
"TENHO QUE ME DAR UM POUCO
DE ROCK'N'ROLL"
- John Lennon ("Meat City",
1973)
Por Juan Elizeche
Nenhuma outra banda ou artista
influenciou-me tanto
quanto os Beatles. Para
que se tenha uma idéia da importância do quarteto de
Liverpool em minha vida,
basta dizer que antes de ouvi-los, eu sequer
gostava de música.
Esse desinteresse era em boa parte justificado pelo
panorama musical que imperava
em meados dos anos 90, dominado pela dance
music insuportável
de DJ Bobo e similares (hoje, passados míseros sete anos,
quem é que lembra
daquela turma?)
Lembro-me que corria o ano
de 1.995, e naquela altura
minha indiferença
à música pop era tanta que eu nem fazia questão de
possuir
um aparelho de CD. No entanto,
neste mesmo ano, ocorreriam dois fatos
históricos para mim:
a exibição pela TV da minissérie Anthology e a execução
pelas rádios locais
de "Free as a Bird", deslocada em meio a toneladas de
modismos eletrônicos.
Devo dizer que gostei muito da música desde a primeira
vez que a ouvi; quanto à
série de TV, a assisti meio esparsamente, mas
lembro que os Beatles já
me chamavam a atenção por dois motivos: primeiro,
porque tocavam instrumentos
de verdade e cantavam com a própria voz (isso
pode não significar
nada para muitos, mas para mim era um verdadeiro alívio
em época dance music,mixagens
e batidas eletrônicas). Segundo, porque
tratava-se de uma banda
de rock que privilegiava as melodias como eu nunca
tinha visto (à época,
nem o emergente britpop tinha muito espaço nas rádios
de Ponta Porã, interior
do Mato Grosso do Sul).
Apesar disso, só me
renderia definitivamente à música
dos Beatles no ano seguinte,
quando ouvi o seminal "Please Please Me" na
casa de um amigo. Consegui
pegar o CD emprestado (apesar de pertencer ao pai
de um amigo de meu amigo)
e fiz uma cópia provisória em cassete. A partir
daí, minha beatlemania
foi aumentando: adquiria discos, gravações, vídeos
(quando consegui por as
mãos nas fitas de "Anthology", faltei à escola no
dia seguinte para assisti-las;
até então, sobrevivia com o documentário
"Compleat Beatles"). Hoje,
posso dizer que sou um aficcionado pelos anos 60
e pela contracultura, e
todos os outros músicos que aprecio - tais como
Beach Boys, The Who, Rolling
Stones, Byrds, Bob Dylan, Paul Simon, Doors -
foram-me, por dizer assim,
"apresentados" pelos Beatles. É impressionante
como um nome leva a outro...
Tomar contato com a obra
dos Beatles é uma experiência
tão profunda que
eu não me contentava apenas em ouvi-la, queria também
fazê-la (aos quinze
anos, "With a Little Help from my Friends" era uma das
vítimas mais freqüentes
de meus vocais canhestros, assim como outras faixas
cantadas por Ringo Starr).
A influência dos Beatles àquela altura era
visível até
em meus trabalhos escolares, pois eu procurava sempre que
possível utilizar
trechos de letras do quarteto de Liverpool como citações.
Em um destes trabalhos,
cheguei a escrever que o livro "Macunaíma" tinha
"passagens psicodélicas
que lembravam o espírito do desenho Yellow
Submarine". Não é
preciso dizer que com esta ousadia consegui a nota máxima
(sim, Beatles também
é cultura!!!). Em outra oportunidade que me recordo,
foi solicitado pela professora
de história que fizéssemos uma espécie de
linha do tempo utilizando-nos
de cartazes. Como na época eu estava
"chapado" - não de
drogas, mas de tanto ouvir o disco "Sargent Pepper's" - o
resultado foi uma colagem
anárquica que não tinha nada de linear e onde, por
exemplo, o quadro "O Grito"
aparecia com o rosto do Renato Russo ( a
professora gostou tanto
que quis ficar com os cartazes)...
Penso que a influência
de sua atitude e de sua música,
em meu caso, deu-se porque
eles são uma banda completa, não somente por
terem introduzido elementos
de melodia antes inéditos no rock , mas também
porque podem ser considerados
uma enciclopédia do que de melhor já se fez no
estilo: sua música
reverencia os pioneiros dos anos 50, e ao mesmo tempo,
antecipou tendências
como o rock sinfônico-progressivo ("A Day in the
Life"), o heavy metal ("Helter
Skelter"), o punk rock (pode parecer
estranho, mas a principal
referência musical do Joey Ramone, segundo o
próprio, eram os
Beatles) e até mesmo o grunge (em "Yer Blues"). Juntos,
cantaram músicas
que sacodem os corpos ( "Twist and Shout") e outras que
sacodem as mentes ("Within
You Without You").
Dizem que após experimentar
um tablete de LSD a pessoa
nunca mais é a mesma.
Longe de mim querer confirmar ou desmentir esta
afirmação,
até porque nunca usei alucinógenos. Mas posso afirmar com
certeza
que uma pessoa nunca mais
é a mesma depois de ouvir e estudar a obra dos
Beatles. Mais de trinta
anos depois da separação, o legado desses caras
ainda é uma surpreendente
exortação à criatividade e ao inconformismo.
Porém, enquanto outras
bandas fazem sucesso pregando a destruição e a
autodepreciação,
os Beatles nos ensinam o valor dos indivíduos e da união
dos seres humanos para fazer
a verdadeira revolução ("I am he as you're he
as you're me and we're all
together", cantou John).
"Realize seu sonho" - disse
Lennon pouco antes de sua
morte. "Não espere
que as outras pessoas façam isso para você(...) Se o seu
sonho é salvar os
pobres do Peru, então vá salvar os pobres do Peru",
declarou, exortando os fãs
à ação social.
É por isso tudo que
John Lennon nunca será o único a
acreditar em utopias; que
Paul McCartney sempre será será lembrado por
cantar as "silly love songs"
mais sublimes já captadas por nossos ouvidos; e
que a guitarra de George
Harrison continuará chorando por aqueles que se
escondem atrás de
ilusões. Quanto a Ringo Starr, este seguirá sendo um
músico genial - apesar
dos resmungos da crítica - e um dos caras mais
"gente fina" que o rock
já produziu.
Siga o conselho de Lennon
e vá além: dê a si mesmo
MUITO do MELHOR rock'n'roll.
É clichê, mas lá vai: BEATLES
FOREVER!!!!!!!!!!!!!