O Crime do Padre Amaro - Eça de Queiróz »Voltar para Página Anterior
Excertos
“Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfêmias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquela paixão? Ao escândalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legitimo e sensato - ela na sua família, ele na sua paróquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amável; e ele poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excelência e das picadinhas da consciência! E a sua vida seria feliz. - Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ela! Tirado à sua existência aquele interesse das visitas à Rua da Misericórdia, os apertozinhos de mão, a esperança de delicias melhores - que lhe restava a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos úmidos da Sé! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por mês! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanças de cor - chalaça! Mangara com o senhor pároco!” (p.142)
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“A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura de seus dentes...
- Coitadinho, coitadinho ! dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota. (...)
(...) E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada rapidamente ganindo: - Adeusinho, adeusinho, pequenas !” (p. 49)- -
“- E
diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora. O vinho, no divino
sacrifício, deve ser branco ou tinto?
D. Josefa
parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso
Senhor.
- Emende a
menina, mugiu o cônego de dedo em riste para Amélia.” (p. 218)
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“O padre
Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas maneiras, mas a
habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem
passageiros, e como essas almas não estavam preparadas pela Extrema-Unção,
o demônio ali mesmo, zás, apoderava-se delas!
- É de
velhaco! rosnou o cônego com uma admiração secreta por aquela
manha tão hábil do Inimigo.”
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“e já antes de fazer os seus votos desfalecia no desejo de os quebrar. E em redor dele, sentia iguais rebeliões da natureza: os estudos, os jejuns, as penitências podiam domar o corpo, dar-lhe hábitos maquinais, mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como num ninho serpentes imperturbadas”.
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“de tal sorte que Deus aparecia-lhe como um ser que só sabe dar o sofrimento e a morte, e que é necessário abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, animando os padres. Por isso, se às vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitência no outro dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou a fizesse cair na escada.”
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“O Tio Cegonha contou-lhe que era o começo de uma Meditação feita por um frade seu amigo.
- Coitado, disse, teve bem o seu tormento!
Amélia quis logo saber a história; e sentando-se no mocho do piano, embrulhando-se no seu xale:
- Diga, Tio Cegonha, diga!
Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ela morrera no convento daquele amor infeliz; e ele, de dor e de saudade, fizera-se frade franciscano...” (...)
“Amélia todo o dia pensou naquela história. De noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade franciscano, na sombra do órgão da Sé de Évora. Via os seus olhos profundos reluzirem numa face encovada: e, longe, a freira pálida, nos seus hábitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor!” (p. 63) (...)
Depois via-o um pouco triste. Por quê? Não conhecia o seu passado; e lembrada do frade de Évora, pensou que ele se fizera padre por um desgosto de amor. Idealizou-o então: supunha-lhe uma natureza muito terna, parecia- lhe que da sua pessoa airosa e pálida se desprendia uma fascinação. (P. 95)
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"Estava agora habituado", dizia. E como não ceava, e àquela hora em jejum, com a frescura cortante do ar, já sentia apetite, engrolava depressa, monotonamente, as santas leituras da Epístola e dos Evangelhos. Por trás o sacristão, com os braços cruzados, passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando de revés para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito devota, que ele "trazia de olho" desde a Páscoa. Largas réstias de sol caiam das janelas laterais. Um vago aroma de junquilhos secos adocicava o ar”.
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“Mas pararam de repente: Natário adiante gritava com voz furiosa:
- Seu burro, você não vê? Sua besta!
Era à volta do atalho. Tropeçara com um velho que conduzia uma ovelha; ia caindo; e ameaçava-o com o punho fechado numa raiva avinhada.
- Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.
- Sua besta! berrava Natário com os olhos chamejantes. Que o racho!”- -
“Não lhe dê isso cuidado, meu caro amigo... Deus serve-se assim, não é a resmungar Padre-Nossos. Para ímpios não há caridade! A Inquisição atacava-os pelo fogo, não me parece mau atacá-los pela fome. Tudo é permitido a quem serve uma causa santa ... Que se não metesse comigo!”
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Lamentava não poder acender as fogueiras da Inquisição! - Assim aquele inofensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colérica duma paixão contrariada, ambições grandiosas de tirania católica: - porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento místico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o subdiácono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser papa: não há seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura à caverna no deserto em que S. Jerônimo, olhando o céu estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça, como um abundante rio de leite: e o abade pançudo que à tardinha, à varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistintos restos dum Torquemada.
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(p.209) - Se estou a falar sério!? Essa é forte! Pois eu havia de gracejar sobre um caso de excomunhão, minha senhora? Pergunte aí ao senhor cônego se eu estou a gracejar! (...)
Todos os olhos se voltaram para o cônego, essa inesgotável fonte de saber eclesiástico.
- Esta é a doutrina, concluiu dizendo; mas a mim parece-me melhor não se fazer disso espalhafato...
D. Josefa Dias acudiu logo:
- Mas nós é que não podemos arriscar a nossa alma a encontrar aqui por cima das mesas coisas excomungadas.
- É destruir! exclamou D. Maria da Assunção. É queimar, é queimar!
D. Joaquina Gansoso arrastara Amélia para o vão da janela, perguntando-lhe se tinha outros objetos pertencentes ao homem. Amélia, atarantada, confessou que tinhas algures, não sabia onde, um lenço, uma luva desirmanada, e uma cigarreira de palhinha.
- É para o fogo, é para o fogo! gritava a Gansoso excitada.
(p.210) E as senhoras, com alarido, arremeteram para a cozinha. A mesmas S. Joaneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalizar a fogueira.
- Os três padres então, sós, olharam-se - e riram.
- As mulheres têm o diabo no corpo, disse o cônego filosoficamente.
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Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho - que o achou "uma catilinária atroz". Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo: ele reconhecia, em geral, a necessidade da religião entre as massas; sua esposa, a bela D. Cândida, era além disso de inclinações devotas, e começava a dizer que aquela guerra do jornal ao clero lhe causava grandes escrúpulos: e o doutor Godinho não queria provocar ódios desnecessários entre os padres, prevendo que o seu amor da paz doméstica, os interesses da ordem e o seu dever de cristão o forçariam bem cedo a uma reconciliação, - "muito contra as suas opiniões, mas..."
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(p. 177) Tomou uma
grande atitude na poltrona, repetiu com força:
- Uma péssima ação
social! Aonde nos querem os senhores levar com os seus materialismo, os
seus ateísmos? Quando tiverem dado cabo da religião de nossos pais, que têm
os senhores para a substituir? Que têm? Mostre lá!
A expressão embaraçada
de João Eduardo (que não tinha ali, para a mostrar, um religião que
substituísse a de nossos pais) fez triunfar o doutor.