É mais do que uma dança. É um sentimento, um abraço, uma conversa, um vício, uma paixão. Quem gosta não perde uma milonga, um espaço onde só se dança tango argentino. Esta semana abriu mais uma no Porto.
Quatro pés que deslizam como se acariciassem o chão, dois corpos que se fundem quase sem se tocar, num abraço sentido e improvisado, numa conversa silenciosa e cúmplice. É o homem quem conduz o baile, mas o objectivo é deixar que a mulher exiba a sua sensualidade. Elas fecham os olhos para sentir a música. Eles, que têm de os manter abertos para marcar os movimentos, saboreiam o momento sorrindo. Multiplique-se isto por vários pares e o resultado é uma milonga. Esta semana, no Porto abriu mais uma, para matar o vício que é dançar tango argentino: às sextas-feiras, a partir das 22h, o bar do Café das Artes, no Teatro de Campo Alegre, transforma-se na milonga “Cravo e Canela”.
Joana Castro, promotora da iniciativa, abre a pista perante uma plateia algo tímida. É impossível desviar os olhos do vestido preto e vermelho, do movimento das ancas, dos pés enfiados nuns sapatos de salto que flutuam ao som da música, dos olhos fechados através dos quais parece ver-se um sorriso. O tango argentino é assim, mais do que uma dança. É um sentimento, um desenho no chão, um abraço, uma caminhada, uma carícia, uma conversa íntima. Por vezes pode transformar-se num segredo a dois.
Joana já tinha tido uma milonga entre Abril e Dezembro de 2005. Quando acabou, os amigos e os tangueiros (assim se designam todos os que dançam tango) não a largaram. A oportunidade de reabrir a Cravo e Canela foi-lhe ter às mãos e ela agarrou-a. Porque há cinco anos, quando foi a uma aula de tango argentino, apaixonou-se.
José Salazar Ribeiro, de 54 anos, e a filha Susana, de 28, são o segundo par a entrar na pista. As músicas vão mudando e os passos continuam no sítio e no momento certo, como se se tratassem de coreografias ensaiadas. Mas é tudo improviso. “É o sentimento da música. O tango é um sentimento que se dança”, sublinha Salazar Ribeiro, director de empresas de logística internacional. Quando a pista começa a encher, inicia-se a troca de pares e fica tudo na mesma. Parece que aqueles casais, que nem sequer se conhecem, dançam juntos desde sempre.
Fulminados pelo tango
O tango é, também, um vício: “É um bichinho que entra na corrente sanguínea e não sai mais”, assegura Salazar Ribeiro, que já foi de propósito a Buenos Aires para dançar tango e já esteve em milongas de Miami e Budapeste. “Se faço uma viagem de negócios vou à Internet procurar milongas. À noite, em vez de ficar no hotel, vou dançar”.
Também os professores Alexandra Baldaque e Fernando Jorge foram “fulminados” pelo tango. Em 2000 tiveram um convite para participar num concurso em Espanha. Até então estavam mais ligados às danças de salão. Treinaram, participaram e venceram. Nunca mais deixaram a dança. “O tango é fulminante para quem é apanhado por ele”, garante Fernando Jorge.
Alexandra Mendes, 38 anos, economista, tem aulas de tango argentino há oito meses e já não se livra do “bichinho”. “Quando ficamos contaminados, gostamos de tudo o que lhe esteja associado… Para se dançar é preciso ter uma atitude tangueira, é preciso ter o sentimento do tango. E acho que os portugueses adquirem isso com facilidade porque o tango é muito parecido com o fado”, observa.
Sensualidade levada ao extremo
Joana Castro a promotora da Cravo e Canela, nem sequer é dançarina profissional. Está a terminar a licenciatura em Relações Internacionais e pretende encontrar trabalho na sua área. Mas adora o tango. “É uma dança extremamente sensual, em que podemos expressar tudo o que sentimos”, justifica.
A sensualidade do tango é, de facto, das primeiras coisas que se destaca para quem está de fora, a assistir. E para os tangueiros também. Simon Lanza Olmé, arquitecto italiano a residir em Portugal, vai directo ao assunto: “Se quisermos comparar o tango com uma relação sexual, corresponde aos preliminares. Não é nada explícito… portanto é mais erótico ainda”. Oscar, professor argentino da escola Esquina de Tango, não gosta da comparação. “É uma dança muito sensual, em que o bom dançarino tem de mostrar a sua masculinidade e a sensualidade da mulher, mas não tem nada a ver com sexo. Porque não há toque a não ser o abraço. Caminhar juntos – isso é que é dançar tango”, esclarece.
Graça Pinto, directora da Escola Sabor Latino, lembra que alguém disse que “o tango é uma declaração de amor com os pés”. Ela vai mais longe: “Mesmo de olhos fechados a comunicação existe. Sente-se no bater do coração, nos pés, na respiração, no movimento que o homem convida a mulher a fazer. O tango é uma conversa a dois, com um só corpo. É uma conversa silenciosa, de emoção. É um diálogo de olhares, de toques, é uma conversa íntima”. Por vezes, transforma-se num “segredo a dois”.
Outras milongas:
Corazon de Tango - todos os sábados, das 23h às 2h - Escola Esquina de Tango - Praceta Cooperativa Aldeia Nova, 191, Senhora da Hora
Milonga das Antas – todos os domingos, das 17h às 20h – R. Professor Bento de Jesus Caraça, 314, Porto. Esta é uma milonga mais informal, onde há tempo para parar, ensaiar e ensinar aos outros os passos do tango.
Milonga no Restaurante El Sonero – primeiro domingo de cada mês, das 17h às 20h
Milonga no Café Lusitano – primeira quarta-feira de cada mês, das 22h à 1h – Rua de Ceuta, Porto
Gotan Cosmo Dance – terceira sexta-feira de cada mês, das 23h às 2h – Teatro Aveirense, R. Belém do Pará, Aveiro