A
POÉTICA DO ESPAÇO
Introdução
Um filósofo que formou todo o seu pensamento atendo-se aos temas fundamentais da filosofia das ciências, que seguiu o mais exatamente possível a linha do racionalismo ativo, a linha do racionalismo crescente da ciência contemporânea, deve esquecer o seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas propostos pela imaginação poética. Aqui o passado cultural não conta; o longo trabalho de relacionar e construir pensamentos, trabalho de semanas e meses, é ineficaz. É necessário estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se há uma filosofia da poesia, ela deve nascer e renascer por ocasião de um verso dominante, na adesão total a uma imagem isolada, muito precisamente no próprio êxtase da novidade da imagem. A imagem poética é um súbito realce do psiquismo, realce mal estudado em causalidades psicológicas subalternas. Além disso, nada há de geral e de coordenado que possa servir ,de base para uma filosofia da poesia. A noção de princípio, a noção de "base" seria desastrosa neste caso. Bloquearia a atualidade essencial, a essencial novidade psíquica do poema. A reflexão filosófica que se exerce sobre um pensamento científico longamente trabalhado deve fazer com que a nova idéia se integre em um corpo de idéias já aceitas, ainda que a nova idéia obrigue esse corpo de idéias a um remanejamento profundo, como sucede em todas as revoluções da ciência contemporânea. A f1losofia da poesia, ao contrário, deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar sua preparação e seu advento.
Quando, a seguir, tivermos de mencionar a relação entre uma imagem poética nova e um arquétipo adormecido no fundo do inconsciente, será necessário explicar que essa relação não é propriamente causal. A imagem poética não está sujeita a um impulso. Não é o eco de um passado. É antes o Inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundezas esses ecos vão repercutir e morrer. Em sua novidade, em sua atividade, a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio: Procede de uma ontologia direta. E com essa ontologia que desejamos trabalhar.
Portanto, é quase sempre no inverso da causalidade, na repercussão, tão agudamente estudada por Minkowski I, que acreditamos encontrar as verdadeiras medidas do ser de uma imagem poética. Nessa repercussão, a imagem poética terá uma sonoridade de ser. O poeta fala no limiar do ser. Assim sendo, para determinarmos o ser de uma imagem teremos de sentir sua repercussão, no estilo da fenomenologia de Minkowski.
Dizer
que a imagem poética foge à causalidade é, sem dúvida, uma declaração grave.
Mas as causas alegadas pelo psicólogo e pelo psicanalista jamais podem explicar
bem o caráter realmente inesperado da imagem nova, nem tampouco a adesão que
ela suscita numa alma alheia ao processo de sua criação. O poeta não me confere
o passado de sua imagem, e no entanto ela se enraíza imediatamente
II
Talvez nos perguntem por que, modificando o nosso ponto de vista anterior, buscamos agora uma determinação fenomenológica das imagens. Em nossos trabalhos anteriores sobre a imaginação, tínhamos considerado preferível situar-nos, tão objetivamente quanto possível, diante das imagens dos quatro elementos da matéria, dos quatro princípios das cosmogonias intuitivas. Fiel aos nossos hábitos de filósofo das ciências, tínhamos tentado considerar as imagens fora de qualquer tentativa de i!1terpretação pessoal. Pouco a pouco, esse método, que tem a seu' favor a prudência científica, pareceu-me insuficiente para fundar uma metafísica da imaginação. Por si só, a atitude "prudente" não será uma recusa em obedecer à dinâmica imediata da imagem? Tínhamos, aliás, Verificado como é difícil libertar-nos dessa "prudência". Dizer que abandonamos hábitos intelectuais é uma declaração fácil, mas como cumpri-Ia? Há aí, para um racionalista, um pequeno drama diário, uma espécie de desdobramento do pensamento que, por mais parcial que seja o seu objeto - uma simples imagem -, não deixa de ter uma grande repercussão psíquica. Mas esse pequeno drama da cultura, esse drama que se situa no nível simples de uma imagem nova, encerra todo o paradoxo de uma fenomenologia da imaginação: como uma imagem por vezes muito singular pode revelar-se como uma concentração de todo o psiquismo? Como esse acontecimento singular e efêmero que é o aparecimento de uma imagem poética singular pode reagir - sem nenhuma preparação - em outras almas, em outros corações, apesar de todas as barreiras do senso comum, de todos os pensamentos sensatos, felizes em sua imobilidade?
Percebemos
então que essa transubjetividade da imagem não podia ser compreendida, em sua
essência, apenas pelos hábitos das referências objetivas. Só a fenomenologia -
isto é, a consideração do início da imagem numa consciência individual
- pode ajudar-nos a reconstituir a subjetiividade das imagens e a medir a
amplitude, a força, o sentido da transubjetividade da imagem. Todas essas
subjetividades, transubjetivadas, não podem ser determinadas definitivamente.
A imagem poética é, com efeito, essencialmente variacional. Não é, como
o conceito, constitutiva. Sem dúvida, isolar a ação mutante da
imaginação poética nos detalhes das variações das imagens é tarefa árdua,
conquanto monótona. Para um leitor de poemas, o apelo a uma doutrina que traz o
nome, tantas vezes mal-compreendido, de fenomenologia, corre o risco de não ser
ouvido. No entanto, fora de qualquer doutrina, esse apelo é claro: pede-se ao
leitor de poemas que não encare a imagem como um objeto, muito menos como um
substituto do objeto, mas que capte sua realidade específica. Para isso é
necessário associar sistematicamente o ato da consciência criadora ao produto
mais fugaz da consciência: a imagem poética. Ao nível da imagem poética, a
dualidade do sujeito e do objeto é irisada, reverberante, incessantemente ativa
em suas inversões. Nesse âmbito da criação da imagem poética pelo poeta, a
fenomenologia é, se assim podemos dizer, uma fenomenologia microscópica. Por
isso essa fenomenologia tem probabilidades de ser estritamente elementar. Nessa
união, pela imagem, de uma subjetividade pura mas efêmera com uma realidade
que não chega necessariamente à sua completa constituição, o fenomenólogo
encontra um campo de inumeráveis experiências; beneficia-se de observações que
podem ser precisas porque são simples, porque "não têm
inconvenientes", como é o caso dos pensamentos científicos, que são sempre
pensamentos interligados. Em _sua simplicidade, a imagem não tem necessidade de
um saber. Ela é a dádiva de uma consciência ingênua. Em sua expressão, é uma
linguagem criança. Para bem especificar o que pode ser uma fenomenologia da
imagem, para especificar que a imagem vem antes do pensamento, seria
necessário dizer que a poesia é, mais que uma fenomenologia do espírito, uma
fenomenologia da alma. Deveríamos então acumular documentos sobre a consciência
sonhadora.
A filosofia contemporânea de língua francesa - e a fortiori a psicologia - quase não utiliza a dualidade das palavras alma e espírito? Por isso, ambas são um tanto surdas com relação a temas... ~ao numerosos na filosofia alemã, em que a distinção entre o espirito e a alma (der Geist e die Seele) é tão nítida. Mas já que uma filosofia da poesia deve receber todas as forças do yocabulário, ela nada deve simplificar, nada enrijecer. Para tal filosofia, espírito e alma não são sinônimos. Tomando-os como sinônimos, Incapacitamo-nos para traduzir textos preciosos, deformamos documentos fornecidos pela arqueologia das imagens. A pa lavra alma é uma palavra imortal. Em certos poemas ela é indelével. Uma palavra do alento[2] . Por si só, a importância vocal de uma palavra deve prender a atenção de um fenomenólogo da poesia. A palavra alma pode ser dita poeticamente com tal convicção que envolve todo um poema. Portanto, o registro poético que corresponde à alma deve ficar aberto às nossas indagações fenomenológicas.
Até no campo da pintura, onde a realização parece envolver decisões que decorrem do espírito, que reconhecem obrigações do mundo,da percepção, a fenomenologia da alma pode revelar o primeiro compromisso de uma obra. René Huyghe, no belo prefácio que escreveu para a exposição das obras de Georges Rouault em Albi, observa: "Se fosse preciso procurar por onde Rouault faz explodir as definições..., talvez tivéssemos de evocar uma palavra um pouco em desuso e que se chama alma." E René Huyghe mostra que para compreender, para sentir e amar a obra de Rouault, "devemos lançar-nos no centro, no âmago, no ponto central em que tudo se origina e adquire sentido: e eis que reencontramos a palavra esquecida ou rejeitada, a alma". E a alma - como prova a pintura de Rouault - possuii uma luz interior, aquela que uma "visão interior" conhece e expressa no mundo das cores deslumbrantes, no mundo de luz do sol. Assim, uma verdadeira inversão das perspectivas psicológicas é exigida de quem desejar compreender, amando, a pintura de Rouault. Será necessário participar de uma luz interior que não é o reflexo de uma luz do mundo exterior; sem dúvida as expressões visão interior e luz interior são muitas vezes reivindicadas com excessiva facilidade. Mas quem fala aqui é um pintor, um produtor de luzes. Ele sabe de que foco parte a iluminação. Vive o sentido íntimo da paixão do vermelho. No princípio de tal pintura há uma alma que luta. O fauvismo está no interior. Portanto, tal pintura é um fenômeno da alma. A obra deve redimir uma alma apaixonada.
As
páginas-de René Huyghe apóiam-nos nessa idéia de que há um sentido em falarmos
de uma fenomenologia da alma. Em diversas circunstâncias, deve-se reconhecer
que a poesia é um compromisso da alma. A consciência associada à alma é mais
repousada, menos intencionalizada que a consciência associada aos fenômenos do
espírito. Nos poemas manifestam-se forças que não passam pelos circuitos de um
saber. as dialéticas da inspiração e do talento tornam-se claras quando
consideramos os seus dois pólos: a alma e o espírito. em nossa opinião, alma e
espírito são indispensáveis para estudarmos os fenômenos da imagem poética em
suas diversas nuanças, para que possamos seguir sobretudo a evolução das
imagens poéticas desde o devaneio até a sua execução. Em especial, é como
fenomenologia da alma que estudaremos, numa outra obra, o devaneio poético. Por
si só, o devaneio é uma instância psíquica que muitas vezes se confunde com o
sonho. Mas quando se trata de um devaneio poético, de um devaneio que frui não
somente de si próprio, mas que prepara gozos poéticos para outras almas,
sabemos que não estamos mais no caminho fácil das sonolências. O espírito pode
relaxar-se; mas no devaneio poético a alma está de vigI1ia, sem tensão,
repousada e ativa. Para fazer um poema completo, bem estruturado, será preciso
que o espírito o prefigure
E é assim que um poeta coloca com toda a clareza o problema fenomenológico da alma. Pierre-Jean Jouve escreve: "A poesia é uma alma inaugurando uma forma."[3] A alma inaugura. Ela é aqui potência inicial. É dignidade humana. Mesmo que a "forma" fosse conhecida, percebida, talhada em "lugares-comuns", antes da luz poética interior ela seria um simples objeto para o espírito. Mas a alma vem inaugurar a forma, habitá-la, comprazer-se nela. Portanto, a frase de Pierre-Jean Jouve pode ser tomada como uma nítida máxima de uma fenomenologia da alma.
III
Já que pretende ir tão longe, descer tão fundo, uma pesquisa fenomenológica sobre a poesia deve ultrapassar, por imposição de métodos, as ressonâncias sentimentais com que, menos ou mais ricamente - quer essa riqueza esteja em nós, quer no poema -, recebemos a obra de arte. É nesse pontoo que deve ser sensibilizada a alotropia fenomenológica das ressonâncias e da repercussão. As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência. Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso. A repercussão opera uma inversão do ser. Parece que o ser do poeta é o nosso ser. A multiplicidade das ressonâncias sai então da unidade de ser da repercussão. Dito de maneira mais simples, trata-se aqui de uma impressão bastante conhecida de todo leitor apaixonado por poemas: o poema nos toma por inteiro. Essa invasão do ser pela poesia tem uma marca fenomenológica que não engana. A exuberância e a profundidade de um poema são sempre fenômenos do par ressonância-repercussão. E como se, com sua exuberância, o poema reanimasse profundezas em nosso ser. Para percebermos a ação psicológica de um poema, teremos pois de seguir dois eixos de análise fenomenológica: um que leva às exuberâncias do espírito, outro que conduz às profundezas da alma.
Naturalmente - será preciso dizê-lo? - a repercussão, aapesar de seu nome derivado, tem um caráter fenomenológico simples nos âmbitos da imaginação poética em que queremos estudá-la. Trata-se, com efeito, de determinar, pela repercussão de uma única imagem poética, um verdadeiro despertar da criação poética na alma do leitor. Por sua novidade, uma imagem poética põe em ação toda a atividade linguística. A imagem poética transporta-nos à origem do ser falante.
Por essa repercussão, indo imediatamente além de toda psicologia ou psicanálise sentimos um poder poético erguer-se ingenuamente em nós. t.; depois da repercussão que podemos experimentar ressonâncias, repercussões sentimentais, recordações do nosso passado. Mas a imagem atingiu as profundezas antes de emocionar a superfície. E isso é verdade numa simples experiência de leitura. Essa imagem que a leitura do poema nos oferece torna-se realmente nossa. Enraíza-se em nós mesmos. Nós a recebemos, mas sentimos a impressão de que teríamos podido criá-la, de que deveríamos tê-la criado. A imagem torna-se um ser novo da nossa linguagem, expressa-nos tornando-nos aquilo que ela expressa - noutras p~lavras, ela é ao mesmo tempo um devir de expressão e um devir do nosso ser. Aqui, a expressão cria o ser.
Esta última observação define o nível da ontologia com a qual trabalhamos. Como tese geral, pensamos que tudo o que é especificamente humano no homem é lagos. Não chegamos a meditar numa região que estaria antes da linguagem. Ainda que essa tese pareça refutar uma profundidade ontológica, devemos admiti-la, pelo menos, como hipótese de trabalho bem apropriado ao tipo de pesquisas que estamos realizando sobre a imaginação poética.
Assim, a imagem poética, acontecimento do lagos, é
para nós pessoalmente inovadora. Já não a tomamos como um "objeto".
Sentimos que a atitude "objetiva" do crítico abafa a "repercussão",
rejeita, por principio, essa profundidade onde 'deve ter seu ponto de partida o
fenômeno poético primitivo. Quanto ao psicólogo, está ensurdecido pelas
ressonâncias e deseja incessantemente descrever os seus sentimentos. Já
o psicanalista perde a repercussão, ocupado que está em desembaraçar o
emaranhado de suas Interpretações. Por uma fatalidade de método, o psicanalista
intelectualiza a imagem. Ele a compreende mais profundamente que o psicólogo.
Mas, precisamente, "compreende-a". Para o psicanalista, a imagem
poética tem sempre um contexto. Interpretando a imagem, ele a traduz para uma
outra linguagem 'que não o logos poético. Nunca, então, se poderia dizer
com mais justiça: "traduttore, traditore".
Ao recebermos uma imagem poética nova, sentimos seu valor de intersubjetividade. Sabemos que a repetiremos para comunicar o nosso entusiasmo. Considerada na transmissão de uma alma para outra, uma imagem poética foge às pesquisas de causalidade. As doutrinas timidamente causais, como a psicologia, ou fortemente causais, como a psicanálise, não podem determinar a ontologia do poético. Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura, no modo literário, nem a percepção, no modo psicológico.
Portanto, chegamos sempre à mesma conclusão: a novidade essencial da imagem poética coloca o problema da criatividade do ser falante. Por essa criatividade, a consciência imaginante se revela, muito simplesmente, mas muito puramente, como uma origem. Isolar esse valor de origem de diversas imagens poéticas deve ser o objetivo, num estudo da imaginação, de uma fenomelogia da imaginação poética.
IV
Limitando dessa maneira nossa pesquisa à imagem poética em sua origem a partir da imaginação pura, deixamos de lado o problema da composição do poema como agrupamento de imagens múltiplas. Nessa composição do poema intervêm elementos psicologicamente complexos que associam a cultura menos ou mais distante e o ideal literário de um tempo, componentes que uma fenomenologia completa deveria sem dúvida examinar. Mas um programa tão vasto poderia prejudicar a pureza das observações fenomenológicas, decididamente elementares, que queremos apresentar. O verdadeiro fenomenólogo deve ser sistematicamente modesto. Daí parecer-nos que a simples referência a forças fenomenológicas de leitura, que fazem do leitor um poeta ao nível da imagem lida, já está tocada por um matiz de orgulho. Seria falta de modéstia de nossa parte assumir pessoalmente uma potência de leitura que encontrasse e revivesse a potência de criação
organizada e completa referente ao poema como um todo. Podemos esperar menos ainda atingir uma fenomenologia sintética que dominasse, como alguns psicanalistas acreditam conseguir, toda uma obra. Portanto, é ao nível das imagens isoladas que podemos "repercutir" fenomenologicamente.
Mas
precisamente essa pontinha de orgulho, esse orgulho menor, esse orgulho
de simples leitura, esse orgulho que se alimenta na solidão da leitura, traz
uma marca fenomenológica inegável se conservarmos a sua simplicidade. O
fenomenólogo, neste caso, nada tem em comum com o crítico literário, que, como
observa mos freqüentemente, julga uma obra que não poderia fazer e mesmo, como
testemunham as condenações fáceis, uma obra que não desejaria fazer. O crítico
literário é um leitor necessariamente severo. Tomando pelo avesso um complexo
que o uso excessivo depreciou a ponto de entrar no vocabulário dos homens de
Estado, poderíamos dizer que o crítico literário, o professor de retórica,
que sempre sabem, que sempre julgam, desenvolvem de bom grado um complexo de
superioridade. Quando a nós, acostumados à leitura feliz, só lemos, só relemos
aquilo que nos agrada, com um pequeno orgulho de leitura mesclado de muito entusiasmo.
Enquanto o orgulho evolui habitualmente para um sentimento maciço que pesa
sobre todo o psiquismo, a pontinha de orgulho nascida da adesão a uma imagem
feliz permanece discreta, secreta. Está em nós, simples leitores, para nós, e
só para nós. É um orgulho crivado. Ninguém sabe que na leitura revivemos
nossas tentações de ser poeta. Todo leitor um pouco apaixonado pela leitura
alimenta e recalca, pela leitura, um desejo de ser escritor. Quando a página
lida é demasiadamente bela, a modéstia recalca esse desejo. Mas ele renasce.
Seja como for, todo leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas
lhe dizem respeito. Jean-Pierre Richard, em seu belo livro Poésie et
proJondeur, escreve, entre outros, dois estudos, um sobre Baudelaire,
outro sobre Verlaine. Baudelaire é realçado precisamente porque, diz ele, sua
obra "nos diz respeito". De um estudo para outro há uma grande
diferença de tom. Ao contrário de Baudelaire, Verlaine não recebe a adesão
fenomenológica total. E é sempre assim; em certas leituras que vão ao fundo da
simpatia, na própria expressão somos "parte beneficiada".
Assim, ao lado das considerações sobre a vida das palavras tal como ela aparece na evolução de uma língua através dos séculos, a imagem poética nos apresenta, no estilo da matemática, uma espécie de diferencial dessa evolução. Um grande verso pode ter grande influência na alma de uma língua. Ele desperta imagens apagadas. E ao mesmo tempo sanciona a imprevisibilidade da palavra. Tornar imprevisível a palavra não será uma aprendizagem de liberdade? Que encanto a imaginação poética encontra em zombar das censuras! Antigamente, as Artes Poéticas codificavam as licenças. Mas a poesia contemporânea colocou a liberdade no próprio corpo da linguagem. A poesia surge então como um fenômeno de liberdade.
V
Assim, mesmo no nível de uma imagem poética isolada, no único devir de expressão que é o verso, a repercussão fenomenológica pode manifestar-se; e, em sua extrema simplicidade, dá-nos o domínio da nossa língua. Estamos aqui diante de um fenômeno minúsculo da consciência cintilante. A imagem poética é o acontecimento psíquico de menor responsabilidade. Buscar-lhe uma Justificação na ordem da realidade sensível, assim como determinar seu lugar e seu papel na composição do poema, são duas tarefas que só em segundo plano devemos ter em vista.
Na primeira indagação fenomenológica sobre a imaginação poética, a imagem isolada, a frase que a desenvolve, o verso ou por vezes a estância em que a imagem poética irradia formam espaços de linguagem que uma topoanálise deveria estudar. É assim que J.-B. Pontalis apresenta Michel Leiris como um "prospector solitário nas galerias de palavras[6]" . Pontalis designa muito bem esse espaço fibrado percorrido pelo simples impulso das palavras vividas. O atomismo da linguagem conceptual reivindica razões de fixação, forças de centralização. Mas sempre o verso tem um movimento, a imagem se escoa na linha do verso, arrasta a imaginação como se esta criasse uma fibra nervosa. Pontalis acrescenta esta fórmula (p. 932) que merece ser guardada como um indicador seguro para uma fenomenologia da expressão: "O sujeito falante é todo o sujeito." E já não nos parece um paradoxo dizer que o sujeito falante está por inteiro numa imagem poética, pois se ele não se entregar a ela sem reservas não entrará no espaço poético da imagem. Torna-se claro, então, que a imagem poética proporciona uma das experiências mais simples de linguagem vivida. E se a considerarmos, como propomos, enquanto origem da consciência, ela provém com toda a certeza de uma fenomenologia.
Do mesmo modo, se fosse preciso dar um "curso" de fenomenologia, seria sem dúvida com o fenômeno poético que encontraríamos as lições mais claras, as lições elementares. Num livro recente, J. H. Van den Berg escreve: "Os poetas e os pintores são fenomenólogos natos.[7]" E, observando que as coisas nos "falam" e que por isso temos, se dermos pleno valor a essa linguagem, um contato com as coisas, Van den Berg acrescenta: "Vive mos continuamente uma solução dos problemas que não têm esperança de solução para a reflexão." Por essa página do sábio fenomenologo holandês, o filósofo pode ser encorajado nos seus estudos centrados no ser falante.
VI
Talvez a situação fenomenológica venha a ser definida com relação às indagações psicanalíticas se pudermos destacar, a propósito das imagens poéticas, uma esfera de sublimação pura, de uma sublimação que nada sublima, que é aliviada da carga das paixões, liberada do ímpeto dos desejos. Dando assim à imagem poetlca avançada um absoluto de sublimação, jogamos uma grande cartada numa simples nuança. Parece-nos, porém, que a poesia dá provas abundantes dessa sublimação absoluta. Nós as encontraremos com freqüência no decorrer desta obra. Quando tais provas lhes são apresentadas, o psicólogo e o psicanalista
já não vêem na imagem poética mais que um simples jogo, jogo efêmero, jogo de vaidade total. Precisamente, as imagens são então, para eles, destituídas de significação - destituídas de significação passional, de significação psicológica, de significação psicanalítica. Não lhes vem à mente que tais imagens têm exatamente uma significação poética. Mas a poesia está aí, com S(..us
milhares de imagens imprevisíveis, imagens pelas quais a imaginação criadora se instala nos seus próprios domínios.
Para um fenomenólogo, procurar os antecedentes de uma imagem, quando se está na própria existência da imagem, é sinal inveterado de psicologismo. Tomemos, ao contrário, a imagem poética no seu ser. A consciência,poética é tão totalmente absorvida pela imagem que aparece na linguagem, acima da linguagem costumeira, fala com a imagem poética uma linguagem tão nova que não se pode mais considerar com proveito correlações entre o passado e o presente. Mais adiante, daremos tantos exemplos dessas rupturas de significação, de sensação, de sentimentalidade, que o leitor terá de concordar conosco que a imagem poética está sob o signo de um novo ser.
Esse novo ser é o homem feliz.
Feliz na palavra, portanto infeliz na realidade, objetará prontamente o psicanalista. Para ele, a sublimação não passa de uma compensação vertical, de uma fuga para o alto, exatamente como a compensação. É uma fuga lateral. E o psicanalista não tarda a abandonar o estudo ontológico da imagem; ele escava a história de um homem; vê, mostra os sofrimentos secretos do poeta. Explica a' flor pelo adubo.
O fenomenólogo não vai tão longe. Para ele, a imagem está aí, a palavra fala, a palavra do poeta lhe fala. Não há necessidade de ter vivido os sofrimentos do poeta para compreender a felicidade de palavras oferecida pelo poeta - felicidade de palavra que domina o próprio drama. A sublimação, na poesia, sobrepõe-se à psicologia da alma terrenamente infeliz. É um fato: a poesia tem uma felicidade que lhe é própria, independentemente do drama que ela seja levada a ilustrar.
A sublimação pura, tal como a consideramos, coloca um drama de método, pois, naturalmente, o fenomenólogo não poderia desconhecer a realidade psicológica profunda dos processos de sublimação tão longamente estudados pela psicanálise. Mas trata-se de passar, fenomenologicamente, para imagens não-vividas, para imagens que a vida não prepara e que o poeta cria. Trata-se de viver o não-vivido e de abrir-se para uma abertura de linguagem. Encontraremos experiências desse tipo em raros poemas. Como em certos poemas de Pierre-Jean Jouve. Não há obra mais repleta de meditações psicanalíticas que os livros de Pierre-Jean Jouve. Mas, por momentos, sua poesia conhece tais ardores que já não se pode viver no foco inicial. Diz ele: "A poesia ultrapassa constantemente as suas origens e, padecendo mais além no êxtase ou na tristeza, permanece mais livre.[8]" 8 E, na página 112: "Quanto mais eu avançava no tempo, mais o mergulho era dominado, afastado da causa ocasional, conduzido à pura forma de linguagem." Será que Pierre-Jean Jouve aceitaria as "causas" detectadas pela psicanálise como causas "ocasionais"? Não sei. Mas, na região da "pura forma de linguagem", as causas do psicanalista não permitem predizer a imagem poética em sua novidade. São, quando muito, "ocasiões" de liberação. E é nisso que a poesia - na era poética em que vivemos - se mostra especificamente "surpreendente"; por conseguinte, suas imagens são imprevisíveis. Os críticos literários não têm uma consciência bastante nítida da dessa imprevisibilidade que, justamente, transtorna os planos da explicação psicológica habitual. Mas o poeta afirma clara mente: "A poesia, sobretudo em seu surpreendente processo atual, (não pode) corresponder senão a pensamentos atentos, apaixonados por algo desconhecido e essencialmente abertos ao devir." Logo adiante, na página 170: "Conseqüentemente, surge uma nova definição do poeta. É aquele que conhece, isto é, que transcende, e que dá nome ao que conhece." E finalmente (p. 10): "Não há poesia se não houver criação absoluta."
Tal poesia é rara[9] . Em sua quase totalidade, a poesia está mais misturada às paixões, mais psicologizada. Mas aqui a raridade, a exceção, não vem confirmar a regra, senão contradizê-Ia e instaurar um novo regime. Sem a região da sublimação absoluta... por mais restrita e elevada que seja, ainda que pareça fora do alcance dos psicólogos ou dos psicanalistas - que não têm, em definitivo, a obrigação de analisar a poesia pura -, não se pode revelar a polaridade exata da poesia.
Poderemos hesitar na determinação exata do plano de ruptura, poderemos deter-nos por muito tempo no âmbito das paixões confusionistas que perturbam a poesia. Ademais, a altura a partir da qual atingimos a sublimação pura indiscutivelmente não está no mesmo nível para todas as almas. Pelo menos, a necessidade de separar a sublimação estudada pelo psicanalista e a sublimação estudada pelo fenomenólogo da poesia é uma necessidade de método. O psicanalista pode muito bem estudar a natureza humana dos poetas, mas não está preparado, pelo fato de habitar na região passional, para estudar as imagens poéticas em sua realidade superior. C.-G. 'jung disse aliás com toda a clareza: seguindo os hábitos de julgamento da psicanálise, "o interesse desvia-se da obra de arte para se perder no caos inextricável dos antecedentes psicológicos, e o poeta torna-se um caso clínico, um exemplar que porta um número determinado da psychopathia sexualis. Assim, a psicanálise da obra de arte afastou-se do seu objeto, transportou o debate para um âmbito geralmente humano, que não é de forma alguma específico do artista e principalmente não tem importância para a sua arte"[10] .
Com o único objetivo de resumir o presente debate, seja-nos permitido um movimento polêmico, se bem que a polêmica não faça parte de nossos hábitos.
Dizia o romano ao sapateiro que erguia seu olhar alto demais:
Ne sutor
ultra crepidam.
Nas ocasiões em que se trata de sublimação pura, quando é necessário determinar o ser próprio da poesia, não deveria o fenomenólogo dizer ao psicanalista:
Ne
psuchor ultra uterum?
VII
Em
suma, quando se torna autônoma, uma arte assume um novo ponto de partida. É
interessante então considerar esse início na mente de uma fenomenologia. Por
princípio, a fenomenologia liquida um passado e encara a novidade. Mesmo numa
arte como a pintura, que oferece o testemunho de um oficio, os grandes sucessos
estão fora do oficio. Jean Lescure, estudando a obra do pintor Lapicque,
escreve justamente: "Conquanto sua obra testemunhe uma grande cultura e um
conhecimento de todas as expressões dinâmicas do espaço, ele não as aplica, nem
as transforma
Assim, o pintor contemporâneo já não considera a imagem como um simples substituto de uma realidade sensível. Das rosas pintadas por Elstir já dizia Proust que eram uma "variedade nova com a qual esse pintor, como um engenhoso horticultor, enriquecera a família das Rosas"[12] .
VIII
A psicologia clássica praticamente não estuda a imagem poética, freqüentemente confundida com a simples metáfora. Aliás, em geral a palavra imagem é um ponto de equívocos nas obras dos psicólogos: vêem-se imagens, reproduzem-se imagens, guardam-se imagens na memória. A imagem é tudo, salvo um produto direto da imaginação. Na obra de Bergson Matiere et mémoire,em que a noção de imagem tem uma grande extensão, uma única referência (p. 198) é feita à imaginação produtora. Essa produção fica sendo então uma atividade de liberdade menor, sem relação com os grandes atos livres trazidos à luz pela filosofia bergsoniana. Nessa breve passagem, o filósofo refere-se "aos jogos da fantasia". As diversas imagens são então "liberdades que o espí rito toma com a natureza". Mas essas liberdades no plural não engajam o ser; não aumentam a linguagem; não tiram a linguagem de seu papel utilitário. São realmente ''jogos''. A imaginação ~al matiza as lembranças. Nesse âmbito da memória poetizada, Bergson está muito aquém de Proust. As liberdades que o espírito toma com a natureza não designam verdadeiramente a natureza do espírito.
Propomos, ao contrário, considerar a imaginação como uma potência maior da natureza humana. Por certo, nada esclarecemos ao dizer que a imaginação é a faculdade de produzir imagens.
Mas essa tautologia tem pelo menos a vantagem de sustar as assimilações entre imagem e lembrança.
Com sua atividade viva, a imaginação desprende-nos ao mesmo tempo do passado e da realidade. Abre-se para o futuro. À junção do real, orientada pelo passado tal como mostra a psicologia clássica, é preciso acrescentar uma junção do irreal igualmente positiva, como procuramos estabelecer em obras anteriores. Uma enfermidade por parte da função do irreal entrava o psiquismo produtor. Como prever sem imaginar?
Mas, abordando mais simplesmente os problemas da imaginação poética, é impossível receber o beneficio psíquico da poesia sem a participação conjunta destas duas funções do psiquismo
humano: função do real e função do irreal. Uma verdadeira terapêutica de ritmanálise nos é oferecida pelo poema que tece o real e o irreal, que dinamiza. a linguagem pela dupla atividade da significação e da poesia. E, na poesia, o engajamento do ser imaginante é tal que ele deixa de ser simplesmente o sujeito do verbo adaptar-se. As condições reais já não são determinantes. Com a poesia a imaginação coloca-se na margem em que precisamente a função do irreal vem arrebatar ou inquietar - sempre despertar - o ser adormecido nos seus automatismos. O mais insidioso dos automatismos, o automatismo da linguagem, deixa de funcionar quando penetramos nos domínios da sublimação pura. Vista do alto da sublimação pura, a imaginação reprodutorajá não é grande coisa. Jean-Paul Richter escreveu: "A imaginação reprodutora é a prosa da imaginação produtora." 13
IX
Resumimos numa introdução filosófica, sem dúvida demasiado longa, teses gerais que gostaríamos de pôr à prova nesta obra, assim como em outras que ainda alimentamos a esperança
de escrever. No presente livro, nosso campo de exame tem a
vantagem de ser bem delimitado. Isso porque pretendemos examinar imagens bem simples, as imagens do espaço feliz. Nessa perspectiva, nossas investigações mereceriam o nome de topofilia. Visam determinar o valor humano dos espaços de posse, dos espaços defendidos contra forças adversas, dos espaços amados. Por razões não raro muito diversas e com as diferenças que as nuanças poéticas comportam, são espaços louvados. Ao seu valor de proteção, que pode ser positivo, ligam-se também valores imaginados, e que logo se tornam dominantes. O espaço percebido pela imaginação não pode ser o espaço indiferente entregue à mensuração e à reflexão do geômetra. É um espaço vivido. E vivido não em sua positividade, mas com todas as parcialidades da imaginação. Em especial, quase sempre ele atrai. Concentra o ser no interior dos limites que protegem. No reino das imagens, o jogo entre o exterior e a intimidade não é um jogo equilibrado. Por outro lado, os espaços de hostilidade mal são mencionados nas páginas que seguem. Esses espaços do ódio e do combate
só podem ser estudados com referência a matérias ardentes, a imagens apocalípticas. Neste livro estamos nos colocando diante das imagens que atraem. E quanto às imagens, logo fica evidente que atrair e repelir não resultam em experiências contrárias. Os termos são contrários. Ao estudarmos a eletricidade ou o magnetismo, podemos falar simetricamente de repulsão e atração. Basta uma mudança de sinais algébricos. Mas as imagens não aceitam idéias tranqüilas, nem sobretudo idéias definitivas. Incessantemente a imaginação imagina e se enriquece com novas imagens. É essa riqueza do ser imaginado que gostaríamos de explorar. Aqui está um rápido esboço dos capítulos desta obra.
De início, como deve ser feito numa pesquisa sobre as imagens da intimidade, abordamos o problema da poética da casa. As perguntas são muitas: como é que aposentos secretos, aposentos desaparecidos, transformam-se em moradas para um passado inolvidável? Onde e como o repouso encontra situações privilegiadas? Como os refúgios efêmeros e os abrigos ocasionais recebem por vezes, de nossos devaneios íntimos, valores que não têm a menor base objetiva? Com a imagem da casa. terllOs, ul!l verdadeiro princípio de integração psicológica. Psicologia descritiva, psicologia das profundidades, psicanálise e fenomenologia poderiam, com a casa, constituir esse corpo de doutrinas que designamos pelo nome de topoanálise. Analisada nos horizontes teóricos mais diversos, parece que a imagem da casa se torna a topografia do nosso ser íntimo. Para dar uma idéia da complexidade da tarefa do psicólogo que estuda a alma humana nas suas profundezas, C.-G.Jung pede ao seu leitor para considerar esta comparação: "Temos de descobrir um edificio e explicá-lo: seu andar superior foi construído no século XIX, o térreo data do século XVI e o exame mais minucioso da construção mostra que ela foi feita sobre uma torre do século 11. No porão, descobrimos fundações romanas; e debaixo do porão há uma caverna em cujo solo encontramos, na camada superior, ferramentas de sílex e, nas camadas mais profundas, restos de fauna glacial.
Tal seria, aproximadamente, a estrutura da nossa alma." 14 Naturalmente, Jung sabe da insuficiência dessa comparação (cf. p. 87). Mas, pelo próprio fato de ela se desenvolver tão facilmente, há um sentido em tomar a casa como um instrumento de análise para a alma humana. Auxiliados por esse "instrumento", não reencontraremos em nós mesmos, sonhando em nossa simples casa, os reconfortos da caverna? E a torre da nossa alma foi arrasada para sempre? Somos nós por todo o sempre, segundo o hemistíquio famoso, seres "da torre abolida"? Não somente nossas lembranças como também nossos esquecimentos estão "alojados". Nosso inconsciente está "alojado". Nossa alma é uma morada. E, lembrando-nos das "casas", dos "aposentos", aprendemos a "morar" em nós mesmos. Já podemos ver que as imagens da casa caminham nos dois sentidos: estão em nós tanto quanto estamos nelas. Esse jogo é tão múltiplo que nos foram necessários dois longos capítulos para esboçar os valores das imagens da casa.
Depois desses dois capítulos sobre a casa dos homens, estudamos uma serie de Imagens que podemos considerar como a casa das coisas: as gavetas, os cofres e os armários. Quanta psicologia sob sua fechadura! Esses móveis trazem em si uma espécie de estética do oculto. Para introduzir desde já a fenomenologia do oculto, basta uma observação preliminar: uma gaveta vazia é inimaginável. Pode apenas ser pensada. E para nós, que temos de descrever o que se imagina antes do que se conhece, o que se sonha antes do que se verifica, todos os armários estão cheios.
Acreditando estudar as coisas, por vezes nos abrimos
somente para um tipo de devaneio. Os dois capítulos que dedicamos aos Ninhos e
às Conchas - esses dois refúgios do vertebrado e do invertebrado - dão
testemunho de uma atividade imaginadora mal refreada pela realidade dos
objetos. Nós, que por tanto tempo meditamos sobre a imaginação dos elementos,
revivemos mil devaneios aéreos ou aquáticos ao acompanharmos os poetas até o
ninho das árvores ou até essa caverna animal que é uma concha. Muitas vezes,
por mais que eu toque nas coisas, continuo a sonhar com o elemento.
Após seguirmos os devaneios de habitar esses lugares inabitáveis, voltamos a imagens que exigem, para que as vivamos, que nos façamos pequenos como ocorre nos ninhos e nas conchas. Com efeito, não encontramos nas próprias casas redutos e cantos onde gostamos de nos encolher? Encolher-se pertence à fenomenologia do verbo habitar. Só habita com intensidade aquele que soube se encolher. Temos em nós, a esse respeito, todo um estoque de imagens e lembranças que não confidenciamos facilmente. Sem dúvida, o psicanalista, se quisesse sitematizar essas imagens do encolhimento, poderia fornecer-nos numerosos documentos. Quanto a nós, dispúnhamos apenas de documentos literários. Escrevemos, pois, um curto capítulo sobre os "cantos", surpreendendo-nos ao constatar que grandes escritores davam dignidade literária a esses documentos psicológicos.
Depois de todos esses capítulos dedicados aos espaços da intimidade, quisemos ver como se apresentava, para uma poética do espaço, a dialética do grande e do pequeno, como no espaço exterior a imaginação, desfrutava, sem o auxílio das idéias, quase naturalmente, o relativismo da grandeza. Colocamos a dialética do pequeno e do grande sob os signos da Miniatura e da Imensidão. Esses dois capítulos não são tão antitéticos quanto poderia
parecer. Em ambos os casos, o pequeno e o grande não devem ser entendidos em sua objetividade. Nós os tratamos, neste livro, apenas como os dois pólos de uma projeção de imagens. Em outros livros, especialmente com relação à Imensidão, tentamos caracterizar as meditações dos poetas diante dos espetáculos grandiosos da natureza 1.'. Aqui, trata-se de uma participação mais íntima do movimento da imagem. Por exemplo, teremos de provar, seguindo certos poemas, que a impressão de imensidão está em nós, que ela não se acha necessariamente ligada a um objeto.
Nesse ponto do nosso livro, tínhamos já reunido imagens bastante numerosas para colocar, à nossa maneira, dando às imagens seu valor ontológico, a dialética do interno e do externo, dialética que repercute numa dialética do aberto e do fechado.
Muito próximo desse capítulo sobre a dialética do interno e do externo está o capítulo seguinte, que tem por título "A fenomenologia do redondo". A dificuldade que tivemos de vencer ao escrever esse capítulo foi a de afastar-nos de toda evidência geométrica. Noutras palavras, tivemos de partir de uma espécie de intimidade do redondo. Encontramos, nos pensadores e nos poetas, imagens desse redondo direto, imagens - e para nós isso é essencial - que não constituem simples metáforas. Teremos aí uma nova oportunidade para denunciar o intelectualismo da metáfora e conseqüentemente para mostrar, mais uma vez, a atividade própria da imaginação pura.
Em nossa mente, esses dois últimos capítulos, repletos de metafisica implícita, deveriam fazer a ligação com outro livro que ainda gostaríamos de escrever. Esse livro condensaria os numerosos cursos públicos que demos na Sorbonne nos três últimos anos do nosso ensino. Teremos forças para escrever esse livro?
É grande a distância entre as palavras que confiamos livremente a um auditório simpático e a disciplina necessária para escrever um Livro. No ensino oral, incentivada pela alegria de ensinar, as vezes a palavra pensa. Para escrever um livro é preciso refletir.
[1] cf Eugene
Minkowski, Vers une cosmologie, capo IX.
[2] Charles Nodier, Diclionnairt
raisonni dts onomalopéts françaists,
[3] Pierre-JeanJouve, En miroir,
ed. Mercure de France, p. 11.
[4] . Jean-Paul
Richter, ú Titan, trad. francesa de Philarete-Chasles, 1878, t. I, p.
22.
[5] Bergson, L'intrgit
spiritutllt, p. 23.
[6] J-H. Pontalis, "Michel Leiris ou Ia psychanalyse
interminable", apud LÚ Itmps modtrnu, dezembro de 1955, p. 93l.
[7] J. H. Van den
Berg, Tht PhtTwmmological approach in psychology. An inlroduclion 10 rtCtnl
Phmommological Psycho-palhology, Charles-C. Thomas (org.),
[8] Pierre-Jean Jouve, op. cit., p. 109. Andrée Chédid
escreve também: "O poema permanece livre. Jamais encerraremos o seu
destino no nosso." O poeta bem sabe que "seu lõlego o levará mais
longe que seu desejo" (Terre et poésie,
[9] Pierre-Jean]ouve, op. cit., p. 9: "A poesia é rara."
[10] . C.-G. Jung,
"La psychologie analytique dans ses rapports avec I'oeuvre poétique",
apud Essais de psychologie analytique, trad. francesa de Le Lay, ed.
Stocl(, p. 120.
[11] .Jean Leseure, LaPicque, 00. Galanis, p. 78.
[12] Mareei Proust, A ia recherche du lemps perdu, t. V: Sodome el Gomorrhe, 11, p. 210.