Estes dias tive um encontro deveras
desconcertante com um beholder. Tal ser vil e maligno atende pelo nome
de Mestre Redrik, mais conhecido por todos como senhor Red. Fiquei
atônito ao descobrir que nestas terras este maléfico monstro é um
chanceler de um poderoso e vasto império, o chamado Império Continental
de Nordok. Descobri que este império domina nas cidades-reinos de
Tobaro até Fígaro, se extendendo a Leste até o ducado de Hollows e a
Oesta até a vila de Lua Crescente. Muito me assusta isto, uma vez que
esta extensão toda é realmente mais da metade de todo o continente de
Nordok.
Mais ainda me assusta este ser. O beholder realmente é um
astuto e maligno inimigo. Fez-me muitas considerações confusas, no
intuito de enfraquecer minha fé e confundir meus caminhos na vereda da
verdade e da justiça. Agradeço a Tyr que todos estes anos como servo
inútil da sua causa me firmaram na verdade, não me deixando cair em
conversas levianas e traiçoeiras.
Porém muitos dos questionamentos
do beholder pesam sobre meus ombros, uma vez que pouco conheço destas
terras, e este ser indaga sobre como seu império pode ser fundamentado
na maldade se seu imperador é um membro da SOL e conhecido servo de
Tyr. Realmente, como poderia um honrado e proeminente servo de Tyr
julgar com iniqüidade e maldade a tal ponto que seu império seja
voltado para ações malignas, e não para o bem e a justiça? Preciso
conhecer bem a história deste continente.
Mas, onde conseguir
tal conhecimento, se nestas terras tudo parece polarizado pela visão
peculiar de cada ser, onde todos tendem a ver as coisas parcialmente?
Este continente não é coeso em sua verdade, estando dois lados
antagônicos pesando sempre nos pratos da balança. Cada um dos lados
nesta batalha, sendo este o Império e outro Nova Benzor, aparentemente
escondem verdades e mostram impressões vagas e ilusões do que gostariam
de ser, ou almejam que acreditemos serem.
Infelizmente mesmo a SOL
nada pode me ajudar nesta hora, pois apenas o senhor Uther está
próximo, e embora seja um servo valoroso, pouco tempo disponho para
aprender da história com ele, pois muito viaja em serviço de Tyr.
Muitos borrões nesta região da página.
Continua a escrita um pouco diferente, como escrevesse depois de um longo período.
* Passado um tempo desde a visita de Belad a
Siegfried no acampamento da SOL, o paladino decide que é hora de o
procurar. Sem informações sobre onde possa estar Belad, Sieg decide
começar por Trondor, seu último lar. A viagem é rápida nos lombos de
Sleipnir, e tão logo atinge os muros que cercam Trondor, o cavaleiro
remove sua armadura e guarda o escudo nas costas, entrando desarmado
conforme as leis locais.
* Tão logo entra procura por Belad, e na
falta de informação deste procura por Tebryn, que sabe ser amigo de
Belad e de quem talvez consiga alguma informação.
* Indo atrás de
Tebryn, Sieg entra naquilo que pensa ser uma prisão, porém os gritos
lhe deixam um pouco desconfortável. Logo que entra é recebido por Kyo,
uma drow que conhecera numa visita diplomática que fizera a corte de
Trondor em dias conturbado por um conflito entre este reino e Tobaro.
Esta, reconehcendo o paladino de Tyr, o convida a dar a extrema-unção a
uma drow prisioneira, a qual Kyo trata com a maior crueldade possível.
*
Cumprindo seu dever de servo do justo e juiz dos povos, Sieg se dirige
ao recinto onde Kyo interroga a prisioneira. Discordando do modo como o
interrogatório prossegue, Sieg deseja saber da prisioneira suas reais
intenções, e se a benção final é mesmo seu desejo. A prisioneira reage
agressivamente, proferindo blasfêmias e imprecações contra todos os
presentes. A isto, Tebryn se aproxima e analisa a situação,
reconhecendo a prisioneira como uma serva de Loth, uma assassina de seu
povo e violadora em grau maior das leis de Trondor.
* Seguindo as
leis locais, as mesmas leis que Seig recorda terem punido Alicia com
chibatadas na ocasião da reunião da cimeira sobre o destino de Sholo, a
pena seria a morte. Pena esta prontamente aplicada por Kyo, que exibiu
um sorriso de satisfação ao poder cumprir o ritual final.
*
Encontrando Tebryn, Sieg tenta iniciar uma conversa, mas este mostra-se
deveras calado. Incomodado com os arredores, Sieg sai da prisão e se
dirige a biblioteca ao lado, onde encontra Alicia, que aparenta
profunda tristeza.
-Senhora, algo se passa onde eu possa ajudaar? Percebo em vosso semblante que algo a perturba. Posso ser de valia neste momento?
-Ah,
Sieg, é o Tebryn. Brigamos de novo. Ah...*meio irritada* toda vez é
isto. Estávamos discutindo os rumos que temos de tomar com esta crise
dos mortos que voltaram, e novamente discordamos e a coisa não andou
bem.
* Com um abraço paternal e carinhoso, Sieg tenta consolar
sua amiga, ignorando o fato estarrecedor que o deixou preocupado.
Colocando as prioridades em ordem, Sieg decidiu que seria melhor
primeiro conciliar o casal de aliados para depois investigar o evento
macabro.
-Eu estou confusa, não sei o que fazzer. São tantos
problemas, tanta coisa erra, nem sei por onde começar *diz ela
emocionada* E ele fica me dando conselhos, falando em como devemos
agir, mas....
-Sei do que precisas, senhora, e serei vossso amigo nesta hora. Meu carinho e atenção são todos vossos.
-Obrigada Sieg.
-Não
há o que agradecer, senhora. Com prazer ajo assim. *responde o paladino
com um sorriso nos lábios e um olhar caridoso nos olhos*
* Dito isto, Tebryn entra mudo e permanece calado nas proximidades dos amigos que conversam.
-Quem sabe eu possa falar com ele.
*Sieg se aproxima de Tebryn, saudando-o com as formalidades de praxe e buscando um diálogo sobre o assunto.
-Poderíamos conversar em particular,, senhor?
-Sim, vamos a minha casa. *responde de maneeira direta e seca o senador drow, um tanto aborrecido*
*
Calados, os dois deixam a biblioteca e se dirigem a moradia do senador.
Cruzando toda a cidade sem trocar nenhuma palavra, os dois chegam a
morada do drow.
-Entre.
-Com licença, senhor. *cumprindo as
formalidades para entrar na casa de alguém, Sieg entra na moradia
ricamente decorada e muito bem organizada. Bem demais para um drow
macho e solteiro, pensa Sieg consigo mesmo*
-Quer algo? Vinho?
-Não, obrigado, senhor. Apenas vim ppara conversar. Mas aceitarei se entender como ofensa a recusa.
-Não.
* Prestes a iniciar a conversa, Alicia entra e se senta, tão calada e emburrada quanto o seu par drow*
-Bom
que estão ambos aqui. Assim podemos discutir melhor o assunto. Senhor
Tebryn, perdoe-me se me intrometo em assuntos que não devo, mas me
corta o coração saber que coisas externas ao vosso amor tentam minar
vossa relação. Se me permites, vou expor meus sentimentos, baseado em
minha experiência pregressa e no amor que sinto por vós dois.
-Continue.
*Com um olhar carinhoso para os dois, Sieg inicia sua fala*
-Vejo
que os problemas de estado tem perturbado por demais vossa companheira,
que se encontra desorientada e perdida entre tantos casos sem solução.
E sei que vosso primeiro intuito, guiado pelo vosso amor, é tentar
aconselhá-la, orientá-la para que chegue a resolução de seus problemas.
-Entendo
também a dificuldade de, numa sociedade drow, demonstrar publicamente
vossos sentimentos, ainda mais sendo vós dois figuras de destaque no
reino. Entendo como deveis vos sentir.
-Nunca fui atado aos costumes dos drows, saabe disso, Sieg.
Sim,
o sei, senhor. Por isto vos digo, com clareza. A necessidade de vossa
amada, neste momento, não é a resolução de problemas ou a orientação
sobre como proceder. Este tipo de coisa ela pode obter consultando
sábios ou generais. Qualquer estranho pode lha dar ajuda nisto.
-O
que ela realmente precisa, e o que a motivou a vos procurar, não foi
vossa sabedoria, que creio ser respeitável, mas sim vosso amor. E é
disto que ela precisa. Ela precisa de vosso afeto, de vosso carinho. Se
ela vos apresenta preocupação, abrace-a. Se chora por não saber algo,
abrace-a. Se parece confusa e sem saber como agir, beije-a com todo seu
amor. Melhor resposta para a angústia não há que a presença e
compreensão da pessoa amada.
-Nem todos os problemas exigem soluç;ão,
senhor. Aqueles que mais nos perturbam requerem apenas carinho e
atenção. Tudo o mais se resolverá se souber a ouvir, e souber a amar.
Lembre-se, ela procura em vós o amor de um esposo, não a postura do
senador do reino.
-Precisamos pensar sobre o assunto, Sieg. **lhe responde o drow, atingido pelas palavras do paladino.* -Pode nos dar um minuto?
-Tanto quanto precisardes, senhor. Estarei lá fora caso precisem de algo mais. Com licensa.
*
Cumprindo as formalidades com um sorriso no rosto, Sieg deixa a casa e
espera, encostado nas paredes do Coliseu que domina a paisagem central
de Trondor, pela resolução do problema.
* Passado algums bons
minutos o casal sai da casa de encontro ao paladino, que paciente
espera com uma expressão cordial e gentil*
-Decidimos que é melhor nos separar..
-Oh...*uma
súbita tristeza e desapontamento tomam a face do paladino. Acham mesmo
que isto é necessário? Tenho certeza que podem se amar tanto...
*Com
um sorriso maroto, Alicia diz que isto é uma brincadeira, e que não
etnende como ele poderia acreditar naquilo. Envergonhado com sua pureza
e inocência, Sieg sorri envergonhado e pergunta então o que decidiram*
-Tomamos uma decisão *diz resoluta AAlicia* decidimos que é melhor eu matar Tebryn e seguir adiante.
-Que? *chocado, o paladino deixa seu queixoo cair e fica abismado com a resposta, paralisado por alguns bons minutos*
*
Com um olhar ainda mais chocado, os dois logo caem na risada e dizem
ser brincadeira, e que realmente Sieg é uma pessoa muito diferente por
acreditar nestas coisas.
-Resolvemos tudo, e vamos permanecer juntoss.
-Oh...que
notícia maravilhosa!! *e com um largo sorriso de satisfação o paladino
se recupera do choque inicial e felicita o casal, desejando o melhor do
mundo do fundo do seu coração*
* Assim, caminhando pela cidade a conversar, o trio não tarda a
encontrar outra figura proeminente do continente de Nordok.
-Irmão!
-Sacerdote Beldar.
-Beldar!! Que bom que está aqui. *s&ão as saudações que o recém-chegado recebe*
-Saudações. Olá, irm&aatilde;o Siegfried. Senhora Alicia, senhor Tebryn!
*
Logo as formalidades são deixadas de lado e o drama por que passa a
cidade é relatado. Em poucos minutos o quarteto decide que é
necessários e buscar mais ajuda para resolver o caso dos mortos que
voltaram, e que a SOL estará sempre ajudando no que puder aos seus
amigos. Assim, Siegfried e Beldar partem de volta ao acampamento da
SOL, onde outra reunião os aguarda, enquanto que Alicia e Tebryn saem
para resolver os problemas de seu reino.
Siegfried se
encontra na área do templo da antiga sede da Primeira Ordem. Cabisbaixo
e ajoelhado, portando com orgulho a armadura de servo da Primeira
Ordem, tem ao seu lado esquerdo seu escudo com o símbolo de Tyr, preso
em seu braço esquerdo, enquanto que à direita conserva a espada sagrada
da Primeira Ordem, segura pela empunhadura e com a ponta ao chão, rija
em sua mão.
Os cabelos longos e esbranquiçados cobrem seu rosto,
conferindo a sua face um aspecto de prata e ouro mesclados em fios
finos e lisos.
De seus lábios escapa uma prece como um sussurro,
num murmúrio pouco mais alto que o assovio do vento pelas frestas das
pedras da torre semi-destruída. A prece vem fluida, livre e sincera. O
destino dela é certo, os salões do grande deus da justiça e os ouvidos
atentos dos deuses da Tríade que lá habitam.
Siegfried ora com a certeza de um Martelo de Grimjaw que já experimentou a glória de seu deus.
-
É chegada a hora de exercer o juízo sobre tua serva Vilias, senhores da
morada da justiça. Peço que guiem nosso entendimento para que atinjamos
a verdade excelsa, sem parte com a mentira, a injustiça ou a impiedade.
Concedam-nos a vereda do reto, onde o julgo não seja maior que o
suportável nem menor que o insensível, onde o repreendido aprenda e o
inocente tenha sua recompensa.
- Muitas são as dúvidas que ppermeiam
nosso conclave. A falta de vida, de vontade....a falta de fé que
achávamos ser inata, depois das visões que vimos caíram por terra. Ver
Vilias motivada, cheia de fé e valor, ver sua dedicação e doutrina não
a uma pessoa mas sim a uma causa....tudo aquilo foi emocionante, pois
renovou a esperança de que vossa serva valiosa pudesse novamente ser
encaminhada na senda da verdade....mas ao mesmo tempo acabou com a
esperança de que ela não tivesse errado, traído vossa causa. Saber que
ela já foi uma serva tão dedicada e nobre quanto outros tantos servos
vossos, e saber que agora ela não passa de uma escrava sem vontade, tão
vazia até quanto o autômato LK...
- Ó senhores da justiça, da
verdade e da piedade, que podemos nós, meros mortais sem conhecimento
julgar neste caso? Não é a uma simples mortal que julgamos, mas sim a
vossa filha celestial, gerada nos planos santos da vossa existência, fé
da vossa fé. Como julgar alguém que sucumbiu no serviço a vós? Como
saberemos que o julgamento que ela fez não foi o correto nas
circunstâncias em que ela estava? Ou mesmo que não foi aturdido sua
vontade devido a maldição da torre que atacavam?
- Deuses da Tríade,
a vós dedicamos nossa vida e serviço e em vós esperamos a luz deste
julgamento. Sei que não somos dignos, mas pela fé que movimenta vossos
servos, manifestem vossa vontade neste caso e iluminem nossa mente
neste julgamento.
- Mais uma vez invocamos vossas benç;ãos para
aumentar nossa sabedoria neste tribunal. E que o veredicto seja a vossa
vontade e não a nossa. Peço-vos piedade e clemência, mas acima de tudo
verdade e justiça neste cerimonial. Que o servo que presida a cimeira
seja iluminado pelo seu conhecimento e que sua decisão seja a mais
próxima de um veredicto de vós mesmos.
- Honra e glória em vos servir!
Siegfried
permanece mais alguns momentos ajoelhado, entoando mantras que aprendeu
com os Martelos de Grimjaw na longínqua Termalaine enquanto prepara sua
alma e seu coração para o que virá.
Levantando-se com calma,
embainha a espada e ajeita o escudo no braço, para então levantar o seu
olhar e encarar Vilias que o espera paciente em pé, à porta do templo.
-
É chegada a hora de revelar a verdade e de fazer juízo de vossas ações,
minha querida irmã. *seu tom de voz é tão sério quanto gentil, e mesmo
neste momento o carinho que sente por ela ainda aflora*
- Minha vida
pela vossa, meu mestre! *responde a mulher alada, com seu tom
insensível, seu olhar mais frio que as geleiras que tomam os lagos do
onde Siegfried habitou em sua mocidade.*
- Sim, minha amada irmã,
creio que hoje será realmente vossa vida pela nossa, se esta for a
vontade de Tyr. Há ainda algo que queria me contar ou revelar antes da
reunião, minha senhora? Ainda há tempo para a verdade, serva de Torm.
Com
o olhar Siegfried perscruta a alma da celestial, tão bela quanto um
lírio negro dos pântanos ao norte de Xunthal, e tão mortal quanto seu
veneno. Seus lábios exultam um brilho avermelhado, vívido. Seus braços,
longos ramos de mármore, findam em mãos delicadas e belas cujos dedos
delgados agarram firmemente o cabo da espada que pende de sua cintura.
O cabelo, branco com a alva neve balança livre ao vento que circula nos
deserto. O elmo, adornado com as runas sagradas de Torm, descansa entre
seu braço e seu ventre ainda imaculado.
Mas seu olhar permanece o
mesmo olhar frio e insensível. O olhar de um carrasco que já não sente
mais prazer em matar os condenados. O mesmo olhar que fitou pela
primeira vez por entre as frestas de seu elmo quando sofrera um grave
ferimento no embate contra bárbaros no deserto, poucas luas depois de
descobrir esta terra seca e desolada. O olhar é o mesmo que fitava os
seus, quando ela erguia sua espada, vibrante num púrpura sanguinário,
pronto para perfurar seu coração enquanto jazia imóvel e impotente
perante o ataque da celestial de asas ainda negras.
O
vento balança as cortinas que encerram o templo e encobrem a visão
daquela que será julgada em pouco pelo conselho da SOL, quebrando o
vislumbre do momento.
Tyrius, Slotus, Rugnard, os alto-sacerdotes e
cavaleiros da Sagrada Ordem e quem sabe até outros celestiais que
permanecem reclusos são esperados para este momento decisivo.
A vela
queima e sua cera se derrama em seu candelabro, enquanto Siegfried
permanece estático fitando a imagem de Tyr, a espera do que será
inevitável.
Por fim ele fecha
o punho sobre o lenço que trás preso ao pulso esquerdo, e pede a
Beatriz que o ajude a decidir corretamente como agir. Derramando uma
única e solitária lágrima ante a lembrança de sua filha, ele ora a Tyr
pela justiça divina e parte, deixando para trás a sombra de Tyr que
dança a luz da vela, sôfrega no vento frio da noite do deserto.
Jun 18, 2008
Atônito, o paladino a observa se afastar com passos delicados e um leve
rebolar dos quadris, o que confere ainda mais charme e sensualidade as
formas curvilíneas da bela celestial.
O cavaleiro ainda sente o
gosto doce dos lábios dela enquanto acompanha com o olhar a linda
mulher se jogar pela janela, abrindo suas asas ao vento e alçando vôo
ao mais alto dos céus, numa jornada livre e pura.
Ele permanece um
tempo, e mais um a seguir, perdido no choque que sofreu, mais das
palavras que ouviu que das ações que ocorreram. É certo que o beijo
fora inesperado e o pegara desprecavido, mas as palavras ainda ecoam
mais fundo em seu coração.
O olhar vidrado ainda vê aqueles olhos
amendoados a sua frente. Suas mãos sentem o toque macio da pele morna.
O perfume enche suas narinas, lembra-lhe uma dama-da-noite a dominar os
odores ao redor, como que dizendo:
“apenas eu sou notória nestes arbustos”.
O
céu já escurece sob o navegar da lua em seu mar de escuridão, pontuado
pelas pequenas ilhas de brilho sôfrego que são as estrelas no céu de
Nordock.
Súbito, um calafrio percorre a espinha do paladino. Ele
busca o apoio do lenço que carrega em seu pulso esquerdo. Uma lembrança
de seu compromisso, de seu dever. Uma lembrança de seu juramento ao seu
único e maior amor verdadeiro.
“Será que ela me perdoaria? Será que ela entenderia, me apoiaria? Será que estou certo?” – ele pensa, enquanto aperta com cada vez mais força o lenço bordado com uma filigrana dourada.
-Oh,
Beatriz, minha amada filha....Precisava tanto de ti agora. Só tua
pureza poderia me dar a verdadeira luz sobre o caminho que
trilharei....Como sinto tua falta, minha princesa.
Lembranças
de um passado longínquo, onde uma criança de cabelos dourados e pele
alva brincava em seus braços, com olhos atentos e abertos ao extremo,
deslumbrada com a paisagem que seu pai a mostrava.
“Aquilo são flores-de-lis, minha linda”
– dizia ele a criança maravilhada por descobrir todo um novo mundo,
cheio de cores e perfumes, ao caminharem sobre um campo florido numa
pradaria a meia hora de cavalgada de sua cidade gelada.
As lágrimas
surgem novamente em sua face, após longos meses de ausência. O trilho
de calor sobre suas bochechas logo se torna frio ao sopro da brisa da
madrugada. Despertado de seu torpor, o paladino sabe o que tem de fazer.
Caminhando
resoluto, ele sai da cidade e assovia. Um alazão branco como a mais
pura neve se aproxima, diminuindo o ritmo ao se aproximar de seu senhor.
- Leve-me a Tobaro, Sleipnir.
Com
um trote suave o cavalo avança milha a milha, enquanto o cavaleiro
despreocupado deixa-se perder novamente no redemoinho de sentimentos e
lembranças que invadem sua alma. Visões de uma cerimônia onde nobres
senhores o cercam e marcam sua carne com o símbolo da justiça e retidão
são nítidos em seu devaneio. O nascimento de uma criança, mais linda e
pura que qualquer coisa que já tenha visto o fazem novamente chorar. A
lembrança do sangue e do fedor da guerra nas ruas de sua cidade, o
horror dos corpos mutilados espalhados entre as casas lhe causa um
repentino enjôo novamente, logo substituído pelo ódio àquele que
destruiu sua vida e sua família.
A última coisa que se lembra é das
piras à beira-mar, uma grande e uma pequena, queimando ao longe
enquanto a embarcação se afasta rumo ao infinito gelado. Das piras...e
do beijo.
O cavalo interrompe seu trote. Está parado a beira do piso
pedregoso da cidade de Tobaro. O cavaleiro desce, acaricia a crina do
animal e com palavras amáveis o dispensa.
Em uma marcha resoluta, o
paladino avança pela cidade. Seu rumo é direto e sem rodeios. Ele se
dirige ao banco, e a um pedido seu a sala reservada dos cofres lhe é
aberta.
Ele se ajoelha e declama uma prece, longa e grave, ao seu
protetor. Ele declara toda sua fé e esperança. Ele enaltece as
qualidades de seu senhor e guia. E ele pede ajuda.
Levantando-se, o paladino chora. Chora até cair novamente de
joelhos diante do cofre lacrado, ciente do destino que o aguarda.
As mãos trêmulas seguram uma chave, que gira livre no cofre, desprendendo a tampa que se abre sem nem um ranger.
Junto
a um livro, mapas, uns poucos pertences pessoais e pergaminhos rotos
ele divisa um embrulho, delicadamente preparado e fechado.
O
cavaleiro retira o pacote com uma dor no coração começa a abri-lo.
Circunspecto, ele se ajoelha e começa a remover os objetos do seu
interior.
Ele retira uma espada velha, quente ao toque da mão, cujo
fio é todo marcado por dentes e manchas de batalhas antigas. Um escudo,
também com um calor interior é o próximo a sair do cofre. Por fim, uma
armadura velha e surrada, marcada por muitas batalhas, sai do seu
esconderijo. No lugar é posta uma armadura, antiga mas em perfeito
estado. Um escudo, adornado pela espada e balança, cujo brilho ilumina
o interior do cofre é posto a seguir. Por fim, uma lâmina ainda
embainhada, recoberta de símbolos sagrados da justiça, é de modo solene
depositada no cofre.
O embrulho é refeito. As lágrimas correm soltas
pela face do cavaleiro, que parece mais velho e cansado do que antes.
Solenemente ele sela o pacote com o anel que porta.
Está feito.
Limpando
seu rosto, ele se levanta resoluto e aliviado. Um suspiro de alívio
ecoa na sala úmida onde se encontra. Com reverencia ele deposita o
envelope no cofre, e o observa com retidão de sentimento.
O
cavaleiro fecha o trinco, guarda a chave em um bolso interno e sai da
sala. Nem mesmo um último olhar é dado ao cofre. Mesmo assim as
lágrimas escorrem por saber que atrás de si estão encerradas as glórias
de toda uma vida, de toda uma ordem sagrada. Estão encerradas,
escondidas dos olhos da humanidade até que sua jornada tenha fim.
Ele
parte da cidade, ainda incerto do rumo a tomar. Espera encontrar o
líder de sua ordem, seu mestre e mentor, no acampamento na terra dos
anões ou mesmo no quente vilarejo do deserto.
Mas ele não tem muito tempo a perder.
Ciente do que o espera, ele decide ir pelo caminho mais direto ao seu objetivo.
-
Para a torre do deserto, fiel Sleipnir. Para Barakiel...Avar ou quem
mais puder me ajudar na senda que escolhi seguir. E que Tyr me ajude e
tenha piedade de mim.
Jun 23, 2008 - Manhã
Foram horas extenuantes que Siegfried enfrentara. O perigo é sempre
eminente. Cada parede, cada objeto representa um perigo inimaginável
naquela situação. Qualquer coisa pode ser mortal naquelas mãos. O
simples levantar de um membro pode por em risco toda a sua missão.
Mesmo
por isto, a noite de sono não veio, e o raiar do dia só trouxera mais
expectativa e dor aos seus velhos e cansados membros. As pernas já não
respondem tamanha é a letargia de seus músculos. Os braços pendem ao
lado do tronco recostado na parede próxima da lareira, donde observa
atento cada movimentar na sala.
Seus olhos perduram em se fechar,
mas o mais leve tosquenejar significaria a ruína num momento como este.
O fogo ainda arde e estrala a lenha, disfarçando os sons indistintos do
ambiente. Cada riso, cada golfar de ar, tudo é sintoma de mais perigo e
apreensão.
Seu nariz capta o mais leve dos odores, certo de que aquilo pode significar um perigo ainda maior que se aproxima.
Seu
estômago ronca faminto, afinal a vigília durara todo um dia, mas mesmo
assim cada alimento que retirou de sua mochila fora destinado ao objeto
de seu temor.
Felizmente Norfind retorna de sua meditação e pode enfim assumir o lugar de Siegfried.
O
velho paladino desaba numa poltrona, ainda envergando sua armadura, e
suspira aliviado por sua missão ter tido êxito. Jamais pensara que de
todos os embates o mais difícil seria cuidar de três crianças élficas.
Diferente
de sua filha, as crianças élficas parecem não dormir nunca. Suas
mãozinhas afoitas tocam em tudo que brilha ou está ao seu alcance, o
que torna o mais simples dos utensílios verdadeiras armas contra os
seus manipuladores. Elas são irriquietas, e na sua ânsia por andar
tropeçam e caem, muitas vezes próximas demais de quinas de mesas ou
mesmo do fogo que queima na lareira.
A todo momento reclamam de
fome, e quando se calam significa que estão aprontando algo, seja uma
travessura ou seja porque estão sujando suas fraldas, o que dispara uma
verdadeira operação de guerra.
Em toda sua vida Siegfried jamais
vira tamanha quantidade de cocô e fraldas juntas. Um verdadeiro
inferno. Siegfried chega a sentir saudades dos perigos do deserto
nestas horas.
Ele não dormira um segundo sequer, temeroso do que as
crianças poderiam aprontar. Seus braços acostumados a portar o escudo e
a espada ardem em câibras de horas embalando as crianças, na
expectativa vã de que dormissem e lhe dessem alguns minutos de sossego.
Mas,
felizmente nada de ruim acontecera, tirando-se apenas da diarréia do
ruivinho, o que o fizera clamar a Tyr por piedade. E finalmente Norfind
retornara, para alívio e salvação do paladino.
Enquanto se
ajeita na poltrona, Siegfried acha brinquedo esquecido por uma das
crianças. Porém o brinquedo parece diferente. Uma observação mais
detalhada acaba por revelar um bilhete, posto não sabe quando nem como,
menos ainda por quem.
Uma rápida leitura o alerta para o drama que
se seguia, e tão logo termina já sai pela casa acordando os que ainda
dormem ou fazem seu desjejum.
O primeiro que encontra é Laurio, a quem tem como o líder
do grupo no local, e a este repassa o bilhete com um olhar apreensivo.
Siegfried
se afasta e aguarda as ordens dos companheiros de habitação, uma vez
que sua presença no local é passageira e não entende que possa assumir
uma posição de maior destaque entre tantos experientes e poderosos
seres que habitam naquela casa.
Apenas uma coisa ainda o mantém
no local, uma vez que estivera presente apenas a convite de Tebryn e
por ter encontrado uma situação caótica no momento de sua chegada. Com
tudo arrumado e organizado, seu dever maior para com um julgamento e
uma mulher alada lhe falavam mais alto. Mas ainda restava algo em seu
coração que não lhe permitira partir.
Aquela mulher...
Aquela, a quem Laurio lhe disser que poderia passar por sua guarda na porta.
Aquela
em quem enxergara, como é próprio dos paladinos, uma áurea dourada,
pura e bondosa como só sentira no mais santo dos templos de Tyr.
Aquilo
era por demais lindo para ser abandonado sem ao menos uma palavra.
Siegfried precisava, para bem de sua fé, saber quem ela era, e por que
portava uma aura tão graciosa e cheia de bençãos como aquela.
Quem sabe não era a resposta que precisava para salvar Vilias e ajudar seus irmãos nos desertos.....
Jun 23, 2008 - Tarde
Após ouvir a leitura da carta, Siegfried se dirige para fora da casa.
Lá,
encostado a uma árvore, tendo seu escudo como apoio, ele solta o lenço
que sempre leva preso ao pulso esquerdo e o beija, passando alguns bons
minutos o roçando em seu rosto e sentindo seu perfume.
Lágrimas descem sem vergonha por sua face rosada e enrugada.
Por muitos minutos ele fita o céu e o cume gelado das montanhas ao redor, como que a esperar um sinal dos céus.
Logo ele se ajoelha e faz uma longa e demorada prece. Joelhos ao
chão e escudo em riste, como um apoio aos seus braços
cansado.
O velho paladino aperta forte o lenço, que de aparência leve e suave some em sua mão calejada.
Seu
escudo reluz com o brilho do meio-dia, refletindo em sua armadura
dourada. As runas bárbaras e o símbolo de Tyr em seu peito ganham
contornos celestiais conforme os raios de luz atravessam a folhagem
espessa.
Os minutos não passam no mundo onde ele se encontra,
repleto de dogmas e doutrinas. Um mundo onde a honra sobrepõe a própria
vida, onde o servir é mais importante que o ser servido.
Sua oração é leve. Seus murmúrios sobem aos
céus levados pela brisa do bosque, pelas asas dos
pássaros nos galhos.
Súbito
seus lábios se fecham, uma última lágrima escorre de seus olhos e ele
se levanta. Seu porte ereto, majestoso. Sua fisionomia alegre, gentil.
Seu sorriso largo e fácil.
Ele prende o lenço de volta ao pulso, por sob a luva metálica, e adentra a casa.
Contente, ele sorri pra todos, mas pensa em seu âmago:
"Por Tyr, a elfa sabe do que fala.
Me
lembro de quando adentrei por esta porta ainda ontem. Laurio me
inquiriu sobre o por quê de minha vinda, e ainda agora me lembro de
minha resposta. Por Tyr, minhas palavras foram confirmadas por esta
missiva. Eu vejo...não, eu SINTO os corações tocados por aquilo que foi
lido. Eu sinto, mesmo o mais negro e fechado dos corações nesta sala
hoje balançou.
Oh, Tyr....finalmente eu encontrei alguém que sente
como sinto. Hoje vejo feliz que meu servir não foi em vão. Quisera
Vilias entendesse isto, quisera ela visse como a elfa viu, como nos fez
ver.
Quisera Beatriz tivesse conhecido esta elfa, para aprender dela como viver e como se sentir."
Logo
ele se aproxima das crianças de Norfind e se acerca delas, contando
mais uma das lendas que aprendeu com seu pai. Mais uma das histórias
que contava a sua filha nos duradouros invernos do seu norte gélido. E
seu sorriso gentil e farto enche as crianças de prazer e serenidade. Em
troca, estas enchem seu velho coração de esperança e paz, espantando a
melancolia de seus olhos.
Ao largo ele vislumbra os companheiros
de cerco. Um a um sente seus corações, o bem e o mal que carregam
dentro de si. E sorri para si mesmo, falando só para as crianças
ouvirem:
- Sim...vocês tem
esperança, jovens mestres elfos. Com vocês vem a esperança a esta
terra, pois fizeram em poucos anos, meses de vida, mais que toda a
primeira ordem, mais que toda a SOL fizeram em décadas de existência.
Bendito seja vosso infortúnio, pois dele surge algo que não pode ser
derrotado por espadas e dentes, nem por garras ou magias.
Jun 25, 2008
Uma última batalha, meu senhor. Só isto que vos peço, uma última batalha.
Permita-me ostentar, mais uma vez apenas, vossas cores e vossos símbolos sagrados.
Permita-me erguer a vossa lâmina da justiça, a vossa justiceira, contra os inimigos.
Permita-me portar vosso escudo, a proteção dos justos, a favor dos indefesos.
O paladino então abre os olhos e começa a desdobrar o pano que cobre o cofre.
Ele abre cerimoniosamente o cadeado que a tranca, e retira, um a um, os itens sagrados que lá deixou depositados.
Ele
retira a armadura com as cores de Tyr e da Primeira Ordem. Ele retira o
escudo sagrado. Por fim, ele retira a espada, ainda embainhada.
A justiceira, o maior símbolo dos servos de Tyr.
Ele os recolhe, deposita um livro em seu interior e fecha o cofre.
Ajoelha-se uma última vez em oração a seu deus,
com um sorriso nos lábios e o punho fechado sobre a espada em
seu colo.
Hoje
lutarei mais uma vez, talvez a última vez, meu senhor, sob vossas
bênçãos. Sei que no futuro terei de abdicar de vossa proteção para que
cumpra meu designo, mas não temo, senhor.
O futuro virá a seu tempo, e hoje será um dia de glória e honra a vossa doutrina, senhor.
Estou
pronto para servir ao lado daqueles que seguem um ideal justo e nobre,
meu senhor. Espero estar a altura de derramar meu sangue ao lado de
Nala, símbolo de vossa existência, meu senhor. Sobretudo, ó Justo,
espero que meu sangue derramado regue as sementes da justiça e da
verdade, as sementes do amor e da paz nesta terra tão sofrida.
Aqui estou eu, meu senhor, vosso servo, um Martelo de Grimjaw, pronto a levar avante tua justiça e luz.
Ele
levanta-se, deixando para trás uma vela acesa, que se consome nas horas
restantes de modo melancólico mas resoluto, ciente de que cumpriu sua
missão.
Jul 11, 2008
- Não temo meu destino, nem temo a
morte, Bartholomeu. Tenho certeza que minha fé resistirá além de minhas
provações. Faça o que tem de ser feito.
Após estas palavras, o senhor da Torre Negra, também conhecido como Blackavar, realiza seu macabro ritual.
O
paladino cai prostrado de joelhos sobre a terra, apoiando-se em seu
escudo e tremendo como uma criança em noites tenebrosas de tempestade.
- Está feito, “paladino”. O sarcasmo na voz do mago não pode ser ignorado, bem como seu porte altivo e sua calma baseada no poder que tem.
A
luz ainda brilha no escudo do cavaleiro, mas as lágrimas que derrama
mostram que algo mudou. Não há ferimentos visíveis, mas o medo e a
angústia voltam a assolar a alma daquele que um dia jurou lutar sem
temor pelo seu deus.
Os amigos olham aflitos para ele, perdidos
por não saberem o que aconteceu de verdade. Temem pela saúde do velho
cavaleiro, mas nada suspeitam da dor que ele carrega em seu peito agora.
- Levante-se, Siegfried. O que aconteceu? Dizem os que assistiram ao embate sem entender nada.
- Nada, senhor....apenas preciso ficar só...
E com estas palavras o cavaleiro se ergue, recompõe sua postura e
caminha, a passos lentos e melancólicos como outrora, para um refúgio
qualquer do olhar dos curiosos.
Em sua meditação, olhando o rio
que se joga do planalto em direção ao abismo da planície a sua frente,
ele repensa os atos que tomou. Ele repensa os acontecimentos recentes,
desde a aliança prateada ao confronto com o rei de Tobaro.
- Tanta coisa em tão pouco tempo....e ainda agora muito há para ser feito, senhor.... São os murmúrios que exclama enquanto perde-se no labirinto de suas lembranças.
Um a um ele recorda dos acontecimentos prévios.
Ele recorda o encontro com Tebryn e os outros membros da Aliança
Prateada, ainda desconhecida de si, nos arredores de Tobaro.
Ele
recorda dos momentos de tensão e combate junto àqueles que jamais
pensou encontrar juntos. Ele relembra as histórias, discussões e a
amizade que permeia aqueles que lutavam pelos que não eram seus, mas a
quem devotaram suas vidas à proteger.
Ele se lembra do encontro
com Nala, de como se sentiu pequeno e imperfeito perante aquela que
pode ser a salvação de todo um continente, quem sabe até de toda a
Faerün. Ele lembra-se de como ela lhe fizera sentir um ser
insignificante e sujo diante do brilho de suas escamas douradas e da
pureza de sua alma.... de sua aura.
E ele se recorda das
batalhas, das vitórias e das derrotas diante dos seres dos planos das
fúrias. Ele se recorda de Norfind e seus filhos...de como sentiu
saudades de sua filha e de como pensou poder apagar um erro com um
acerto. De como poderia se perdoar pela sua Beatriz salvando aquelas
crianças, tão diferentes entre si.
Pensou no brilho nos olhos
infantis e puros daqueles que desde cedo são ameaçados pelo mal
simplesmente por terem pais que não fogem ante o dever, como fora com
sua bela flor dos campos nevados.
E chorou por ela, mais uma vez.
Sua
mente vagou no tempo, avançando por viagens entre planos e ilhas
desoladas, dragões e monstros dos subplanos, e chegou de novo a Tobaro.
Chegou
ao julgamento, às palavras de Slotus e ao ataque ao Rei. Lembrou-se de
como colocou sua vida em perigo para salvar aquele que depois iria
combater. Lembrou-se da conversa com o monge sobre como proceder em
seus passos futuros, tanto quanto a Vilias como para com o Rei e seu
reinado. E percebeu que falhou em ambas as propostas.
Percebeu que todos seus planos foram invertidos, que os resultados foram o oposto do que pretendia.
Lembrou-se do assassinato do velho senhor, da ameaça ao neto
desolado e da defesa da honra e do código de um paladino.
Sorriu
orgulhoso de ter enfrentado toda uma guarda pela doutrina que seguia,
de como aplicou, ou tentou aplicar, a justiça divina em prol daqueles
que não podiam se proteger, mesmo sabendo que não gozaria da vida
liberta após isto. Sorriu ao lembrar de seu sacrifício.
Mas a
seriedade tomou seu semblante ao lembrar-se de Tebryn, ao lembrar-se do
drow que considerava um aliado. Mais que isso, um irmão de ideais. E
lembrou-se da desobediência do drow que não se apartou dele.
Lembrou-se, com amargura, da dor da traição.
A dor de ter
falhado com a população de Tobaro, a dor de ter falhado para consigo e
para com seu deus, com efeito para com a justiça também.
Remoeu
suas memórias no dialogo que teve à seguir com Tebryn. Enervou-se
novamente o lembrar de como percebia que o drow só queria seu bem, mas
que ele não entendia que um paladino tem um dever maior com sua honra e
dogma que para com qualquer outra coisa mais. E satisfez-se em saber
que ainda contava com amizade do drow, mesmo que este não compreendesse
suas atitudes e seu dever.
Dali suas memórias partiram a
Hollows, de onde ouviu rumores de acólitos de Tyr presos. Lembrou-se do
grupo que encontrara...Punhos do Norte era seu nome. Lembrou-se dos que
caminhavam para salvar os seus irmãos mesmo não os conhecendo. Eram
jovens geurreiros, arcanos velhos conhecidos, monges e outros que
lutavam por algo que não compreendiam bem, mas mesmo assim sentiam que
era o certo.
O certo....sua mente vagou até o fundo da
cachoeira...até o final da queda....e um par de asas alvas o perfurou
n’alma. A dor de um sentimento impossível.
Voltou a pensar em
sua filha...desta vez na jovem e adorável Kally, a mulher mais pura e
bondosa que conhecera. Pensou em como ela era bela em seu ciúmes
infantil ao vê-lo com a celestial, e de como eram lindos seus lábios
contraídos num bico de criança carente. E pensou que devia muito a ela,
mais do que poderia pagar, neste e em outra vida.
Novamente
aquelas mãos suaves tocavam sua pele rosácea. O calor do toque subiu ao
seu coração, e sua mão instintivamente apertou os dedos daquela a quem
não compreendia.
Sentiu necessidade de se jogar ao precipício a sua frente, numa fuga desesperada do que não poderia viver.
Mas
ficou. Fizera uma promessa, e com ela iria até o fim. Sacrificara mais
que apenas os dons que recebera para obter êxito numa missão impossível
de ser completada. Sabia que era um passo sem volta, mas sabia que este
é o destino de um paladino, ir em frente mesmo sabendo que não voltará.
Porém,
desta vez, o desafio era maior. Nunca sentira medo ao tomar suas
decisões...não como agora. Nunca pensara no “más”...nunca se permitira
ponderar ante algo que precisava ser feito. Desta vez, não era assim.
Muito ainda precisa ser dito...muito precisa ser esclarecido. A longa jornada novamente iria recomeçar.
- Por Tyr...que seja. Foi seu último pensamento ante de encarar a celestial e lha dizer para o acompanhar.