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Poemas de Ricardo Reis (Seleção)

1.
Mestre, são plácidas 
Todas as horas 
Que nós perdemos, 
Se no perdê-las, 
Qual numa jarra, 
Nós pomos flores. 

Não há tristezas 
Nem alegrias 
Na nossa vida. 
Assim saibamos, 
Sábios incautos, 
Não a viver, 

Mas decorrê-la,
Tranqüilos, plácidos, 
Lendo as crianças 
Por nossas mestras, 
E os olhos cheios 
De Natureza ... 

À beira-rio, 
À beira-estrada, 
Conforme calha, 
Sempre no mesmo 
Leve descanso 
De estar vivendo. 

O tempo passa,
Não nos diz nada. 
Envelhecemos. 
Saibamos, quase 
Maliciosos, 
Sentir-nos ir. 

Não vale a pena
Fazer um gesto. 
Não se resiste 
Ao deus atroz 
Que os próprios filhos 
Devora sempre. 

Colhamos flores.
Molhemos leves 
As nossas mãos 
Nos rios calmos, 
Para aprendermos 
Calma também. 

Girassóis sempre
Fitando o sol, 
Da vida iremos 
Tranqüilos,tendo 
Nem o remorso 
De ter vivido. 



2.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. 
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos 
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. 
(Enlacemos as mãos.) 

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida 
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, 
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, 
Mais longe que os deuses. 

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. 
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio. 
Mais vale saber passar silenciosamente 
E sem desassosegos grandes. 

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, 
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, 
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, 
E sempre iria ter ao mar. 

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, 
Se quise'ssemos, trocar beijos e abrac,os e carícias, 
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro 
Ouvindo correr o rio e vendo-o. 

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as 
No colo, e que o seu perfume suavize o momento - 
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada, 
Pagãos inocentes da decadência. 

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois 
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, 
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos 
Nem fomos mais do que crianças. 

E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio, 
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. 
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio, 
Pagã triste e com flores no regaço. 



3. 
Vós que, crentes em Cristos e Marias, 
Turvais da minha fonte as claras águas 
Só para me dizerdes 
Que há águas de outra espécie 

Banhando prados com melhores horas 
Dessas outras regiões pra que falar-me 
Se estas águas e prados 
São de aqui e me agradam? 

Esta realidade os deuses deram 
E para bem real a deram externa. 
Que serão os meus sonhos 
Mais que a obra dos deuses? 

Deixai-me a Realidade do momento 
E os meus deuses tranqüilos e imediatos 
Que não moram no Vago 
Mas nos campos e rios. 

Deixai-me a vida ir-se pagãmente 
Acompanhada pelas avenas tênues 
Com que os juncos das margens 
Se confessam de Pã. 

Vivei nos vossos sonhos e deixai-me 
O altar imortal onde é meu culto 
E a visível presença 
os meus próximos deuses. 

Inúteis procos do melhor que a vida, 
Deixai a vida aos crentes mais antigos 
Que a Cristo e a sua cruz 
E Maria chorando. 

Ceres, dona dos campos, me console 
E Apolo e Vênus, e Urano antigo 
E os trovões, com o interesse 
De irem da mão de Jove. 

4. Não a Ti

Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.
Em ti como nos outros creio deuses mais velhos. 
Só te tenho por não mais nem menos
Do que eles, mas mais novo apenas.

Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço,
Que te querem acima dos outros teus iguais deuses. 
Quero-te onde tu stás, nem mais alto
Nem mais baixo que eles, tu apenas.

Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia 
Como tu, um a mais no Panteão e no culto,
Nada mais, nem mais alto nem mais puro
Porque para tudo havia deuses, menos tu.

Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida
É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,
E só sendo múltiplos como eles
'Staremos com a verdade e sós.

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