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Gilberto Freyre |
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Judeus: influências culturais sobre luso-brasileiros |
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Tanto
quanto do contato com os mouros, resultaram da convivência com os judeus
traços inconfundíveis sobre os portugueses colonizadores do Brasil.
Sobre sua vida econômica, social e política. Sobre seu caráter. Influência
que agiu no mesmo sentido deseuropeizante que a moura. As relações dos
portugueses com os judeus, exatamente como as relações com os mouros,
quando se avermelharam em conflito, a mística de que se revestiram não
foi, como em grande parte da Europa, a de pureza de raça, mas a de pureza
de fé. Publicistas que hoje pretendem interpretar a história étnica e
política de Portugal à européia e filiar os conflitos com os judeus a
ódios de raça acabam contradizendo-se. É assim que Mário Sáa, depois
do agitar essa tese e defendê-la com ardor e até brilho de panfletário,
termina confessando: “por toda parte têm os judeus o conhecimento de
serem judeus; em Portugal não o têm. Atravessaram as idades sob a
designação de cristãos-novos, e, há pouca mais de cem anos, com o
decreto pombalino que abolia a designação infamada, e com a perda da
unidade religiosa, se foram de si próprios desmemoriando.”71
Em essência
o problema do judeu em Portugal foi sempre um problema econômico criado
pela presença irritante de uma poderosa máquina de sucção operando
sobre a maioria do povo, em proveito não só da minoria israelita como
dos grandes interesses plutocráticos. Interesses de reis, de grandes
senhores e de ordens religiosas. Técnicos da usura, tais se tornaram os
judeus em quase toda parte por um processo de especialização quase biológica
que lhes parece ter aguçado o perfil no de ave de rapina, a mímica em
constantes gestas de aquisição e de posse, as mãos em garras incapazes
de semear e de criar. Capazes só de amealhar.
Circunstâncias
históricas assim conformaram os judeus. Max Weber atribui o
desenvolvimento dos judeus em povo comercial a determinações ritualistas
proibindo-lhes, depois do exílio, de se fixarem em qualquer terra e,
portanto, na agricultura. E salienta-lhes o dualismo de ética comercial
permitindo-lhes duas atitudes: uma para com os correligionários; outra
para com os estranhos.72
Contra semelhante exclusivismo era natural que se
levantassem ódios econômicos. Em virtude daquela ética ou moralidade,
prestaram-se os judeus em Portugal aos mais antipáticos papéis na
exploração dos pequenos pelos grandes. Por aí se explica que tivessem
gozado da proteção dos reis e dos grandes proprietários e, à sombra
dessa proteção, prosperado em grandes plutocratas e capitalistas .
Concentrando-se nas cidades e nos portos marítimos, concorreram para a
vitória da burguesia sobre a grande propriedade territorial, aliada mais
à Igreja do que aos reis. Mas é interessante observar que mesmo a grande
propriedade agrícola , quando enfraquecida pela política marítima e
antifeudal dos reis, não hesitou em buscar forças que a reanimassem na
plutocracia israelita. Nos dotes das judias ricas. O sangue da melhor
nobreza em Portugal mesclou-se com a plutocracia hebréia pelo casamento
de fidalgos ameaçados de ruína com filhas de agiotas ricos. É o que
explica terem judeus ilustres, já aristocratizados por ligações com a
nobreza, tomado o partido, essencialmente aristocrático, da Rainha Dona
Leonor, contra o da plebe e da burguesia, na sucessão del-Rei Dom
Fernando.
Varnhagen
escreve que a agiotagem conseguira monopolizar na Espanha e em Portugal
os “suores e os
trabalhos” de toda a indústria do lavrador, do armador e até a renda
do Estado”. E acrescenta: “o rápido giro de fundos dado pelas letras
de câmbio, a prontidão com que se passavam grandes créditos de Lisboa
para Sevilha, para a feira de Medina, para Gênova, para Flandres, deu aos
desta classe, ajudados pelos estabelecimentos dos correios, de que
souberam tirar partido, tal superioridade nos negócios que com eles ninguém
podia competir. Às vezes acudiam nas urgências do Estado e o socorro era
reputado um grande serviço e recompensado como tal. Outras vezes era o
herdeiro de um grande nome e representante de muitos heróis, que para
acomodar-se ao luxo da época, não desdenhava aliar-se com a neta do saião
convertido, cujo descendente se fizera rico tratante, como então se
dizia, sem que o vocábulo se tomasse em mau sentido, como as obras deles
tratantes ou tratadores vieram a fazer que se tomasse”.73
Vê-se que, com
relação aos judeus, como com relação aos mouros, foi grande a
mobilidade em sentido vertical, confundindo-se no casamento origens étnicas
diversas.
Constituíram-se
os judeus em Portugal em grande força e sutil influência pelo comércio,
pela agiotagem, pelo exercício de altos cargos técnicos na administração,
pelas ligações de sangue com a velha nobreza guerreira e territorial,
pela superioridade de sua cultura intelectual e científica. Especialmente
dos médicos - rivais poderosos dos padres na influência sobre as famílias
e sobre os reis. O rumo burguês e cosmopolita tão precocemente tomado
pela monarquia portuguesa, contra as primeiras tendências agrárias e
guerreiras, cavou-o mais fundo que qualquer outra influência a dos
interesses econômicos dos judeus, concentrados estrategicamente, e por
ancestral horror dos “homens de nação” à agricultura, nas cidades
marítimas; e daí, em fácil e permanente contato com centros
internacionais de finança judia.
Os
reis de Portugal é evidente que não protegeram aos judeus pelos seus
belos olhos orientais mas interesseiramente fazendo-os concorrer com
largas taxas e impostos para a opulência real e do Estado. É digno de
nota o seguinte: que a marinha mercante portuguesa desenvolveu-se em
grande parte graças a impostos especiais pagos pelos judeus por todo
navio construído e lançado no mar. De modo que da prosperidade israelita
aproveitaram-se os reis e o Estado para enriquecerem. Na prosperidade dos
judeus baseou-se o imperialismo português para expandir-se. Chamberlain salienta que os judeus desde o começo do período visigótico souberam impor-se entre os povos peninsulares como negociantes de escravos e credores de dinheiro. De modo que para o pendor português para viver de escravos parece ter concorrido o sefardim. Inimigo do trabalho manual, o judeu desde remotos tempos inclinou-se à escravidão. Diz Chamberlain que Isaías insinua a idéia de que os estrangeiros deveriam ser os lavradores e os vinhateiros dos hebreus*.74 E o certo é que na Península muitos dos judeus mais longínquos de que se tem notícia foram donos de escravos cristãos e possuíram concubinas cristãs.75 Parece terem mais tarde estendido sua especialização econômica ao comércio de gêneros alimentícios: "peixe seco e mais cousas", dirá um memorial de 1602 acusando-os de exploradores "do povo miúdo que se sustenta de peixe seco". 76 Em 1589 fora à Mesa de Consciência e Ordem, por consulta del-Rei, o problema dos cristãos-novos estarem fazendo também monopólio dos ofícios de médico e boticário; bem assim do reino estar se enchendo de bacharéis.77 Um e outro excesso resultado, ao que nos parece, do fato dos cristãos-novos virem procurando ascender na escala social servindo-se de suas tradições sefardínicas de intelectualismo. De sua superioridade, em traquejo intelectual, sobre os rudes filhos da terra. Pode-se atribuir à influência israelita muito do mercantilismo no caráter e nas tendências do português: mas também é justo que lhe atribuamos o excesso oposto: o bacharelismo. O legalismo. O misticismo jurídico. O próprio anel no dedo, com rubi ou esmeralda, do bacharel ou do doutor brasileiro, parece-nos remiscência oriental, de sabor israelita. Outra reminiscência sefardínica: a mania dos óculos e do pincenê - usados também como sinal de sabedoria ou de requinte intelectual e científico. O Abade de la Caille, que esteve no Rio de Janeiro em 1751,diz ter visto tudo o que era doutor ou bacharel em Teologia, Direito ou Medicina de óculos no nariz "pour se faire respecter des passans".78 E a mania de sermos todos doutores em Portugal e sobretudo no Brasil - até os guarda-livros bacharéis comércio, os agrônomos, os engenheiros, os veterinários - não será outra reminiscência sefardínicas? Lembra Varnhagen que valendo-se da classe média e dos leigos letrados, pôde a monarquia libertar se, em Portugal, da pressão do clero e dos antigos senhores territoriais. E escreve: Essa magistratura letrada, por seu saber, por seus enredos, sua atividade; sua loqüela e a proteção que lhe davam as Ordenações, redigidas por indivíduos de sua classe, vem, pelo tempo adiante, a predominar no país, e até alistar-se no número de seus primeiros aristocratas, depois de haver em geral hostilizado a classe, antes de chegar a ela."79 Um caso rápido de promoção social. Pois dessa burguesia letrada que se aristocratizou rapidamente pela cultura universitária e por serviços intelectuais e jurídicos à monarquia, grande parte seria de cristãos-novos ou "homens de nação". Rebentos de outra burguesia: a de comerciantes, de traficantes, de agiotas, de intermediários. De tal modo se empenharam os cristãos-novos em alastrar de seus filhos doutores e bacharéis as cátedras e a magistratura que a Mesa de Consciência e Ordem, em fins do século XVII, decidiu limitar o bacharelismo em Portugal, sugerindo ao rei restringir para dois o número de filhos que pudesse enviar para a Universidade de Coimbra uma pessoa nobre, a um, o pai mecânico, e fazendo depender de licença de Sua Majestade a inscrição de cristãos-novos. Porque "ainda desta maneira sobrepujarão letrados neste reino". Formavam os cristãos-novos a maioria dos lentes das escolas superiores - um deles o famoso Doutor Antônio Homem; salientavam-se entre os advogados, magistrados e médicos. Coimbra chegou a tornar-se "covil d'heréticos", na frase de João Lúcio de Azevedo, tal o número de judeus dentro das batinas de estudantes ou das becas de professores.80 Compreende-se que os cristãos-novos, vindos da usura, do comércio de escravos e da agiotagem, encontrassem nos títulos universitários de bacharel, de mestre e de doutor a nota de prestígio social que correspondesse às suas tendências e ideais sefardínicos. Que encontrassem na advocacia, na medicina e no ensino superior a maneira ideal de se aristocratizarem. Seus apelidos é interessante observar que se dissolveram nos germânicos e latinos dos cristãos-velhos. Facilitou aliás Dom Manuel I aos cristãos-novos a naturalização, e, ao mesmo tempo, a arístocratização de seus nomes de família, permitindo-lhes usar os mais nobres apelidos de Portugal. O que se proibia aos outros - tomar "apelido de fidalgos de solar conhecido, que tenham terras com jurisdição em nossos reinos" - concedeu-se amplamente aos cristãos-novos: "porém os que novamente se tornarem à nossa santa fé poderão tomar, e ter em suas vidas, e trespassar seus filhos somente, os apelidos de quaisquer linhagens que quiserem, sem pena alguma". Tudo isto nos mostra como, mesmo no caso do judeu, foi intensa a mobilidade e livre a circulação por assim dizer de uma raça a outra; e, literalmente, de uma classe a outra. De uma a outra esfera social. Concorreram os judeus em Portugal, e em partes da Espanha, para o horror à atividade manual e para o regime do trabalho escravo - tão caraterístico da Espanha e de Portugal. Concorreram para a situação de riqueza artificial observada por Francisco Guicciardini, historiador italiano que no princípio do século XVI esteve nas Espanhas, como embaixador de Florença junto ao rei de Aragão: "A pobreza é grande e ao meu ver não provém tanto da natureza do país quanto da índole de seus habitantes, oposta ao trabalho; preferem enviar a outras nações as matérias-primas que seu reino produz para comprá-las depois sob outra forma, como se verifica com a lã e a seda que vendem a estranhos para comprar-lhes depois panos e tecidos."81 Excetuavam-se da generalização de Guicciardini as zonas agrícolas em que por muito tempo se projetaram os benefícios da ciência ou da técnica mourisca. Entre outras, as regiões próximas de Granada. Zonas privilegiadas. Outro viajante, Navajero, descreve-as com verdadeiro lirismo: farto arvoredo, muita fruta madura pendendo das árvores, grande variedade de uvas, espessas matas de oliveiras. E no meio desse luxo de verdura, as casas dos descendentes de mouros: pequenas, é certo, mas todas com água e roseiras, "mostrando que a terra fora mais bela ainda quando em poder dos mouros".82 E Navajero contrasta com a atividade dos mouriscos os desmazelos e o ócio dos hispanos, nada industriosos, sem amor nenhum pela terra, guardando seu melhor entusiasmo para as empresas de guerra e as aventuras comerciais nas Índias. O mesmo que na região andaluza se observava no sul de Portugal e no Algarve: terras igualmente beneficiadas pelos mouriscos e nas quais o polaco Nicolas de Popielovo, ao percorrê-las em fins do século XV, quase não encontrou diferença das de Andaluzia: "em todas as terras de Andaluzia, Portugal e Algarvia [....] os edifícios e os homens se assemelham e a diferença na educação e costumes entre sarracenos e cristãos unicamente se pode perceber na religião [....]".83 Devendo-se observar, de passagem, que os cristãos não eram grandes devotos, só se confessando na hora da morte; e não jejuavam senão raramente. Nem era fácil praticar o jejum em terras que, em vez de pobres de mantimento como a maior parte das Espanhas, conservaram-se por largo tempo, devido ao reflexo da atividade moura e mourisca, fartas de cereais, de carnes e de vinho. Com relação a Portugal, deve-se salientar que seus começos foram todos agrários; agrária a sua formação nacional depois pervertida pela atividade comercial dos judeus e pela política imperialista dos reis. Agrário também o seu primeiro comércio de exportação de produtos da terra: azeite, mel, vinho, trigo. Dos mouros, como já vimos, muito aproveitara a terra portuguesa. Sobretudo o Sul, necessitado de irrigação e tornado zona produtiva pela ciência dos invasores. A reconquista, embora seguida da concessão de largos trechos de terra aos grandes guerreiros, não acentuou em Portugal traços e característicos feudais. Entre as concessões de terra a particulares encravaram-se sempre terras da Coroa ou do rei, cultivando-as foreiros e rendeiros. Destes é que recebia o monarca, através de mordomos, rendas e foros às vezes exagerados. Metade da colheita do vinho. A terça parte da de trigo. Nas terras dos grandes senhores incumbia aos foreiros e rendeiros levantar e reparar os castelos e os moinhos, os fornos e os celeiros. A unidade econômica formava-a o solar - a mansão senhorial de taipa ou de barro amassado, avó da casa-grande de engenho brasileiro. O regime econômico não se pode dizer que tenha sido a princípio o da grande propriedade - considerando-se grandes proprietários o rei, as fundações eclesiásticas e todos aqueles por quem a conquista foi dividida - mas uma combinação desse regime com o da cultura parcelada, "achando-se repartido o solo de cada grande acervo senhorial pelas subunidades a cargo dos adstritos, no primeiro período, entregue mais tarde aos rendeiros e foreiros".84 Teve assim a formação agrária de Portugal, na sua primeira fase, um equilíbrio e uma solidez que nenhum dos dois regimes, sozinho, teria conseguido manter. Nem a pequena propriedade teria sido capaz da tensão militar, necessária em terras agrícolas rodeadas de inimigos fortes, nem o latifúndio, sem a cultura parcelada, teria dado aos começos da economia portuguesa cores tão boas de saúde. Acresce a vantagem da grande propriedade nunca ter representado em Portugal desbragado privativismo. Contra os interesses particulares se fez sentir muitas vezes não só o poder da Coroa como o das grandes corporações religiosas, donas de algumas das melhores terras agrícolas. Terras a que fizera jus o esforço guerreiro dos freires nas guerras da reconquista; e acrescidas, depois, de doações e legada dos monarcas e dos particulares, indivíduos devotos ou incapazes de vida agrícola: "No povoamento e redução à cultura de um país devastado pelas guerras cabe parte notável à Igreja", escreve João Lúcio de Azevedo. "À roda dos mosteiros", acrescenta, "desenvolvia-se o labor agrícola. Parte considerável da Estremadura foi arroteada e povoada, à iniciativa dos monges de Alcobaça. Outro tanto se pode dizer de lugares e de regiões diferentes. Também bispos, monges e simples párocos foram grandes edificadores e reparadores de pontes, obras das mais meritórias naquele tempo rude".85 Durante os tempos indecisos de luta com os mouros foi principalmente à sombra das abadias e dos grandes mosteiros que se refugiou a agricultura, sob o cuidado dos monges. No interior dos claustros refugiaram-se indústrias e artes. Esteves Pereira escreve que os mosteiros em Portugal "a par de mansões de oração e de estudos se tornaram em focos e escolas de atividade industrial, em laboriosas colônias agrícolas, que arrotearam sertões, desdobraram campinas incultas, que fecundaram vários territórios, até então desertos e maninhos".86 Aos grandes mosteiros e corporações monásticas e religiosas, informa ainda Esteves Pereira que os particulares doaram várias terras "por lhes faltarem elementos para os seus exercícios". Reconheci assim no latifúndio, isto é, na grande propriedade ativa, a capacidade de ação colonizadora e civilizadora que faltava aos proprietários pequenos ou ausentes. Estes foram absorvidos nas grandes propriedades por outro meio, além do das doações por incapacidade: pelas obrigações criadas por empréstimos que facilitavam as ricas corporações religiosas, no desempenho de funções como de bancos agrícolas que por largo tempo exerceram na economia portuguesa. Mecanismo vantajoso para interesses agrários por não desviar as terras e os bens para a posse de capitalistas judeus ou burgueses ricos das cidades. Um ponto nos surge claro e evidente: a ação criadora, e de modo nenhum parasitária, das grandes corporações religiosas - freires, cartuxos, alcobacenses, cistercienses de São Bernardo - na formação econômica de Portugal. Eles foram como que os verdadeiros antecessores dos grandes proprietários brasileiros. Daqueles cujas casas-grandes de engenho foram também focos de atividade industrial e de beneficência. Oficinas, asilos de órfãos, hospitais, hospedarias. Os frades não foram em Portugal as simples montanhas de carne, asfixiantes e estéreis, em que alguns se deliciam em caricaturá-los. Na formação agrária do tempo dos afonsinos foram eles o elemento mais criador e mais ativo. Eles e os reis. Ao lado da tradição moura, foi a influência dos frades, grandes agricultores, a força que em Portugal mais contrariou a dos judeus. Se mais tarde o parasitismo invadiu até os conventos é que nem a formidável energia dos monges pôde remar contra a maré. Contra o Oceano Atlântico - diga-se literalmente. Tanto mais que no sentido do grande Oceano, e das aventuras ultramarinas de imperialismo e de comércio, remavam os fortes interesses israelitas, tradicionalmente marítimos e antiagrários.
NOTAS (mantivemos a numeração do livro) 71. MÁRIO SAÁ, A invasão dos judeus, Lisboa, 1924. 72. MAX WEBER, General Economic History (trad.), Nova Iorque. 73. VARNHAGEN, História Geral do Brasil, cit. 74. CHAMBERLAIN, The Foundations of the Nineteenth Century, cit. 75. JOÃO LÚCIO DE AZEVEDO, História dos Cristãos-Novos Portugueses, Lisboa, 1922. 76. OÃO LÚCIO DE AZEVEDO, História dos Cristãos-Novos Portugueses, cit. 77. OÃO LÚCIO DE AZEVEDO, História dos Cristãos-Novos Portugueses, cit. MÁRIO SAÁ, op. cit. 78. ABADE DE LA CAILLE. Journal Historique du Voyage Fait au Cap de Bonne Espérance, pág. 211, Paris, 1763. Sobre a mania dos óculos ou quevedos em Portugal, nos séculos XVI, XVII, XVIII, leia-se JÚLIO DANTAS, Figuras de Ontem e de Hoje, Lisboa, 1914. Recorda o escritor terem sido os dois traços que MONTESQUIEU salientou nos portugueses: os óculos e bigodes (les lunettes et [....] la moustache). MONTESQUIEU deu ao abuso dos óculos em Portugal a mesma interpretação que LA CAILLE no Brasil. Não nos esqueçamos do fato de que, lá como aqui, quase todos os doutores, em Medicina pelo menos, parece que eram judeus. O autor da Voyage de Marseille à Lima et dans les Autres Indes Occidentales (Paris, 1720), diz, à página 132, que a cidade de Salvador estava cheia de judeus. Igual observação faz FRÉZIER. Esse conta que um vigário fugira da Bahia para a Holanda, depois de largos anos de falsa devoção católica, apurando-se que era muito bom judeu. Rélation du Voyage de la Mer du Sud aux Côtes du Chily et du Perou, pág. 276 (A Paris, 1716). 79. Seriam também, em grande número, judeus disfarçados, ou homens de origem hebréia os advogados que, desde o século XVI, começaram a emigrar do reino para as colônias com os seus óculos, as suas chicanas e o seu parasitismo. Da cidade de Goa, invadida por agiotas chicanistas no século XVI, escreveu um contemporâneo: "E parece a cidade de Goa mais academica de litigantes que escola de armas' (FERDINAND DENIS, Le Portugal, Paris, 1746). Do reino escrevia um observador do século XVIII: "A multidão dos advogados é notória e a sua utilidade muito equivoca" (Os Frades lulgados no Tribunal da Razão, Lisboa, 1814). 80. JOÃO LÚCIO DE AZEVEDO, História dos Cristãos-Novos Portugueses, cit. 81. J. GARCIA MERCADAL, España Vista por los Estranjeros, cit. 82. MERCADAL, España Vista por los Estranjeros, cit. 83. MERCADAL, España Vista por los Estranjeros, cit. 84. JOÃO LÚCIO DE AZEVEDO, História dos Cristãos-Novos, cit. 85. JOÃO LÚCIO DE AZEVEDO, Épocas de Portugal Econômico. cit. Impugnando a idéia, exposta no presente estudo e em escritos posteriores do Autor, de ter sido o português no Brasil, apesar de seu desapego à terra, um dos fundadores da agricultura moderna nos trópicos, o Sr. SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA escreve: "Não faltam indícios de que a atividade dos portugueses em quase todas as épocas, e já antes da colonização do Brasil, se associou antes à mercancia e à milícia do que à agricultura e às artes mecânicas" ("Panlusismo", Cobra de Vidro. São Paulo, 1944, págs. 74-75) . A generalização é aceitável e, no presente ensaio, desde 1933 se apresentam aspectos do desenvolvimento português que parecem favorecê-la. Mas restrições sérias devem ser opostas ao excesso - de que não pode, aliás, ser acusado o Sr. SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - de considerar-se o português povo sem passado agrário ou "raça" como que biologicamente incapaz de esforço agrícola ou inimiga da lavoura. Os próprios estudiosos da formação portuguesa que acentuam nela a predominância da mercancia e da milícia sobre a agricultura e as artes mecânicas, como ALBERTO SAMPAIO e LÉON POINSARD, não negam ter havido em Portugal uma "raça eminentemente agricultora" (Estudos Econômicos e Sociais, Lisboa, 1923, I, pág. 535) e centros de "une vaste exploitation agricole" (POINSARD, Le Portugal Inconnu, Paris, 1910, I, pág. 25). Esses outros foram principalmente os mosteiros, como mostram POINSARD e o anônimo que escreveu Os Frades Julgodos no Tribunal do Razão (Lisboa, 1814). É certo que o Brasil foi colonizado por um povo português já afastado da agricultura e empolgado por outros interesses; mas nem por isso destituído de aptidões para a agricultura. .Daí ter esse povo concorrido, é verdade que através de escravos, para fundar a agricultura moderna nos trópicos, antecipando-se nisto a outros europeus. Que eles, valendo-se do trabalho escravo, desenvolveram notável esforço na organização de uma economia agrária no Brasil, é inegável. Devido ao sucesso da agricultura de cana e do fabrico de açúcar pelos portugueses no Brasil é que EGERTON considera o Brasil "example of genuine colonization" (cit. por ELLEN DEBORAH ELLIS, An Introduction to the History of Sugar as Commodity, Filadélfia, 1905, pág. 61). Sobre o assunto vejam-se também: L. CAPITAN e HENRI LORIN, Le Travail en Amérique avant et après Colomb, Paris, 1930; P. LEROY-BEAULIEU, De la Colonisation chez les Peuples Modernes, Paris, 1891; LUÍS AMARAL, História Geral da Agricultura Brasileira, São Paulo, 1939; LEMOS BRITO, Pontos de Partida Para a História Econômica do Brasil, São Paulo, 1939; J. F. NORMANO, Brazil, a Study of Economic Types, Chapel Hill, 1935; J. F. DE ALMEIDA PRADO, Primeiros Povoadores do Brasil, São Paulo, 1939. Não deve ser esquecido o fato de que o português tornou-se um dos fundadores da moderna agricultura nos trópicos por meio de combinações de métodos e valores trazidos da Europa com métodos e valora indígenas. A adoção da coivara pelo agricultor português no Brasil ilustra até que ponto foi essa combinação nem sempre feliz de métodos. Devemo-nos mais uma vez recordar de que, embora o português, antes do seu contato com a América, já se entregasse à devastação de matas, ele aqui encontrou a devastação a fogo de florestas tropicais praticada sistematicamente pelos indígenas. Método que adotou. Sobre este aspecto do assunto, veja-se o estudo especializado de O. F. COOK, Milpa Agriculture, A Primitive Tropical System (Smithsonian Report for 1919), Washington, 1921. Leia-se também H. MARTIN LEAKE, Land Tenure and AgriculturaL Production in the Tropics, Cambridge, 1927. Aliás o assunto - aptidão do português para a colonização agrícola - foi em 1916 objeto de um inquérito promovido no Rio por CARLOS MALHEIROS DIAS, entre brasileiros e portugueses autorizados. Tratava-se principalmente de apurar se o colonizador português se tem apresentado com "as qualidades de atividade, de resistência física e de proliferidade essenciais a uma missão de colonização agrícola e de povoamento". Responderam que sim, entre outros, o Conselheiro RODRIGUES ALVES, PANDIÁ CALÓGERAS, MIGUEL CALMON, EDUARDO COTRIM e OLIVEIRA LIMA, tendo este acentuado, com sua autoridade de historiador-sociólogo, que a demonstração daquelas qualidades do colonizador português "está pois feita; quando fosse precisa, à luz de toda a nossa história de penetração territorial e de conquista pacífica empreendida pelo povo português [....]". O ponto de vista hoje defendido pelo Sr. SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - o da pouca ou nenhuma aptidão do português para a colonizaçío agrícola - teve então quem o manifestasse com nitidez e até ênfase: ALEXANDRE DE ALBUQUERQUE, português. Disse ele: "Nem Portugal é país agrícola, nem nós, portugueses, somos um povo de agricultores [....] ." "Não amamos a terra, amamos a aventura, como se Portugal fosse apenas um ponto de passagem, simples descanso para a raça. O nosso patriotismo manifesta-se mais no amor às nossas glórias do que às nossas paisagens." E esboçando a interpretaçâo etnocêntrica do assunto há tempo desenvolvida entre nós pelo Sr. SÉRGIO MILLIET: "A missão histórica da nossa raça não foi uma missão agrícola, uma missão sedentária, foi a missão nômade de um povo, fusão e resumo de povos nômades". A atividade agrícola dos portugueses no Brasil é assim explicada: "Os portugueses, quando proprietários agrícolas, ficam senhores de engenhos e de escravos, exploram conjuntamente a terra, os escravos e os engenhos, mas sem amor e sem carinho" (JOAQUIM DA SILVA ROCHA, "A Imigraçâo Portuguesa e o seu Rumo à Terra ou ao Comércio" História de Colonização do Brasil, Rio, 1918, II, págs. 297-305). Para fins comparativos, leiam-se acerca das atividades de colonos portugueses noutras partes da América - onde se têm salientado como bons e até ótimos lavradores e horticultores - DONALD R. TAFT, Two Portuguese Comrnunities, Nova Iorque, 1923 e E. A. ROSS, The Old World in the New, Nova Iorque, 1914, WILLIAM CARLSON SMITH, Americans in the Making, Nova Iorque-Londres, 1934. E. A. ROSS destaca valiosas contribuições portuguesas para o aperfeiçoamento da técnica agrícola nos Estados Unidos: "The Portuguese raise vegetables in their walnut groves, grow currants between the rows of trees in the orchard and beans between the currant row. They know how to prevent the splitting of their laden fruittrees by inducing a living brace to grow between opposite branches. The block-beetle problem they solve by planting tomato slips inclosed in paper" (The Old World in the New, págs 202-203). Sabe-se também que foram agricultores portugueses que introduziram a çultura do tabaco no Norte dos Estados Unidos mostrando que essa cultura era possível em condições de solo e de clima que se acreditavam inteiramente adversas ao tabaco (URBAN TIGNER HOLMES JR., "Portuguese Americans", em Our Racial and National Minorities, organizado por FRANCIS J. BROWN e JOSEPH SLABEY ROUCEK, Nova Iorque, 1937, pág. 401). Sobre o assunto vejam-se também HIRAN BINGHAM, "The Contribution of Portugal", Annual Report of the American Historicol Associarion (1909). Washington, 1911, e E. P. PECK, "An Immigrant Parming Country", New England Magazine, vol. XXI, outubro, 1904. Pelas evidências e fatos apresentados nesses e noutros trabalhos por estudiosos objetivos do assunto se vê que sob condições sociais favoráveis os portugueses se têm salientado como bons colonos agrícolas, especialmente como horticultores. 86. J. M. ESTEVES PEREIRA, A Indústria Portuguesa, cit.
FREYRE,
Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira
sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 1998. |
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* “Os povos os tomarão e os levarão aos lugares deles, e a casa de Israel possuirá esses povos por servos e servas, na terra do SENHOR; cativarão aqueles que os cativaram e dominarão os seus opressores”, Isaías 14:2 |
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