A arte em meio às drogas

Introdução:

Como diria uma das frases do livro "Many Years From Now", de Paul McCartney, "...Às vezes, sinto como se os anos 60 ainda estivessem por vir. Eles me parecem um período muito mais no futuro que no passado."
Isso deve-se a enorme efervescência cultural desenvolvida nessa década e também na década seguinte. Então, caro leitor, se para quem viveu aqueles anos de loucuras, revoluções, drogas, liberalismo e muito rock and roll, lembrar causa espanto, devido à grande avalanche de acontecimentos marcantes e às explosões de criatividade incomparáveis a qualquer outro grande acontecimento de décadas seguintes, imagine o que pode passar pela cabeça de quem não presenciou esses anos? 

Bem, hoje em dia pode parecer atraente a idéia de uma época onde a juventude vivia em meio às passeatas públicas, em confronto com a polícia e lutando pela liberdade de expressão e pelo amor livre. Tudo isso, incentivados por personalidades culturais e artísticas da época, que lutavam, cada um com sua maneira específica, para o bem comum e a igualdade social entre pobres e ricos, negros e brancos, homens e mulheres.

Também é comum relacionarmos os anos 60 e 70 a um bando de hippies, lusinhas coloridas, roupas em cores berrantes e o uso incontrolável de drogas como maconha e LSD ( é bom esclarecer, que drogas e entorpecentes, eram encarados pelos intelectuais de uma maneira diferente naquela época, um tempo em que a repressão moralista, a guerra fria e a "caça aos comunistas" eram a tônica no mundo inteiro e toda manifestação artística era submetida à censura. Além de tudo isso, nessa época ainda não se tinha uma noção exata de tudo que as drogas causavam à saúde do usuário). Bem, essa idéia realmente tem seu fundo de verdade, já que os próprios artistas de época consumiam e em meio às suas obras, deixavam sinais do uso das drogas acessíveis da época. Isso pode ser observado em obras de pintores, escritores e músicos em todo o mundo.

Um dos casos mais famosos, está na canção que os Beatles gravaram em 1967, "Lucy in the Sky with Diamonds", cujas iniciais formam LSD. As autoridades da época perceberam e proibiram a música de ser tocada em rádios e embora John Lennon negasse a intenção de fazer apologia ao uso do ácido, mas basta ler a tradução ou assistir ao vídeo-clipe para saber que a música reproduz a alucinação provocada pela droga. Veja:

Lucy no Céu com Diamantes (Lucy in the Sky with Diamonds)

Pinte-se em um barco em um rio 
Com pés de tangerina e céus de marmelada 
Alguém o chama, você responde muito lentamente 
Uma menina com olhos de caleidoscópio 
Flores de celofane amarelo e verde 
Sobressaindo sobre sua cabeça 
Procure a menina com o sol nos olhos
e ela se foi
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes, ah 
Siga-a até uma ponte sobre uma fonte 
Onde vários de cavalos de pedra comem tortas de marshmallow 
Todos sorriem quando você vagueia pelas flores 
Isso cresce de forma tão inacreditável
Táxis de jornal aparecem nas orlas
Esperando para levá-lo embora 
Escale a parte de trás com sua cabeça nas nuvens 
e você se foi 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes, ah 
Pinte-se em um trem em uma estação 
Com porteiros de plasticine com gravatas de espelho 
De repente alguém está na catraca 
A menina com olhos de caleidoscópio 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes, ah 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes 
Lucy no céu com diamantes, ah

Na maioria dos casos, isso era feito de uma forma discreta para que os órgãos responsáveis pela censura não descobrissem, afinal, se isso ocorresse, todo o trabalho do artista seria vetado e ele correria o risco de ser processado ou até mesmo preso. Foi o que ocorreu com Gilberto Gil na década de 70, quando junto a Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia, passavam por Florianópolis com o espetáculo "Os Doces Bárbaros". Gil foi preso após ser pego no quarto de hotel com uma quantidade exagerada de maconha. Maria Bethânia também foi obrigada a se dirigir à delegacia, devido a um "pó branco" encontrado entre sua bagagem. Depois de analisarem, descobriram que o pó se tratava de "Pó de Pemba", usado em um ritual baiano de descarregamento (hahaha... imaginem a cara do delegado, dando satisfação do resultado da análise do tal pozinho...). Gil cumpriu pena numa clínica para dependentes químicos e enquanto fazia o tratamento, a turnê dos Doces Bárbaros teve de ser cancelada.

Caetano Veloso teve mais sorte (ou foi mais esperto...). Nos anos 60, a canção Alegria, Alegria foi composta e interpretada por ele no Festival da TV Record. O que a censura não percebeu na época, é que a canção também trazia uma referência às drogas. Veja a primeira frase da canção para entender: "Caminhando contra o vento sem Lenço Sem Documento" ou seja, "Caminhando contra o vento sem LSD" . Curioso, não?

O LSD era uma das drogas mais consumidas pelos jovens nessa época. Teve seu início nos Estados Unidos, onde jovens a consumiam em busca de experiências místicas, motivo principal que levou o uso de LSD a todo o mundo e serviu de base para o lema hippie: "Sexo, Drogas e Rock and Roll". 
Muitos pensam que este lema foi criado pelos Rolling Stones, mas na verdade, o consumo excessivo de entorpecentes já vinha acontecendo bem antes. Eis alguns exemplos: Elvis Presley era viciado em álcool, LSD e maconha. Mais tarde passou a tomar calmantes de forma descontrolada para dormir. 
Bob Dylan foi quem deu o primeiro baseado de maconha para John Lennon, ainda no começo da carreira dos Beatles. Algum tempo depois, a banda teve sua primeira experiência com o LSD, na casa de um amigo que era dentista e tinha acesso fácil à droga. segundo George Harrison, o dentista colocou a droga no café e distribuiu para os Beatles sem que eles desconfiassem; só após os primeiros sintomas do uso do ácido, é que foram informados. Depois disso, o grupo continuou usando LSD, maconha e álcool com grande freqüência. O resultado disso pode ser observado no disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, que a banda lançou em 1967, contendo 13 canções e entre elas, Lucy in the Sky with Diamonds.

O disco até hoje parece algo revolucionário. O produtor dos Beatles, George Martin, conta que a essa altura, a banda queria mostrar um disco que fosse novo em todos os aspectos. Milhões de idéias surgiam da cabeça dos quatro músicos e eram passadas a George Martin, que quase enlouquecera com o turbilhão de projetos que os Beatles transmitiam a ele. Um grupo de cordas foi contratado, todo o equipamento de gravação teve de ser melhorado, já que o grupo queria acrescentar vários Takes de vocais e instrumentos (na época, a gravadora do Beatles, a EMI, usava uma mesa de quatro canais e seria impossível fazer tudo aquilo que eles queriam com esse equipamento). Um músico indiano foi contratado para tocar Sítar na canção Within you, Without you, de George Harrison. Instrumentos eram gravados separadamente para depois serem reproduzidos ao contrário e só assim incluídos à gravação; isso também foi feito com as vozes no final do disco. Ao terminar a canção "A Day in the Life", faixa que encerra o disco, há uma frase sendo reproduzida ao contrário e repetida várias vezes em meio a gargalhadas. Quem tinha o lançamento em LP de vinil, girava o disco ao contrário e ouvia a frase no sentido certo. Essa brincadeira foi repetida inúmeras vezes pela banda e copiada por vários artistas da época.

Na capa do disco, os Beatles aparecem pousando sobre pés de maconha e os outros detalhes da capa chama a atenção até dos mais desligados... Vale a pena comprar o CD e conferir pessoalmente todos os detalhes da belíssima loucura imaginada pelos Beatles e idealizada com o auxílio indispensável do produtor George Martin.

É bom lembrar que os consumo de drogas nunca gerou nenhuma capacidade criativa em seus usuários. Nenhum entorpecente é capaz de criar uma aptidão que já não exista naturalmente, ou desenvolver uma criatividade excessiva no momento em que a droga se manifesta no cérebro. 

Passado um longo período de uso abusivo de drogas, os Beatles se viram totalmente dependentes e sem condições física e mentais para continuarem sobrevivendo sem o consumo dos entorpecentes. Tentaram em vão, abandonar o vício e quando todas as alternativas cabíveis para isso, pareciam inúteis, decidiram se dedicar à meditação na Índia. Tal acontecimento teve sua influência marcada principalmente nas canções que o grupo compôs a partir dessa experiência.

As experiências que não deram certo no meio artístico:

Vários são os casos de artistas que, pelo uso descontrolado de drogas, tiveram um final prematuro. Jovens que tiveram uma morte trágica no auge da carreira, devido ao consumo excessivo de drogas.
Escolha um dos links abaixo para conhecer a trajetória de alguns desses artistas que foram vítimas de seus próprios exageros.

Jim Morrison (The Doors)
Janis Joplin
Jimi Hendrix
Elvis Presley

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