EXPERI�NCIAS

                                                                                                                                                                                           Est� entardecendo e a fogueira j� crepita sonoramente, emanando um agrad�vel calor  que ajuda a amenizar a friagem intensa devido aos ventos gelados que varrem a plan�cie africana. Estou no Qu�nia, mais precisamente na Reserva Masai Mara no sudoeste do pa�s e a altitude m�dia gira em torno dos 1800 metros, o que explica o fato de esfriar tremendamente assim que o sol se p�e por detr�s do horizonte long�nquo. O sil�ncio que imperava a momentos atr�s, cede lugar a uma sucess�o de ru�dos intrigantes pois � justamente neste per�odo que os animais selvagens come�am a se movimentar, preparando-se para a noite que se aproxima. Principalmente os grandes carn�voros, estes est�o mais ativos do que nunca e saem de seus esconderijos para ca�ar na escurid�o assim que a temperatura ameniza.
             O fogo consome a lenha com uma voracidade impressionante e enquanto a alimento com umas toras maiores, analiso o meu estoque, torcendo para que dure pelo menos at� as primeiras horas da madrugada. Escureceu. � interessante notar como � breve o intervalo entre o crep�sculo e a escurid�o total quando se est� nestas regi�es de infind�veis plan�cies. O c�u com os mais  fant�sticos tons p�rpura  de meia hora atr�s, se transformou no mais estrelado e rom�ntico c�u que este planeta pode proporcionar a simples mortais. A sensa��o de paz e tranq�ilidade � total. Repentinamente os roucos rugidos de um le�o rasgam o sil�ncio da noite e me fazem estremecer involuntariamente. Outro grupo de le�es responde com roncos entrecortados vindos da dire��o oposta de onde vieram os primeiros sons. Os animais parecem se comunicar a dist�ncia. Este � o primeiro grande impacto que o rec�m chegado a �frica tem de superar. Confesso que at� hoje ainda n�o me acostumei a esses ru�dos inconfund�veis que causam um certo desconforto na mente e um estremecimento na alma, principalmente quando se est� sozinho a beira de uma pequena fogueira de acampamento rodeado pela mais tenebrosa das noites. Antes de me recolher a minha tenda, coloquei o resto de lenha na fogueira calculando que a mesma duraria umas tr�s horas e adormeci imediatamente.
              Fazia um frio glacial aquela noite. Sou despertado diversas vezes durante a noite por roncos � dist�ncia e por passos furtivos de algum animal pesado andando ali nas proximidades. A primeira impress�o que tenho � que um le�o est� ali fora, o que dificulta um pouco o ato de pegar no sono novamente. Em uma destas ocasi�es fiquei bastante intrigado pois eram sons de algum animal gritando de agonia na dist�ncia, enquanto era atacado por um grupo de outros animais que roncavam selvagemente, talvez hienas ou c�es selvagens. Calculei que a a��o se desenrolava a mais ou menos um quil�metro de dist�ncia, mas por mais que tentasse me foi imposs�vel determinar a dire��o exata de onde o som provinha. Dif�cil foi  acordar quando o despertador deu sinais de vida as cinco e meia da manh�, que � o hor�rio que normalmente me levanto quando tenho que sair para fotografar na �frica. A primeira vista pode parecer uma vida bastante espartana, comida simples, vida sem muito conforto, mas s� o fato de se estar em uma das regi�es mais belas e selvagens da terra � mais do que uma compensa��o para o esp�rito.
            Estava ainda muito frio quando depois de algumas engasgadas o motor do Suzuki roncou sonoramente cheio de vida, soltando espirais de uma fuma�a branca que mais pareciam nov�los de l� flutuando naquela atmosfera congelante. Como havia chovido durante boa parte da madrugada, as estradinhas secund�rias que cortam a reserva se apresentavam bastante enlameadas , o que pedia uso constante da tra��o 4X4 e um cuidado redobrado para n�o atolar que era o que eu menos desejava no momento. Eu planejava encontrar um casal de le�es com os quais passara o final da tarde do dia anterior e sabia por experi�ncia que eram grandes as possibilidades de vir a encontr�-los nas proximidades de onde os havia deixado. O dia ainda era jovem quando chegando ao local, come�ei a zig-zagear pelas estreitas trilhas que bordejavam a extensa ravina coberta de espessa vegeta��o onde eu julgava estariam os le�es. No exato momento em que o sol mordiscava a linha do horizonte long�nquo, enchendo o meu mundo de luz, dei de cara com os felinos. Eu n�o sei qual � o impacto que um encontro com le�es em seu habitat natural, quando se est� absolutamente s�, na semi-escurid�o de um dia que amanhece causa em outras pessoas. Mas em mim at� o sangue parece fluir com maior velocidade nas veias, a sensa��o de se estar vivendo um sonho, num mundo irreal cheio de amea�a imagin�ria.  Eles estavam deitados  a c�u aberto, pr�ximo a tal ravina, que s�o  bastante comuns em Masai Mara. N�o deram a menor import�ncia a minha chegada e para falar a verdade procuravam ignorar-me, ficando sempre de costas. Eu mudava de posi��o para lhes fazer frente e r�pidamente viravam a cabe�a para o outro lado. De vez em quando um ou outro levantava a cabe�a  apenas para olharem na dire��o de uma manada de zebras que permanecia pastando na dist�ncia. Desde o dia anterior j� havia notado que o casal estava no cio pois copulavam freq�entemente e hoje n�o era diferente. Os le�es quando est�o neste per�odo permanecem tr�s ou quatro dias  apenas namorando, n�o ca�am n�o fazem mais nada, verdadeira vida de reis. Por volta das oito horas da manh� ou�o um barulho de motor  e ao longe posso vislumbrar uma fileira de tr�s vans abarrota- das de turistas vindo na minha dire��o at� que em determinado momento a que est� na frente atola. Todos os passageiros descem fazendo algazarra para empurrar o ve�culo, at� que finalmente conseguem proseguir. A cena � pitoresca. Finalmente depois de uma sucess�o de atoladas e desatoladas chegam at� onde estavam os le�es para a infelicidade dos animais. A atmosfera silenciosa e tranquila em que aquele mundo isolado estava imerso at� ent�o, acabou como por encanto. Os indianos que ocupavam os ve�culos, inconforma- dos com a falta de a��o por parte dos felinos, come�aram a gritar e a bater na lataria dos ve�culos com o intuito de fazer os animais se mexerem um pouco. Isso parece haver irritado o jovem macho, pois depois de olhar fixamente na dire��o dos indianos partiu em trote curto na dire��o dos mesmos que sem pensar duas vezes ligaram os ve�culos e partiram. A paz reinou mais uma vez. Assim o tempo passou c�lere e as dez da manh� o sol forte parece haver incomodado os le�es que logo se recolheram para o interior dos arbustos pr�ximos. As duas horas que se seguiram foram bastante mon�tonas e s� o zumbir ocasional de alguma mosca quebrava o sil�ncio. Manadas de ant�lopes e zebras passavam na dist�ncia a passos lentos sem se importar com os ponteiros do rel�gio.
          Ao meio dia pela primeira vez me dei conta que ainda n�o havia comido nada naquele dia e me preparei para improvisar um simples almo�o no meio da savana na companhia do casal de le�es. Preparei e comi o almo�o ali dentro do carro sem  maiores contratempos at� que chegou aos meus ouvidos o distante ru�do de galhos sendo partidos. O som aparentemente provinha do mesmo amontoado de arbustos onde se encontravam os le�es. Depois de um tempo me perguntando quem poderia ser o causador daquele estardalha�o todo bem ali nas barbas do senhor da savana, permaneci em sil�ncio e aguardei os acontecimentos. Pouco a pouco os ru�dos foram se aproximando e repentina- mente  como por encanto o enigma se esclareceu. Nada mais eram do que elefantes se alimentando nas pequenas arvores que cresciam na parte arbustiva que bordejava a ravina. Fiquei bastante curioso para saber qual seria a rea��o de ambas as esp�cies de animais que ali estavam, quando notassem a presen�a um do outro a t�o curta dist�ncia. Passou-se mais meia hora sem novidades,  quando  o elefante que devia estar  ent�o a uns trinta metros de dist�ncia pressentiu ou farejou os le�es. A partir dai, um terremoto pareceu se abater sobre a terra com o elefante avan�ando em dire��o aonde ele julgava estar os le�es, derrubando e quebrando tudo o que estava a sua frente. O pr�prio ch�o parecia vibrar enquanto o elefante avan�ava barrindo selvagemente. Os le�es por incr�vel que pare�a, mantiveram a altivez at� o �ltimo instante permanecendo impass�veis diante da situa��o at� o elefante chegar a uns  cinco metros de onde estavam. S� ai ent�o com os rabos entre as pernas parecendo  imensos c�es acuados se embrenharam na mataria densa o mais r�pido que puderam para salvar as suas vidas. Logo pude ver o porque de tamanha ira diante da presen�a dos felinos, o elefante estava acompanhado de um min�sculo filhote e estes s�o ocasionalmente  mortos por le�es quando por imprud�ncia se afastam das m�es. Uma enorme elefoa saiu ent�o do matagal tendo o filhote seguindo-a bem de perto, at� que desapareceram na dist�ncia como se absolutamente nada tivesse acontecido. � pouco comum de se ver elefoas com filhotes afastada das manadas e talvez aquela m�e tivesse apenas saido para dar um passeio com o seu rebento.
             Como por encanto a uma paz absoluta tomou conta daquela parte rec�ndita da plan�cie e como at� os le�es haviam desaparecido nas brenhas parti em busca de algo interessante para observar e fotografar, o que nunca � escasso nestas partes da �frica. Eu sei que para a maioria das pessoas este estilo de vida pode parecer um pouco perigoso e entediante, mas na minha opini�o n�o h� nada mais apaixonante do que vagar pelas savanas em busca de aventura e novas emo��es.O dia se aproximava de seu fim e a horas n�o avistava nenhum outro ve�culo pelas redondezas. Nuvens escuras ao longe eram um claro pren�ncio que logo come�aria a chover e chuva aqui segnificava emo��o em d�bro sem d�vida nenhuma. A medida que entardecia a temperatura come�ou a baixar vertigino- samente fazendo com que pegasse o meu casaco no banco traseiro e assim logo me senti confort�vel mais uma v�z. Chovia. A trilha por onde eu seguia se tranformou num mar de lama e mesmo com a tra��o ligada era dif�cil eu me manter no meio da mesma pois a sua  inclina��o natural me jogava na dire��o de imensas valas de lama em ambos os lados. Uma lama preta que por aqui chamam �black cotton soil� era uma tremenda armadilha para motoristas mais incautos.                                                      Ficar atolado ali naquela hora, certamente significaria passar a noite sozinho longe da minha cama quente, uma experi�ncia que com certeza n�o desejaria viver. A cada atoleiro mais assustador a adrenalina corria em minhas veias a mil por hora e j� nem dava aten��o �s manadas e mais manadas de animais que permaneciam im�veis as margens da trilha. Com a pele encharcada pelo agua�eiro que caia do c�u sem piedade, permaneciam como verdadeiras est�tuas com uma express�o em suas faces de dar d�. S� pensava em chegar s�o e salvo ao meu acampamento onde sei havia um saco de dormir bem aconchegante me esperando e tamb�m a possibilidade de preparar alguma comida quente, que era com o que eu mais sonhava no momento. Os locais por onde havia passado algumas horas antes, haviam se transformado em um verdadeiro rio de lama e passou a ser dif�cil at� visualizar a trilha por onde devia seguir, pois a mesma desaparecia v�z ou outra sob a �gua que acumulava no solo j� saturado. Logo escureceu e n�o tendo mais as montanhas ao longe para me guiar, fiquei totalmente desorientado sem ter certeza se estava na dire��o certa do acampamento. � impressionante como um breve periodo de cinco minutos sem nada para nos guiar, significa irremediavelmente estarmos perdidos na escurid�o. Comecei a acelerar o jipinho em demasia, na �nsia de encontrar algum sinal na trilha que me fosse familiar, at� que passei por uma eleva��o acentuada saindo com as quatro rodas do ch�o. Quase sai da trilha escorregadia como consequ�ncia. Procurei me acalmar raciocinando que o m�ximo que poderia ocorrer era ter de passar uma noite s�zinho e  na plan�cie. Uma perspectiva n�o muito encorajadora mas que por certo me traria uma experi�ncia verdadeiramente inesquecivel e provavelmente muitas hist�rias para contar. O facho do farol iluminava uma estreita faixa da trilha  de forma incerta e a chuva caia impiedosamente. O barulho que fazia ao bater ruidosamente na lataria do jipe, soava de forma amplificada naquele espa�o restrito e s� aumentava a minha sensa��o de insignific�ncia. Logo para meu espanto a trilha adentrou uma floresta que n�o me era nem um pouco familiar e a certeza de que n�o havia passado por ali me desorientou por completo tirando de mim todo o otimismo que havia tentado acumular at� o momento. Depois de algumas curvas sinuosas, eu me perguntando se devia seguir em frente ou retornar, apareceram algumas luzes a minha frente e n�o � preciso descrever  a minha euforia ao avist�-las. Logo descobri que havia me dirigido na dire��o leste em vez de seguir para o norte, pois as luzes salvadoras eram nada mais que as luzes do Hotel Mara Intrepids Club as margens do Rio Talek. Alguns guias de safari que permaneciam sob um toldo no estacionamento, me deram ent�o as coordenadas corretas de como atingir o port�o do Rio Talek a uns quinze quil�metros adiante. A �nica coisa que eu devia fazer era seguir para o norte, utilizando a trilha que margeava o Rio Talek. Isso apenas mostra o qu�o impotentes ficamos para nos orientar na escurid�o uma vez que n�o conseguimos enxergar al�m do facho dos far�is.
             Passava um pouco das sete da noite quando estacionei em frente a minha tenda. Uma escurid�o sideral envolvia tudo ao redor e isto aliado ao sil�ncio e a chuva fina que teimava em n�o parar dava um ar macabro a cena. N�o pude nem mesmo acender uma boa fogueira pois a lenha de que dispunha estava muito �mida. Estava t�o cansado que apenas consegui fazer um chocolate quente e uma sopa de tomate antes de desabar em um sono profundo e reparador pois no dia seguinte a deliciosa maratona recome�aria. Nessa noite poderia ter sido visitado por todos os le�es da Africa que n�o me abalaria, pois dormi como uma pedra e por certo n�o teria me dado conta de t�o assustadora vizinhan�a. Cada dia na �frica nos reserva novas surpresas, assim sendo nunca sentimos o dia mon�tono ou efadonho, pelo contr�rio a cada momento novas e excitantes experi�ncias est�o sempre na imin�ncia de ocorrer.
            Freq�entemente me perguntam se n�o � muito perigoso conviver ali com le�es como vizinhos. A verdade � que possuo um tremendo m�do e respeito por estes imponen- tes felinos, mas felizmente em todas as situa��es em que poderia ter tido a minha vida colocada em risco por um encontro mais a queima roupa, os le�es sempre se mostraram como verdadeiros cavalheiros. Em certa ocasi�o acampava as margens do Rio Sand na Reserva Masai Mara, a apenas quinhentos metros da fronteira da Tanz�nia e portanto �s portas do Parque de Serengeti. De todos os locais em que acampei na �frica, certamente o Rio Sand � o que mais tipifica o que podemos chamar de verdadeira terra de le�es e � comum j� por volta das sete e pouco da noite escutar aqueles concertos aterradores ali nas proximidades. Os guardas florestais dizem que bandos de le�es tem resid�ncia fixa nos amontoados de rochas que ali s�o abundantes. Basta dar uma r�pida olhada no leito arenoso do rio para voc� se convencer de uma v�z por todas que aquela � uma terra de le�es. H� enormes e profundas pegadas por todos os lados.
              A primeira vez que dormi ali, em outubro de 1987 n�o consegui pregar no sono nem um segundo sequer. Os le�es rondaram o acampamento desde o momento que todos se recolheram as suas tendas at� uma hora antes do amanhecer, foi a noite mais longa e aterrorizante que j� experimentei. Eu ouvia  a respira��o pesada e os espirros que davam a intervalos ali a dois metros da minha tenda, o ru�do que faziam ao beber �gua no rio e a passagem de corpos pesados ao andarem trotando por sobre o capinzal pr�ximo das tendas. Eu estava num safari com uma companhia especializada de Nairobi e o nosso cozinheiro tinha verdadeiro pavor de le�es. Acontece que o homem roncava como um hipop�tamo e sua tenda era a apenas a tr�s metros da minha e n�o h� nada que provoque mais a curiosidade de um le�o do que um ser humano roncando ao seu belprazer. Assim que o cozinheiro come�ava a roncar alto e de forma cont�nua, vinha um le�o que ficava roncando baixinho  ali do lado. Era como se o animal encarasse o ronco do homem  como um desafio a si mesmo. O cozinheiro acordava com os roncos do felino e ficava em sil�ncio dentro de sua tenda e o animal tamb�m se aquietava para afastar-se logo a seguir. Depois de um tempo o cozinheiro adormecia novamente e para ele come�ar a roncar era s� um instante. O bendito le�o retornava e iniciava a �guerrinha� mais uma vez. Resumindo, a brincadeira durou horas e como era a minha primeira noite dormindo numa tenda em terra de le�es, fiquei com os nervos em frangalhos sem conseguir dormir um instante sequer. � uma experi�ncia que precisa ser vivida para se conhecer o verdadeiro sentido da palavra m�do, aquele m�do que seca o c�u da boca e faz com que seja imposs�vel mover um s� m�sculo do corpo. O problema maior � que sair�amos no dia seguinte as cinco e meia da manh� para procurar animais e n�o � necess�rio dizer que durante este �game-drive� como aqui � chamado, dormi o tempo todo.
            Em outra ocasi�o, em mar�o de 1995, tamb�m na Reserva Masai Mara no Qu�nia atolamos com a van da companhia de safari quando nos dirig�amos a um dos locais de observa��o de hipop�tamos no Rio Mara. Tentamos desatolar o carro inutilmente desde as onze da manh� at� as tr�s da tarde, usando todos os artif�cios que t�nhamos a m�o no momento. Enquanto est�vamos ali, um leopardo passou lentamente a uns cinq�enta metros de dist�ncia nos observando com extrema curiosidade. O que mais desej�vamos no momento era que passasse algum outro ve�culo que pudesse nos tirar da encrenca, mas infelizmente h� horas n�o avist�vamos outro ser humano pelas cercanias. Finalmente o guia e motorista decidiu que todos sair�amos andando na dire��o de onde haviamos vindo, na esperan�a de chegar a algum hotel ou encontrar algum veiculo que estivesse por ali. Sa�mos sem saber ao certo a que dist�ncia estava qualquer tipo de ajuda, sendo esse o detalhe que mais me preocupava. Ser� que encontrar�amos ajuda antes do anoitecer?
              Cada um pegou uma ferramenta ou p� que julgou ser �til em caso de sofrermos um ataque por parte de algum animal e seguimos em frente sem muita convic��o em nossas mentes. N�o hav�amos andado cinco quil�metros quando o guia com uma voz algo embargada pediu que and�ssemos o mais r�pido poss�vel, pois a uns trezentos metros de dist�ncia a nossa esquerda havia uma manada inteira de elefantes. Quando olhei na dire��o que ele apontava, vislumbrei um macho com presas enormes e um calafrio percorreu a minha espinha. Havia o perigo dos animais nos farejarem e atacarem sem aviso pr�vio, o que nos colocaria em s�rio perigo. Foi com grande alivio que come�amos a nos afastar da manada, deixando o perigo para tr�s. O �nico que permanecia impass�vel diante dos acontecimentos era o jovem masai que lev�vamos a bordo desde a saida do acampamento e cuja fun��o a princ�pio seria a de localizar le�es para n�s. Estes guerreiros levam o seu gado di�riamente para pastar nas plan�cies e portanto sabem com precis�o onde encontrar le�es.
             Uma hora e meia de caminhada e nem sinal de civiliza��o, mas a minha bolsa de equipamento fotogr�fico que no come�o pesava uns dezoito quilos j� parecia pesar pelo menos cinq�enta naquele momento. Apesar do des�nimo e do desespero geral ainda levantei a c�mera e fiz algumas fotos para registrar o momento. Eu s� percebia o sorriso algo for�ado do casal de americanos que tamb�m participava do safari. Continuamos naquela marcha for�ada, meio sem destino por um intervalo de tempo que n�o sei precisar bem, sem que nada que merecesse men��o acontecesse Em determinado momento o motorista come�ou a cochichar nervosamente com o masai na l�ngua swahili e s� consegui compreender a palavra �Simba� que significa le�o. Pelo nervosismo e agita��o com que falava e pelos seus olhos esbugalhados, senti que a situa��o era s�ria, um dos dois deve ter avistado algum le�o nas proximidades. Na verdade n�o iam que ningu�m  percebesse o que se passava, pois temiam que algum de n�s se apavorasse e fizesse alguma besteira, o que poderia acarretar um ataque. S� nos mandaram andar r�pido e sempre olhando para a frente. Com o canto dos olhos vi dois pontos escuros do nosso lado direito  em meio ao mar de capim a uns cinq�enta metros adiante e a uns dez metros da trilha por onde segu�amos. Arrisquei uma olhada r�pida naquela dire��o e o que vi quase paralisou o meu cora��o. Queria n�o acreditar no que via, parecia uma cena de pesad�lo, mas ali bem perto estavam escondidos s� com o topo da cabe�a por sobre o capim, um casal de le�es. Eu me lembro que na hora a �nica coisa que queria era acordar e ver que era tudo apenas um sonho, fruto da minha imagina��o. Lembrei imediatamente de um filme que mostrava um fot�grafo sendo morto por le�es e que havia visto a muitos anos atr�s mas que nunca havia esquecido nos menores detalhes. A imagem do meu filhinho me veio logo a cabe�a... 
             A adrenalina entrava em minha circula��o como uma avalanche descontrolada, impulsionada por uma bomba de um milh�o de quilowatts. Comecei a controlar os animais com o canto dos olhos e ao mesmo tempo tentava manter as pernas firmes, pois elas teimavam em bambear e torcia para que os le�es n�o percebessem o medo que eu sentia. Assim que chegamos mais perto dos animais eles abaixaram suas cabe�as lentamente, desaparecendo por completo no alto capinzal, como submarinos submergindo num mar maravilhosamente sereno. Logo come�amos a nos afastar do casal de le�es e o motorista olhava constantemente para tr�s para se certificar que os le�es n�o nos estavam seguindo, pois estes animais costumam perseguir as suas presas. Para nossa sorte os animais permaneceram onde estavam nos deixando em paz, pois normalmente os le�es n�o v�em seres humanos como alimento. O meu maior medo era que escurecesse antes de encontrar-mos ajuda, o que seria tr�gico pois n�o possu�amos nem uma lanterna. Eu imaginava o grupo andando aos trope��es na escurid�o s� escutando os ru�dos dos animais pelos arredores, fico arrepiado s� de pensar. O cansa�o h� muito tomara conta de todos e prossegu�amos mais no instinto do que qualquer outra coisa. Felizmente por volta das seis horas da tarde vislumbramos ao longe um estacionamento com v�rios jipes parados, que s� poderia ser de um hotel. A sensa��o foi de estarmos andando num deserto sem �gua e chegar a um o�sis salvador. Na verdade era o hotel chamado �Fig Tree Camp�, onde o motorista conseguiu algu�m para acompanh�-lo em um Toyota do hotel para resgatar nossa van. Ele mediu a dist�ncia que percorr�ramos a p� e que foi de doze quil�metros. Todos os guias do hotel quando nos viram chegar a p� foram un�nimes com a opini�o de que nosso motorista tinha sido louco de andar dentro da reserva a p� com tr�s clientes. Tiv�ramos muita sorte.
                No Parque Nacional de Amboseli em novembro de 1987 tamb�m tive uma noite bastante agitada e alguns detalhes ainda permanecem n�tidos na minha mem�ria como se tivesse sido ontem. J� passava das dez da noite e estava com um casal de franceses aproveitando o calor benvindo da fogueira pois a noite estava bastante fria. Eu havia retirado uma lamparina a querosene que o cozinheiro colocara para iluminar a cozinha improvisada e a coloquei entre as nossas tendas, na ilus�o de que isto manteria as feras afastadas. L� pelas onze da noite, o cozinheiro surge das trevas , pega a lamparina e a leva sem falar nada para n�s. A sua tenda estava armada entre dois densos arbustos a uns trinta metros da fogueira. A dist�ncia pudemos ver ele iluminando ao redor da sua tenda com a lamparina, como se estivesse buscando algo no ch�o e a seguir colocou-a no ch�o bem defronte a sua tenda, fechou o z�per e tentou dormir novamente. Aquilo nos deixou intrigados e irritados pelo fato dele n�o ter pedido para levar a lampa- rina.
               Havia combinado com o casal de franceses que far�amos turnos para alimentar a fogueira de uma em uma hora. Quando era meia noite despertei com a movimenta- ��o de gente colocando mais lenha na fogueira. Dali a uma hora chegaria a minha vez de faz�-lo e n�o sei por que motivo n�o consegui mais pegar no sono novamente e fiquei ali a meditar sobre o sil�ncio incomun que  fazia aquela noite. Atrav�s do tecido fino da tenda pude acompanhar  o clar�o que aumentava a medida que a fogueira se avolumava novamente. Figuras fantasmag�ricas pareciam dan�ar alegremente sobre o teto da barraca, e o bem-vindo crepitar do fogo soava absurdamente alto naquele sil�ncio assustador. Repentinamente, quando o clar�o da fogueira pareceu atingir o seu pico m�ximo, come�ei a ouvir o n�tido ru�do de algum animal mordendo peda�os de ossos e carne. Logo a seguir o ru�do de um corpo pesado sendo arrastado. A n�tida impress�o que eu tinha � que tudo se desenrolava ali a tr�s metros da tenda. Em certo momento pareceu que o corpo do animal arrastado se enroscou num grande peda�o de lenha da nossa fogueira e ficou ali meio atascado. Eu ouvia claramente o esfor�o que o animal atacante fazia para liberar a sua presa e sua respira��o logo come�ou a ficar ofegante. O tempo parecia levar s�culos para passar. Por volta de uma e pouco da manh� a fogueira novamente se reduzira a brasas e por incr�vel que pare�a a algum tempo o ru�do da mastiga��o felizmente cessara. Eu tinha que reunir coragem, abrir o z�per da minha tenda e sair para alimentar a fogueira, como fora o combinado. Coloquei a cabe�a para fora e prescrutei os arredores para me certificar de que o sinal estava verde. Um vento gelado soprava suavemente sobre o meu rosto, enquanto a luz azulada do luar inundava aquele mundo silencioso que mais parecia um fragmento congelado do universo. Um sil�ncio sepulcral envolvia os arredores e as tenebrosas sombras das arvores nunca me parece- ram t�o hostis e amea�adoras. Sai meio trope�ando, agarrei fren�ticamente os primeiros peda�os de lenha que consegui pegar no amontoado que compunha nosso estoque e os joguei febrilmente por sobre as brasas que ainda teimavam em sobreviver. Ouvi o motorista gritando para mim de dentro de sua tenda que era perigoso ficar ali fora e me ordenou que voltasse para minha tenda imediatamente. N�o � necess�rio dizer que �le n�o precisou repetir o aviso mais uma v�z.
              Eu acabara de fechar o z�per da tenda e o fogo j� se avolumava mais uma vez, quando voltou o ru�do assustador de carne sendo despeda�ada e ossos sendo triturados. Por incr�vel que pare�a a claridade da fogueira parecia deixar o animal que estava se alimentando ali fora mais a vontade e at� mesmo parecia atra�-lo para perto de n�s. A verdade que uma hora depois quando o fogo come�ou a morrer de novo o sil�ncio voltou e adormeci t�o profundamente que s� despertei com o dia j� clareando e o cozinheiro chamando para o caf� da manh�. O motorista logo explicou que os ru�dos que ouv�ramos a noite nada mais era do que um leopardo arrastando a sua presa, depois levando-a para o alto de alguma arvore ali bem perto e depois devorando-a. Os franceses confessaram tamb�m que haviam tido pouqu�ssimo tempo de sono durante aquela noite agitada. O cozinheiro por sua vez explicou porque havia levado e colocado a lamparina defronte a sua tenda. Ele despertou com a respira��o forte de um le�o ali pr�ximo a sua tenda e ap�s pegar a lamparina estava apenas tentando descobrir as pegadas do seu visi-tante noturno. Fui at� l� checar e descobri a menos de dois metros de sua tenda as pegadas de uma leoa nitidamente impressas na areia fina. Le�es machos possuem as pegadas maiores e mais redondas enquanto as leoas possuem elas mais alongadas. N�o posso precisar quanto tempo ela ficou ali mas com certeza esteve algum tempo nos observando enquanto permanec�amos a volta da fogueira na noite anterior. Quando foi embora, ela retornou sobre os seus passos num semi-c�rculo e se afastou passando a uns vinte metros de nossas tendas. Os acontecimentos daquela noite foram assunto o dia inteiro e na noite seguinte o cozinheiro e o motorista as oito da noite j� estavam enfurnados dentro da van onde dormiram. Os franceses naquela noite fizeram uma fogueira cujas chamas atingiram uns dois metros de altura, acho que desconfiaram que alguma coisa n�o estava bem. � impressionante o pavor que os empregados das companhias que trabalham diariamente com safaris possuem dos animais selvagens, principalmente le�es.
             Um dos piores apertos que passei na �frica, foi em 1995 na primeira vez que estava estreando meu suzuki 4x4 numa viagem ao Masai Mara. A �ltima coisa que me passou pela cabe�a era que o carro estava com algum problema no sistema de tra��o. Durante todo o trajeto at� a reserva n�o tive problemas pois n�o chovia a dias. Fui visitar uns amigos no acampamento da �Best Camping Safaris�, bem as margens do Rio Talek e a uns dois quil�metros do port�o de entrada do parque. Passei a tarde toda trocando id�ias e obtendo informa��es sobre os �ltimos acontecimentos na regi�o. Come�ou a chover torrencialmente como de costume na �poca das grandes chuvas que s�o nos meses de outubro e novembro. Me haviam contado de uma nova pesquisadora que estava na reserva estudando hienas. Pedi informa��es de como chegar ao seu acampamento e para l� me dirigi no final da tarde. A dist�ncia era de apenas quatro quil�metros mas precisava atravessar um trecho dif�cil do Rio Talek, o qual j� havia feito v�rias vezes no seco mas nunca com uma chuva daquelas. Logo que sai do acampamento de meus amigos, a plan�cie era um palmo de �gua e seguia devagar, esperando n�o haver nenhum buraco no caminho e imaginando como estaria o �ngreme barranco do rio. Passei por algumas aldeias masai que mais pareciam fortifica��es da idade da pedra, rodeadas por altas barreiras de espinhos.Todas sem exce��o estavam desertas, sem uma alma viva a vista. Procurei uma enorma figueira as margens do rio, que marca o ponto onde existe a passagem. N�o terdou muito e a localizei. Assim que iniciei a descida, tomei um susto pois com o ch�o muito escorregadio, o carro come�ou a deslizar e descer de lado, enquanto eu rezava para que n�o capotasse. Felizmente cheguei �s margens do rio em seguran�a e logo iniciei a travessia do mesmo que foi f�cil pois a profundidade era de no m�ximo trinta cent�metros.
             Quando iniciei a subida do barranco do lado oposto, fiquei pasmo ao constatar que simplesmente o jeep n�o  conseguia subir. Ao contr�rio descia escorregando des- governado, s� parando ao bater nos arbustos que margeavam o barranco que subia para a outra margem. Foi ai que pela primeira vez percebi que havia algum problema no carro pois as rodas da frente n�o puxavam apesar da reduzida e da tra��o nas quatro rodas acionadas. O problema � que faltava pouco para escurecer e aquele por certo n�o era um local recomend�vel para se passar a noite. Assim sendo tentava desesperadamente me safar daquele imprevisto, acelerando fundo e fazendo uma tentativa atr�s da outra. Um cheiro de embreagem queimada come�ou a impregnar o habit�culo do carro, aumentando a minha preocupa��o. Depois de queimar muita embreagem, finalmente respirei aliviado quando consegui chegar ao topo do barranco. A minha alegria n�o durou muito pois a trilha estreita que deixava o lugar era um verdadeiro mar de lama e simplesmente n�o conseguia me manter no centro da mesma. Segui adiante por uns vinte metros at� que finalmente escorreguei para fora da trilha e me enterrei num amontoado de arbustos a tr�s metros da trilha por onde eu seguia. Dali, infelizmente n�o sai mais, por mais que acelerasse n�o me movia um s� mil�metro. Como n�o queria ver a minha embreagem pifando de vez, desisti das tentativas. Olhei para o rel�gio que marcava 17:40 hs. Estava a uns cinco minutos matutando o que deveria fazer naquele local ermo e desolado, quando avistei um grupo de masais conduzindo o seu rebanho de volta para a aldeia. Comecei a buzinar e a acenar para eles tentando chamar sua aten��o, pois me apeguei como nunca a aquela �nica e �ltima chance de ajuda que poderia ter naquele dia. A �ltima coisa que eu queria era passar a noite ali naquele antro de le�es, pelo menos eu imaginava que deveria ser. Para quem quiser tentar esta travessia do rio Talek, esse ponto fica  tr�s quil�metros a leste do port�o de entrada de Talek e do vilarejo com o mesmo nome. Uma imensa arvore as margens do rio marca o ponto onde � possivel atravessar de jipe.
           Com a ajuda dos quatro guerreiros consegui voltar a trilha novamente e seguindo o conselho deles passei a dirigir pelo capim lateral da estrada, mais firme. Dois deles se prontificaram a me guiar at� o acampamento da pesquisadora, onde chegamos sem contratempos dez minutos depois. Ap�s me apresentar a ela meio constrangido, expliquei o que havia acontecido e pedi permiss�o para passar a noite ali dentro do meu carro. Eu j� em diversas oportunidades havia dormido dentro do diminuto suzuki e por incr�vel que pare�a sem nenhum problema quanto a falta de conforto. Todo o desconforto que porven- tura eu sentisse por causa de uma noite mal dormida era logo amenizada e com sobras logo na primeira hora de trabalho buscando boas imagens na manh� do dia seguinte. A verdade � que d� muito prazer trabalhar com o que se realmente gosta.
           Aceitei de bom grado o convite para jantar e comemos ouvindo os roncos ocasionais  de algum le�o na dist�ncia e o uivo das hienas nas proximidades. A bi�loga me falou que le�es costumavam perambular pelo acampamento durante a noite mas que n�o ofereciam um perigo maior se n�o nos aproxim�ssemos em demasia. Meu carro estava estacionado a uns trinta metros da tenda refeit�rio e esperava n�o encontrar nenhum deles por ali quando me dirigisse at� ele para dormir. Depois de saber um pouco sobre o trabalho da bi�loga que vivia ali t�o isoladamente na compania de dois masais, que lhe auxiliavam em suas pesquisas j� a tr�s meses, me recolhi para um bom e merecido descanso. Adormeci imediatamente assim que coloquei a cabe�a no travesseiro.
            Fui despertado por volta das duas horas da manh� com o ru�do de algum animal farejando a minha porta. Levantei bem devagar a toalha que havia colocado na minha janela e qual n�o foi a minha surpresa quando percebi a presen�a de uma leoa a um metro de dist�ncia da porta, tendo apenas o vidro nos separando. Ela estava im�vel como se fosse uma est�tua de bronze se bronzeando sob o luar africano. O meu cora��o batia aceleradamente e no momento temi que o animal ali fora pudesse ouvi-lo e perceber a presen�a de um ser humano no interior do carro. Na verdade eu acho que a leoa at� havia notado a minha presen�a ao farejar a porta, por isso procurava me manter o mais quieto e im�vel poss�vel. Sob aquela luz intensa e irreal do luar a leoa parecia um verdadeiro fantasma da noite, dando � atmosfera reinante um aspecto surreal. Os minutos pareciam se arrastar lentamente at� que a leoa se afastou uns quatro metros olhou para um lado olhou para outro, farejou o tronco de uma arvore e se afastou lenta e silenciosamente. Olhei para o rel�gio que marcava duas e quarenta da manh�. Fazia frio e os vidros estavam todos emba�ados e salpicados com o orvalho da madrugada. Por sorte a chuva a muito tempo j� tinha cessado e como a paz reinou mais uma vez ao derredor, adormeci imediatamente.
            Nessa noite gostaria de possuir um sono pesado pois pouco depois das quatro da manh� acordei com uma sucess�o de roncos aterradores e gritos de agonia de algum animal que certamente estava sendo morto ali nas proximidades. Fiquei tentado a ligar o carro e ir fotografar o que se passava mas o medo de atolar e o sono que sentia me desestimulou totalmente a faz�-lo. N�o se passou cinco minutos e parece que o animal finalmente fora morto pelos agressores. J� estava quase adormecendo novamente quando alguns animais come�aram a passar trotando ao lado do meu carro roncando baixo mas de forma selvagem. Tentei identific�-los e logo percebi pelo seu andar desengon�ado que eram hienas, muitas hienas se dirigindo rapidamente na dire��o de onde minutos antes ouvira os sons da matan�a. A seguir roncos selvagens de le�o se misturaram �s vozes de dezenas de hienas que ao que tudo indicava estavam disputando alguma  presa abatida minutos antes. Os sons no sil�ncio da noite ressoavam de forma incrivel. Fiquei intrigado e bastante curioso para saber o que estava realmente se passando, mas teria de esperar o amanhecer para tentar descobrir.
            Assim que o c�u no horizonte come�ou a se tingir das mais variadas matizes de um tom p�rpura alaranjado, comecei a me preparar para partir. O carro da bi�loga j� n�o estava mais ali do lado, sinal que ela j� havia partido em busca de suas amadas hienas sem que eu o percebesse. N�o tardou muito e descobri o local onde houve a barulheira na noite anterior. Havia uma �rea onde o capim estava completamente amassado com uma grande mancha preta que s� podia ser de sangue s�co. Afora isso n�o havia mais nada que pudesse ajudar a desvendar os acontecimentos da madrugada anterior, nem mesmo um peda�o de osso ou pele do animal morto Tudo parece haver evaporado num piscar de olhos. Depois de andar em c�rculos por algum tempo, descobri finalmente o �nico ind�cio que me poderia ajudar, um cr�nio de zebra totalmente esbranqui�ado e com os dentes travados em sua agonia de morte. Dai deduzi que a zebra ap�s ser morta por um ou dois le�es, teve a sua presa roubada pelo bando de hienas. O fato pode parecer iveross�mel, mas � o que realmente ocorre se os le�es estiverem em n�mero substancialmente menor. Ao encontrar a bi�loga das hienas tempos depois, ela confirmou que as minhas dedu��es naquela noite foram corretas. Posteriormente os guardas do parque tamb�m confirmaram que bandos de hienas costumam roubar a presa dos le�es.
           Mas felizmente os dias na savana n�o se resumem a escapadas por um triz e a estarmos constantemente sendo espreitados por feras famintas, depois estes perigos acredito, s�o mais cria��o de nossas mentes despreparadas do que qualquer outra coisa. Os animais considerados perigosos geralmente s� atacam o homem quando provocados e na verdade evita-os o mais que podem. A �frica � um lugar para pessoas que gostam de sair um pouco da rotina, que gostam de aventura, de viajar por terras desconhecidas e intocadas pelas m�os destruidoras do homem. Por certo n�o existe outro lugar que exer�a maior fasc�nio em pessoas apaixonadas pela aventura e natureza animal. Nem por isso o viajante estar� correndo maiores riscos do que se estivesse visitando uma grande metr�pole do primeiro mundo, muito pelo contr�rio. Em nenhum outro lugar do mundo pode-se ter tamanha sensa��o de liberdade como nos grandes espa�os abertos da �frica e em nenhum outro lugar existe tal quantidade de animais t�o grandes, t�o belos e t�o poderosos.
            Como sempre fotografo a vida selvagem com inten��o de publicar o resultado em revistas, a qualidade final tem prioridade absoluta. Assim sendo, o filme que utilizo � sempre para slides ou transpar�ncias, que � bem sabido, produz melhores resultados finais de impress�o. Muitas revistas no Brasil e exterior s� aceitam para publica��o trabalhos apresentados neste formato. Os filmes que uso j� a anos com �timos resultados s�o o Fuji Pr�via 100 ASA e o Fuji V�lvia 50 ASA. Evito de toda forma utilizar os filmes de 400 ASA pelo simples fato de que s�o muito granulados, n�o apresentam boa satura��o de cores e tem contraste sofr�vel. N�o satisfazem o m�nimo de qualidade aceit�vel que eu espero em um bom cromo. J� os utilizei em minhas primeiras viagens a �frica, mas na maioria das vezes com p�ssimos resultados. No que se refere a equipamento, existem diverg�ncias entre os profissionais que preferem esta ou aquela marca. Uns se adaptam melhor e defendem ferrenhamente determinadas marcas enquanto outros s�o fi�is a determinado fabricante por d�cadas. Eu por minha vez, costumo ser fiel a determinada marca de equipamento ou filme quando estes apresentam anos e anos de �timos servi�os. Assim sendo, prefiro e continuo a anos utilizando equipamento Nikon que mesmo estando um pouco defasado em rela��o as Canon no que se refere � tecnologia embarcada, compensa de sobra em resist�ncia e confiabilidade que � o que conta quando se est� a milhares de quil�metros de qualquer oficina autorizada.                                                               
            Em minha primeira viajem a �frica em 1987, utilizei dois corpos de c�meras uma F3 com motor e uma FE e lentes de 28mm f2.5, 50mm f1.2 , 80-200mm f4.5, 300mm f4.5, uma 500mm f8 reflex e mais um duplicador TC-201. Na minha opini�o este equipamento est� longe de ser o ideal e hoje passados j� quatorze anos, percebo bem as suas limita��es. Mas era o que eu podia adquirir naquela �poca e para o come�o de minhas jornadas africanas acho que n�o foi t�o decepcionante assim. Mas aprendi muito queimando filmes e mais filmes e errando bastante as vezes e esta � na minha opini�o � a melhor maneira de se aprender a fotografar bem com cromo. Acho que todo fot�grafo que se preze al�m de gostar de fotografar, deve gostar do equipamento em si, gostar de manuse�-lo, senti-lo bem balanceado, bem encaixado nas m�os. Deve conhecer bem os aspectos t�cnicos da c�mera que utiliza e dos que envolvem o processo fotogr�fico em si, como porcentagem da �rea do visor que a c�mera mede em cada tipo de fotometragem, mecanismo de funcionamento do flash em TTL, quais os objetos na natureza que se aproximam do cart�o cinza m�dio de 18% etc. Tudo isso apenas facilita o ato de se conseguir cromos bem expostos. Mas em minhas primeiras viagens, logo senti falta de lentes mais luminosas que fazem uma grande diferen�a.  Pois a grande verdade � que as a��es mais interessantes sempre ocorrem quando a luz ainda � bem t�nue pr�ximo ao alvorecer ou ao entardecer. Nestas horas fotografar com 100 ASA e lentes com aberturas m�ximas de f 4.5 fica dif�cil sen�o impratic�vel. Aberturas f 8 nem pensar e a minha 500mm ficava mais tempo guardada em seu estojo.  Pouco a pouco fui dedicando parte das minhas economias para melhorar o meu equipamento e logo comprei uma 80-200mm f2.8 que � uma incr�vel ferramenta de trabalh                               Finalmente em 1997 pensei que se quisesse mesmo ser um fot�grafo de natureza s�rio e competitivo teria que partir para as �big ones� ou seja as grandes teles ultraluminosas  que utilizam cristais de baixa dispers�o em sua constru��o e com as quais eu sonhava a tanto tempo. Adquiri uma 300mm f2.8, uma 400mm f2.8 e uma 500mm f4 tudo original Nikon, verdadeiras j�ias sempre prontas a produzir imagens da mais alta qualidade imagin�vel e o sonho de consumo de todo fot�grafo de natureza. Utilizando este tipo de �tica a porcentagem de fotos por filme que atingem qualidade nota dez, aumentam de forma impressionante. Em minha ultima viajem ao Qu�nia em agosto de 1999 j� consegui um excelente progresso em rela��o � minha primeira viajem doze anos antes.  Pude experimentar a 70-210mm f2.8 que acabara de adquirir, a 300mm f2.8 e a 500mm f4 que considero lentes fant�sticas para se fotografar animais selvagens. N�o levei a 400mm f2.8 por quest�o de dificuldade de transportar as tr�s lentes no avi�o.  Os corpos de c�meras que utilizo atualmente s�o uma Nikon F4, uma 8008S e uma 8008 e estou pensando seriamente em adquirir uma Nikon D100 j� entrando na �rea da fotografia digital..                                                                                          Para aqueles que desejam se iniciar na agrad�vel profiss�o de fot�grafo de animais selvagens, o pre�o atual dos equipamentos de ponta pode a princ�pio desencorajar. Mas n�o os julgo totalmente imprescind�veis no in�cio para se realizar um bom trabalho. Na realidade, uma vontade ferrenha, um amor genu�no e uma real dedica��o do fot�grafo muitas vezes t�m um peso muito grande e compensam com sobras o fato dele utilizar um equipamento mais modesto. Em minha opini�o deve-se iniciar com pelo menos dois corpos de c�meras e um jogo de lentes que abranja uma gama de 28mm at� uma tele de pelo menos 300mm. Com este equipamento b�sico pode-se sair em campo e come�ar a testar sua criatividade, lembrar de todas as dicas fotogr�ficas que porventura voc� leu nos livros e revistas especializadas e confiar no seu jeito para o neg�cio.
              Um dos animais da �frica que considero mais dif�cil de se avistar e conseq�ente- mente fotografar � o leopardo, o segundo maior felino da �frica. Ao contr�rio do le�o que pode ser visto com facilidade nas grandes plan�cies durante o dia, o leopardo � um animal tipicamente noturno. Ele � em rar�ssimas vezes observado durante o dia, talvez esteja apenas evitando conflitos com seu pior inimigo, o le�o. A melhor foto que obtive de um leopardo por incr�vel que pare�a foi a poucos quil�metros do centro da grande Nairobi, capital do pa�s. Estava percorrendo em meu jipe a floresta que fica logo ap�s a entrada principal do Parque Nacional de Nairobi em 1995 e eram quase seis da tarde, portanto quase na hora de ir embora pois os port�es do parque fecham as seis e meia. Eu andava em marcha lenta pela estreita trilha de terra, sem a menor esperan�a de ver nada mais de interessante aquele dia.                                          Desejava apenas ficar mais algum tempo ali naquele para�so, adiando a inevit�vel hora de voltar para a polu�da e barulhenta Nairobi. De repente quando passava por uma clareira na mata, tive um r�pido vislumbre do que me pareceu ser um leopardo. Inicialmente n�o acreditei nos meus olhos. Na �nsia de conseguir uma boa foto e contrariando as normas do parque liguei a tra��o nas quatro rodas com reduzida e subi um pequeno barranco, chegando o mais pr�ximo que podia do local. Logo para minha felicidade vi que meus olhos n�o haviam me enganado e ali estava um leopardo em carne e osso. Este estava atr�s de um tronco ca�do e devorava avidamente os restos de um impala que parecia haver sido morto h� v�rios dias. Algo que me pareceu estranho, pois leopardos levam suas presas para o alto das �rvores para as devorar em lugar seguro, coisa que aquele por algum motivo, n�o julgou necess�rio. Uma dist�ncia de uns quinze metros me separava do animal. O ch�o estava �mido, o capim de um verde extremamente agrad�vel aos olhos e repleto de folhas que caiam das �rvores adjacentes. Um cheiro � vegeta��o em estado de decomposi��o impregnava o local. N�o cheguei a me sentir incomodado pelo odor que na verdade era bem suave, natural como s�o as coisas da floresta. Logo percebi que o felino ficou completamente desconfort�vel com a minha chegada inesperada e instantaneamente percebi seu nervosismo. O leopardo dava mordidas r�pidas arrancando grandes peda�os de carne produzindo um estranho ru�do durante o processo. N�o conseguia ver bem a cena por causa do tronco ca�do e s� via a parte de cima do corpo do leopardo. A cada duas dentadas ele parava completamente im�vel como uma est�tua e lan�ava um olhar selvagem na minha dire��o com sua boca entreaberta e ensang�entada, pr�pria ess�ncia do desafio. Eu � que repentinamente comecei a me sentir desconfort�vel.  Assim que seu nervosismo atingiu um limite, deu uns passos lentos na minha dire��o, pulou sobre a �rvore ca�da e trotou at� chegar a uns dois metros da minha janela. Assim que senti que ele vinha em minha dire��o com ar de brig�o, comecei instintivamente a fechar a janela do carro. Mas antes de a ter fechado por completo um r�pido lampejo inundou meu c�rebro me dizendo que era um fot�grafo e portanto n�o podia ficar sem fazer aquela foto do leopardo enraivecido ali fora, afinal estava na �frica para isso. Rapidamente reabri a janela e coloquei a 80-200mm para fora enquadrando o leopardo que encarou meu movimento como um contra-ataque, pois recuou um pouco mostrando os dentes de forma amea�adora. Fiz as primeiras fotos � 1/60s f2.8, mas logo percebi numa rapid�ssima checada no fot�metro que a fotometragem estava indicando um ponto subexposto. � ai que uma familiaridade total com a c�mera que voc� utiliza faz a diferen�a entre fazer ou n�o a foto. Mais por instinto e com o c�rebro funcionando como um rel�mpago, com o indicador direito mudei a velocidade para 1/30s interrompendo apenas por uma pequen�ssima fra��o de segundo a metralhada que havia iniciado segundos antes. Logo depois fiquei preocupado de ter feito a imagem mais marcante da seq��ncia com a velocidade 1/60, o que me daria um cromo subexposto.                                                                                                            N�o sei bem porque, mas nestas ocasi�es em que se fotografa algo que ocorre muito r�pido ali na nossa frente, com uma velocidade cr�tica de obturador, com a adrenalina a mil circulando em nossas veias, n�o temos muita certeza se conseguimos ou n�o captar bem o pico da a��o. Pelo menos comigo � assim. Foi com grande felicidade que no dia seguinte ao revelar o filme vi que tinha conseguido a foto que desejava, o leopardo olhando na minha dire��o com os dentes a mostra e os olhos soltando fa�scas de raiva por ter sido interrompido em seu repasto. Particularmente � uma foto que eu gosto muito, uma das minhas preferidas, pois sei em que circunst�ncias ela foi feita.
              Todo fot�grafo possui suas fotos prediletas e a lembran�a de como foram feitas � um verdadeiro deleite para a alma. Muitas vezes a hist�ria de como uma imagem foi feita valoriza muito uma foto principalmente para o fot�grafo que a fez. Me lembro como se fosse hoje uma manh� de 1995 na praia de Diani na costa do Qu�nia, enquanto fazia um trabalho para a companhia Mont Kenya Sundries de Nairobi. Nesse sa�das di�rias, levava quase todo o meu equipamento na bolsa, com tr�s corpos e lentes de 19mm at� 300mm, flashes trip�s e tudo mais. A bolsa pesava ent�o 16 kg, mas depois de algum tempo, parecia conter chumbo em seu interior e parecia ter pelo menos duas vezes o seu peso original. Nestes trabalhos utilizava a 19mm, a 24-40mm e a 80-200mm cada uma em uma c�mera que levava a tiracolo prontas para uso imediato. O principal motivo porque agia desta forma era que com uma c�mera fazia fotos para o meu arquivo particular e com as outras duas fazia as fotos visando o trabalho no qual estava engajado. Caminhava pela areia da praia procurando algo interessante para as minhas lentes quando ao longe vi tr�s camelos com seus tratadores sendo conduzidos para a �gua para se banharem no mar. Senti imediatamente uma boa foto no ar. Bem, eu estou acostumado a ver belas praias, pois as temos em nosso pais aos montes, mas camelos se banhando no mar para mim foi completa novidade. Andei o mais r�pido que pude naquela dire��o, arfando com o peso que levava e meus t�nis teimando em afundar na areia fofa, diminuindo o meu ritmo. Quando cheguei ao local, n�o pensei duas vezes em entrar na �gua de t�nis roupas e tudo mais, pois a prioridade naquele momento era registrar a cena. Continuei clicando apesar dos protestos veementes dos somalis donos dos animais que logo demandaram o pagamento pelas fotos. A primeira coisa que me veio � cabe�a foi dizer a eles que estava trabalhando na execu��o de um folheto tur�stico sobre a costa do Qu�nia e que isso divulgaria o trabalho deles. Estes somalis utilizam os camelos para levar os turistas para passear pela praia montados nos animais.  N�o sei se os convenci, mas o fato � que continuaram a dar o banho nos camelos sem mais uma reclama��o e eu fiz ent�o a sess�o de fotos que desejava.
            Sempre desejei ir a terra dos gorilas para v�-los com meus pr�prios olhos e logicamente para fotograf�-los tamb�m. Como j� havia lido bastante a respeito sobre este animal em meus livros de aventuras africanas e sabendo que eles corriam e correm grande perigo de extin��o, tive oportunidade de visit�-los finalmente em mar�o de 1996. Para falar a verdade fui a Rwanda com o �nico objetivo de ver estes imponentes animais em seu habitat natural nos Montes Virunga na fronteira de Uganda, Rwanda e Congo. Os melhores pa�ses para ver gorilas s�o os dois �ltimos da� minha escolha, visto que o antigo Zaire e atual Congo n�o oferecia seguran�a para os turistas.  Os Montes Virunga me proporciona- ram uma das vis�es mais belas que tive na �frica. Eles formam uma fileira de vulc�es adormecidos formando um visual de uma beleza impar, simplesmente inesquec�vel. Para se ter uma id�ia em agosto de 1995 enquanto visitava Uganda pela primeira vez, fui at� a cidade de Kisoro s� para ver com os pr�prios olhos os Virungas. Nesta oportunidade, desisti de ver os gorilas por inseguran�a pol�tica em Rwanda e Zaire (atual Congo).                          Em Rwanda vi os gorilas no Monte Karisimbi, onde vive o grupo Suza, o mais numeroso deles com 23 animais na �poca de minha visita. Um bom conselho para aqueles que pretendem fotografar estes animais � levar apenas o equipamento estritamente necess�rio. Eu subi a montanha com duas c�meras, uma F4 e outra FE com motor, uma 19mm f 3.8, uma 24-40mm f2.8, uma 50mm f1.2, uma 80-200mm f2.8 e uma 300mm f4.5. Como temos apenas uma hora para ficar junto com os animais e perdemos muito tempo nos colocando em melhores posi��es para a execu��o das fotos. Isso sem falar dos turistas excitados que entram na sua frente a todo momento na �nsia de um bom instant�- neo com pequenas m�quinas amadoras do tipo one shot. Como resultado utilizei apenas a 80-200mm e a 300mm e nem tirei as grande-angulares da bolsa o que me arrependo at� hoje. Mas com certeza, o gorila � um dos animais que me deu mais prazer de fotografar, talvez pelo t�o ex�guo tempo que tive para estar em sua companhia. Mas fico particular- mente feliz em ter estado t�o pr�ximo de animais t�o raros e interessantes.
           Todos j� devem ter notado que eu sou um f� incondicional da Reserva Masai Mara e em agosto de 1999 mais uma vez l� eu estava em f�rias para fotografar a sua vida selvagem. Est�vamos no jipe do hotel no qual eu estava hospedado, fotografando elefantes pr�ximo a hipo pool do Rio Talek quando repentinamente e sem aviso pr�vio o motorista ligou o motor e arrancou de forma brusca, me desequilibrando por completo pois estava utilizando a 500mm f4. Ainda estava em d�vida se questionava o motorista ou n�o a respeito da sua atitude quando ao longe vislumbrei que uma hiena corria atr�s de um jovem gnu que tinha uma grande ferida de onde notavasse claramente a falta de alguma carne. Quando nos aproximamos, a hiena tinha acabado de derrubar o gnu e o mordia nos quartos traseiros de forma selvagem arrancando peda�os de carne sangrenta no processo. O gnu ainda tentava se defender levantando dolorosamente a cabe�a para ensaiar algumas chifradas em seu antagonista. Eu mantinha os olhos no visor de minha 8008S com a 500mm, n�o parando um instante sequer de fotografar aquela cena t�o rara de luta pela vida na savana. Os olhos do animal estavam abertos ao extremo, espelhando o choque e profundo terror que o dominava em seu momento de morte. O jipe em que estava era aberto o que facilitava o ato de fotografar e as outras pessoas a bordo mostravam sinais de nervosismo se movendo de forma brusca balan�ando o ve�culo mais do que o desej�vel. A cena toda durou n�o mais de dois minutos ap�s os quais o gnu j� estava morto e com a barriga toda aberta e �rg�os internos expostos. Este tipo de cena � a com que todo fot�grafo da natureza sonha e se tiv�ssemos chegado cinco minutos antes, com certeza teria feito a seq��ncia completa da ca�ada. � sempre assim, nunca estamos completamente satisfeitos com o que conseguimos, sempre queremos mais, coisas do ser humano.
               Numa tarde de  1995, estava com pouca gasolina no meu  jipe e ent�o resolvi passar o dia inteiro num bebedouro chamado Hyena Dam a dois quil�metros do port�o do Rio Talek em Masai Mara mais uma vez. As horas passaram lentamente naquela manh� com poucos animais vindo beber �gua e alguns pequenos p�ssaros a cantarolar nas margens do bebedouro. Nem por isso senti o m�nimo de t�dio, muito pelo contr�rio, me sentia inundado de uma sensa��o de paz e tranq�ilidade que n�o era deste mundo. No final da tarde apareceram quatro cegonhas de bico amarelo e come�aram a pescar na �gua pouco profunda foi quando peguei a m�quina com a 500mm f8 e aguardei um bom instante. Estava com a m�quina a postos acompanhando tudo o que as cegonhas faziam e j� come�ava a ficar cansado. Ent�o em determinado momento vi as aves enfileiradas em uma fra��o de tempo, todas exatamente na mesma posi��o com os bicos mergulhados na �gua a procura de alguma guloseima imersa na �gua lodosa. A foto estava feita, sim estava com certeza. Mais tarde uma das cegonhas pegou um sapo que ficou pendurado em seu bico amarelo antes de ser engolido pela ave faminta. Tamb�m foi uma boa foto, s� senti o fato de nesse dia ainda n�o possuir uma 500mm f4. Quer dizer em um dia que estava ali s� relaxando apareceram bem a minha frente duas boas fotos. E quem diria as vezes passamos o dia inteiro vagando pela savana sem fazer nada digno de nota, s�o ossos do of�cio!
           Sempre quis fotografar a grande migra��o talvez pelo aspecto antidiluviano e selvagem das grandes manadas salpicadas na plan�cie sem fim. No Qu�nia a melhor �poca para ver e fotografar a migra��o vai de julho at� setembro quando os animais atravessam a Reserva Masai Mara. Na Tanz�nia, boas vis�es das manadas podem ser obtidas de abril at� junho. � interessante al�m de fotografar os animais espalhados pelas plan�cies em longas fileiras, tamb�m faz�-los durante as travessias de rios, quando bebem nos in�meros bebedouros e do alto de um bal�o que nos permite um angulo inusitado deste fen�meno da natureza. Logicamente deve se ficar atento aos ataques por parte dos diversos carn�voros que est�o sempre pr�ximos �s grandes manadas, pois a qualquer momento pode haver a��o para suas lentes. Os le�es est�o nesta �poca sempre com enormes barrigas balan�ando cheias de carne de gnu e se mostrando mais felizes do que nunca por estarem com a despensa cheia.         
           Todo fot�grafo tem tamb�m os seus �dolos, aqueles que de uma forma ou de outra fazem com que passemos a gostar e mesmo direcionar nossos trabalhos a determinado assunto. O meu �dolo de inf�ncia foi Martin Jonhson, explorador e pioneiro da fotografia na �frica. Em tempos mais modernos sempre admirei fot�grafos como Frans Lanting, Michael Nichols, Mitsuaki Iwago, Cris Johns, Gunter Ziesler, Yann-Arthus-Bertrand entre outros. A maioria deles conheci vendo seus fabulosos trabalhos na National Geographic Magazine americana que na minha opini�o � o celeiro dos melhores fot�grafos de nosso planeta,  sem sombra de d�vida. A pr�pria leitura desta conceituada revista � uma verdadeira aula de fotografia pela t�cnica e criatividade das imagens ali encontradas. Eu n�o sei se estou certo, mas umas das coisas mais importantes para um fot�grafo � pesquisar, ver o maior n�mero poss�vel  de grandes imagens nos livros e revistas, estudando-as e analisando-as, imaginando como elas foram feitas. Acho que isso exercita e at� d� uma azeitada em nossas pr�prias capacidades criativas, nos preparando melhor para quando as coisas acontecerem diante de n�s. Acredito que o grande legado deixado pelos fot�grafos de natureza para a popula��o em geral � inspirar o amor pela vida selvagem e pela natureza. Para que um n�mero cada vez maior de habitantes do planeta sinta necessidade de proteg�-los com unhas e dentes, para que gera��es futuras possam ter oportunidade tamb�m de admir�-los livres em seu habitat natural. E finalmente e principalmente para que aqueles que no futuro tamb�m se sintam inspirados a se tornarem fot�grafos da vida selvagem e a continuar um trabalho, tenham ainda o que fotografar.                    
            O avan�o inexor�vel da civiliza��o faz o seu tributo inclusive na �frica, infelizmente. Desde a primeira vez que l� estive pela primeira vez, muita coisa mudou para pior � claro. Pr�ximo a entrada do Rio Talek em 1987 s� havia aldeias masai e em 1995 j� existia um pr�spero vilarejo com armaz�ns, bares e hot�is de terceira categoria, tudo propriedade dos masai. De uns anos para c� esta tribo despertou para o mundo capitalista em que vivemos e hoje s� raciocinam em termos de cifras, d�lares � a palavra chave em todas as negocia��es. Uma mudan�a consider�vel tamb�m pode ser sentida no Lago Naivasha. A estrada de terra que d� a volta no lago, antes tinha um aspecto selvagem e in�spito com ac�cias e mais ac�cias as suas margens. Hoje h� ali uma estrada asfaltada onde as arvores cederam lugar a grandes estufas onde s�o produzidas as mais diversas flores e orqu�deas que s�o exportadas para o mundo todo. Tudo em prol dos lucros e da gan�ncia do ser humano. Eu s� espero que o governo de determinados pa�ses privilegiados pela fartura de sua vida selvagem, continuem dando prioridade a prote��o total da vida selvagem para que futuras gera��es tamb�m possam usufruir deste magn�fico espet�culo da natureza. E que os graves problemas pol�ticos que assolam o mundo atual nunca ultrapassem os limites do bom senso e nem por sombra estreme�am a paz maravilhosa e contagiante das maravilhosas savanas da �frica.
                Ap�s semanas sacolejando pelas estradas de terra das reservas, uma boa op��o � relaxar a beira mar em um dos paradis�acos resorts da costa queniana. Ao sul e a norte de Mombasa h� uma grande variedade de praias de sonho salpicadas de coqueiros e banhado pelo oceano �ndico. Uma coisa � certa, ap�s um per�odo de f�rias no Qu�nia, intercalando saf�ris com tardes ensolaradas a beira mar, todo aquele estresse das grandes cidades dar�o lugar a uma profunda paz de esp�rito e uma sensa��o de tempo e dinheiro bem aproveitado.
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