Ajuricaba

(séc. XVIII)

Tuxaua manaó, líder de uma das maiores guerras indígenas de resistência na Amazônia. A provável origem do nome vem das palavras ajuri (ajuntamento) e caba (caba, marimbondo), ou seja, "ajuntamento de cabas". A ocupação lusa na Amazônia tinha como uma de suas estratégias deslocar populações indígenas para determinadas localidades onde tornava-se mais fácil aos padres catequizá-los e aos colonos utilizar sua mão-de-obra - eram os chamados descimentos. Na absoluta maioria das vezes esses deslocamentos eram contra a vontade e os indígenas não ficavam muito motivados em abandonar suas localidades para trabalhar segundo os hábitos e as finalidades dos portugueses, muito menos em trabalhos forçados. Também havia resistência em trocar sua fé pela dos cristãos, pregada principalmente pelos religiosos da Companhia de Jesus. Tudo isso propiciava o uso da intimidação violenta e a resposta também violenta dos indígenas. Numa área que envolvia localidades onde hoje ficam as cidades de Manaus e de Manacapuru, no Amazonas, ficavam os índios manaós, um grupo aruaque. Com excepcional capacidade de liderança, Ajuricaba conseguiu congregar diversas tribos locais, assaltando aquelas sobre domínio dos portugueses. Organizou um sistema de vigilância que dificultava o deslocamento dos portugueses pelos rios e lagos. A área dos conflitos ia do baixo Rio Negro ao Rio Branco. O Governo do Grão-Pará, subordinado diretamente a Lisboa, era sediado em Belém e a Capitania do Rio Negro ficava sob sua jurisdição. As enormes distâncias entre essas localidades e o centralismo da administração de Lisboa dificultava respostas rápidas a Ajuricaba, que soube explorar essa deficiência. Os conflitos prolongaram-se de 1723 a 1727. Com exceção de Manaus, sob o poder de uma guarnição portuguesa, toda a vizinhança era governada pelo tuxaua. Finalmente Belém consegue organizar uma grande investida contra Ajuricaba, liderada por Belchior Mendes de Morais. Segundo Aguinaldo N. Figueiredo, houve "300 malocas incendiadas, 15.000 índios chacinados, incluindo velhos, mulheres e crianças, além da morte duvidosa do famoso chefe dos Manaó e dos principais das tribos aliadas a ele" (História geral do Amazonas, p. 41). Sobre a captura de Ajuricaba, escreveu Arthur C. F. Reis, "A prisão foi efetuada facilmente? A parte oficial guarda silêncio nesse particular. A lenda informa que houve choque violento. De parte a parte, muito heroísmo. Os portugueses a certa altura, depois de batidos em quatro investidas, já principiavam a desanimar, quando alguns soldados, completando o cerco atacaram Ajuricaba pela retaguarda, conseguindo vencê-lo. Adianta a lenda que, nessa ocasião, Ajuricaba, perdendo o filho, tão bravo quanto ele, o jovem Cucunaça, lança-se entre os inimigos infringindo-lhes várias perdas, sendo afinal preso e posto a ferro. Transportado para Belém, depois de procedida nova devassa, onde se amontoaram várias provas para o libelo acusatório ao grande guerreiro, em caminho, antes de chegar à embocadura do Rio Negro, tentou libertar-se e aos companheiros. Sublevou, mesmo em grilhões, a gentilidade das embarcações, ameaçando seriamente a tropa de Paes do Amaral e Belchior. Dominado o levante, depois de muito sangue vertido, para não sujeitar-se às humilhações do inimigo ufano da vitória, lança-se com outro principal às águas do oceano fluvial que tanto amava, perecendo afogado, com grande satisfação dos conquistadores, livres de vez das preocupações de tê-lo sob a mais rigorosa vigilância até Belém, confessou o governador Maia da Gama" (História do Amazonas, p. 82). Além de Ajuricaba, foram enviados para Belém mais de dois mil indígenas para serem vendidos como escravos. Ribeiro de Sampaio afirmou que Ajuricaba teria ligações com os holandeses, o que foi negado por Joaquim Nabuco. Von Martius teria encontrado índios Ere-Manaó em 1819 no alto Rio Negro; nunca mais foram avistados. Os nascidos em Manaus adotam a forma indígena manauara para identificarem sua naturalidade.   

Leia também:

BITENCOURT, Agnello. Dicionário amazonense de biografias - vultos do passado. Rio de Janeiro: Conquista, 1973.

FIGUEIREDO, Aguinaldo Nascimento. História geral do Amazonas. 2. ed. Manaus: ed. do autor, 2002.

REIS, Arthur Cezar Ferreira. História do Amazonas. Manaus, 1931.

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