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Brasil Holandês |
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Brasil Holandês é a expressão usada para os territórios do Brasil que viveram sob domínio holandês num período que vai de 1624 a 1661. As causas da invasão holandesa estão ligadas diretamente à exploração da escravidão negra, à produção e comércio do açúcar e a conflitos políticos e religiosos na Europa. Conflitos na Europa. Entre 1477 e 1490, a Inquisição instalou-se na Espanha, governada por Fernando de Aragão e Isabel de Castela, conhecidos como Reis Católicos. Uma das primeiras conseqüências da ação da Inquisição na Espanha foi a expulsão dos judeus do país, em 1492. Estes, que eram uma parte intelectual e economicamente influente da população, buscaram refúgio em Portugal, mas foram também expulsos deste, em 1497, por exigência dos reis da Espanha, que impuseram esta condição para cederem a mão de sua filha mais velha, Isabel, ao rei de Portugal, Dom Manuel I, o Venturoso. Este reinou de 1495 a 1521, período onde se dá a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Os judeus que se recusaram a converter-se ao Catolicismo, tornando-se "cristãos-novos", migraram para outros locais da Europa. Um de seus principais refúgios foi a Holanda, para onde levaram, além de capital, sua experiência e estrutura comercial e financeira. Em 1496, Joana, filha dos Reis Católicos, casou-se com Filipe, filho do Imperador Maximiliano I e de Maria de Borgonha, e, por herança desta, governante dos Países Baixos, onde se situa a Holanda. Em 1517, as coroas de Aragão e de Castela são unificadas pelo filho de Joana e Filipe, que passa a ser chamado Carlos I de Espanha e, dois anos depois, Carlos V, após ser coroado Imperador do Sacro Império. Em 1517, também inicia-se uma série de movimentos religiosos de contestação ao Catolicismo Romano que em conjunto são denominados de Reforma Protestante. Os principais grupos protestantes organizados neste período foram os luteranos, os anglicanos, os calvinistas e os batistas. O Calvinismo teve grande crescimento entre os holandeses e veio a se tornar um fator de conflito com o catolicismo espanhol. Em 1536, a Inquisição é introduzida em Portugal. Em 1556, Carlos V abdica de seu reinado como rei de Castela e de Aragão em favor de Filipe II, entregando também a ele os Países Baixos. Filipe II deixou em Bruxelas, nos Países Baixos, sua meia-irmã Margarida de Parma. Descontentes com sua administração, e hostis a governos católicos, lideranças como Guilherme de Orange e o conde de Egmont levantaram-se contra o domínio espanhol. Como reação a tributos e a investidas da Inquisição, igrejas católicas começaram a ser depredadas pela população. Amsterdã e Utreque tornaram-se locais de refúgio dos perseguidos pela repressão espanhola. Este conflito levou a significativo endividamento do governo espanhol com financiadores internacionais, chegando à bancarrota em 1575. Em 1579, a Holanda e a Zelândia, sob o comando de Guilherme de Orange, formaram a União de Utreque, conseguindo uma instável independência. Em 1578, Dom Sebastião, o jovem rei de Portugal, desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, região da África onde combatia muçulmanos, e deixou vago o trono português. Filipe II, da Espanha, que era primo de Dom Sebastião, reclamou o trono. Porém, o cardeal Dom Henrique, tio de Dom Sebastião e de Filipe II, assumiu a coroa. Forças espanholas, então, invadem Portugal, depõem Dom Henrique, e Filipe II assume o trono, encerrando a dinastia de Avis. Em 1580, Filipe II proclama a União Ibérica, unindo Portugal e Espanha num único reino. Esta união irá durar até 1640, ou seja, sessenta anos. Os holandeses no Brasil. Filipe II, proibiu a venda de açúcar brasileiro para os holandeses, que até então o recebiam de Portugal. Também proibiu que os holandeses fizessem uso de qualquer porto português em qualquer lugar do mundo. Os holandeses reagiram organizando navios piratas com o fim de atacar os navios espanhóis e portugueses. Criaram, também, a Companhia das Índias Orientais, encarregada das atividades comerciais na Malásia e nas Ilhas Molucas, na Ásia, e a Companhia das Índias Ocidentais, que se encarregaria do comércio com a América. Outra decisão dos holandeses foi a de conquistar pela força todos os locais ligados à produção de açúcar, dos fornecedores de escravos negros na África aos engenhos no Brasil onde estes eram empregados. Conquistaram Angola e a Cidade do Cabo, na atual África do Sul, que se transformaram em fornecedores de escravos. Em 1624, a Companhia das Índias Ocidentais ataca Salvador, na Bahia. A resistência foi feita pelos índios, negros e brancos pobres incitados pelo bispo Dom Marcos Teixeira a combater os "protestantes infiéis". Em 1630, os holandeses voltam, desta vez atacando Pernambuco, o principal centro de produção açucareira do Brasil há época. Contando com a ajuda do português Domingos Fernandes Calabar, enfrentaram os colonos e foram bem sucedidos. Em 1637, o Conde Maurício de Nassau passa a administrar a colônia. Os holandeses oferecem empréstimos aos fazendeiros para seus gastos com maquinarias, plantações e com a aquisição de escravos. Nassau também deu liberdade religiosa aos brancos, sendo livre a construção de igrejas católicas, protestantes e de sinagogas para a grande população judia da colônia holandesa. Os colonos judeus eram constituídos por grandes intelectuais, comerciantes, mercadores de escravos e financiadores, formados tanto de holandeses quanto de judeus luso-brasileiros que se refugiaram na colônia flamenga em busca da liberdade religiosa não existente nos territórios brasileiros sob domínio português. Boa parte da produção açucareira dos senhores de engenho era remetida por comerciantes judeus da colônia à seus pares na Holanda, onde o açúcar era refinado e distribuído pela Europa. O açúcar servia aos senhores de engenho como objeto para pagamento de empréstimos e de escravos africanos, uma vez que os fazendeiros normalmente não possuíam dinheiro vivo o suficiente para arcar com suas dívidas. Os africanos que sobreviviam à viagem, onde eram amontoados de tal forma que sua liberdade de movimentação era mínima, eram adquiridos normalmente por revendedores tão logo eram desembarcados na colônia holandesa. Um dos locais de revenda era a Rua dos Judeus, onde ficava o Mercado de Escravos e a Sinagoga Kahar Zur Israel (Rochedo de Israel), a primeira sinagoga das Américas. Como muitos africanos morriam durante a viagem, e em virtude dos tributos e juros de revenda aplicados sobre a "peça", o preço de um escravo costumava ser elevado. Isso garantia enormes lucros aos mercadores, à Companhia das Índias, e à metrópole. Pouco depois de haverem sido adquiridos, os negros eram logo marcados a ferro com o símbolo de seu proprietário. Sendo uma área onde as normas portuguesas e da Igreja Católica, que protegiam os indígenas da escravidão, não vigoravam, os territórios holandeses no Brasil também expuseram estes à escravidão. Durante sua permanência no Brasil, Nassau construiu muitas obras públicas. Cientistas e artistas europeus foram trazidos à colônia. A produção açucareira aumentou. Em 1640, Portugal, com a ajuda da Inglaterra, conseguiu independer-se da Espanha, pondo fim à União Ibérica. Em 1641, os holandeses invadem Angola e lá permanecem até 1648; neste período milhares de negros escravizados são enviados pelos mercadores holandeses para serem revendidos aos senhores de engenho do Brasil (mais de dois milhões de angolanos foram traficados para fora da África durante o período em que este país esteve sob dominação européia). Com o fim da União Ibérica, os portugueses, então, fizeram um acordo com os holandeses, permitindo que permanecessem no Brasil até 1650. A contrapartida dos holandeses seria a de continuar a financiar a produção de açúcar. Nesta época, a Holanda continuava a lutar buscando manter sua independência da Espanha. A luta era tanto motivada pelas diferenças religiosas quanto econômicas (o catolicismo da nobreza feudal espanhola contra o protestantismo e o judaísmo da burguesia holandesa). Esta luta durou de 1618 a 1648, e ficou conhecida como a Guerra dos Trinta Anos. Este conflito minou a economia holandesa. Na tentativa de manter-se, a Holanda buscou intensificar a produção açucareira e a coleta de impostos. Os juros dos empréstimos foram aumentados e os prazos de pagamento dados aos colonos brasileiros não mais eram prorrogados. Isso colaborou para minar a imagem de Nassau diante dos colonos. Este chegou a advertir a metrópole sobre o perigo de insurreições que acompanhava esta política. Em 1644, Nassau deixa o Brasil, sendo substituído por uma junta composta por três holandeses que passa a seguir fielmente as recomendações da metrópole. Os colonos reagem à nova política. Em 1648 e 1649, ocorrem as Batalhas de Guararapes, destacando-se na luta contra os holandeses o negro Henrique Dias e o índio potiguar Filipe Camarão. Do lado dos holandeses, o também potiguar Pedro Poti fracassou em sua tentativa de convencer Filipe Camarão a mudar de lado. Em 1654, a Holanda aceita a derrota, assinando a Rendição da Campina da Taborda. Muitos holandeses fugiram para Nova Amsterdã, atual Nova Iorque, entre eles aqueles que viriam a ser os primeiros judeus dos EUA. Dois anos antes, fora fundada pela Companhia das Índias Orientais, a Cidade do Cabo, na África do Sul, contra a resistência dos khoi khoi. Os colonos holandeses que aí se firmam viriam a se tornar os africâneres; viriam a dominar o país e, no séc. XX, imporiam sobre os negros e outros grupos um sistema de separação racial conhecido como apartheid. Em 1661, a Holanda assina a Paz de Haia, reconhecendo o domínio português sobre o Nordeste do Brasil e sobre Angola, em troca de possessões portuguesas no Oriente e de uma indenização de quatro milhões de cruzados, a moeda de Portugal. Leão Alves |
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Leia também: DINES, Alberto; MORENO-CARVALHO, Francisco; FALBEL, Nachman (coord.). Fênix ou o eterno retorno: 460 anos da presença judaica em Pernambuco. Brasília: Ministério da Cultura (Programa Monumento), 2001. VAIL, John. Winnie e Nelson Mandela (Os Grandes Líderes). São Paulo: Nova Cultural, 1988. VINCENT, Mary e STRADLING, R. A. Espanha e Portugal. Madri (Espanha): Del Prado, 1997. 2 vol. |
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