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Lenda de fundação de Cruz Alta
 

No longínquo ano de 1633, os missionários fundaram várias fazendas de criação, povoadas por ovelhas, gado, cabras e cavalos importados

João Rodrigues administrador da fazenda Conceição, morava na localidade, com sua filha Jacy, órfão de mãe e criada pelo pai.

Passados sete anos de vida de Jacy, o maior prazer do pai era passear com a filha pelos campos, o que fazia nos domingos e feriados.

Um belo dia, passeando num feriado, João Rodrigues embrenhou-se no mato, deixando Jacy à beira do caminho.

Ao retornar João encontrou a filha ao lado do terrível AO, animal feroz que habitava a região. Guarda a arma, temeroso de ferie a filha, mas sua emoção é tão grande que cai fulminado, deixando sua filha ao lado do feroz animal.

Anoitece e Jacy sente fome, e eis que a fera temida, oferece as mamas para a assustada menina.

No outro dia bem cedo, vem socorro da estância, e atônitos os empregados se deparam com a cena: Jacy ao lado da fera.

Milagre de Jesus, afirmam todos, e no lugar plantam uma enorme cruz de madeira.

A notícia do milagre se espalhou pela região e veio gente de longe para conhecer o lugar. Mais tarde ergueu-se uma capela, e logo depois ali se formou o povoado. E em virtude desta cruz o povo ali residente passou a ser chamado de “povo da igreja da Cruz Alta”. 

 

 

 

 

Lenda da Panelinha

 

Era uma restinga carrasquenta. Um olho d’água vertia e deslizava de acordo com os acidentes da natureza inóspita. Outros mananciais vinham juntar-se ao filete inicial, para num ponto qualquer formar as barrocas de uma sanga que desde logo ficou conhecida como a Panelinha.

A lenda da Panelinha vem de tempos imemoriais. Parece que desde os primeiros mestiçamentos das índias com os tropeiros que iam a Sorocaba e sempre voltavam para beber a água do arroio. E foi nesse ir e voltar, que na imaginação simples dos primeiros moradores, dos rancheiros que ergueram seus casebres à beira dos caminhos, que foi cristalizando o entendimento de que, quem bebesse da água da fonte, fatalmente retornaria povoado.
As moças casadoiras, quando viam moços bonitos, tratavam logo de leva-los à fonte para beberem sua água, que além de puríssima, era revestida de misteriosos sortilégios e encantos.
Depois, o povoado virou vila e mais tarde passou a cidade. Mas a lenda persistiu arraigadamente nos hábitos da população, e hoje já se incorporou ao patrimônio cultural desta terra.

A Panelinha está ali. Ela encarna Cruz Alta. Ela simboliza uma lenda. Um dia voltará a fluir a água da fonte da Panelinha, atraindo outra vez donzelas para dar de beber aos seus amados, como símbolo da nossa tradição. Um dia alguém fará com que das entranhas da terra venha brotar a água da fonte, e será ela a fonte da felicidade, onde a pureza da água misturada a seus efeitos mágicos, fará dela uma fonte dos que, cansados das emoções do cotidiano, procuram algo de novo, fazendo com que a velha lenda não morra no pensamento das novas gerações.

 

 

 

Lenda de Anahí

 

Era Anahí a princesa índia de uma das tribos mais guerreira da raça guarani. Não era linda, mas tinha uma voz maravilhosa, cuja doçura era inigualável quando imitava o canto do corichiré. Anahí vivia tranqüila entre os seus, quando espalhou-se a notícia de que os brancos conquistadores marchavam sobre seus domínios para assumir o comando nas terras.

Anahí não vacilou, passou a acompanhar seu povo, na defesa de seu chão e da sua liberdade. Lutava bravamente, quando caiu prisioneira dos inimigos. Açoitada e torturada, não se rendeu a vontade do conquistador e não traiu seu povo. Revoltados com a sua recusa de Anahi , os homens brancos a condenaram a morrer amarrada a uma fogueira.

Uma noite antes da execução, Anahí conseguiu fugir, mas foi recapturada e imediatamente executada. Acendeu-se a fogueira e as chamas arderam envolvendo a índia que foi devorada pelas chamas.

No dia seguinte, quando seus inimigos acordaram, ficaram surpresos ao deparar com a árvore onde Anahí fora sacrificada, coberta de flores vermelhas, parecendo lágrimas de sangue.

Conta à lenda que a princesa guerreira morreu, mas continua vivendo transformada na flor da corticeira.

 

 

 

Lenda da lagoa do cemitério

 

Contam os mais antigos conhecedores das lendas e tradições de Cruz Alta, que há muito tempo viveu aqui uma linda jovem de família nobre e altiva, a qual se apaixonou por um moço pobre e humilde. Desse amor nasceu um filho, que revoltou a família da moça de tal forma que lhe roubaram o rec´m-nascido e o jogaram na outrora existente Lagoa do Cemitério,localizada nas proximidades do hoje Cemitério de Cruz Alta.

Nas horas mortas da noite ouviam-se, não raro, gritos e lamentos daquele que ficou sendo chamado na época de Monstro da lagoa, o qual clamava pelos pais e pela benção do batismo. Tal era o lamento do pobre inocente morto, que os moradores das imediações chamaram o padre da paróquia da vila, para dar-lhe a benção do batismo.

Conta a lenda que deste dia em diante não mais ouviram os lamentos da criança desaparecida, mas o padre que o batizara passou a ser acusado de sacrilégio, acabou preso pelo Delegado de Polícia, sendo colocado num calabouço fechado a sete chaves e com a vigia de guardas fortemente armados.

Entretanto, a curiosidade do Delegado foi maior, conta a lenda, e uma noite, deixando o padre muito bem vigiado, foi a lagoa ver de perto o monstro local. Aterrorizado ouviu seus gritos e uma voz que lhe pedia para libertar o pobre cura. Voltou ao local disposto a libertar o pobre vigário, mas ficou ainda mais surpreso ao verificar que o mesmo estava fora da cela, lendo tranqüilamente sob as árvores do pátio da prisão. Contam até que o Monstro da lagoa abriu a cela e libertou o padre prisioneiro.

Deste dia em diante não se ouviram mais os lamentos da criança morta, mas foi lançada uma maldição que deveria vigorar por muitos anos. Todo o filho desta terra, para prosperar e se tornar famoso, teria de deixar Cruz Alta e passar a viver noutras paragens.

 

 

 

  

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Fonte: Revista Coxilha Nativista nº3- 1986
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