QUADRINHOS - OBRAS


BIG NUMBERS

Caos e Holismo na magnus opus de Alan Moore

por Jose Carlos Neves

O Universo não é ordem. O Universo é Caos. A ordem é apenas sua conveniência. Um código de barras colado no Caos e não o produto.Caos não é desordem. Caos é imprevisibilidade...

I look over the meaning´s edge and feel the dizziness of the things you have not Said...

A figura é no mínimo esquisita e até anacrônica: um gigante de cabelos e barbas longos, tipo guru indiano, usando um monte de anéis e de voz imponente.

É Alan Moore, reputado como o maior gênio que os Quadrinhos já conheceram.

Nascido em Northampton, Inglaterra, de onde quase nunca sai, em 18 de novembro de 1953, Alan Moore revolucionou os quadrinhos quando publicou a sua série Watchmen (com o artista Dave Gibbons), na qual desconstruiu o gênero super-herói, que classificava de fascista.

Adepto do anarquismo, nos brindou ainda com V de Vendetta (David Lloyd); A Small Killing (Oscar Zarate); Do Inferno (Eddie Campbell) - redundante sucesso que Hollywood tentou repetir nas telas, com Johnny Deep no principal papel, e outras obras, inclusive em prosa - Voice of the Fire - e CDs de suas performances teatrais, onde se envereda pela Magia, que passou a cultuar também - embalado por cigarros de haxixe e imerso nas pesquisas dark que teve de fazer nos 10 anos que gastou escrevendo From Hell. Atualmente está concluindo com a desenhista, e sua atual esposa, Melinda Gebbie, o que chama de sua primeira pornografia, Lost Girls - três prostitutas, vindas dos contos de fadas, Dorotty (O Mágico de Oz), Wendy (Peter Pan) e Alice, contam-se suas estórias num hotel decadente, no período da 2ª Guerra.

Mas além da Magia, Alan Moore nunca deixou de ser racional - já foi até chamado de o shaman racional - balanceando suas pesquisas com ciência, muita ciência.

Assim é que a matemática dos fractais e a teoria do caos foram duas "modas científicas" que o envolveram com o mesmo clamor da Magia quando levou dois anos forjando aquela que deveria ser sua obra-prima, a série Big Numbers.

Infelizmente, só dois números foram publicados, com magistrais desenhos foto-realistas de Bill Sienkiewicz, num esquema de auto-publicação - pela extinta Editora Mad Love, criada pelo próprio autor. Desavenças com o gênio - muito exigente em seus hiper-detalhados roteiros, onde descreve até mesmo o ângulo em que a cena deverá ser desenhada - afastaram Bill da imensa empreitada. Seriam 12 volumes num esquisito formato quadrado (26X26 cm), totalizando 480 páginas.

O desenhista (então assistente de Bill) Al Columbia tentou dar continuidade ao projeto, mas quase pirou diante de sua grandiosidade e complexidade, largando tudo pelo meio (do terceiro número) e, segundo dizem, destruindo os originais (a revista americana Submedia nº 1 chegou a apresentar algumas amostras ).

Lamentável para os muitos fãs que, como eu, têm atração por esse tipo de ciência alternativa e instigante.

O diretor de cinema inglês Michaell J. Bassett tentou transformar a graphic-novel numa série para a TV, tendo inclusive gravado exaustiva "conversa" com Alan sobre a adaptação do roteiro (Bassett compilou tudo em 280 paginas de transcrição e chegou a publicar uns dez por cento delas na web. Mas o projeto também gorou.

Agora se fala numa provável re-adaptação, com computação gráfica e fotografias, tendo como parceiro o artista italiano José Villarrubia, que já fizera com ele outra série, Promethea, também envolvendo Magia. Deverá ser bancada pela Top -Shelf Comics - que esteve às portas da bancarrota e, num esforço digno de nota empreendido pelos fãs e clientes, conseguiu através da venda emergencial e maciça de seus álbuns, numa campanha pela Internet, angariar em dois dias o numerário necessário para saldar suas dívidas e voltar à ativa.

Muito já se falou de Moore, sua biografia e suas outras obras. Mas quase nada de Big Numbers, que se se tornou verdadeiro cult .

Em entrevistas diversas à revista The Comics Journal (principalmente uma série de três, nos números 138, 139 e 140) e outras, Moore tem expressado o seu dissabor em ver esta sua obra inacabada, e o quanto ela representa para ele.

A Teoria do Caos ganhou o público através de um livro do cientista James Gleick e pode ser resumida na já batida frase: quando uma borboleta bate as asas no Brasil, faz chover na China. Traduzindo: dado um sistema dinâmico, qualquer mínima alteração nas suas condições iniciais, pode produzir imensas e imprevisíveis alterações nas condições finais.

Se você mira uma arma para um alvo a dez metros de distância, se errar a mira por um milímetro, a bala certamente se afastará do alvo bem mais do que isto. E quanto mais afastado ele estiver, maior será a alteração.

É uma ciência holística, não determinística e até mesmo pós-moderna, que tenta expor e explicar um comportamento tão desordenado quanto paradoxalmente governado pela ordem.

Seu instigante mistério a propalou para dentro da cultura pop, na "nova psicodelia", musica pop, arquitetura, estampa de camisetas e até mesmo nas telas dos PCs, que estão simulando "viagens de ácido" virtuais - pelo menos os efeitos colaterais são mais suportáveis...

Mas o que Alan Moore queria com Big Numbers era buscar os rudimentos de uma visão fractal da sociedade, através da estória de 40 personagens de uma cidade de interior (Northampton, por coincidência) e o impacto causado pela construção de um gigantesco shopping center (ou Shopping Mall, como se chama na Grã-Bretanha) no seu coração. Verdadeiros totens do capitalismo turbinado, templo do consumismo obsessivo, esses assépticos e paradisíacos mastondontes de concreto, inox e blindex são ambíguos nos sentimentos que despertam: o que têm de atrativo ao criarem uma plenitude artificial, têm de repugnante em sua banalidade plástica.Como os big-macs globalizados com o mesmo gosto transgênico seja numa vielazinha de Shangai, seja numa strass de Berlim.

E é a vida mundana ou pelo menos uma fração dela, deste enorme elenco de personagens, sua interação, desdobramentos e deslocamentos, que Moore quer explorar nesta que poderia ser, tranqüilamente, uma obra em prosa mainstream- como ele fez em Voice of the Fire.

Mas deixemos o próprio mago falar: Big Numbers pode ser um romance mainstream no sentido de que é uma obra desgeneralizada. Eu sei, vocês poderiam dizer, "É uma soap-ópera", ou "ficção urbana", ou qualquer coisa que o valha. As pessoas tendem a criar gêneros para se sentirem mais confortáveis em sua mentalidade reducionista. O todo é imenso e intrincado, assim, vamos quebrá-lo em pequenos pedaços, mais digeríveis.

Em Big Numbers não temos só desesperança e desolação, não. Temos muito humor também, é a vida real, enfim. E não penso que o efeito final da obra seja trágico ou depressivo. Estou tentando ser franco com a comunidade a minha volta. Nela tem muita crueza, eu sei. Mas não é uma crueldade opressiva, intrínseca ou somente isto. Como eu disse, é como a vida. Todos as personagens têm sua própria estória se desenrolando através dos 12 números. Algumas são "para baixo" outras são "para cima" e até engraçados. O tom geral pretende ser de otimismo. Se você consegue observar o lado mais cruel da existência com todas as suas implicações e ainda assim, manter o equilíbrio e o otimismo, então é o otimismo que tem valor. E é isto que pretendo mostrar em Big Numbers. Pode levar os doze números para se chegar a esta conclusão, mas ela está lá.

Os personagens podem parecer desconectados uns dos outros, sob o ponto de vista coletivo, de objetivos comuns pois, como escreveu Karl Marx "todas as nossas instituições sociais estão alicerçadas na interdependência de pessoas totalmente indiferentes umas da outras". Há muito de verdade nesta concepção, mas não é "a verdade". Tudo é muito mais complexo. As pessoas tentam sim, se conectarem, se interagirem em diversos níveis. A medida que a estória vai se desenvolvendo, iremos ver essa interação, e um tanto de desconexão também, solidão, isolamento... É a vida.

No primeiro número tento apresentar a comunidade e o quão frágil ela é, composta de pequenos fragmentos. Há o cara negro, Healdie, um tipo terrivelmente depressivo. Depois, o seu filho, com todo o carinho, cuidado e amor que demonstra de forma inequívoca pelo pai. Pequenos elementos como estes, e iremos construindo a dimensão humana, até chegar à personagem principal, Christine, voltando para casa depois de 10 anos, para tentar construir relações há muito perdidas.

Como adiantei, não será uma visão desesperançada, o que eu quero é mostrar a fragilidade de uma comunidade humana, de suas relações, de repente eclipsadas pela sombra negra de um gigantesco e inumano shopping, que só representa o contrastante materialismo econômico, de forma ameaçadora e cruel. E aqui, não é a nave leviatânica de Galactus pairando sobre Nova Iorque para destruir tudo, ao menos que Os Vingadores venham nos salvar. Será algo tão dinâmico e excitante quanto isto, mas não tão ridículo, se me entende.

Este será o tema central da obra.

E estamos lidando aqui com uma comunidade que existe na Inglaterra recente (se refere a 1989) e que, portanto, já está irremediavelmente degenerada. Afinal, foram 10 anos de Margareth Thatcher, culminando um século dos que a precederam. Já estamos todos fodidos. É o século 20, é a condição humana. Nada de novo nisto.

Mas se já estamos fodidos sem conserto, aí é outra estória. Não temos certeza. E Big Numbers terá esta incerteza como parte do seu escopo. Há a possibilidade de reparos? Vamos ver...

O que eu quero é mostrar todos os vetores que formam a sociedade moderna, da forma mais honesta que puder conceber num trabalho de ficção. Veremos uma sociedade se fragmentando aos caquinhos, num caos crescente à medida que a série progride, um retrato franco da sociedade contemporânea inglesa.

Isto tudo, claro, num reflexo do que ocorre hoje igualmente em escala global, dia-a-dia, com tudo de cabeça para baixo. Guerras,fome,corrupção... O mesmo na vida das pessoas, relações que se desfazem, situações econômicas que se desmoronam, empregos que são perdidos, vidas, carreiras, felicidade... As pessoas vivem compulsoriamente num fluxo constante, o que os amedronta e torna suas vidas miseráveis e solitárias. Quero mostrar este fluxo e esta solidão, e tentar extrair algo ao menos positivo deste estado de coisas. E a matemática do caos, como metáfora, veio a calhar. É como tentar explicar isto através da ciência da turbulência e do Caos.

Há uma variedade enorme de Caos. Tocarei nos fatores econômicos que causam o Caos (por exemplo: se Mrs. Thatcher corta drasticamente os gastos do governo com a saúde, muitos hospitais para doentes mentais são fechados. É o que está ocorrendo justamente agora em Northampton e no resto do país. Pacientes mentais estão sendo retornados aos cuidados da comunidade, e esta não se importa mais. E os doentes ficam perambulando pelas ruas, perdidos em si mesmos, não causando nenhum dano a ninguém que não seja a si próprios. Medidas econômicas em Westminster (a sede do governo), aparentemente mínimas, causando uma grande merda no resto do país, num efeito capilar geometricamente progressivo. Puro Caos. Caos é isto também, complexidade extrema. Uma soma enorme de vetores interagindo simultaneamente por caminhos surpreendentes, até resultar nesta malha imprevisível e misteriosa. Um redemoinho de cores se misturando e formando cor nenhuma, como a imagem de um mármore. Aparentemente cor nenhuma...

Quando eu era criança, tinha uns livrinhos que mostravam as pirâmides sociais. Isto é o que fazem as enfermeiras. Isto o que fazem os policiais. E Deus ficava no topo, com a rainha bem próxima e o primeiro-ministro um pouquinho mais abaixo... A posição de cada um era categórica. Trinta anos depois tudo se tornou tão complexo que é impossível e mais ridículo ainda tentar compor uma pirâmide destas. Não há mais pirâmide. Só o fluxo turbulento do Caos. Mas eu tentarei sugerir as possibilidades de uma estrutura, de uma nova pirâmide permeando o âmago deste Caos.

O mundo hoje é tão pequeno e tão auto-sensitivo, que qualquer mínimo evento redunda em repercussões globais. Se você atira uma pedrinha no espelho de água de um lago calmo, produz ondas em círculos concêntricos. Se atira duas pedras, serão dois pontos geradores de ondas. Mas onde uma se cruza com a outra, forma-se uma complexidade, digamos assim, que não pode ser atribuída de maneira alguma ao choque da pedra, ou das pedras com a água. É disto que o Caos procura tratar, dos níveis de complexidade que não somos capazes de, previamente, abarcar.

A premissa básica de Big Numbers é a de que somos todos simultaneamente artífices e vítimas deste processo e, sob esta ótica, devemos ser responsáveis, embora culpa ou julgamento não sejam os caminhos apropriados para isto. Somente nos impedem de ver a interação maior deste somatório de vetores, de pessoas, e de atitudes políticas.

Pode parecer insano de minha parte, mas o que eu e o Bill queremos é mostrar às pessoas uma maneira mais construtiva de enxergar e interagir com este Caos.

Não adianta a Esquerda imputar a culpa da miséria humana à Direita e vice-versa. A simples aceleração tecnológica do mundo, nos levou a este ponto de efervecência em que nos encontramos. Somos passageiros involuntários de uma locomotiva em marcha desenfreada que se torna maior e maior à medida que acelera. E piramos só de antever uma provável colisão, ou até mesmo pela velocidade que viajamos. Temos todos muito medo do Caos e eu quero sugerir, não uma resposta a ele, não o segredo do Universo, mas simplesmente novas maneiras de encará-lo e ao mundo em volta que nos possam ser mais úteis.

Faço isto lidando com personagens complexos e quadridimensionais, que riem e que choram, que nunca são completamente felizes - quem o é? - coisa que os Quadrinhos têm evitado, em nome da "clareza". Afinal, pelo "estilo Marvel", se um personagem não pode ser descrito em no máximo 35 palavras, não será um bom personagem. Verdadeira antítese do que estamos fazendo. Mesmo quando o leitor chegar ao final da série, ele não será capaz de descrever totalmente nenhum dos personagens sequer. Há pessoas que conheço há 20 anos e até hoje não consigo descrevê-las completamente.

Estou tentando fazer isto em Big Numbers sem o uso de balões de pensamento, de legendas, somente o que as pessoas dizem e o que fazem. Estou pedindo aos leitores que se relacionem com estas personagens como se as tivesse encontrado casualmente e pudessem pensar delas o que quisessem. Mas que pensassem, que se preocupassem com elas, mesmo com as que não apreciassem.. À medida que vou lentamente articulando e mostrando a sua interação, a teia de conexões que vai se formando pelos atos e palavras de cada um, os leitores se verão fazendo um "upgrade" do seu nível de percepção, inconscientemente. Personagens que apreciará logo de cara, se revelarão monstros quando o conhecerem "verdadeiramente", assim como o contrário também ocorrerá, na medida em que for se abstraindo da unicidade de cada um e vendo o "todo". É a minha experiência de vida.

Poderá parecer estranho e até inconclusivo ás vezes, porque não pretendo nem guiar o leitor, nem amarrar todas as pontas soltas aqui e ali. Algumas coisas deixo irem rolando por si próprias, mas de uma maneira estruturada. Soa até contraditório: ordenar a desordem. Mas é o meu desafio. Personalidades desordenadas, vidas desordenadas, sociedade desordenada... Tentarei mostrar toda esta desordem em sua plenitude e, ao mesmo tempo, sugerir, através desta malha acochoada, uma nova maneira de encarar o conceito de desordem.

Tudo isto parece terrivelmente nebuloso e vago, mas se eu pudesse definir tudo em algumas sentenças, não precisaria escrever e planejar as quase 500 páginas de Big Numbers.

Elas estão planejadas na minha parede, em uma folha imensa de papel A-1, com doze colunas verticais e 40 células horizontais. Cada uma das células é de uma personagem e cada uma das colunas, um dos exemplares da série, ou seja, uma planilha de 480 quadrados. Em cada um deles, em garatujas que só eu consigo decifrar, descrevo o que acontece com cada um dos 40 em cada número. Logicamente que é sempre uma obra aberta, que algumas pequenas alterações vão ocorrendo à medida que vamos fazendo a série. Mas tudo está rigorosamente "plotado" desde o início. Afinal, gastei dois anos só me preparando, pesquisando e planejando esta série. Até o shopping é uma personagem. No meu gráfico tenho o seu desenvolvimento do projeto à construção, passando pela inauguração, ao emprego dos funcionários, etc.

Personagens imaginários também terão o seu papel. Um imigrante asiático, ladrão de lojas, tem um modelo de estrada de ferro em seu porão, um diorama, com trenzinho elétrico e pequenos bonequinhos plásticos de 12mm de altura na plataforma. Ele cria diálogos imaginários com os bonequinhos e eu também lidarei com esse microcosmo que ele mantém.

Haverá uma partida de RPG que os filhos de um arquiteto jogarão, criando diversos personagens imaginários, e seguiremos igualmente a sua progressão. Mostrarei o que se passa na cabeça das personagens, em nível de pensamentos e de fantasias. Tem tudo a ver com a matemática, 40 personagens, incluindo os imaginários, que serão como números , tomando parte na estrutura geral justamente como a imaginação integra e até molda a realidade. O padrão geral de todas esta personagens e sua interação é a estrutura de Big Numbers.

Desejo comunicar com ela que os padrões são o próprio enunciado maior. Em termos de narrativa quadrinizada é mais ou menos o seguinte: cada quadrinho emanará seu próprio significado, desenvolvendo a estória. Mas, diferente do convencional, de repente teremos uma cena de uma fumaça de cigarro se espiralando no ar, de um copo de vidro se espatifando no solo, ou de gotas de leite em redemoinho ao se misturar ao chá preto.O leitor se deparará, ao virar a primeira página do segundo número, com uma figura hiper-realista, de página inteira, de um copo de café justamente após o leite ter sido acrescentado. Qual a informação semiótica que pretendí com isto? No que esta cena contribui para o progresso normal da estória? É uma nova camada de significado. A princípio, apenas um padrão casual formado pelo redemoinho do leite se dissipando no meio do café preto. Mas quando chegar ao final da leitura de toda a série, quando a matemática fractal for exposta, os leitores voltarão atrás para rever aquela cena e compreendê-la plenamente. Ela será redefinida, porque agora será vista num contexto maior, em relação à fumaça do cigarro, ao copo quebrado, ao papel amarrotado e a todos os outros padrões aparentemente desconexos e ao acaso mostrados nas páginas da série.

Haverá também números, muitos números: de telefones, tíquetes de passagens de trens, até mesmo rótulos de ingredientes de uma caixa de cereais, em suas percentagens de vitaminas, calorias, etc. Apenas uma maneira de sugerir que vivemos envoltos num campo de números, sem notá-los conscientemente. Números para todo o lado...

No final, concluiremos que vivemos soçobrando num mar de números, de maneira muito mais real e literal do que o que mostra as nossas agendas. Numa forma avassaladoramente crescente e inevitável. Dos pequenos números do dia-a-dia às grandes somas de dinheiro, estatísticas demográficas, etc, e até as diferentes maneiras de se enxergá-los, o que descobriremos à medida que a leitura é feita.

Basicamente, a matemática fractal foi um conceito suscitado no meio de campos do saber tão vastos quanto diversos: metereologia, bioquímica, a própria matemática. De repente, todos estes campos começaram a chegar às mesmas conclusões. Vou tentar ser mais didático: se você tem uma folha de papel, em termos matemáticos ela é considerada bidimensional, só tem duas medições que se possa fazer, largura e comprimento - supondo-se que ela seja tão fina que a espessura possa ser desconsiderada. Mas se você embola esta folha e faz uma bolinha de papel, teremos então um sólido tridimensional - com largura, comprimento e altura. Ou quase. Não é mais bi mas também não é completamente tridimensional. Digamos que seria de duas-dimensões-e--meia..

Uma linha é considerada unidimensional, matematicamente falando Se você faz esta linha dobrar-se, menear-se e enrugar-se, ela será capaz de cobrir uma área muito maior na folha de papel de que quando era completamente reta. Se ela for dobrada em dobras ínfimas, será capaz de cobrir toda a superfície da folha. Neste ponto ela não será mais unidimensional, mas também não será bidimensional e sim uma espécie esquisita de uma-dimensão-e- meia.*

Foi justamente esta nova concepção de meias-dimensões ou dimensões fracionadas, que permitiu o surgimento deste campo todo novo chamado de matemática fractal.

Assim como as dimensões regulares nos brindaram com as formas geométricas regulares, as dimensionais fracionadas nos deram acesso a toda uma nova gama de formas nunca antes vislumbradas, os chamados fractais.

E mais, as formas que podem ser geradas em computadores através de equações fractais, se revelaram as mesmas previamente encontradas na natureza e sempre classificadas de fortuitas. A forma das nuvens, das encostas, o desenho de um mapa, a distribuição das estrelas, das artérias no corpo humano, o espiralar da fumaça, o jeito que o vidro se quebra, que os fluidos se movem - todos esses eventos que sempre acreditamos ocorrerem fortuitamente, ao acaso, sem ordem, repentinamente pareciam seguir padrões geométricos fractais precisos. Eventos que previamente eram consideradas pela ciência como turbulência descartável, apenas "ruído de fundo", que podiam ser ignorados, de repente pareciam ser tão regulares e precisos quanto um círculo ou um triângulo.

Até o mercado de ações poderia ser estudado à luz dos padrões fractais. O que parecia ser totalmente imprevisível, desordenado, poderia se enquadrar num padrão. Os estresses políticos que se acumulam e se alimentam até levarem países às guerras, estariam seguindo também precisos padrões fractais. Fotografias aéreas do fluxo de carros nas estradas, agrupados e se movendo aparentemente ao acaso, estariam direcionados à padrões como um ramalhete fractal. Os motoristas dos carros têm seu livre-arbítrio, podem acelerar ou diminuir a marcha ao seu bel-prazer, mas na verdade estão todos obedecendo a um padrão matemático de extrema complexidade, sem nenhuma consciência disto.

Parece haver uma ordem maior, inescapável, mas nada de cunho religioso, digamos assim. Sim, parece haver uma ordem maior, mas "ela" parece estar pouco se lixando para nós. É puramente matemática, e muito complexa para podermos compreendê-la.

Nós sabemos que o clima se comporta de acordo com a ciência do Caos, mas somos incapazes de prever quando e onde ocorrerá o próximo furacão.

Está além do nosso controle.

Não podemos regular o Caos, impor nossa vontade sobre ele. Isto até contradiz versículos do Velho Testamento, não parece ser verdade que o mundo existe para impormos nossa vontade sobre ele. (Nota; mais tarde, quando pesquisava material para Do Inferno, Alan mudou sua maneira de pensar, ao se envolver com Magia. Mas isto é outra estória).

Mas se serve de compensação, um dos aspectos da matemática fractal é justamente um que pode se classificar de poético e belo, o "efeito borboleta", descoberto por um metereologista e cientista chamado Lorenz. Através de um processo enfadonho demais para se explicar, ele chegou ao que se chama dependência sensível ao impulso inicial. Isto significa que qualquer mínima variação na condição inicial de um dado sistema, o alterará como um todo. Em termos poéticos isto quer dizer que nunca poderemos prever com exatidão o funcionamento do clima, porque até mesmo a brisa suave produzida pelo bater das asas de uma borboleta redundará, por acúmulo e seqüência, em tempestades surgidas na calmaria de um céu de brigadeiro.

Se isto é verdade para o clima, também o será para os sistemas políticos e sociais. São leis tão complexas que escapam ao nosso controle. Mas a gravidade também o é. Não podemos voar, mas podemos convivemos com isto. Essa nova ciência é quase que como um antídoto ao sentimento de impotência que sentimos ao encarar a vida neste final de século, em que muitas vezes pensamos que estamos esmagados por um sistema determinístico ao qual nada que possamos vir a fazer, fará nenhuma diferença. O Caos nos oferece a possibilidade de concluir que somos parte importante, engrenagem pequena mas imprescindível ao funcionamento do relógio cósmico. Qualquer coisa que fizermos, terá sim suas repercussões, não importando nossa cor, raça, religião ou classe social.

Eu sei é que, longe de me deprimir, esta nova ciência me causou verdadeiro estado alterado de consciência.

Para os interessados em se aprofundar, há muitos livros sobre o assunto, como o já mencionado Caos, de James Gleick;Mind Tools e The Fourth Dimension and How to Get There, do matemático Rudy Rucker; Godel, Escher, Bach and Metamagical Themas, de Douglas Hofstadter, assim como outras obras dele; e o mais conhecido, The Mandelbrott Set, do matemático francês Benoit Mandelbrot, descobridor dos fractais.

Da mesma forma que as conclusões de Einstein mudaram para sempre nossa forma de pensar sobre o Tempo e o Espaço, o Caos fará isto com nossas vidas, sobrepujando a nossa tendência reducionista ao encarar a nossa existência.

Queremos compartimentalizar o conhecimento.

Nos anos 70 temíamos o que se chamava de Efeito Torre de Babel, ou seja, estávamos nos especializando mais e mais em fragmentos cada vez menores de conhecimento que chegaríamos em breve a um estado em que muitos saberiam quase tudo de quase nada. Nos tornaríamos tão especializados que até mesmo a linguagem para nossos estudos seriam exclusivas e logo não conseguiríamos nos comunicar nem mesmo uns com os outros.

Pois bem, o Caos já reverteu esta onda. Agora os meteorologistas estão se interessando pelo trabalho dos biologistas, estes pelo dos matemáticos, estes pelo dos artistas e por aí vai, numa ação em cadeia. É o chamado Holismo.

Vou usar Big Numbers para explorar todos essas minas virgens do conhecimento , ainda não garimpadas por outros artistas. Quero caminhar por ali e deixar as minhas pegadas.

Outra inovação que tentaremos também, eu e Bill, fazer em Big Numbers é quanto à própria narrativa quadrinizada, subvertendo alguns conceitos e explorando vias nunca dantes trilhadas. Eu me lembro quando, na infância, lia as tiras dominicais de Frank King em Gasoline Alley. E uma vez ele publicou uma página em que todos os nove quadrinhos que formavam a página, também compunham uma cena só, mas ao mesmo tempo, em cada um deles acontecia uma gag. Pensei na época, "É legal, mas sem movimentação"; Porquê não por movimento, de um quadrinho para o outro, mantendo no entanto a figura como um todo? A resposta que me vinha é que, se você ler da esquerda para a direita e de cima para baixo, quando chega na extrema direita, teria de saltar para o canto esquerdo e isto, a personagem não poderia fazer. Ou poderia? Em Big Numbers, nós temos uma página (a 7, volume 2) cujos painéis compõem uma cena única mas ao mesmo tempo há movimento de um para o outro. É uma família sentada à mesa de refeições, mantendo um diálogo meio caótico como só pode acontecer nestas ocasiões em qualquer lugar do mundo - cada um fala uma coisa diferente, ninguém escuta ninguém, mas todos se entendem. Pois bem, esta página parece funcionar como em um sonho.Todos estão sentados, falando, e a mãe, no primeiro quadrinho está raspando restos de alimentos do prato e os jogando fora, move-se para a direita e já é vista lavando o prato na pia, depois para a direita novamente e secando-o, mais um pouquinho e pondo-o no escorredor, para, finalmente, se mover para baixo, no sentido horário. Aparentemente é confuso, mas o efeito final foi interessante e inovador. (N.A.: Nesta cena é como se pudéssemos visualizar a quarta dimensão, o tempo - veja nota no final deste artigo). Até o Neil Gaiman me ligou comentando esta solução que encontramos.

Portanto é isto, eu penso que Big Numbers será o meu melhor trabalho e não vejo a hora de vê-lo publicado.

É o que todos esperamos também, Alan!

(*N.A.: Extrapolando estas idéias de Alan Moore, mencionamos os conceitos dimensionais do matemático soviético, discípulo de Gurdjief, P.D. Ouspenski, no seu Tertium Organun - publicado aqui pela Editora Pensamento - Um ponto, contido todo em si próprio, não tem dimensão alguma. Se ele se move para uma direção que não está contido em si próprio, ele deixa um rasto no espaço, que é uma linha, unidimensional. Se esta linha se mover para uma direção que também não está contida nela, o rastro deixado será o de um plano, bidimensional. O plano por sua vez, ao sair de si próprio, produzirá um bsólido, de três dimensões. O que seria então a quarta dimensão? Seria a "região" atingida por um sólido ao se mover para uma direção que não está contido nele próprio, formando o hiper-sólido (o chamado tesserato). Alguns físicos entendem que a 4ª Dimensão seria o tempo, também uma dimensão espacial, segundo Einstein. Como somos seres tridimensionais, nossos sentidos somente conseguem perceber as três dimensões e quanto ao tempo, só podemos elucubrar o que seria).

JCN

Sobre o autor:

José Carlos Neves é escritor, desenhista, modelista de naves e armamentos, fã de de ficção cientifica, quadrinhos, efeitos especiais, réplicas e, é claro, sobre Alan Moore. Esse artigo foi originalmente divulgado no site do autor, o ALAN MOORE, SENHOR DO CAOS.

 

ATUALIZAÇÃO E CURIOSIDADES SOBRE ALAN MOORE

  • Alan Moore já usou pseudônimos para publicar alguns contos "mainstream", como Kurt Vile, Curt Vile, Translucia Baboon e Brilburn Logue. Numa exaustiva pesquisa na web (sempre tendo como base o buscador Google.com, consegui encontrar algumas dessas pérolas. Por enquanto só tenho versões em inglês que são: The Courtyard, Hyphotetical Lizard e Light of thy Countenance;

  • Na Espanha acaba de ser publicada a revista U, El Hijo de Urich inteiramente dedicada à Alan (pedidos ao editor, Oscar Palmer, pelo e-mail bovril@wanadoo-es);

  • Saiu também na Inglaterra o livro Pocket Essentials: Alan Moore, por Lance Parkin;

  • E Alan também é bom em desenho. Veja uma antiga HQ dele, The Embryo;

  • A longa entrevista (16 mil palavras) feita por David Kendall com Alan Moore, para a revista inglesa Edge foi republicada recentemente pela revista Towards 2012, do editor Gyrus;

  • O escritor especializado em Quadrinhos, Ray Mescallado, desenvolveu um extenso e profundo ensaio sobre Do Inferno;

  • O roteirista de Quadrinhos e RPG, J.M.Trevisan, traduziu e colocou on line o excelente artigo de Alan Moore Como Escrever para os Quadrinhos, publicado por The Comics Journal número 119. Perdi o site dele, mas o e-mail é [email protected];

  • O site italiano especializado Ultrazine, tem página dedicada ao grande Alan. Vale conferir!;

  • Jeff Gibson, escritor do site Bookforum.com, entrevistou com competência o nosso gênio.


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