
O poste e a ponte
Luiz Sérgio de Oliveira *
[...] no Brasil, o que é meu é meu e o que é público, também é meu. neste país, a construção de cada um por si mesmo só parece ser possível mediante a apropriação e subseqüente incorporação do que pertenceria à comunidade e que a define.
Teixeira Coelho
Apesar
do que há de verdadeiro nessa constatação, podemos aperfeiçoá-la afirmando
que, no Brasil, o público parece ser terra-de-ninguém, parece ser território-sem-dono.
Por isso, é tão freqüente a apropriação dos bens públicos pelos nicolaus
de plantão, que nem mesmo a contínua sucessão de denúncias, transformadas
em campeãs de audiência pela mídia, parece conter. Tudo diante de uma sociedade
ao mesmo tempo incrédula e apática, que assiste a essas sucessivas subtrações
dos bens coletivos como se natural fosse, e não como uma dolorosa distorção
de nossas tradições. Não é por outro motivo que continuamos a eleger políticos
sabidamente corruptos, para os quais inclusive somos capazes de hipotecar
nossas melhores convicções. Ou será que simplesmente vivemos a expectativa
de sermos agraciados com migalhas de um poder corrupto? Enfim, o Brasil
não é isso, certamente não é.
Mas o que essas questões têm a ver com a arte? Ou com o poste? Será ele
o espaço singular para exorcizarmos nossos fantasmas públicos, nossos judas
coletivos, como nos jogos infantis?
Desde que as premissas elitizantes do modernismo foram desacreditadas, cada
vez mais e mais artistas vêm se recusando a sustentar a pureza modernista,
que acabou por isolar a arte em redomas de cristal, protegidas do pó social.
Esses artistas vêm recorrendo aos espaços públicos para ampliar sua audiência,
para contaminar sua arte, não satisfeitos em continuar produzindo para um
círculo fechado e viciado, formado por artistas e simpatizantes. Como já
foi dito, "todo artista tem que ir aonde o povo está".
E é nesse contexto que a Galeria do Poste Arte Contemporânea precisa ser
entendida: como uma contribuição para repensarmos o espaço da arte, para
desatá-la das amarras imputadas pelo modernismo, para liberá-la, enfim,
do confinamento do cubo branco dentro do qual permaneceu enclausurada durante
grande parte do século passado. Aqui a arte quer mais que ser exposta, mais
que estar exposta. Ela quer estar nas ruas, quer ser parte das ruas, sem
grades, sem rampas, sem tapetes vermelhos, sem silêncios quase-religiosos,
sem pompa nem circunstância. Aqui busca-se um diálogo que foi desprezado,
o diálogo da arte com seu público. Para onde ele foi? Depois de desprezado
pela arte, passou o público a desprezar a arte? É preciso reverter esse
processo. Hoje o artista - e aqueles que atuam no sistema de arte - precisa(m)
construir pontes que dêem densidade ao trinômio artista - produção de arte
- público. É necessário trazer de volta esse público que foi ostensivamente
rejeitado. Precisamos de trilhas, caminhos e pontes. O poste é uma ponte.
Nesses quatro anos, a Galeria do Poste Arte Contemporânea, dentro dos limites
de atuação a que se propõe, firmou-se como um espaço privilegiado para a
exibição de obras produzidas especialmente para uma situação em que é, simultaneamente,
suporte, meio, arte in situ. Mais de quarenta artistas já deixaram sua contribuição
para a desejada reaproximação entre arte e público. O famoso poste do Gragoatá
já foi pintado de todas as cores, coberto com folhas d'ouro e de pentelhos
enferrujados, já foi porto seguro para barcos à deriva, para os burros dos
artistas, para cobras macias e suas jovens estonteantes, muro para amassos
românticos, páginas da literatura brasileira perdidas no caminho do bordel,
ou do paraíso azul zen. O poste já foi tudo, ou quase, e quer ser muito
mais, nesse esforço do artista em recuperar seu espaço cidadão. Tudo isso
vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sob sol ou sob chuva.
Afinal, a Galeria do Poste Arte Contemporânea é a galeria que nunca fecha
!!!
(*)
Artista, Mestre em Arte pela Universidade de Nova York (1991), Professor
e
Chefe do Departamento de Arte da UFF.

