Guerra do Contestado

Conflito entre tropas republicanas e caboclos monarquistas ocorrido no Sul do Brasil entre 1912 e 1915. O Contestado. O Contestado foi o nome dado à área que incluía a região de Irani e os campos de Palmas, entre os rios Iguaçu e Uruguai. Essa região décadas antes fora habitada por indígenas, entre eles os botocudos, um ramo dos tapuias. Da mistura racial, formou-se uma população cabocla que passou a ser o grupo predominante na região. Essa população vivia à margem do desenvolvimento, quase abandonada pelas autoridades governamentais, mais interessadas na mão-de-obra imigrante. Em 1853, logo após ter sido criada, a Província do Paraná reivindicou o território, mas, em 1904, teve sentença desfavorável e o território foi declarado pertencente a Santa Catarina. Em 1909, houve outra sentença favorável a Santa Catarina e outra contestação do Paraná, donde deriva o nome dado ao território. Mesmo após decisão do Supremo Tribunal Federal de novo a favor de Santa Catarina, o Paraná continuou resistindo. Em 1916, o presidente do Brasil Wenceslau Brás conseguiu firmar um acordo entre os dois estados. A Guerra. Por volta de 1840, um pregador leigo conhecido por João Maria, peregrinou pela região pregando a justiça e as virtudes cristãs, e às vezes profetizando. Respeitado, era chamado São João Maria por parte da população. Um de seus seguidores foi o praça da polícia paranaense, Miguel Lucena de Boaventura, que viria a ser mais conhecido como José Maria. Em 1912, apareceu na região de Campos Novos, na área do conflito, trabalhando como curandeiro. Entre as várias pessoas a quem tratava, estavam muitos daqueles expulsos pela construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Esta obra fora ganha pela empresa estadunidense Brazil Railway, que pelo acordo com o governo recebera também 15 quilômetros de terra em cada margem do trilho da estrada. Isso implicou na expulsão de muitos caboclos que ali viviam. Para piorar, estes praticamente não eram contratados para trabalhar na obra, pois a empresa estadunidense preferia utilizar a mão-de-obra imigrante. José Maria tornou-se uma liderança religiosa entre os habitantes da região. As elites republicanas poucos anos antes haviam massacrado milhares de nordestinos para por fim ao movimento de Canudos, que guardava com o movimento do Contestado o caráter monarquista, a religiosidade, a presença de liderança carismática, a concentração dos seguidores em núcleos populacionais, e o ser formado em sua maioria por populações racialmente excluídas do poder. Desprezados pelos donos da república e descrentes em seus políticos, o povo reagia resgatando sua auto-estima no discurso estável de sua fé cristã. Um dos primeiros locais a ser tomado pelos republicanos foi o povoado catarinense de Taquaruçu, no município de Curitibanos, em 1912, por ordem do governador Vidal Ramos, de Santa Catarina. Não chegou a haver resistência, pois José Maria seguiu junto com quarenta devotos a Irani, à época sob administração do Paraná. As autoridades paranaenses viram isso como uma estratégia do governo catarinense para forçar uma intervenção federal que findasse na entrega das terras à Santa Catarina, que já as havia ganho judicialmente. Ameaçado pelo coronel João Gualberto Gomes de Sá, chefe do Regimento de Segurança do Paraná, José Maria conseguiu o prazo de três dias para retirar-se do local. Dois dias depois, porém, o coronel atacou, morrendo quase todo o regimento, inclusive o próprio coronel e também José Maria. Parecia que o movimento findara, mas um ano depois um menina de 11 anos, Teodora, afirmou ter recebido em sonhos ordens de José Maria para que seus seguidores voltassem a Taquaruçu, onde deveriam aguardar por ele que voltaria junto com o 'exército encantado' de Dom Sebastião. Segundo o avô de Teodora, o patriarca Eusébio Ferreira dos Santos, também seguidor de José Maria, este só se apresentaria a meninas virgens. Construíram em Taquaruçu uma "nova Jerusalém", sob os ensinamentos de João Maria e de José Maria. Duas vezes por dia reuniam-se na praça do povoado, onde rezavam, trabalhavam e eram educados a honrar a monarquia. Isso alarmou as elites republicanas e seus jornais, que temiam a "reedição do fanatismo de Canudos". A menina Teodora só ficou duas semanas comandando em Taquaruçu, sendo substituída por seu tio de 17 anos, Manoel, apoiado por Querubina, mulher de Eusébio. Manoel ordenou que fosse criada a guarda armada dos Pares de França, ou Pares de São Sebastião, inspirada nos textos da obra História de Carlos Magno e os Doze Pares da França. Consta que esta obra costumava ser lida na Festa do Bom Jesus em Taquaruçu, um tradicional evento da localidade. Manoel, porém, em apenas dez dias de liderança estava levando uma surra dos fiéis que não acreditaram em seu relato de uma visão em que José Maria ordenava que ele dormisse com duas virgens. No Natal de 1913, o povoado de Taquaruçu é atacada pelo governo e vence, liderado por Joaquim, de 11 anos. Este também era neto de Eusébio. Sob ordem de Joaquim, mudam para Caraguatá, onde poderiam preparar-se melhor para o próximo ataque republicano. Antes que isto se realizasse completamente, o governo atacou outra vez e arrasou Taquaruçu. Em Caraguatá, a liderança ficou com Maria Rosa, de 15 anos, que comandou com sucesso uma batalha contra forças do exército brasileiro somadas às da polícia de Santa Catarina, em março de 1914. No mês seguinte, a população migrou para Bom Sossego, para fugir de uma epidemia. Apesar da perseguição, o movimento crescia em número, e já possuía núcleos em várias cidades. Surgiram os "comandantes de brigas", comandantes experientes estabelecidos pelo novo patriarca, Elias Antônio de Morais. Este era major da Guarda Nacional e fora juiz de paz em Perdizes. Com seu apoio o Par de França José Alonso assumiu o comando geral. Até sua morte, em novembro de 1914, num ataque à estação de Rio das Antas, da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, o movimento chegara à sua maior expansão territorial, com cerca de oito mil combatentes. Elias indicou como novo comandante geral o Par de França Adeodato Ramos, que ficou até dezembro de 1915. Em maio deste ano o exército deixou a luta para os coronéis da região, que contrataram moradores da localidade, que passaram a perseguir e matar sistematicamente os caboclos - a brutalidade deste período recebeu o sugestivo nome de 'açougue'. As forças do governo não poupavam nem as crianças. Em dezembro de 1915, São Pedro, o último ponto de resistência, é conquistado pelo governo.  

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