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POEMAS DE FLORBELA ESPANCA - SELEÇÃO

A Mulher I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doa coração, sequer!

Sê forte corajoso, não fraquejes
Na lua; sê em Vénus sempre Marte
Sempre o mundo é vil e infame os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se as vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então os vis: "Olhem, vejam
É aquela a infame!" e apedrejam
A pobrezita, a triste, a desgraçada!

(Trocando Olhares, 1915 - 1917)

O Que Tu És 

És aquela que tudo te entristece,
Irrita e amargura, tudo humilha; 
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece,
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina, e aquece!

Mar morto sem marés nem ondas largas, 
A rastejar no chão, como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera...
AH! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada de Quimera!...

(Livro de Sóror Saudade - 1923)

Caravelas

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar Morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!...

(Livro de Sóror Saudade - 1923)

RENÚNCIA

A minha mocidade outrora eu pus 
No tranqüilo convento da Tristeza; 
Lá passa dias, noites, sempre presa, 
Olhos fechados, magras mãos em cruz... 

Lá fora, a Lua, Satanás, seduz! 
Desdobra-se em requintes de Beleza... 
É como um beijo ardente a Natureza... 
A minha cela é como um rio de luz... 

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada! 
Empalidece mais! E, resignada, 
Prende os teus braços a uma cruz maior! 

Gela ainda a mortalha que te encerra! 
Enche a boca de cinzas e de terra, 
Ó minha mocidade toda em flor! 

(Livro de Sóror Saudade - 1923)

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

(Livro de Sóror Saudade - 1923)

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

(Charneca em flor - 1931)

Versos de orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
- O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
- São os teus braços dentro dos meus braaços,
Via Láctea fechando o Infinito.

(Charneca em flor - 1931)

Rústica

Ser a moça a mais linda do povoado
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A benção do Senhor em cada filho

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.

(Charneca em flor - 1931)

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços... 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca... o eco dos teus passos... 
O teu riso de fonte... os teus abraços... 
Os teus beijos... a tua mão na minha... 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca... 
Quando os olhos se me cerram de desejo... 
E os meus braços se estendem para ti... 

(Livro de Sóror Saudade -1923)

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