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Gazelas Vadias
Histórias da gazela-yeti - Pastoreando


 >> Estou parado, descansando sobre as minhas pernas dobradas, o olhar perdido no ondular dos pequenos montes que se perdem no vapor cinzento de uma tempestade que se aproxima.

A paisagem estende-se como um intrincado puzzle de linhas rectas e curvas, tons de castanho interrompidos pelos sorrisos verdes de alguns campos cultivados. O vale mais próximo do caminho parece funcionar como anfiteatro natural, deixando-me distinguir, com incrível nitidez, os sons das pequenas aldeias a meus pés. Vozes que falam, vozes que chamam, ruídos de animais, um martelar de aço, uma roda que chia. Uma sinfonia de gente que trabalha.  >>

>> Mais próxima e vinda de outra direcção, oiço outra melodia, nem alegre nem triste, tocada pelo sopro puro de uma flauta. Rodo a cabeça para descobrir um miúdo camuflado entre as plantas altas que ladeiam a terra do caminho. Ao seu lado surgem mais duas pequenas cabeças que me espreitam. Duas miúdas ainda mais novas que o pequeno pastor. Apercebo-me também do movimento entre as giestas de algumas cabras que pastam tranquilamente a alguns metros de mim. Ficamos por longos momentos sem desviar os olhares, embalados pela lenta e curiosa música que o pequeno toca alternadamente com a flauta e com os lábios num assobio tão perfeito como o som do instrumento.  >>



 >> Uma das cabras salta para o caminho. A música é substituída por uma voz mais grave do pequeno pastor que dá uma ordem qualquer ao animal desobediente. Os miúdos levantam-se por sua vez e seguem o caminho do animal extraviado. Elas estão vestidas nos tons de vermelho berrante que as mulheres desta região gostam de usar, o rapaz tem calças e camisola cor azul desmaiada. A cabra volta para junto das outras, receando, talvez, uma reacção mais concreta do rapaz. As duas miúdas ficam paradas a olhar para mim.  >> >> Momentos depois a mais pequena vence a pouca distância que nos separa e estende-me uma flor sorrindo. Eu sorrio também, recebo a oferta e agradeço com um "danibad" desajeitado. Ela vira-me as costas e corre saltitando para junto dos outros e regressam para o seu poleiro no meio das giestas e das cabras. Seja o que for que levou a criança a ter este gesto deixa-me desconfortável, porque eu não tive qualquer impulso de oferecer nada a estes miúdos, mas apenas observá-los como se fizessem parte de uma pintura em movimento.  >>



 >> Ergo-me e sigo lentamente o caminho de terra que me levará a Nagarkot. Não tinha avançado muito quando ouvi novamente a melodia do pequeno pastor.  >> >> Uma melodia nem alegre nem triste que ainda hoje consigo ouvir nitidamente cada vez que olho para a flor que a miúda me ofereceu.


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