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Fernando Pessoa - Obra Ortônima - Selecão

IMPRESSÕES DO CREPÚSCULO 
29-03-1913 

Pauis de roçarem ânsias pela minh'alma em ouro... 
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro 
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh'alma... 
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!... 
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado 
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado... 
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora! 
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora! 
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo 
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo... 
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade 
A hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade 
O meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer, 
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!... 
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se... 
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se... 
A sentinela é hirta - a lança que finca no chão 
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto... Dia chão... 
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns... 
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro... 
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens... 
Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro! 

Natal... Na província neva.

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Como a noite é longa !

Como a noite é longa ! 
Toda a noite é assim... 
Senta-te, ama, perto 
Do leito onde esperto. 
Vem p'r'ao pé de mim...

 
Amei tanta coisa... 
Hoje nada existe. 
Aqui ao pé da cama 
Canta-me, minha ama, 
Uma canção triste. 

Era uma princesa 
Que amou... Já não sei... 
Como estou esquecido ! 
Canta-me ao ouvido 
E adormecerei... 

Que é feito de tudo ?
Que fiz eu de mim? 
Deixa-me dormir, 
Dormir a sorrir 
E seja isto o fim. 


Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira, 
Julgando-se feliz talvez; 
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia 
De alegre e anônima viuvez, 

Ondula como um canto de ave 
No ar limpo como um limiar, 
E há curvas no enredo suave 
Do som que ela tem a cantar. 

Ouvi-la alegra e entristece, 
Na sua voz há o campo e a lida, 
E canta como se tivesse 
Mais razões pra cantar que a vida. 

Ah, canta, canta sem razão ! 
O que em mim sente 'stá pensando. 
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando ! 
Ah, poder ser tu, sendo eu ! 

Ter a tua alegre inconsciência, 
E a consciência disso ! Ó céu ! 
Ó campo ! Ó canção ! A ciência 
Pesa tanto e a vida é tão breve ! 

Entrai por mim dentro ! Tornai 
Minha alma a vossa sombra leve ! 
Depois, levando-me, passai ! 


Autopsicografia

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 
E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão, 
Esse comboio de corda 
Que se chama coração. 


O Menino da Sua Mãe

NO PLAINO abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -, 
Jaz morto, e arrefece. 

Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos. 

Tão jovem! Que jovem era! 
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe". 

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve. 
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve. 

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo. 

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe

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