GLADIADORES DE VOTOS
No mês de março, teve início à campanha publicitária de uma famosa marca americana de refrigerantes que veiculou em rede nacional uma peça milionária, trazendo informações valiosas que transcenderam ao estreito propósito de vender refrigerante. Refiro-me à campanha presidencial americana.
A propaganda traz, por meio de uma superprodução ajustada com fortes elementos de computação gráfica, a reprodução do Coliseu, espaço utilizado no Império Romano para promover, principalmente, os combates entre gladiadores. A sobrevivência dos atores no cenário de luta tem a intenção final de demonstrar o jogo da vida e da morte, sendo que na grande maioria das vezes são vitoriosos os que possuem maior capacidade física.
Esta, por muito tempo, foi a principal forma de o Império Romano levar diversão com uma mão e controlar os ímpetos de seus cidadãos com a outra, numa postura conhecida como política do pão e circo. Assim, a suntuosa imponência da arquitetura do Império Romano, elemento real de seu poder, é transportada através do túnel do tempo em direção ao presente. Surgem em suas arquibancadas pessoas vestidas com roupas idênticas às utilizadas no passado, mas falando, ou melhor, cantando em um idioma que é o mais pronunciado nos dias de hoje - o inglês. Este surge como a língua entoada no Novo Coliseu, ou como o novo idioma proferido pela civilização que detém a supremacia do poder militar mundial, uma nova modalidade de capacidade, só que não mais física e sim bélica.
Os gladiadores desta ordem mundial no cenário do combate não são mais figuras musculosas, e sim três "pop stars" que desafiam o poder do imperador que assiste a tudo do alto de sua tribuna. Ele tem o privilégio da sombra e do prazer de desfrutar do refrigerante estupidamente gelado, em confronto com seus súditos, o público, extremamente suados e com sede. Os novos gladiadores abdicam da força que há muito tempo fez do Coliseu o palco de bárbaros espetáculos para agora, através da música, buscar o engajamento do público espectador. Aí está uma nova e diferente forma de também conquistar a consciência coletiva.
Podemos fazer um corte na narrativa e estabelecer alguns pontos que nos levarão da peça publicitária ao confronto entre o Partido Democrata e o Partido Republicano, na corrida presidencial dos EUA. Porém, antes de tudo, é interessante conhecer, em linhas gerais, quais são os atores ocultos da campanha presidencial e suas respectivas e principais formas de pensar.
A propaganda é uma crítica clara do Partido Democrata à atual forma de agir do governo americano, a cargo do Partido Republicano. Os democratas possuem em seu modo de agir, no que tange as relações internacionais, diretrizes defendidas pelo teórico americano Joseph J. Nye, uma linha neoliberalista em que os atores internacionais vivem em um contexto de interdependência complexa, idéias expostas na obra Power and interdependence (1989). Segundo este pensamento, não se discute a hegemonia americana no cenário internacional. Porém, suas decisões quanto à direção da política externa do país devem ser tomadas não pela força das ações que só trazem a tona um sentimento de antiamericanismo (que já se vê espalhando por todo o mundo), e sim pela conquista da simpatia mundial por todos os valores que os EUA representam hoje para a humanidade. Poderíamos enumerar uma gigantesca lista de exemplos desses valores, relativos à dominação pela cultura: Superman, Rambo, O Patriota, Walt Disney, NASA, a música, etc. Assim para os neoliberais (Partido Democrata), os EUA devem conquistar o mundo através de um "poder brando" (soft power) que é toda a manifestação em diversas áreas que fazem o mundo admirar seus valores. Desta forma, os EUA, na medida em que precisem do apoio de outros Estados do mundo, constroem tal apoio gradativamente, através deste poder brando, que é a conquista das consciências pelos valores americanos.
Do outro lado e tornando-se a vítima da peça publicitária estão os neorealistas (Partido Republicano), que encorparam suas ações nas relações internacionais segundo as posições do também teórico americano Kenneth N. Waltz expostas em Theory of International Politics (1979). Esta teoria não deixa de aceitar a existência de vários atores nas relações internacionais (organizações como a OMC, confederações como a ONU). No limite dos acontecimentos, porém, as decisões dos Estados se sobrepõem às de qualquer outro ator internacional, sendo estes outros atores meros veículos para a execução da política estabelecida pelos Estados. A ilustração desta forma de pensar se torna fácil quando nos lembramos que em 2003, na ocasião da intervenção militar dos EUA e seus aliados no Iraque, a postura contrária por parte da ONU não serviu absolutamente de nada. Assim, por mais que a ONU ou qualquer Estado reprovasse tal postura beligerante, ela ocorreu porque prevaleceu a vontade de um Estado que goza de soberania de suas ações em um cenário anárquico internacional.
De volta à peça publicitária, fica agora mais fácil entender as intenções ocultas no embate entre democratas (neoliberais) e republicanos (neorealistas). Os novos gladiadores abdicam das armas para conquistar o povo através da música, um dos principais valores culturais americanos no mundo atual, utilizando para tanto e de maneira nada coincidente a letra de um grupo de rock da Inglaterra - principal aliada na invasão ao Iraque. É sem dúvida a codificação da busca do poder pelo abrandamento das ações utilizadas pela teoria de Joseph Nye, engajando os ingleses nesta forma branda de capitação mundial de poder. Outro aspecto importante a ser analisado no filme publicitário são os movimentos de batidas de palmas e pés, que fazem com que caia na arena a caixa com os refrigerantes. O antigo privilégio do imperador é agora dividido pelos novos gladiadores com todos os espectadores, sugerindo a união sincronizada de todo o povo americano nas eleições para presidente dos Estados Unidos: o povo, utilizando seu direito ao voto, derrubará esta forma de atuação equivocada do atual governo americano e, é claro, do próprio presidente George W. Bush. Esse acontecimento é simbolizado pela queda do imperador no meio da arena - o fim de uma política que gera um sentimento antiamericanista já espalhado por todo o mundo - levando todo o povo ao delírio.
Finalmente é interessante registrar que tanto os democratas (neoliberalistas) como os republicanos (neorealistas) acreditam e atuam no sentido da sedimentação da hegemonia dos Estados Unidos no mundo. O ponto sobre o qual divergem é de que maneira este tipo de atuação da política externa deve ocorrer, já que a forma de atuar em suas relações internacionais é um dos formadores de opinião do eleitorado americano. Daí a importância de tal arena política no momento, inclusive verificando-se vultosos investimentos financeiros na busca de votos. Em última análise, o argumento proposto pelos democratas (neoliberais) na propaganda é que os atores que buscaram obter e conquistar o poder através da força bruta (hard power) no decorrer da história da humanidade um dia encontrou a queda e extinção. Desta forma, os democratas e seus parceiros buscam, através de uma milionária campanha publicitária, vender a idéia da perpetuação da hegemonia americana no mundo o maior tempo, mas da forma mais inteligente possível - e não simplesmente vender refrigerantes.
ROGÉRIO BARRIOS
ESTUDANTE DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
FACULDADE RIO BRANCO – FUNDAÇÃO ROTARIANOS DE SÃO PAULO
5/4/04