força e o jovem rapaz conseguiu se superar como cantor e compositor. Cada novo disco servia para lhe tornar em pouco tempo, o maior cantor brasileiro. Isso deve-se também à sua decisão de não fazer sucesso apenas em cima de versões de grupos estrangeiros, mas de compor suas próprias canções em parceria com o amigo Erasmo.
Na verdade, a Jovem Guarda era mantida pelo reflexo do que os Beatles criavam. Apenas alguns cantores mais talentosos, que apesar de influenciados pela onda beatlemaníaca, usavam de sua própria capacidade para fazer sucesso; e Roberto Carlos desde o início foi assim. Resultado disso é o enorme respeito mantido até hoje por músicos de todas as áreas que o consideram um dos mais talentosos artistas brasileiros.

Mas os jovens universitários não eram tão ligados assim na Jovem Guarda. Queriam letras menos ingênuas, que falassem da sociedade, de política, tudo isso de forma inteligente. Foi voltado para esse lado da sociedade, que surge em 1967 o Movimento Tropicalista ou simplesmente Tropicália. Liderada por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes, a Tropicália uniu poesia, idéias revolucionárias, rock inglês, cultura tradicionalista baiana e principalmente: muita criatividade e inteligência. Tanto que em pouco tempo, deixou de ser apenas um movimento musical, para se tornar movimento cultural, tendo adeptos em todas as áreas artísticas. A tropicália foi, sem dúvida, um dos mais importantes movimentos culturais do nosso país. Versos como "Sobre a cabeça, os aviões / sobre meus pés, os caminhões / aponta contra os chapadões meu nariz / Eu organizo o movimento / eu oriento o carnaval / eu inauguro o monumento no Planalto Central do país." (Tropicália); ou "... e o maestro ergueu o dedo além da porta, ao porteiro, sim / e eu digo não / eu digo não ao não / eu digo: É proibido proibir." serviam de base para mostrar através das canções, tudo que se passava no mundo naqueles tempos.
Pode-se dizer que este foi o único movimento cultural brasileiro que se exprimia de forma diferente contra o autoritarismo e a desigualdade, propondo a internacionalização da cultura e uma nova expressão do país, que não se restringia ao discurso político.

Capa do Disco 
Tropicália ou Panis et Ciscenses

A Tropicália começou a perder forças no início dos anos 70. Vários fatores contribuíram para isso: Alguns artistas ligados ao movimento, como Caetano Veloso, estavam exilados fora do país; em 1970, uma frase de John Lennon anuncia o fim dos Beatles: "O sonho acabou". Isso mexeu profundamente com a juventude da época que não aceitava a dissolução da banda. Aos poucos, os jovens foram perdendo a ingenuidade e as atitudes espontâneas que os caracterizavam como uma juventude batalhadora e revolucionária. O movimento hippie também começa a perder sua identidade e apesar de ainda atrair adeptos, sua ideologia já não é mais a mesma. Tudo isso contribui para o fim de movimentos culturais como a Jovem Guarda e a Tropicália.

Caetano Veloso

Chico Buarque

Gilberto Gil

Surge também nos anos 60, um movimento artístico liderado por músicos de Minas Gerais: O Clube da Esquina; responsável por lançar grandes nomes como Milton Nascimento, Edu Lobo, Lô Borges, Flávio Venturini e muitos outros. Esse movimento resultou no disco homônimo, lançado ainda na mesma década e os músicos ligados a ele são consagrados até hoje como cantores e compositores.
O nome do movimento deve-se a um bar onde o grupo se reunia para mostrar suas composições, que ficava numa esquina entre a Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa.
A maioria dos músicos do Clube da Esquina também ganharam destaque nos Festivais da Música Popular. Entre eles, o próprio Milton Nascimento.

Beto Guedes

Edu Lobo


Outro grande artista que surgiu meio alheio a todos estes movimentos, foi Chico Buarque. Lançando seu primeiro LP em 1966, o jovem compositor já alcançou o reconhecimento como cantor com as canções A Banda e A Rita. Em 1967, gravou Noite dos Mascarados com a participação de Elis Regina. Em 1968, começa a usar de sua criatividade para cantar ao país toda a agonia que sentia e a sensação de impotência perante a censura e a repressão política aos artistas populares. Grava a canção-protesto Roda Viva, que virou tema de peça teatral escrita por ele mesmo. Ouvindo a letra de Roda Viva, não se sabe como foi que os órgãos responsáveis pela censura permitiram sua gravação, já que durante toda a canção, é comentada diretamente todas as barbaridades cometidas pelo governo, passando a sensação de desânimo por parte do autor da música.
Dois anos depois, é lançado o compacto que trazia mais uma das canções destinadas a comentar (meio cinicamente) sobre o estado em que o país se encontrava naqueles tempos de dura repressão política. Era o compacto Apesar de Você / Desalento. A canção Apesar de Você parecia uma continuação de Roda Viva; só um pouco mais alegre. Nela o autor fazia cobranças e juras de vingança aos responsáveis pela situação política. Confira na letra abaixo:

Apesar de você

Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão, não
A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado e inventou de inventar toda a escuridão
Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar
Água nova brotando e a gente se amando sem parar
Quando chegar o momento, esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido, esse grito contido, esse samba no escuro
Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
'Inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria
Você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir, que esse dia há de vir antes do que você pensa
Apesar de você
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia
Como vai se explicar vendo o céu clarear de repente, impunemente
Como vai abafar nosso coro a cantar na sua frente
Apesar de você
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
Você vai se dar mal, et cetera e tal, laraia, laraia...

Em 1971, Chico lança o LP Construção, a canção título do disco trazia a história de um operário civil que morre num acidente de trabalho, caindo da construção. Seu corpo fica no meio da rua, atrapalhando o trânsito. A letra mostra o inconformismo do autor; tendo como exemplo, um trabalhador que sai de casa deixando sua mulher e seus filhos, para ir em busca do sustento da família. No almoço, bebe além da conta, ocasionando um acidente de trabalho. O mais dramático: Mesmo após sua morte, não tem o descanso merecido, já que seu corpo cai no meio da avenida pública, mostrando que até depois de morto, o pobre é como um estorvo na sociedade. O disco ainda trás a canção Deus lhe Pague. Mais um desabafo às autoridades, em versos como "Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / Por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague".
Em 1978, verdadeiras obras-primas são lançadas: A canção Cálice, outro hino contra a repressão, mostrava o descontentamento e a desesperança do povo que não tinha mais forças para lutar contra o sistema político repressor. Outra belíssima canção lançada nesse disco é Trocando em Miúdos: Uma pequena canção que mostra a sensibilidade de Chico Buarque e Francis Hime para a composição de letras românticas. O LP trazia ainda a canção Apesar de Você, lançada no compacto de 1970.
Veja as letras de Cálice e Trocando em Miúdos:

Cálice 
de:Gilberto Gil e Chico Buarque

Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito, silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa, melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta, tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta
Como é difícil pai, abrir a porta, essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo, de que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça, minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel, me embriagar até que alguém me esqueça.


Trocando em miúdos
de: Francis Hime e Chico Buarque


Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde...

Em 1979 sai o LP Ópera do Malandro, que trazia a trilha sonora do musical homônimo de Chico Buarque, inspirado na Ópera dos Mendigos, de 1728, escrita por John Gay, e na Ópera dos Três Vinténs, de 1928, escrita por Bertold Brecht e Kurt Weill.
Entre as belas canções do disco, está Hino de Duran (ou Hino da Repressão).
Diversos musicais foram produzidos nos anos 70 por vários artistas. Em 1978, o governo Geisel põe fim à ditadura, dando esperança aos artistas que puderam voltar para o país e ter liberdade para expor suas opiniões e trabalhos. Depois de uma série de festivais, a TV Globo seria a última emissora a produzir os últimos festivais no país – sendo o derradeiro, o VII Festival Internacional da Canção, em setembro de 1972, com Maria Alcina cantando "Fio Maravilha", de Jorge Ben.

O Rock Progressivo ganha adeptos também Brasil. Influenciados pelos Mutantes, surgem bandas como Secos e Molhados (liderada por Ney Matogrosso) e Casa das Máquinas; bandas que passam através de suas músicas, um outro astral até então desconhecido. Sons de naves espaciais, aparelhos eletrônicos, guitarras estridentes e letras confusas, mostravam as experiências com ácidos como LSD em meio a uma complexidade musical muito própria desse estilo.
Os Secos e Molhados foram responsáveis pela gravação de belíssimas canções como Rosa de Hiroshima, Sangue Latino, Fala, Amor, entre outras. Liderado por Ney Matogrosso, a banda tinha um estilo próprio de se apresentar, com rostos pintados e danças típicas (como por exemplo, na canção O Vira). Em pouco tempo, a banda virou fenômeno nacional. Seus discos venderam mais de um milhão de cópias, o que era um recorde no país (até então somente Roberto Carlos havia vendido tanto assim), chegam a ter propostas para seguirem carreira internacional, mas recusam para se dedicarem às turnês pelo Brasil. Mas não demora muito para as intrigas aparecerem e a banda se dissolver por desentendimento.

Outra grande banda dos anos 70, foi a Casa das Máquinas. Formada por Netinho(bateria e percussão) e Aroldo (guitarra,violão e vocal), junto com Carlos Geraldo (baixo e vocal), Pique ( saxofone, piano, órgão e flauta) e Pisca ( guitarra, violão e vocal), o projeto do grupo era lançar algo menos comercial, diferente do que estava sendo feito desde a década anterior.
A banda foi responsável por clássicos como Vou Morar no Ar, Lar de Maravilhas e Cilindro Cônico. O LP Lar de Maravilhas é considerado até hoje um dos melhores discos de Rock Progressivo brasileiro.
A banda teve sua origem em 1972, gravaram apenas 3 LPs (em CD existem no mercado apenas dois lançamentos: Lar de Maravilhas e Casa de Rock. O que dizem é que a fita mestra do primeiro disco foi perdida da gravadora, tornado impossível o relançamento em CD) e em 1978, a banda se dissolve em meio a acusações de ter assassinado a pancadas um cinegrafista da Rede Record. Acusação da qual foram absolvidos em 1983.

Esses foram alguns dos mais importantes acontecimentos musicais durante as décadas de 60 e 70 no Brasil. Mas a música estava se desenvolvendo no mundo inteiro. Vários artistas surgiram nesse período, como Jimi Hendrix, The Doors, Pink Floyd e é claro, o maior fenômeno musical de todos os tempos: Os Beatles.
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