O ASSASSINO DE KIMA
Neto de um africano que trablhava na esta��o na �poca,  mostra onde estava estacionado o vag�o de Ryall no incidente.
Esta��o de Kima em dezembro de 1995
Pr�dio principal da esta��o de Kima em junho de 1995
Esta��o de Kima em dezembro de 1995. Pode-se notar que ainda hoje o lugar � bem selvagem com uma aldeia de nativos ao fundo.
O Vag�o onde Ryall foi morto pelo le�o, se encontra hoje no Museu das Estradas de Ferro em Nairobi, Qu�nia. (1987)
T�mulo de Charles Henry Ryall no cemit�rio para europeus em Nairobi.  (1995)
Esta��o de Kima em dezembro de 1995.
Janela do vag�o por onde o le�o retirou o corpo de Ryall, pode-se notar a parte superior onde a  mesma foi remendada. O Vag�o se encontra no Museu das Estradas de Ferro em Nairobi, Qu�nia.
Esta��o de Kima em dezembro de 1995.
Esta��o de Kima em junho de 1995.
� quase certo que este � o le�o que matou Ryall, ele foi pego em uma armadilha e depois morto a tiros.
Filme feito pela Kenya Railways sobre o incidente
Aspecto da esta��o de Kima na �poca da morte de Ryall
T�mulo de Charles Henry Ryall no cemit�rio para europeus em Nairobii em 1966
T�mulo de Charles Henry Ryall no cemit�rio para europeus em Nairobi.  (1995)
Esta��o de Kiu na �poca do incidente com Ryall, pode-se notar as barracas dos trabalhadores da ferrovia a direita.
                                   
                                                                          
O ASSASSINO DE KIMA


        
Esta � uma tr�gica hist�ria ocorrida nos pioneiros dias da estrada de ferro de Uganda e � nos m�nimos detalhes, exatamente o que ocorreu na esta��o de Kima no Qu�nia em 6 de junho de 1900. Todos os detalhes aqui relatados,  foram levantados pelo Major Robert Foran, pois que o mesmo entrevistou pessoalmente e em primeira m�o, todas as pessoas que direta ou indiretamente testemunharam as fa�anhas do le�o comedor de gente naquela ocasi�o. Tais acontecimentos vieram finalmente a custar a vida de Charles Henry Ryall, Superintendente da Estrada de Ferro de Uganda   (hoje Estrada de Ferro do Leste da �frica).
         Muitas vers�es deturpadas e totalmente imprecisas foram escritas e publicadas ao longo dos anos sobre esta trag�dia de Kima. A hist�ria que se segue representa um fato real e n�o uma fic��o. As investiga��es pelo Major Foran, levaram-no a possuir um tal n�mero de depoimentos de pessoas ligadas ao caso, que coloca-o melhor do que ningu�m como uma pessoa digna de cr�dito para detalhar de forma t�o minuciosa quanto poss�vel os acontecimentos daquele fat�dico dia.
         Este � o �nico caso conhecido em que um ser humano foi retirado por um le�o comedor de gente de dentro de um vag�o estacionado no p�tio de uma esta��o. Naquela �poca, a estrada de ferro estava sendo constru�da e a frente de trabalho apenas alcan�ava a �rea pantanosa do que � atualmente a cidade de Nairobi, capital do Qu�nia. Kima � uma esta��o situada a 400 km de Mombasa e a 100 km de Nairobi.
          O Major Robert Foran, chegou ao Qu�nia tr�s anos e dez meses ap�s a ocorr�ncia do incidente, mas quando os fatos ainda permaneciam frescos na mem�ria das pessoas. As circunstancias o intrigaram de tal modo que ele decidiu ir fundo na investiga��o do caso, n�o medindo esfor�os para obter o maior n�mero de dados que o permitissem fazer uma reconstru��o o mais pr�xima poss�vel do que realmente ocorreu. As suas principais  fontes de informa��o foram: A. Parenti e Huebner, os dois europeus sobreviventes desta horripilante noite de terror, as pessoas que ali chegaram pouco depois de Ryall ter sido carregado pelo le�o e os oficiais da estrada de ferro, que estavam numa posi��o de verificar e confirmar a veracidade dos fatos relatados pelos outros. Nenhum fato foi aceito como verdadeiro a n�o ser quando confirmado. Cada declara��o foi checada meticulosamente, nada sendo tomado como suposi��o. Ent�o todo o material colhido foi pacientemente analisado e o incidente reconstitu�do com base nas evidencias coletadas. O Major Foran se aventura a admitir que o relato que se segue � uma aproxima��o bastante exata da verdade sobre esta incr�vel trag�dia, ent�o podendo ser aceita como tal.
           A. Parenti e Huebner relataram suas pr�prias vers�es no clube de Mombasa em 1904. Sus relatos naturalmente n�o coincidem em alguns detalhes, o que � perfeitamente compreens�vel. Seria muito esperar que eles guardassem na mem�ria todos os m�nimos detalhes dos r�pidos acontecimentos ocorridos naquela madrugada. Ambos admitiram que a �nicas e primordiais preocupa��es atuando em suas mentes no momento cr�tico do ataque, foi o de se salvarem a si pr�prios. Isso tamb�m � plenamente aceit�vel, desde que todo homem n�o tende a agir como her�i quando confrontado com um terr�vel e repentino perigo de vida.
           Os asi�ticos que trabalhavam na esta��o de Kima no momento da trag�dia, estavam muito aterrorizados para que pudessem contribuir com algum dado de real valor para o avan�o da investiga��o. Na verdade na hora do incidente, todos permaneceram em seguran�a no pr�dio da esta��o, com portas e janelas devidamente trancadas. Eles s� vieram a  saber da trag�dia, ocorrida pouco depois de meia-noite, quando clareava o dia. O �nico a dar declara��es dignas de cr�dito, foi o indiano que chefiava a esta��o, mas assim mesmo foram informa��es de pouca import�ncia.                  
           O relato mais digno de cr�dito do que realmente ocorreu, foi dado por R.M. Howard, guarda dos trens de carga que chegou a Kima duas horas ap�s o ocorrido e pelo inspetor Bishen Singh, policial da estrada de ferro que o acompanhava. Suas hist�rias foram relatadas ao Major Foran em maio de 1904 na cidade de Nairobi. Bishen Singh, ent�o servindo sob o comando do Major Foran, confirmou cada detalhe contado por Howard, acrescentando alguns detalhes de grande import�ncia. Seu depoimento foi mais tarde checado pessoalmente pelos oficiais da estrada de ferro em Nairobi, todos os quais conheciam as atuais circunst�ncias do ocorrido devido a investiga��es pr�prias. Ent�o o que se segue � uma seq��ncia dos eventos em Kima, reconstitu�dos fielmente, acreditando-se que seja substancialmente correta.
           O cen�rio e a posi��o de Kima devem estar claramente na mente daqueles que desejam seguir o curso dos acontecimentos naquela noite. A esta��o fica entre as esta��es de Simba e Kiu, a primeira a 45 km e a segunda a 15 km de distancia respectivamente. Kima servia como uma esta��o de cruzamento com apenas uma via e situada na encosta de uma pequena colina. Havia varias esta��es de cruzamento similares, constru�das estrategicamente a intervalos regulares a partir de Mombasa. Como o tr�fego era pequeno naquela �poca, estes cruzamentos eram de pequena import�ncia. A regi�o ao redor de Kima era ent�o selvagem e inabitada, abundando ali toda esp�cie de ca�a africana. Nos dias atuais � o centro de uma importante e prospera industria de sisal, enquanto que as grandes concentra��es de vida selvagem s�o apenas uma mem�ria do passado.
              O pr�dio da esta��o tinha cinco metros por cinco metros, sendo sub-dividido em um escrit�rio e um quarto para o chefe da esta��o. O alojamento para os outros membros da equipe, ficava em outro pr�dio pr�ximo ao primeiro. Todas as constru��es eram de telha de zinco alinhadas com t�buas de madeira e constru�das sobre pequenos pilares de ferro, o que fazia com que o piso ficasse um pouco acima do n�vel do solo. Estas constru��es eram do tipo padr�o  utilizadas pela estrada de ferro de Uganda. A equipe era composta apenas por indianos, um chefe, um sinalizador e dois ajudantes. Desde o entardecer at� o amanhecer todos permaneciam trancafiados em seus aposentos. Isto pelo simples motivo de que n�o era apenas em Tsavo que os le�es  criaram um clima de terror, matando e devorando pessoas, mas tamb�m em Makindu, Simba e Kima. Nada neste  mundo os induziria a deixar os seus ref�gios durante a noite, pois tinham verdadeiro terror pelos le�es que vagavam as dezenas na escurid�o. Ningu�m pode censur�-los  por esta atitude.
            Normalmente os trens eram proibidos de transitar durante a noite naquele tempo embora concess�es especiais eram ocasionalmente concedidas em circunst�ncias de urg�ncia. At� mesmo assim os empregados n�o acendiam as luzes de sinaliza��o. A equipe terminantemente se recusava a executar esta importante tarefa durante a noite. Os le�es comedores de gente eram conhecidamente freq�entes em fazer suas apari��es em Kima e at� mesmo j� contavam com algumas vitimas em seu curr�culo , um sinalizador que teimou em executar as suas obriga��es e alguns nativos locais.
           Um belo dia um telegrama chegou as m�os de A. B. Cruickshank, chefe de tr�fego na sede da esta��o de Nairobi, com a noticia de que um le�o havia morto um nativo a luz do dia. Mensagens como essa se tornaram comuns enquanto os le�es comedores de gente se tornavam cada vez mais atuantes e amea�adores naquele trecho da estrada de ferro. O reino de terror que as feras instilavam nos seres humanos, come�ou a tornar cada vez mais problem�ticas as suas vidas. V�rios oficiais europeus da estrada de ferro come�aram a aportar em Kima com a inten��o de exterminar o le�o ou os le�es comedores de gente. Todos sem exce��o falharam. Os le�es se tornaram cada vez mais audaciosos, continuando com as suas mortais tarefas de ceifar vidas humanas.
           Ryall, ent�o baseado em Mombasa, precisou viajar para Nairobi, a fim de resolver problemas pendentes relativos a estrada de ferro. Ele havia sido um ca�ador entusiasta na �ndia e na �frica antes de sua nomea��o  para o cargo na policia da estrada de ferro de Uganda. Sabendo das atividades do le�o assassino na regi�o de Kima, ele resolveu ent�o passar a noite naquela esta��o, dormindo em seu vag�o dormit�rio. Ele pretendia permanecer de vig�lia a noite inteira, numa tentativa de matar o le�o assassino. Parenti, comerciante e vice-c�nsul italiano em Mombasa e Huebner, um comerciante portu�rio alem�o, estavam ansiosos para chegar a Nairobi sem mais demora, pois dali seguiriam com o auxilio de carregadores em um longo saf�ri a p� em dire��o a Entebe. Eles haviam falhado na tentativa de conseguir uma carona no trem que servia � constru��o da estrada de ferro e que partira a tarde para a frente de trabalho pr�ximo a Nairobi. Ryall ent�o ofereceu uma carona em seu trem, desde que eles concordassem em passar a noite ali, pois ele tinha a firme inten��o de ajustar as contas com o maldito le�o. Parenti e Huebner admitiram que como n�o tinham outra op��o, a possibilidade da carona foi a �nica considera��o que os induziu a passar a noite com Ryall em seu vag�o.
            O inspetor Bishen Singh, baseado ent�o em Mombasa, precisava investigar alguns casos de roubo na esta��o de Kiu. Ele havia vindo com Ryall desde Mombasa, tendo ficado em Kiu para passar a noite e ent�o fazer suas investiga��es no dia seguinte. Ele tinha em seus planos pegar o primeiro trem para Mombasa, logo que resolvesse os problemas locais. Assim que chegou a esta��o de Kima, Ryall fez com que seu vag�o de inspe��o fosse destacado da locomotiva e estacionado a vinte metros do pr�dio da esta��o. Os tr�s homens ocuparam o compartimento em uma das extremidades do vag�o. No centro havia um estreito corredor que dava para um pequeno banheiro e mais adiante, na outra extremidade do vag�o, uma cozinha onde dormiam o cozinheiro indiano e o ajudante pessoal de Ryall. O compartimento ocupado por Ryall, Parenti e Huebner, possu�a uma cama baixa do lado direito, uma cama alta do lado esquerdo e uma porta dando acesso ao mesmo na extremidade do vag�o. Esta porta era do tipo de correr, detalhe este que teve uma grande import�ncia nos acontecimentos que se sucederam naquela noite. Uma pequena escada dava acesso �s plataformas em ambas as extremidades do vag�o, que por sua vez davam acesso por interm�dio de portas corredi�as ao compartimento dormit�rio e a cozinha respectivamente.
           Ryall planejou que todos permaneceriam em seu compartimento, onde por meio de um revezamento, cada um ficaria de guarda durante a madrugada por turnos, na tentativa conjunta d eliminar o comedor de gente caso ele lhes fizesse uma visita. A porta corredi�a permaneceria aberta. A sugest�o de Ryall era que eles sorteassem os turnos, id�ia esta que os outros prontamente aceitaram. Coube ent�o a Parenti o primeiro per�odo da vig�lia, at� meia-noite, Ryall assumiria ent�o at� as tr�s da manh� e Huebner dali at� o nascer do sol.
          Ap�s o jantar, Huebner um alem�o de grande estatura e corpul�ncia se acomodou na cama alta do lado esquerdo. Ele logo adormeceu, esperando o momento em que Ryall o despertaria para ele fazer o seu turno na vig�lia. Ryall ent�o se acomodou na cama baixa do lado direito enquanto Parenti permaneceu sentado no ch�o ao lado da porta e iniciou a sua vig�lia. Parenti conta que nada de anormal ocorreu no seu per�odo de guarda e quando Ryall o substituiu a meia-noite, ele se enrolou em seu cobertor e rapidamente adormeceu no ch�o do vag�o. Sua cabe�a estava voltada na mesma dire��o da de Ryall, isto � com os p�s voltados na dire��o da porta aberta. Ryall ent�o abriu todas as janelas ao lado de sua cama, para que tivesse uma melhor vis�o do que se passava ali fora. Permaneceu ent�o semi-recostado com o travesseiro  servindo de apoio a sua cabe�a e costas, carregou o rifle e se preparou para a vig�lia.
           A porta de correr havia sido deixada aberta como um volunt�rio convite para que o comedor de gente se sentisse tentado a investigar o seu interior. Isto,  acreditava Ryall, daria a quem estivesse em seu turno da guarda, uma razo�vel chance de alvejar o le�o assim que seu vulto aparecesse silhuetado na porta. Foi descoberto mais tarde por um oficial da ferrovia, que devido a uma leve inclina��o do vag�o, qualquer vibra��o do mesmo era suficiente para que a porta corredi�a se fechasse sozinha. Este detalhe tamb�m � de grande import�ncia e n�o pode ser desprezado, tendo um sentido preponderante no que ocorreu naquela noite. Esse detalhe explica o que de outra forma pareceria iveross�mel.
          De acordo com o chefe da esta��o, os tr�s homens no vag�o, podiam ser ouvidos distintamente por ele enquanto conversavam por volta das dez horas da noite. Por�m quando ele olhou naquela dire��o pouco antes da meia-noite, o silencio era sepulcral e a luz do vag�o j� havia se apagado. Isto confirma os relatos feitos por Parenti e Huebner ao Major Foran. Parenti acrescentou que ap�s o seu per�odo de guarda e quando estava prestes a pegar no sono, Ryall casualmente comentou que ele podia ver do lado de fora o brilho dos olhos do que ele supunha ser ratos a brincarem na escurid�o. Ele acrescentou que tais olhos piscavam como se fossem l�mpadas. Este � outro detalhe importante. Pelas pegadas encontradas por Howard no solo arenoso ao lado do vag�o pouco tempo depois da trag�dia ter ocorido, �certo que o que Ryall tomou como sendo olhos de ratos eram na verdade os olhos do le�o que o espreitava. Este por certo j� observava a sua silhueta aparente na janela aberta do vag�o. Ele deve ter sido claramente percebido pelo animal.
          Quando tudo estava no mais completo silencio e todas as luzes estavam apagadas, tanto no vag�o como na esta��o, o le�o avan�ou cautelosamente, subiu a escada que dava na pequena plataforma e entrou pela porta no compartimento. Parenti e Huebner estavam ent�o dormindo profundamente. � prov�vel que Ryall deu uma cochilada durante sua vig�lia e n�o viu nem percebeu a aproxima��o da fera. Nem mesmo a oscila��o do vag�o quando o le�o subiu � plataforma foi sentida por ele. Entrando pela porta o animal foi diretamente em dire��o a Ryall na cama de baixo do lado direito. Para
alcan�ar a vitima que ele havia escolhido, passou por sobre o corpo de Parenti que estava deitado no ch�o logo abaixo da cama de Ryall, pisando dolorosamente em seu peito no processo. Isso naturalmente acordou o italiano. Ele relatou depois que houve ent�o uma terr�vel agita��o no compartimento, mas que nenhum grito foi dado por Ryall quando a fera o agarrou pela garganta. Quando Parenti tentou desesperadamente se levantar, ele foi imediatamente derrubado pelos movimentos fren�ticos do le�o e quase desfaleceu, sufocado pelo odor nauseabundo do animal. Na manh� seguinte Howard viu os arranh�es no peito de Parenti, feito pelas garras do le�o ao pis�-lo. Isto confirmou o relato feito por Parenti, que para sorte sua nenhuma das feridas era grave ou muito profunda.
           Parenti tamb�m relatou que p�de ouvir claramente os sinistros e abafados grunhidos do le�o, quando este pisando em seu peito, mordeu selvagemente o pesco�o de Ryall com suas poderosas mand�bulas. Enquanto isso, despertado pelo barulho, Huebner saltou de sua cama para o ch�o e ao faz�-lo, aterrissou pesadamente nas costas do le�o, enquanto este mantinha Ryall seguro pela garganta. Este peso adicional sobre Parenti fez com que ele se sentisse esmagado contra o piso do vag�o. Durante todo esse tempo, Parenti conta que tentou desesperadamente sair debaixo do le�o, empurrando-o com todas as suas for�as. O terr�vel choque que ele experimentava naquele instante e o horr�vel odor desprendido pela fera, momentaneamente o atordoaram e conseq�ente- mente seus esfor�os para se libertar foram in�teis. Isto parece tamb�m perfeitamente compreens�vel e aceit�vel.
            Ent�o a seguir Parenti conta que ouviu o alem�o se refugiar no banheiro entre os dois compartimentos e rapidamente fechar a porta do mesmo. Huebner confirmou isso, admitindo candidamente que estando totalmente aterrorizado, sua �nica considera��o no momento foi a sua pr�pria salva��o. Nestas circunstancias ele nem por um momento pensou no s�rio apuro por que passava seus dois companheiros. Seu �nico desejo foi de fugir para um local onde estivesse em relativa seguran�a. Enquanto isso o le�o com o corpo de Ryall preso em sua mand�bula andou de um lado para o outro no compartimen- to, tentando encontrar um lugar por onde pudesse sair. Howard conta que achou um rastro de sangue em forma de semi-circulo, come�ando no travesseiro de Ryall, continuando sobre um par de botas marrons no canto direito da cama e da� at� a porta. Devido a oscila��o do vag�o causado pelos vigorosos movimentos do le�o e pela leve inclina��o do mesmo, a porta corredi�a deslizou sozinha e se fechou. O comedor de gente se sentiu aprisionado e incapaz de descobrir um meio de escapar do vag�o com a sua presa humana. Howard achou uma grande po�a de sangue junto a porta, onde o animal deve ter ficado parado durante um tempo, enquanto decidia o melhor a fazer. A porta fechada deve ter sido uma desagrad�vel surpresa para o le�o.
            Parenti contou que quando ele retomou o controle de suas a��es, ele viu o le�o se esfor�ando para sair pela janela ao lado da cama onde dormia Ryall, com o corpo sem vida do mesmo preso a sua mand�bula. Este feito deve ter levado algum tempo para ser realizado, especialmente considerando-se que o animal carregava um corpo humano, o que dificultava os seus movimentos para sair pelo buraco relativamente pequeno da janela. O rifle de Parenti estava ao seu lado no piso do vag�o, mas nem parece haver passado pela sua cabe�a fazer uso do mesmo. O le�o poderia facilmente ter sido morto com um tiro a queima-roupa. Parenti explicou isso dizendo que a horr�vel experi�ncia pela qual passava no momento, o deixou t�o nervoso que ele se sentiu completamente rendido e incapaz de tomar qualquer iniciativa. Isto talvez seja compreens�vel. Apenas para se defenderem a si pr�prio ele ou Huebner teriam atirado no le�o, mesmo porque at� aquele momento eles tinham sido apenas meros observadores da a��o.
             Howard iniciou uma minuciosa inspe��o no vag�o assim que clareou o dia. Foram achados p�los da juba do animal presos nas laterais da moldura da janela e tamb�m no beiral da mesma. Durante todo o tempo em que a fera se esfor�ava para sair do vag�o pela janela, um fluxo constante de sangue da garganta de Ryall inundava a janela. Howard viu que toda a lateral externa do vag�o sob a janela estava manchada de sangue que fluiu copiosamente, formando uma grande po�a no ch�o ao lado do trilho. Quando ele levantou a janela, percebeu que ela tamb�m estava toda suja de sangue que fluiu pela fenda da mesma. No fundo da fenda ficou acumulada uma grande quantidade de sangue. O �nico dano sofrido pelo vag�o, foi a quebra de um peda�o de madeira da parte superior da janela, que compunha a veneziana externa. Todos estes fatos foram confirmados pelos oficiais encarregados da ferrovia e que inspecionaram o vag�o logo que ele chegou a Nairobi.
             Parenti conta que logo que o le�o carregou o corpo de Ryall atrav�s da janela, ele pulou para fora do vag�o por uma das janelas do lado oposto e correu para o pr�dio da esta��o. Huebner admitiu que permaneceu trancafiado no banheiro e que n�o fez nenhuma tentativa de auxiliar quem quer que fosse. Os dois estavam por demais aterrorizados e a �nica coisa que passava pela suas cabe�as era suas seguran�as pr�prias. De qualquer forma eles estavam desarmados pois o rifle de Huebner havia sido deixado em sua cama, quando saltou da mesma para escapar. O chefe da esta��o admitiu que ele estava t�o apavorado a ponto de quase perder a cabe�a quando Parenti bateu a sua porta contando sobre a trag�dia e pedindo para que o deixasse entrar imediatamente. Finalmente a porta foi aberta e Parenti acolhido em seu interior. O chefe da esta��o ent�o telegrafou a noticia para Kiu, pedindo que auxilio urgente fosse enviado a Kima.
             O trem de Howard havia deixado Nairobi no inicio da tarde e fez uma parada em Kiu para ali passar a noite. Juntamente com ele viajavam Smith, um engenheiro da ferrovia e Remington, diretor geral dos correios em Mombasa. Despertado de madrugada e convocado para ir at� o escrit�rio do chefe da esta��o por um assustado indiano que cuidava da sinaliza��o, Howard foi informado da morte de Ryall em Kima. Para l� ele decidiu partir imediatamente, sem a m�nima perda de tempo. O inspetor Bishen Singh que estava em Kiu para resolver o caso dos roubos, insistiu em acompanhar Howard. Eles viajaram a m�xima velocidade, cobrindo os quinze quil�metros num tempo bastante curto e chegando a Kima antes do amanhecer. Howard conta que todos em Kima estavam em total estado de p�nico e totalmente confusos com o que acabara de acontecer. At� aquele momento nenhuma a��o havia sido tomada contra a fera assassina e nenhuma tentativa havia sido feita para recuperar o corpo de Ryall. Parenti estava com a equipe da esta��o no escrit�rio, enquanto Huebner estava agora trancafiado na cozinha com os empregados de Ryall. Todos eles decididamente se recusavam a emergir de seu ref�gio.
               Smith ent�o assumiu o comando da situa��o e recrutou volunt�rios para acompanh�-lo numa busca ao corpo de Ryall e ao comedor de gente. Howard, Bishen Singh e os dois empregados de Ryall concordaram em acompanh�-lo. Remington, Parenti e Huebner sem pestanejar um segundo, declinaram terminantemente ao convite. Remington alegou que um servi�o urgente o impelia a chegar a Mombasa o mais r�pido poss�vel e insistiu que o trem de carga partisse imediatamente. Smith ordenou ao chefe da esta��o que o mantivesse em Kima at� o retorno do grupo de busca. Ele tamb�m instruiu Howard, seu maquinista e o homem encarregado da caldeira do trem, para permanecerem na esta��o trabalhando nos preparativos para a partida do trem de carga. Smith aceitou o fato de que nem Parenti nem Huebner tinham condi��es psicol�gicas para acompanh�-los, pois que estando como que paralisados pelo choque e medo, n�o ajudariam em nada. Tudo isto foi confirmado por Smith, Howard e Bishen Singh.
               Assim que come�ou a clarear o dia, o grupo partiu em busca do le�o e dos restos do corpo de Ryall. Smith seguiu armado de um pesado fuzil, Bishen Singh tinha apenas um revolver e um fac�o, um dos empregados de Ryall levava o rifle de seu patr�o e o cozinheiro estava armado com nada mais letal do que uma faca de cozinha. Howard conta que o grupo havia partido a apenas dez ou quinze minutos quando se ouviu dois tiros disparados em r�pida sucess�o. Isto era um claro indicio que os restos de Ryall haviam sido encontrados. N�o se sabe se foi a aproxima��o do grupo ou os dois tiros disparados que afugentaram o le�o, mas o fato � que nem sombra do felino foi avistada. O corpo de Ryall sob um amontoado de arbustos e embora j� havia decorrido varias horas desde que o le�o carregara a sua vitima, apenas uma pequena parte de seu corpo havia sido devorada. O corpo havia sido aberto na barriga e os intestinos carregados at� uma pequena dist�ncia. Uma coxa havia sido devorada e o pesco�o apresentava terr�veis ferimentos causados pelos longos caninos do le�o. Os restos do corpo foram ent�o carregados de volta para a esta��o de Kima.
              Logo depois, naquela mesma manha, o corpo foi despachado de trem para Nairobi, acompanhado por Huebner e Parenti. Estes com certeza tinham tido um contato com le�es um pouco mais �ntimo do que gostariam, era o bastante e a �nica coisa que ansiavam no momento era deixar Kima na primeira oportunidade que lhes aparecesse. No dia seis de junho de 1900, Charles Henry Ryall foi reverenciadamente sepultado, descansando seu corpo para sempre no cemit�rio europeu de Nairobi, ao sop� de uma pequena colina pr�ximo ao Museu da Estrada de Ferro. Na l�pide que posteriormente foi colocada sobre a sepultura, est� escrito o simples epit�fio: �Ele foi atacado e morto por um le�o comedor de gente enquanto dormia em Kima�. Muitos t�mulos com dizeres semelhantes surgiram neste cemit�rio ao longo dos anos etodos aqueles que o visitarem poder�o comprovar este singular detalhe.
           A horrenda trag�dia em Kima, instigou o pais em uma manifesta��o que culminou com a resoluta determina��o de que o le�o assassino deveria sem perda de tempo ser sumariamente executado. George Whitehouse, engenheiro chefe encarregado da constru��o da ferrovia, ofereceu uma recompensa de quinze libras por cada le�o morto entre Makindu e Nairobi, uma distancia de 320 km. A m�e de Ryall ofereceu uma recompensa adicional de 100 libras pela cabe�a do le�o que matou seu filho, vivo ou morto. As ca�adas come�aram...
           V�rios le�es foram mortos naquele trecho da ferrovia nas semanas que se seguiram, sendo que cinco deles nas proximidades de Kima. O motorista W. Dennet com cerca de onze le�es em seu credito, matou um deles bem pr�ximo a esta��o de Kima. Apesar disso, nenhuma das feras abatidas foi comprovadamente tida como o le�o que matou Ryall, embora todos os que vinham reclamar a recompensa o afirmassem com absoluta certeza. Dizem os especialistas que o mau cheiro exalado por um le�o comedor de gente, geralmente � uma caracter�stica que denuncia a verdade sobre seus h�bitos alimentares, havendo ent�o poucas chances de erro. Como mesmo ap�s os cinco le�es haverem sido mortos nas cercanias de Kima, algumas pessoas ainda foram atacadas e devoradas na regi�o, n�o podia haver d�vidas de que nenhum dos le�es mortos era o t�o alardeado comedor de gente. Logicamente todos aqueles que procuraram a m�e de Ryall reclamando a recompensa, sa�ram de m�os abanando.
              Ent�o Costello, na �poca chefe de maquinistas em Makindu, se aliou a Rodrigues, um encarregado de montagem que vivia na mesma cidade, com a inten��o de unir for�as para ganharem eles a recompensa. Constru�ram ent�o uma engenhosa armadilha e a colocaram a cerca de 1,5 km da esta��o de Kima, com um bezerro em seu interior para servir de isca. Eles planejaram visitar a armadilha todos os dias para ver se a sorte os tinha favorecido. J� na primeira manh� ao se aproximarem da mesma, perceberam que a porta estava fechada, o que aumentou as esperan�as de que finalmente o comedor de gente havia sido pego. Ao chegarem pr�ximo, qual n�o foi a surpresa de ambos ao descobrirem dois meninos da tribo Mkamba em seu interior. Os meninos ao tentarem roubar o bezerro, acabaram presos na armadilha. Ambos declararam enfaticamente que nenhum le�o foi visto ou ouvido nas proximidades durante o tempo que ali estiveram. Ap�s terem passado uma severa descompostura, foram mandados embora para suas casas e duramente advertidos para deixarem a armadilha em paz no futuro.
             A armadilha foi mais uma vez acionada. O comedor de gente se mostrava extremamente cauteloso e se recusava a entrar em um recinto fechado, certamente se lembrava da sua p�ssima experi�ncia no vag�o quando matou Ryall. Cada manh� a armadilha era inspecionada, dava-se �gua e alimenta��o ao bezerro ent�o algum detalhe que se julgasse interessante modificado. Isto tudo para aumentar a probabilidade de atrair o le�o para a sua pr�pria ru�na. Apesar dos esfor�os o animal se recusava ser atra�do para dentro da armadilha, preferindo carne humana a se empaturrar com um bezerro. Dois longos meses se passaram antes que o paciente esfor�o destes dois homens fosse finalmente recompensado e o comedor de gente enfim caiu na armadilha.
            A jaula com o comedor de gente dentro foi fotografado de todos os �ngulos  imagin�veis e ent�o a fera foi executada por Costello. Em 1905, ent�o comandando a policia em Mombasa, Costello mostrou ao Major Foram uma cole��o destas fotografias. O comedor de gente parecia ser um animal de grandes dimens�es, ornado por uma farta juba, forte e imponente, no auge de sua condi��o f�sica. Em vista disso, n�o havia justificativa para ele haver se tornado comedor de gente, pois nos arredores de Kima naquela �poca abundavam as suas presas naturais.
           A partir de ent�o os incidentes com comedores de gente em Kima terminaram e n�o houve questionamento quanto ao m�rito de Costello e Rodrigues terem realmente morto o le�o assassino. Os dois por meio de muita paci�ncia e perseveran�a, conseguram eliminar o inimigo n�mero um dos habitantes de Kima e arredores. Tal fato foi considerado como aceito e conclusivo. Eles dividiram a recompensa oferecida por George Whitehouse. Por alguma raz�o inexplic�vel entretanto, a recompensa de cem libras oferecida pela m�e de Ryall, foi dividida em tr�s partes iguais entre Costello, Rodrigues e o motorista Dennet. Como o �ltimo n�o teve participa��o na morte do le�o assasssino, n�o foi sem raz�o que Costello e Rodrigues consideraram que havia sido feita uma injusti�a com eles.
           Todos estes s�o fatos aut�nticos sobre este tr�gico epis�dio ocorrido durante a constru��o da estrada de ferro de Uganda. Outras vers�es cheias de imagina��o  tem sido publicadas de tempos em tempos e s�o mais fic��es do que fato reais. Estas vers�es deturpadas certamente foram escritas por pessoas que n�o puderam ter acesso a informa��es dignas de cr�dito ou n�o chegaram a conhecer os detalhes do que realmente aconteceu naquela noite. H� uma teoria de que os pr�prios indianos que trabalhavam na constru��o da ferrovia, contribu�ram de forma decisiva para que le�es se transformas- sem em comedores de gente. � que eles por costume, n�o enterravam os trabalhadores mortos por acidente ou doen�a, simplesmente os jogavam no mato. Os le�es ent�o encontravam os corpos e os devorava, adquirindo assim o gosto pela carne humana. Se � verdade ou n�o esta teoria n�o sei, mas a verdade � que em todo o trecho por onde passou a ferrovia e onde existiam le�es, houve casos destes animais matando e devorando pessoas. Inclusive em Tsavo, que foi o maior antro de comedores de gente durante a constru��o da ferrovia e sobre o qual se fez at� um filme recentemente �Sombra e Escurid�o�.
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