VERGONHA
PARA PORTUGAL
in comentários ao artigo "Rocha Vieira indisponível",
Expresso, 15/1/00
As
circunstâncias que envolvem a criação da Fundação Jorge Álvares
constituem uma vergonha para Portugal e para todos os portugueses que
permanecem em Macau.
O general Rocha Vieira, enquanto titular do cargo de Governador do Território,
convocou e reuniu secretamente com diversas personalidades a escassos dias
ou semanas da transferência de soberania, tendo em vista a criação da
fundação. Nada foi divulgado, aqui ou na República. Tudo decorreu no
maior dos segredos e só foi divulgado após o handover, já com o general
e, provavelmente, o dinheiro em Lisboa. Desde logo, esta circunstância
inspira a pior das impressões...
Mas o
mais grave ainda não é isso: o que realmente choca é esta figura do
Estado serviu-se do seu cargo para forçar uma fundação pública de
Macau a disponibilizar 50 milhões de patacas (perto de 1.250.000.000$00 -
isso mesmo)para a criação de uma nova fundação em Portugal, a ser
presidida por ele próprio! É como a história do membro do governo que
demite alguém para ocupar o seu lugar quando cessar funções
governativas...
Então é este o homem que dizem ter servido a Pátria sem interesses próprios?
O modelo de político, de líder? O homem que em Portugal só tem à sua
altura a Presidência da República? Imagine-se o que faria se alguma vez
atingisse tal posição, a julgar por esta amostra!
Aqui em Macau, a vergonha e a revolta são, de facto, os sentimentos
dominantes entre a comunidade portuguesa. Já não bastava uma cerimónia
de transferência de soberania do Território para os amigos e as visitas,
em vez de virada para a comunidade local (que teve que contentar-se a ver
o que se estava a passar pela televisão); ainda por cima, mesmo depois de
já cá não estar, o homem ainda nos faz destas! É caso para dizer: «Melancia,
volta; estás perdoado». Só que agora é já demasiado tarde...
Toda a imprensa local - quer de língua portuguesa quer chinesa, bem como
a inglesa de Hong Kong - não pára de falar nisto. Estranhamente, ninguém
parece tocar no assunto por aí... Que se passa, senhores jornalistas? Estão
assim tão comprometidos? Os favores e prendas foram assim tantos? Já
todos vimos tanta gente ser crucificada por vós por bem menos; então, e
agora?
Um português residente em Macau