|
Montesquieu |
|
|
A ESCRAVIDÃO DOS NEGROS
Se
eu tivesse que defender o direito que tivemos de escravizar os negros,
eis o que diria:
Tendo
os povos da Europa exterminado os da América, tiveram que escravizar os
da África, a fim de utilizá-los no desbravamento de tantas terras.
O
açúcar seria muito caro se não se cultivasse a planta que o produz por
intermédio de escravos.
Aqueles
a que nos referimos são negros da cabeça aos pés e têm o nariz tão
achatado, que é quase impossível lamentá-los.
Não
podemos aceitar a idéia de que Deus, que é um ser muito sábio, tenha
introduzido uma alma, sobretudo uma alma boa, num corpo completamente
negro.
É
tão natural considerar que é a cor que constitui a essência da
humanidade, que os povos da Ásia, que fazem eunucos, privam sempre os
negros da relação que eles têm conosco de uma maneira mais acentuada.
Pode-se
julgar da cor da pele pela dos cabelos, que, entre os egípcios, os
melhores filósofos do mundo, era de tão grande importância, que
mandavam matar todos os homens ruivos que lhes caíam nas mãos.
Uma
prova de que os negros não têm senso comum é que dão mais importância
a um colar de vidro do que ao ouro, fato que, entre as nações
policiadas, é de tão grande conseqüência.
É
impossível supormos que tais gentes sejam homens, pois, se os considerássemos
homens, começaríamos a acreditar que nós próprios não somos cristãos.
Os
espíritos mesquinhos exageram muito a injustiça que se faz aos
africanos, pois, se ela fosse tal como eles dizem, não teria ocorrido aos
príncipes da Europa, que estabelecem entre eles tantas convenções inúteis,
fazer uma delas em favor da misericórdia e da piedade?
Montesquieu, Do Espírito das Leis, Livro XV, cap.1 (Os Pensadores). Tradução Fernando Henrique Cardoso. São Paulo: Abril Cultural, 1979. |
|
Biografia de MONTESQUIEU |
| . |
|