Estética das Histórias em Quadrinhos
As histórias em Quadrinhos são, pelo menos, tão antigas quanto o cinema. Suas primeiras manifestações apareceram no começo do século XX, na busca de novos meios de comunicação e expressão gráfica e visual. É comum associar quadrinhos também com as pinturas pré-históricas em cavernas e hieróglifos egípcios, ambos narrativas visuais de imagens justaposicionadas. As palavras não eram obrigatórias, mas foram logo (assim que um vocabulário escrito foi criado) adicionadas para dar mais informação e acentuar o fluxo da narrativa. O avanço da imprensa e da tecnologia de impressão foram indispensáveis para o desenvolvimento do meio. Entre os percurssores estão o suiço Rudolph Töpffer, o alemão Wilhelm Bush, o francês Georges ("Christophe") Colomb, e o brasileiro Angelo Agostini, mas é comum relacionar a primeira história em quadrinhos com a criação de Richard Fenton Outcalt, The Yellow Kid, de 1896. Outcalt essencialmente sintetizou o que tinha sido feito antes dele e introduziu um novo elemento: o balão, aquele espaço onde é escrito o que os personagens dizem, e que aponta para sua boca com uma espécie de rabinho. As bases para uma forma de arte totalmente nova foram lançadas, e a aventura comecou. Nas primeiras décadas de vida, os quadrinhos eram essencialmente humorísticos, e essa é a explicação para o nome que elas carregam ainda hoje em inglês -- comics (cômicos).
Algumas histórias daquela época podem ser lidas ainda hoje, e estão entre as maiores obras da História dos quadrinhos. Little Nemo (de Winsor McCay), Mutt & Jeff (de Bud Fisher), Popeye (de E.C. Segar), e Krazy Kat (de Georges Herriman). Entretanto, existem outras denominações, como o italiano fumetti (fumaça, uma alusão à forma do balão), o francês bande dessinée (tira desenhada), o japonês manga e o português história em quadridinhos, bem mais compreensível. Os temas das histórias eram basicamente travessuras de crianças e bichinhos, e dessa época vem as designações kid strips, animal strips, family strips, boy-dog strips, boy-family-dog strips e o que quer mais que se pudesse criar (strip significa tira em inglês). Tais designações sao aplicáveis ainda hoje, mesmo para tiras mais intelectualizadas e profundas, como Calvin e Haroldo. O crack da Bolsa de Valores em 1929 foi um ponto importante na história da história em quadrinhos, e nos anos 30 eles cresceram, invadindo o gênero da aventura. Flash Gordon, de Alex Raymond, Dick Tracy, de Chester Gould e a adaptação de Hal Fosterpara o Tarzan de E. R. Borroughs foram os paradigmas para esses dias, agora conhecidos como Era de Ouro (Golden Age).
Três gêneros essenciais, a ficção científica, o policial e as aventuras na selva espalharam seus tentáculos, baseados em cada uma das histórias acima, respectivamente. Enquanto o Tarzan de Foster era uma adaptação sem balões e cheia de ação do livro de Borroughs, e o Dick Tracy de Gould era parcialmente inspirado nos gangsters de Chicago (onde Gould vivia), Flash Gordon era um produto total da imaginação de Alex Raymond, que também nos daria o Agente Secreto X-9, Jim das Selvas (para competir com Dick Tracy e Tarzan, respectivamente) e Nick Holmes. Ainda nessa época foi criado o primeiro personagem uniformizado, o Fantasma, escrito por Lee Falk e brilhantemente desenhado por Ray Moore. Falk é um dos melhores escritores de quadrinhos de todos os tempos e provavelmente o que permaneceu mais tempo com o mesmo personagem -- mais de 50 anos! Falk também criou Mandrake o mágico, com desenhos de Phil Davis. (Por volta dessa época ja haviam ótimas histórias em quadrinhos em outros lugares que não os EUA, como a França e a Bélgica, mas elas eram pouco conhecidas fora de seus países de origem. De particular interesse é o belga Tintin, de Hergé que praticamente criou o estilo da linha clara, e teve pencas de seguidores (e imitadores). A conclusão desse processo foi o nascim ento de um gênero tipicamente americano: o super-herói, com o Super-Homem, de Siegel and Shuster.
O Super-Homem é um marco -- para muita gente seu début marca o começo da Era de Ouro -- na História dos quadrinhos, um arquétipo perfeito, o modelo para uma série de personagens e um dos mais perfeitos mitos das eras modernas. Inúmeros estudos acadêmicos e dissecações foram feitos sobre ele em seus mais de 50 anos de vida. E muita grana, também. Seus dois criadores morreram nos anos noventa, sem sequer uma pequena parcela dessa fortuna, porque eles venderam os direitos do personagem para a DC Comics nos anos 40. O campo evoluiu, expandindo suas fronteiras, tornando-se parte da cultura de massa. No período de 1940-1945 foram criados aproximadamente quatrocentos super-heróis, embora apenas uma fração tenha sobrevivido. Dois merecem destaque: Batman, criado em 1939 por Bob Kane, uma figura sombria (inspirada na máquina voadora de Da Vinci e no Zorro) cuja fama ultrapassaria a do Super-Homem nos anos 80, e o Capitão Marvel, de C.C.Beck, um jovem que ganhava poderes mágicos toda vez que falava a palavra Shazam!, um acrônimo de nomes de deuses antigos. Vários personagens se alistaram e foram para a II Guerra Mundial, e os quadrinhos se tornaram armas ideológicas para elevar o moral dos soldados e do povo.
O maior ícone do período da guerra e o Capitão América, de Jack Kirby e Joe Simon. Para dizer o mínimo, na capa de sua primeira revista ele combatia ninguém menos que o próprio Adolf Hitler. Nos anos 40 o formato das revistas em quadrinhos que nós conhecemos hoje foi criado. Além disso, nasceu um dos melhores quadrinhos de todos os tempos, The Spirit, de Will Eisner, um trabalho antológico que durou 12 anos com a ajuda dos ainda desconhecidos Bob Kane, Jack Kirby e Jules Feiffer. Com apenas sete páginas semanais, inseridas no suplemento dominical de um jornal, Eisner criou toda uma enciclopédia dos quadrinhos, usando cada um dos seus elementos básicos de forma nova e criativa, começando cada história com um logotipo diferente para The Spirit, com uso intenso da perspectiva e jogo de claro-escuro. Mais que um super-herói, The Spirit é o ponto de partida para uma série de contos sobre os problemas e as idiossincrasias do homem médio, assunto comum em trabalhos posteriores de Eisner. Ao lado de Terry e os Piratas de Milton Caniff, The Spirit é um dos melhores quadrinhos da década (senão de todos os tempos).
Os anos 50 foram o palco para a maior caça às bruxas já sofrida pelos quadrinhos, e uma parte do preconceito desses dias resiste ainda hoje. O psiquiatra Frederic Wertham escreveu um livro, A Sedução do Inocente (The Seduction of the Innocent), onde ele acusava os quadrinhos de corrupção e delinquência juvenis. Entre outros estranhos argumentos, ele dizia que os quadrinhos incitavam a juventude a violência (o que já havia acontecido com o rock'n'roll). Um Código de Ética, para limitar e regular o que podia (e o que não podia) aparecer nas páginas foi criado, limitando o alcance e a maneira de enfocar os assuntos, o que acabou por destruir todos os títulos de terror da EC Comics, exceto um, uma revista humorística, que existe ainda hoje: Mad.
Outra grande história que apareceu naqueles anos difíceis, uma tira aparentemente inocente sobre um grupo de crianças: Peanuts, de Charles M. Schulz. Charlie Brown, o personagem principal, é um garoto de 6 anos, perdedor nato, simboliza a insegurança, a ingenuidade, a falta de iniciativa: um eterno esperançoso. Seu cão, Snoopy, é um beagle filosófico em cima de sua casinha vermelha.
Esta tira marca o começo da era intelectual dos quadrinhos, com uma maior valorização do texto sobre as imagens. O outro importante nome dos quadrinhos intelectuais dos anos 50 é Jules Feiffer, o retratista das paranóias e obsessões de gente compulsiva na sociedade americana com um estilo de desenho livre e indefinido, sem fundos, principalmente em monólogos, no Village Voice. Em tempos de liberdade de expressão reduzida, os criadores (no teatro e no cinema tanto quanto nos quadrinhos) utilizavam roteiros aparentemente inofensivos para dizer nas entrelinhas o que queriam. Pogo, de Walt Kelly, que usava animaizinhos nos pântanos da Florida para discutir política, é outro exemplo.
Na Europa, nesse periodo, é criado um dos maiores quadrinhos do mundo, o francês Astérix, de René Goscinny (texto) and Albert Uderzo (desenhos), na revista Pilote, em 1959. Com um grande senso de humor, perfeita pesquisa histórica, maravilhosos painéis, Astérix é indubitavelmente uma obra prima. As aventuras dos habitantes de uma vila gaulesa, em 50 a.C., juntavam ação, piadas sobre quase todos os países europeus (e seus povos), citações em latim, caricaturas de personalidades francesas dos anos 60 e detalhadas paisagens, de uma maneira gostosa de se ler. Em 1977 Goscinny falece, mas a história continua: Uderzo seguiu escrevendo e desenhando os álbuns -- até hoje.
Astérix é o maior bestseller da França. Nos anos 60 nós vemos o renascimento dos super-heróis com a chegada da Marvel Comics, por Stan Lee e Jack Kirby. Lee e Kirby ja tinham trabalhado junto em quadrinhos e super-heróis, mas agora, eles têm a oportunidade de criar um novo universo ficcional inteiramente novo. A surpresa era que os personagens tinham algum tipo de fraqueza em oposição a seus super poderes. Quarteto Fantástico, Surfista Prateado, Thor, Hulk, X-Men, Homem de Ferro, Dr. Estranho foram os primeiros de um império que logo tornou a Marvel a número um no mercado.
Mas o personagem mais popular e um dos mais interessantes é o Homem-Aranha, identidade secreta do frágil e tímido adolescente Peter Parker. Os tempos eram de mudança, assim como os quadrinhos, nos anos 60. Manifestações do que nós conhecemos hoje por quadrinhos adultos se tornaram mais comuns, abrindo espaço para a aparição de histórias como a francesa Barbarella, de Jean Claude Forest; a argentina Mafalda, de Quino; a italiana Valentina, de Guido Crepax; o norte-americano Fritz the Cat, de Robert Crumb (que introduziu o underground nos quadrinhos); e para os trabalhos embrionários na ficção científica e fantasia do ilustrador parisiense Jean Giraud, que seria melhor conhecido como Moebius. Em todos esses trabalhos podia-se encontrar sexo, violência, sacadas intelectuais, críticas à sociedade, emprego da cor e da diagramação de maneiras inovadoras. Quadrinhos não eram mais só para criancas, eles cresceram e se sofisticaram inesperadamente. Quadrinhos adultos sempre existiram, mas nessa época eles aumentam em número. Convenções e exposições em museus começam no fim da década.
A década de 70 nada mais é do que uma consequência natural do que estava comecando a acontecer. Quadrinhos underground definitivamente conquistam seu espaco, sendo vendidos em head shops e de mão em mão. Crumb, os Freak Brothers de Gilbert Shelton , S. Clay Wilson, Victor Moscoso, Bill Griffin estão entre os mais conhecidos, se é que pode-se dizer isso, do underground. Do outro lado do oceano, alguns desenhistas franceses -- Moebius, Phillipe Druillet, Jean Pierre Dionnet, e Bernard Farkas --, reunidos sob a efígie Les humanöidesassociées, criam em 1974 uma revista histórica, Métal Hurlant, que chega aos EUA em 1977 como Heavy Metal. Fantasia, ficção científica, viagens psicodélicas, rock'n'roll, corpos nus, novas diagramações e literatura são parte do confuso mix que fez o sucesso da revista. Da Itália vem grandes quadrinhos, como Ken Parker, de Berardi e Milazzo, Corto Maltese, de Hugo Pratt, e O Clic, de Milo Manara. No fim dos anos setenta, Will Eisner retorna a cena, inaugurando um novo gênero, a graphic novel, com Um Contrato com Deus. Era o primeiro de uma série de contos ambientados no Bronx que provariam definitivamente que o mestre não tinha perdido a mão. Radical Chic Radical Chic não foi a primeira personagem feminina a aparecer nua numa revista, mas com certeza ela foi a primeira a aparecer pelada numa revista adulta. Em fevereiro de 1993 apenas alguns leitores notaram um pequeno desenho na capa da versão brasileira do Playboy.
Hoje em dia, a Radical Chic e publicada semanalmente no suplemento feminino de sábado do jornal brasileiro O Globo, mas ela foi criada em 1983 por Miguel Paiva, cuja foto pode-se ver ao lado, em seu estúdio, onde ele ainda escreve e desenha suas páginas. Várias leitoras femininas se identificaram com ela, que chegou a ser entrevistada por um jornal (!), virou programa de televisão e agora todos podem visitá-la no site oficial da Radical Chic. WOLVERINE Todos nós sabemos que Wolverine estreou como astro convidado na revista americana The Incredible Hulk nº 180, de 1974 (no Brasil, GRANDES HERÓIS MARVEL 26, de 1989), onde ele se aliou ao Incrível Hulk para derrotar a furiosa e mística criatura conhecida como Wendigo. Naquela época, Wolverine se gabava a todo momento de comoeram letais as suas garras de adamantino e vociferava uma versão de seu bordão "sou omelhor naquilo que faço". Usando um trage amarelo e azul, ele parecia, já em sua estréia, um homem experiente eternizado, mas não ficamos sabendo se era herói ou vilão, assim como não havia qualquer noção da palavra mutante para designá-lo. Mas Wolverine, também conhecido como Logan, já estava em ação muito antes daquela aparição histórica.
Ele dançou com os lobos na fronteira americana, enfrentou combatentes na guerra civil espanhola em 1937, enfrentou nazistas e ninjas em Madripoor ao lado do Capitão América durante a Segunda Guerra Mundial e realizou missões de espionagem em plena Guerra Fria. CONTROVÉRSIA Mas agora somos informados de que nem tudo é o que parece: Wolverine foi vítima de uma lavagem celebral incrivelmente complexa através de implantes de memória. Agora, ninguém, nem mesmo sus atuais roteiristas, pode dizer com certeza quais aventuras de Logan eram reais e quais foram implantadas.
Dessa maneira, o Homem que outrora parecia ser um enigma de vários séculos de idade, não passa de um peão indefeso nas mãos de governo. De agora em diante, ele terá que duvidar de todos os seus instintos e de todas as decisões que tomar, além de dobrar os cuidados com qualquer vilão que encontre pela frente. Nem todas as pessoas que trabalham com o personagem, porém, concordam com essa abordagem. Barry Windsor-Smith, responsável pela saga Arma X (publicada em GRANDES HERÓIS MARVEL 35 e republicada em WOLVERINE EXTRA Nº 1), diz que a origem da Arma X naquela saga é definitiva. Em Arma X, Windsor-Smith quis inicialmente incorporar várias bestas de como e quando exatamente Logan adquiriu seu revestimento de adamantium, estabelecendo uma âncora cronológica para sua vida.
Embora o ano nunca seja mencionado na hestória, há razões para crer que ela se passa em 1964. Já o roteirista Larry Hama rejeita a "origem definitiva" de Windsor-Smith e diz que se sente relativamente livre para lidar com a história do personagem: "Quase todos os escritores que trabalham num determinado herói com a longevidade de Wolverine tendem a enfatizar certos elementos que para outras pessoas nã crescentas nada". Hama observa, porém, que aceita reconhecer "partes de Arma X quando são necessárias à narrativa". Dessa forma, Larry Hama tomou elementos de que gostou em Arma X e vinculou-os a um experimento secreto realizada sob os auspícios do governo do Canadá durante a Guerra Fria. O que ele aproveitou da saga de Windsor-Smith foi a idéia de que Wolverine era o protótipo de um exército inteiro de superespiões, dotados de poderes diferentes e controlados pele Departamento H, uma espécie de CIA canadense. Mas as recordações de Logan, quanto aos seus antigos dias de James Bond, são suspeitas divido ais implantes de memória. Nem mesmo ele é capaz de dizer o que é fantasia ou realidade.
ANTES DO SÉCULO 20 Logan já foi visto em ação no Oeste Selvagem e na antiga costa leste amiricana, tanto com caubói quanto como índio, tanto como ocidental quento como oriental. A história mais antiga, do ponto de vista da vida de Wolverine, é provavelmente a que mostramos em WOLVERINE 21, intitulada O Herdeiro. Nessa aventura, ficamos conhecendo um menino que se parece com Logan, embora esse nome não seja mencionado (na verdade, ele só passou a ser chamado assim oito anos depois de sua primeira aparição nos quadrinhos). O garoto sofre de amnésia e vaga sozinho pelas terras selvagens da América do Norte depois de ter sido expulso por seu povo. Wolverine, em sua identidade de Caolho, narra a história em flashback e revela que o pai da criança era o líder de seu povo.
Este pai, cujo nome também não foi mencionado, expulsou o jovem porque ele era pequeno, fraco e covarde. Fronteira Selvagem, publicada na edição WOLVERINE 29, mostra Logan antes de adquirir suas garras, com trinta anos e como membro adotivo de uma tribo de Pés-Pretos, por volta de 1840. Ele tenta se convencer de que os eventos dessa aventura não são realmente de seu passado, mas a trama sugere o contrário. Se acreditarmos na cronologia de Fronteira Selvagem, podemos supor que os eventos de O Herdeiro ocorreram em 1820 ou muito antes.
O próprio Wolverine afirma que, enquanto crescia entre uma matilha de carcajus (wolverines) que o adotaram, ele descobriu que era "resistente ao clima... e ao tempo". Uma vez que não temos idéia de quão lentamente ele envelhece, O Herdeiro pode ter ocorrido séculos antes de Fronteira Selvagem.



