Rumo à Perfeição
19 Março 2002

Chama-se "Mundo Perfeito" o álbum de estreia dos Yellow W van, colectivo que conta apenas dois anos e meio de existência, mas que demonstra pelo menos o dobro na coesão que transparece de uma sonoridade sólida feita de rock, de hip hop e de funk, subvertida pelas palavras de ordem erguidas em forma de protesto. Eles explicam os alvos.

Qual é que é o "Mundo Perfeito" de que os Yellow W Van falam neste disco?
Ruas: Este nome pode ser visto de duas maneiras. Por um lado, é uma forma de contradição, porque quando se olha para a capa do disco tem-se uma ideia de uma imagem calma, tranquila, mas depois quando se ouvem as canções percebe-se que falamos mais é do contrário, ou seja das imperfeições deste mundo. Por outro lado, este é o nosso mundo perfeito, é aquilo que fazemos, é a nossa música, é com ela que nos sentimos bem, com o nosso som, na nossa carrinha. É esse o nosso pequeno mundo perfeito, no fundo.
Manzk: é também uma ironia, este título, porque é aquilo que queremos procurar, é a nossa utopia.

Mas já têm uma ideia muito clara daquilo que seria o vosso mundo perfeito, ou nem por isso?
Manzk: Temos alguns pontos de referência, mas não conseguimos visualizá-los totalmente. Se calhar o processo da procura também faz parte do mundo perfeito.
Ruas: Ao longo do nosso percurso, vamos também constantemente procurando aquilo que queremos. Neste momento temos algumas ideias, mas outras irão surgindo e saltando para dentro da carrinha (risos). É uma utopia, afinal, o que significa que temos que continuar sempre a trabalhar para ela e mesmo assim nunca a iremos atingir.

E este disco, aquilo que nele se encontra, é uma forma de "Mundo Perfeito" para vocês?
Ruas: Não é perfeito, naturalmente, porque nada nunca é perfeito.
Fred: Mas é de certeza o melhor que conseguimos fazer. Agora se calhar até já temos umas músicas novas e até gostávamos que elas estivessem aqui, mas na altura em que o disco foi gravado, há uns 4 meses, isto era o melhor que tinhamos e que conseguiamos fazer.
Fruntxas: E ficámos muito contentes com o resultado final, o que me parece absolutamente fundamental.

Qual é que é o papel que os Yellow W Van pensam ter na construção deste Mundo Perfeito utópico de que falavam?
Ruas: Antes de mais, aquilo que podemos fazer é espalhar a nossa mensagem, apresentar aquilo que achamos que está mal. Não sei se vamos ou não mudar efectivamente alguma coisa, talvez mudemos pelo menos as ideias de algumas pessoas.
Manzk: Esta é a nossa forma de protesto, é a nossa oportunidade de falarmos de coisas boas e de coisas más. Acredito que todos temos um papel activo na sociedade e esta é a nossa forma de tentar contribuir e melhorar algo. Estas são as nossas ideias, aquilo que sentimos e que pensamos e aquilo em que acreditamos.
Ruas: Não somos propriamente uma banda de intervenção, mas tentamos intervir à nossa maneira com aquilo em que acreditamos.

Há uma preocupação consciente de denúncia de realidades sociais nas vossas letras, ou estas reflectem essencialmente o fruto de experiências individuais?
Ruas: Creio que é um pouco das duas.
Fred: Não é preciso ir-se muito longe para perceber a forma de hipocrisia em que as coisas funcionam, basta assistir a um telejornal e ouvir o discurso de um político, basta abrir um jornal ou uma revista para se perceber quantas coisas estão erradas...
Há outras coisas, naturalmente, que nós próprios sentimos na pele.
Ruas: Apesar de tudo, e falando em termos de experiências individuais, temos que admitir que até nos sentimos um bocado privilegiados, porque não somos pobres, não passamos fome nem nada do género, mas há muita coisa que vemos à nossa volta que sentimos estar errada. Não queremos tanto com isto tentar melhorar a nossa vida, mas antes deixar bem claro que há muitas vidas por aí que precisam de ser melhoradas. O sistema tem de mudar, é mais nesses termos que falamos.
Manzk: Se queremos de facto ter um papel activo na sociedade temos, antes de mais, estar conscientes daquilo que se passa; a consciência é o primeiro passo e é um passo absolutamente necessário. Não podemos olhar à nossa volta e dizer que está tudo bem; e se fazemos parte da sociedade, logo, somos afectados por ela e por aquilo que nela está errado.
Ruas: Infelizmente, acho que ainda se continua a ter muito a ideia que os músicos, como qualquer outro indivíduo que se dedique à arte, são pessoas que não têm um papel activo na sociedade, e que ainda são de algum modo excluídas por causa disso.

Esta postura que assumem de denúncia, de crítica, parece-vos ser algo comum na música portuguesa que se pratica hoje em dia?
Ruas: Penso que essa perspectiva do músico enquanto pessoa que tem um papel de intervenção já tem uma longa história na música portuguesa, já vem de há muito tempo, desde o Zeca Afonso, aos Xutos, o Sérgio Godinho, até agora a uma banda como os Da Weasel. Hoje sente-se um crescimento cada vez maior na cena do hip hop em Portugal, que é o meio onde surgem muitas bandas com grandes mensagens...
Apesar de tudo, se calhar são muito poucos aqueles que tiveram esse papel de denúncia, mas são importantes.
Manzk: Há que ter em conta, também, que na altura do 25 de Abril, e sobretudo antes, as pessoas davam muita importância à música como forma de denúncia, porque havia muita censura, tudo era controlado, e essa era se calhar uma das únicas formas de fazer passar uma mensagem. Com o passar dos tempos, no entanto, isso perdeu-se. Naquela altura, praticamente todas as bandas e todos os artistas faziam música de intervenção e protestavam contra os males daquela sociedade fascista, mas como hoje em dia não se sente tanto esse necessidade, essa faceta foi-se perdendo. Neste momento, acho que as bandas que acabam por ter mais essa tradição são as bandas de hip hop, que estão a crescer cada vez mais.

Apesar do regime fascista ter terminado, as formas de censura ainda continuam a existir, talvez apenas um pouco mais camufladas...
Manzk: Sim sim, aliás, é óbvio que ao sistema não interessa que haja pessoas a intervir nem a denunciar as coisas que se passam. E talvez por isso ainda existam formas de música, ou de outras artes que não conseguem passar para o mainstream, porque ainda há barreiras, mesmo que mais disfarçadas, mais camufladas. Isso ainda acontece muito com o hip hop em Portugal, por exemplo...

Em termos de estilos sonoros privilegiados, as vossas opções são bastante actuais, fundindo estilhaços de rock, de hip hop e de funk. Foram essas as referências que delinearam o vosso crescimento enquanto músicos?
Ruas: Enquanto músicos e enquanto pessoas, claro. Todos crescemos a ouvir coisas diferentes e coisas comuns, e quando nos juntámos fundiu-se um pouco de tudo. Da minha parte, penso que terei contribuído mais com as influências do hip hop, que foi aquilo que comecei a ouvir mais a partir dos meus 14, 15 anos.
Fruntxas: Cada elemento da banda tem as suas próprias influências, e nesse sentido cada um acaba por dar um pouco da sua marca à banda.

Qual é que pensam ser o lugar que este disco vai encontrar no actual cenário da música portuguesa?
Manzk: Sinceramente não sei, não faço mesmo a menor ideia...
Fred: À partida, o mais importante é termos ficado contentes com o disco, com aquilo que aqui se ouve, com as canções, com o som, com a produção. Se as pessoas vão gostar ou não, não sei, mas da nossa parte estamos muito orgulhosos com ele.
Manzk: Em termos de espaço musical, não sei muito bem onde é que este disco se poderá encaixar, porque conjugamos aqui vários estilos, há uma fusão de sonoridades.
Fred: Somos, acima de tudo, uma banda portuguesa, e não pretendemos encaixar-nos em nenhum espaço específico, nem no do rock nem no do hip hop.
Manzk: Penso que a recepção ao disco também vai depender da mentalidade das pessoas. Ainda se cultiva muito hoje em dia a ideia de que as bandas nacionais não têm valor, há um certo preconceito, ainda se prefere inportar... Mas ainda há quem goste de música portuguesa, feita em Portugal e cantada em português. Pode acontecer que sejamos, ou não, vítimas da censura camuflada...

 

Sónia Pereira in Blitz

 

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Jovens Convictos
Abril 2002

Eles são seis e muito jovens. Chama-se Rui, Tiago, Fred, Bruno, Tomé e Ruas e formam os Yellow W Van, que começaram em Oeiras hé cerca de dois anos atrás. São influenciados pela música norte-americana, sobretudo pelo funk, hip hop, e nomes como os Rage Against The Machine. Mas não só: consideram grandes influências os portugueses Da Weasel e Zen.
Não gostam de rótulos e acreditam no seu discurso revolucionário e interventivo que expressam nas suas músicas e com o qual lutam para uma sociedade melhor.
Acabaram de lançar o seu primeiro álbum, intitulado "Mundo Perfeito", e a propósito desta estreia no mercado nacional a Musicnet esteve à conversa com os dois MCs de serviço, Ruas e Manzk.



Contem um bocadinho da vossa história.

Manzk: Isto começou assim: nós tinhamos outras bandas, mas depois tinhamos um amigo em comum, e decidimos juntar-nos. Tivemos o percurso normal de uma banda e sempre nos preocupámos em tocar muito ao vivo. Essa sempre foi a nossa ambição. Nunca tivemos como objectivo máximo gravar o álbum. E então fomos tocando em concursos, gravámos uma maquete há dois anos - que começou a passar numa rádio, a Marginal - depois no ano seguinte gravámos uma outra maquete que ganhou um prémio num concurso (infelizmente em Portugal tem que se tocar em concursos para que as novas bandas que tocam originais sejam conhecidas) e começámos a mostrar o nosso trabalho a outras pessoas. Elas foram gostando, abriram-se umas portas para alguns festivais. Tocámos por exemplo no ano passado no Super Bock, nas Super Novas Bandas, que se calhar foi a viragem da banda.

E este ano regressaram ao Super Bock em nome próprio. Correu bem?
Ruas: Muito mais do que esperávamos.
Manzk: Estava muita gente, entre convidados e pessoas que compraram bilhetes. Não estávamos á espera. Somos uma banda nova, Já tocámos nalguns palcos mais importantes mas ninguém nos conhece. E as pessoas aceitaram bem, tipo nota-se que a maior parte das pessoas está a abanar um bocadinho a cabeça a ver o que é que se passa, mas acho que tivemos muito boa aceitação e o concerto correu muito fixe. Para nós acho que foi muito bom.

E foi díficil chegarem até aqui, até à gravação do vosso álbum de estreia?
Ruas: Foi... mas se calhar foi mais fácil do que estávamos à espera. Nós quando começamos a tocar nunca sabemos bem se aquilo está mesmo bom... e o tocarmos ao vivo acabou por nos ensinar a tornar as músicas mais consistentes. Aprendemos mais...
Manzk: Por exemplo, o concerto no Sudoeste foi um bocadinho estranho. Foi dos nossos primeiros concertos de Verão e não correu tão bem. E deu para ver que havia coisas que não estavam muito bem entrusadas. E para os concertos a seguir conseguimos arranjar essas coisas. Paredes de Coura correu muito bem. E outro em Aveiro também.

O que é que vocês diriam, enquanto recém-chegados, às novas bandas nacionais que ainda não alcançaram o que vocês estão a alcançar? Hoje se calhar há mais oportunidades, como as que vocês tiveram, nos palcos secundários dos festivais, etc.?
Ruas: Até dão destaque a esses grupos, mas eu acho que são poucas as bandas menos conhecidas que vão lá. Para nós foi óptimo, mas é raro veres lá bandas que não tenham um CD ou isso, acho eu.
Manzk: A maior parte das bandas que subiram a esses palcos secundários estavam todas inseridas numa compilação. Nós se calhar tocámos no Sudoeste e no Paredes de Coura porque demos boas provas nesse concerto das Super Novas Bandas. Agora, o que é que uma pessoa pode dizer às outras bandas? Eu acho que por muito díficil que isto seja - porque não podemos ser hipócritas e dizer que isto é muito fácil, que está-se muito bem aqui -eu digo para acreditarem em si próprios.
Ruas: E que se mexam um bocado. Nós se calhar tivemos sempre a sorte de ter conhecimentos no meio da música.
Manzk: Que nos puxavam muito as orelhas à pála disso.
Ruas: E que nos ensinaram muito e tal... mas se calhar também tivemos sempre pessoas na banda que se mexeram muito. E às vezes é o que falta nalgumas bandas, que podem ser muito boas. Às vezes é mesmo falta das pessoas não quererem ligar a essas bandas, e falta de oportunidades, mas também há bandas que se deviam mexer mais e que são muito boas e que nós até acreditamos.
Manzk: Há bandas que não se mexem. Connosco a carrinha melgava mesmo as paragens todas. Íamos a todos os sítios e dizíamos: "Olha, está aqui a nossa maquete, se faz favor" e depois diziam-nos "Ah, mas eu ouço depois", e nós: "Não, ouve agora connosco, estamos aqui contigo, se puderes ouvir, ouve agora, pá dá-nos uma uma opinião sincera, podes não gostar, mas diz-nos e tal..." E sempre fomos um bocado persistentes. E mandávamos coisas para todos os concursos. Havia alguma mostra de bandas e lá estávamos. Há bandas que às vezes estão à espera que as coisas venham. E nada funciona assim na vida.

Como é que correu toda a produção do álbum?
Ruas: Correu bem. Foi uma equipa mesmo excelente. Tivemos sorte por termos tido sempre óptimas pessoas em todas as coisas que temos feito, mesmo no videoclip, nas fotos.
Manzk: Às vezes parecem que caem assim do céu.
Ruas: Foi mesmo. Tínhamos o Marco (Nunes), que é dos Blind Zero, que já conhecíamos e já nos dávamos muito bem. Depois ainda tivemos a sorte do Mário (Barreiros) estar interessado em nós. Ele ouviu-nos em Paredes de Coura. Os Da Weasel davam um concerto no mesmo dia, e nós encontrámo-los, demos-lhe uma maquete nossa, eles ouviram, curtiram e mostraram ao Mário que estava com eles. Ele também gostou, telefonou-nos a dizer que estava interessado em nos produzir. E nós, claro, já tínhamos pensado nele mas nunca pensámos que tínhamos hipótese disso. Até porque não tínhamos um orçamento muito bom, muito elevado.

Falaram dos Da Weasel... eles e nomes como os Mind Da Gap acabam por ser percursores deste género no nosso país, embora vocês tenham um som mais duro do que eles. São influências?

Ruas: São grandes influências para nós. Nos portugueses, os Da Weasel e Zen são as maiores influências. Zen mais no instrumental e Da Weasel mais nas vozes. Acho que temos várias influências. Somos seis pessoas, com coisas muito diferentes e coisas muito parecidas... Lá de fora são os Rage Against The Machine e Planet Wamp, Beastie Boys também.
Manzk: Eu acho muito bom uma banda como nós - que nem tem três anos de existência - ter influências de bandas portuguesas. Acho que é muito bom isso.

O carácter interventivo das vossas letras é com convicção? Vocês acreditam naquilo que dizem, ou apenas o fazem por ser próprio de estilo de música que vocês tocam?
Manzk: Achas que se a gente não acreditasse estava aqui, por exemplo, ou tínhamos o álbum? Eu acho que não. Acho que não estávamos. Nós acreditamos naquilo que somos. Na nossa vida extra-música temos uma maneira de estar que temos também na música. Logo acreditamos e tentamos passar a mensagem. Tentamos denunciar algumas coisas. E vamos alertar as pessoas para uma certa consciência social. Eu, por exemplo, nunca pensei em ser músico. Ele também não. Nós escrevemos.
Ruas: Se calhar nós viemos mesmo para aqui por causa das ideias que temos. Claro que sempre adorámos música, mas foi se calhar por causa das coisas que escrevíamos - tanto eu como ele - que aqui estamos. Na música encontramos a maneira de passar a nossa mensagem, de dizer aquilo que pensávamos.
Manzk: É a nossa maneira de estar e com a música temos "uma arma" para protestar e através da qual podes chegar a muitos lados. Nós se calhar no dia-a-dia intervíamos de certa maneira, no local, como pessoas, e nalgumas coisas. Mas, tipo, na música podemos mais. E acho que um músico não pode estar simplesmente a olhar - "ya faço música, estou a curtir os meus devaneios e não me interessa as outras coisas". Não. Um músico tem que ter um papel activo e nós tentamos ter um papel activo, através da música e não só.

E a quem vocês acham que transmitem essa mensagem? Quem é que vocês acham que é o vosso público? Essencialmente jovens?
Manzk: Eu acho que qualquer pessoa que tenha mente aberta. As pessoas e os nossos produtores ouviram-nos e gostaram das nossas letras e das músicas também. São pessoas de mente aberta e que ouvem e que dizem "os putos até tem razão nalgumas cenas", tipo "são conscientes não são putos que estão adormecidos".
Ruas: Se calhar é mais o pessoal da nossa idade, mais putos, alguns mais velhos, mas também tem a ver com o que as pessoas se identificam. Acho que há pessoas, por exemplo o Marco, que já tem vinte e oito anos ou que é, ouve cenas como nós. O Mário também curtiu muito, as letras também lhe diziam muito. Eu acho que toda a gente pode ouvir, não fazemos música especialmente para a nossa idade.
Manzk: O target é feito pelas editoras. Para nós é dificil distinguir um público alvo. Se calhar falamos para as pessoas da nossa idade, mas também podes falar para as pessoas mais velhas do que tu, que te ensinaram alguma coisa. E as pessoas podem pensar "eu quando tinha 20 anos também pensava assim", não é? "Felizmente não sou o único que estou aqui". Acho que é para toda a gente.

E quais são as vossas expectativas agora que estão a lançar o vosso primeiro álbum?
Ruas: Tocar o mais possível, que é o que temos vindo a fazer. O álbum não é a coisa mais importante para nós. Acho que é só mais uma paragem da carrinha e nós queremos é tocar. Claro que é importante, por isso se calhar é que não precisamos de mandar currículos. Mas ao vivo é que nós gostamos de estar. Tocar nos palcos. É isso o que queremos fazer, tocar ao vivo o mais possível.
Manzk: Claro que o álbum abre portas para tocar e estamos conscientes disso e também acreditamos no álbum. E também acreditamos que as pessoas nos vão querer ver ao vivo.

Vocês têm a noção do impacto de "Mundo Perfeito"?
Manzk: Epá não. Isso das vendas influencia a parte de management, mas para a banda influencia o quê? Claro que a tua mensagem chega a vários sítios. Mas não estamos muito preocupados com o que vai vender. Gostávamos que chegasse a muitas pessoas mas não é preciso que as pessoas comprem. Desde que ouçam.

Então vocês vêm com bons olhos a distribuição gratuita da música online?
Manzk: Sim, acho que sim. A mensagem passa, e acho que isso é o mais importante.
Ruas: Os CD's são caros, nós não temos nenhum controlo nisso. É pena, a maioria das pessoas que compra é da nossa idade e é dificil comprarem CD's a 3 contos e tal, 4. Se as pessoas gravarem, tá-se bem. Se tirarem na net, por nós é igual.

E que estilo é que vocês consideram ser o vosso?
Ruas: É uma mistura. É um bocado rock e pop.
Manzk: É um bocado suspeito e dificil estarmos a caravterizar o nosso som, porque nós ouvimos muitas coisas. As pessoas normalmente ouvem o nosso som e acham que tem funk, hip hop, rock, mas nós sabemos que tem mais do que isso. É dificil, nós somos uma banda só de punk ou só de rock? Não, não podemos ser assim, não somos. Nós usamos tudo o que ouvimos, desde reggae e até drum'n'bass. Mas enfim, se calhar o dominante é o funk, o hip hop e o rock.

O género musical que vocês têm é visivelmente de influências norte-americanas e o público está habituado a ouvi-lo em inglês. Acham que as pessoas - agora que existem já mais grupos como os Da Weasel - aceitam já bem o português?
Manzk: Posso responder numa das vertentes. Porque é que é dificil em português? Porque se calhar as pessoas não estão habituadas e não querem ouvir o que é que se passa à nossa volta, o que é que se passa na nossa sociedade, na nossa língua, frontalmente, directamente. E o que o hip hop faz é falar da sociedade e se calhar tenta esclarecer as pessoas, tenta levar as pessoas a uma certa consciência. E tu sabes como é que a sociedade funciona e cada vez mais te quer adormecer e não querem que as pessoas saibam nada. Se as pessoas quiserem mesmo saber alguma coisa têm que ser persistentes, vão ter que ir à procura das coisas. Agora se o mercado está preparado ou não? Opá isso cabe às pessoas que estão a ver. Mas é assim, tem que se tentar. Não é forçar a mudar as mentalidades, mas as pessoas têm que abrir a mente e pensar que se faz música em português e música em Portugal. Por isso, tem que se ouvir e tem que se tentar perceber o que é que queremos dizer.
Ruas: Acho que é importante se as pessoas tentarem encontrar também um bocado de raízes. Nós já temos influências que são norte-americanas, e acho que é importante falarmos da nossa realidade em português. Não fazia sentido ser noutra língua.

Acham que as pessoas recebem a vossa mensagem ou estão ali para abanar a cabeça?
Ruas: Eu acho que muita gente tem ido aos nossos concertos e que nos curte acho que pelo som, claro, mas também pela mensagem. Acho que diz muito. Já muita gente que vem aos concertos tem vindo a falar connosco e que acredita também no que nós dizemos.
Manzk: É como tudo, não é? Em várias pessoas há várias maneiras de pensar. Há quem se interesse apenas pelo ritmo e a cadência das palavras e não lhes interessa mensagem nenhuma. Nós gostávamos que as pessoas tentássem perceber a mensagem através do som a através das nossas letras. Mas não podes controlar isso.

Para terminar, como é que vêm o vosso futuro?
Ruas: A música é que queremos fazer. Dentro da carrinha sempre, embora tenhamos outras coisas.
Manzk: A carrinha vai fazer várias rodagens. Vai passar por várias estações e paragens, mesmo para recolher pessoas. E logo se verá. depende das pessoas que entrarem.

 

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