O passado tem muito a revelar
História da Família Fontana
Por José Clodoaldo Fontana
Vitória, E. Santo
Escrito em Abril/1989
Revisão: Abril/2009
História
Mítica e Tradicional
A corrente
da vida está permanentemente repleta de perigos e necessidades, sejam eles
endógenos ou exógenos. Superá-los é a salvaguarda da espécie humana. O
fracasso implica a condenação do homem a extinção ou a ser ele mera caricatura.
Portanto, a grande jornada comunitária do homem, iniciada há milhares de
centenas de anos, revelou-se na necessidade de agrupar-se. Os agrupamentos,
como coletores de víveres, tornaram-se fundamentais à sobrevivência num
ambiente inóspito assegurando, assim, a subsistência e segurança
de seus membros. Com a segurança, puderam, então, se concentrar no
trabalho do plantio e da colheita, elementos importantes ao homem
primitivo (como o são nos dias atuais). Nos intervalos entre colheita e plantio
dispensavam culto aos mistérios da vida e da morte, às divindade do fogo,
do solo, da temperatura e dos ciclos das chuvas. A água simbolizava
a vida, sem ela seria impossível a sobrevivência humana, dos animais que
apascentava e da agricultura. Garantidas a subsistência não bastaria deixar-se
arrastar pelo fluxo da existência somente para sua manutenção. Com o tempo
ocioso, veio o relaxamento físico e mental e assim podia observar e
enfocar os primeiros ensaios reflexivos sobre o seu ambiente imediato,
Suas primeiras observações foram dirigidas aos fenômenos naturais. As forças da
natureza, potentes e desconhecidas, lhes causavam temor e respeito.
Somente uma força descomunal poderia provocar tamanho espanto.
Presume-se que, assim, com o espanto, as primeiras deidades foram elaboradas no
imaginário humano.
Dentre os
povos arcaicos, os Celtas que habitavam o norte da Europa no sec. VIII a.C, prosperaram e criaram grandes rebanhos ao longo
do tempo. Cerca do quarto milênio a.C saíram em
conquista de novas terras para expansão de suas atividades agrícolas e
pastoris, visto que a necessidade e a escassez se tornavam uma constante. Os
períodos longos de intempéries: clima rude e frio no inverno, enchentes
devido ao degelo das montanhas no verão, tudo isso, causava perdas relevantes
de seus rebanhos pela destruição de pastagens etc. só restavam-lhes a expansão
e esta, só poderia dar-se à sudoeste.
A Europa
central e o Norte da Itália com clima assemelhado foram alvos fáceis, visto
as relações daqueles povos com os Normandos e com as tribos da
Germânia, lhes facilitaram a conquista dessas novas terras. Entre os séculos II a.C e V d.C. os Celtas e
as tribos germânicas estiveram em contato com os romanos, tentando estender o
seu domínio até o Rio Elba. Ao serem instalados nas novas paragens no
norte da Itália trouxeram sua cultura fundamentada numa estreita relação
com seus "deuses". Essas narrativas mitológicas e lendárias
transportaram sua ascendência originária - aos gigantes de gelo - e que,
individualmente, eram considerados como um Deus gerador de uma
"fonte" promovendo o derretimento do gelo durante a primavera e
fazendo-a transbordar e inundar planícies e vales formando os rios
caudalosos tão importantes à agricultura. Esses povos -
numa cerimônia ao mesmo tempo festiva e mágica - veneravam os seus deuses
geradores das "Fontes", símbolo da água, do alimento e
portanto, mantenedoras da vida. Nesta tradição, "Fontana",
significa: Famílias
guardiãs dos "deuses" e das " fontes" . Os romanos, povo que habitava o centro da Itália, logo incorporaram
estas festividades e realizavam a "fontanalia" festa em homenagem às
fontes. Vários países europeus, ainda hoje realizam esse festival no dia 13 de
outubro, onde os poetas oferecem vinho doce e flores às fontes. Nessa ocasião
também se deposita corbelhas nas nascentes e lhes oferece libações.
No passado
arcaico as fontes foram imortalizadas pelos poetas. Na Grécia antiga,
século VIII a.C, vemo-las nos delicados versos
de Hesíodo no proêmio de sua Teogonia: Hino às
Musas:
- "[...as musas...] (v. 3) em volta da fonte violácea com pés
suaves (v.4) dançam..."
Também
Horácio[2], poeta latino, dedicou um lindo poema
à Fonte de Bandusia - Ode III.13
que cito a seguir:
|
Fons Bandusiae Horário,
Ode III, 13 O fons Bandusiae splendidior vitrodulci digne
mero non sine floribus,cras
donaberis haedo,cui-frons-turgida-cornibus primis et venerem et proelia destinat;frustra: nam gelidos inficiet tibi rubro sanguine rivoslascivi suboles gregis. Te flagrantis atrox hora Caniculaenescit
tangere, tu frigusfessis vomere
tauris praebes et pecori vago. Fies nobilium
tu quoque fontium,me dicente cavis impositam ilicemsaxis, unde loquaceslymphae desiliunt tuae. |
Fontana di BandusiaTrad.
Rocco Scotellaro,
Milano 1954 Bella fontana di Banzi |
O
sobrenome
Distintivo
da pessoa natural e da família.
No Império
romano o nome do personagem mais distintivo, em alguns casos, já era
transmitido para a prole, porém, os historiadores são unânimes em aceitar
a hipótese de que o cognome como característica distintiva da pessoa
natural e do clã iniciou-se na Europa por volta do século IX com a expansão do
comércio e se consolidando no século XII. Entretanto, o estabelecimento do
cognome de alguns grupos familiares ou clãs já estava presente bem antes desse
período (os quais denotavam o lugar de origem, local geográfico, sinais ou
características particulares acentuadas)[3].
Não podemos
deixar de registrar que os clãs ou famílias tinham caracterizavam-se pela
horizontalidade, isto é, as relações se pautavam nos interesses lateral, não
exclusivamente consanguíneos, quer seja de proteção e apoio, de cessão de
terras para o plantio etc. Os cognomes mais antigos geralmente têm origem
mítica, isto é, fundamentam-se em personagens hipoteticamente virtuoso.
Este é o
caso do cognome FONTANA. A tradição relata que como cognome de
família propriamente dito, o topônimo Fontana (fontana, adj)
remonta ao século IV, na província de Monselice -
situada ao norte da Itália onde habitavam próximo a uma fonte
e teve o seu florescimento
a partir do século IV ao VI. Seu personagem mítico e patrono é o mártir
cristão, Sabino Fontana cujo martírio se deu em 07/12/303 d.C, chamado posteriormente de San Sabino de Monselice ou de Assis[4] no período de Diocleciano.
Entretanto, Fontana como
cognome nuclear, isto é, cognome patrilinear familiar consanguíneo surge a
partir do século X[5].
História
Institucional
Nessa
tradição a família FONTANA a partir do século X expandiu-se pelas várias partes
da Itália central e é um ramo da antiga família homônima de Monselice.
Referências historiográficas desta estirpe remontam ao ano 483 d.C. da qual
descende o jurisconsulto Egidio Fontana que contribuiu na
elaboração da constituição da nascente Republica de Veneza. Fontana,Ubaldino foi Consul de Ferrara em 1194;[6]Fontana, Jacopo foi embaixador em 1192
do Imperador Henrique VI, o cruel.[7]Dante[8] (n.1265 m.1321),que levou o cognome de Alighieri, escritor,
poeta e político italiano é considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta
("o sumo poeta") e Autor de a Divina Comédia, na qual a família
Fontana é imortalizada em sua alegoria do inferno – Canto XIII[9], diz:“.
...Depois que as cadelas se foram, Virgílio me levou até um
arbusto que chorava, em vão, através das suas muitas fraturas que sangravam.
- Ó Giácomo[10] de Santo Andréa chorava -, que culpa tenho de tua
vida perversa? - Quem foste tu que agora, através das feridas, sopras com
sangue este sermão amargo? - perguntou o mestre. - Ó almas que chegaram a tempo
de ver esta injusta mutilação que separou-me dos meus galhos, por favor,
junte-os em volta do meu tronco. Eu fui da cidade cujo patrono era o Batista e
lá fiz de minha casa, a minha forca.” [11]
Nicolo Fontana, dito Tartáglia, (n.1499-Bréscia,
m.1557-Veneza), Matemático que deduziu soluções para as equações do
terceiro grau (cúbicas) e aplicações matemáticas à arte militar e
artilharia. Em 1556 utilizou o triângulo aritmético no cálculo dos
coeficientes do binômio e escreveu.o melhor tratado
aritmético do século XVI. Foi ele também, na renascença, quem primeiro
usou o símbolo da soma (+) utilizando a primeira letra (p) da palavra italiana
"piu" ( = mais) a fim de indicar a soma.
Publicou em 1537 a Nova Sciencia e em 1558 o
Trattato di numeri et misuri. Annibale Fontana, escultor Italiano ( Milanese, n. 1504– m. 1587). Obra: Hercules vencendo
o Centauro Nessus em pedra de cristal
posteriormente emoldurada em outro e esmaltada. data:
1570–80; 3 1/16 x 4 1/16 in. (7.8 x 10.3 cm). A coleção de Friedsam,
Legado de Michael Friedsam, 1931 (32.100.237) Prospero
Fontana (n. 1512-Bologna, m.1597-Bologna)
pintor, foi um dos protagonistas da cultura tardia maneirista bolonhesa. Lavínia
Fontana - (n. 24-08-1552 m. 11-08-1614) iniciou sua
carreira artística sob a orientação do pai, Prospero Fontana. Domênico Fontana (n.1543-Melide - m.1607-Nápolis).
Engenheiro e arquiteto. Várias obras, dentre elas, a reconstrução da Biblioteca
do Vaticano e o Palácio de Latrão, o Palácio Real de Nápolis, o Obelisco de Calígula, escada e rampa da Igreja
de Trinitá dei Mondi. Em
1570 entrou para o serviço do Cardeal Felice Peretti
e construiu a Vila Montalto em Roma. Quando Peretti se tornou papa como Sisto
V, foi o principal arquiteto da Santa Sé. Autor de diversos trabalhos
urbanísticos em Roma, deve-se a ele em 1586, o transporte do obelisco até a
Basílica de São Pedro, no Vaticano. Giovanni Fontana (n.1540-Melide -
m.1614-Roma) irmão de Domênico, construiu o Palácio Giustiniani e a fachada da Igreja San Martinho em Siana. Dedicou-se a trabalhos hidráulicos. Alejandro
Fontana, pertenceu ao ramo inscrito no Patriciado de Cesena,
foi um brilhante jurisconsulto no século XVI. Giovanni Battista Fontana, violinista e compositor italiano,
nasceu em 1571, Brescia e faleceu em 1631, Pádua, vítimas da epidemia de praga
de 1630. Foi o mais original violinista de seu tempo e seus escritos
foram publicados dez anos após sua morte, pelo senhor C. B. Fontana, de
Brescia. Felice Fontana (n.1720-m.1805) naturalista e fisiologista,
cujos trabalhos e estudos abrangem diversos campos da ciência. Deve-se a ele
dentre outras contribuições a descrição do cilindro-eixo, porção central que
forma a parte condutiva essencial de uma fibra nervosa. Francesco
Fontana, astrônomo do séc. XVII realizou trabalhos e ilustrações da lua e
marte. A partir do século XVIII e após as guerras
Napoleônicas, diversos ramos da família migraram para outras partes do mundo. No
Brasil a família se estabeleceu em diversos estados e tem representantes que
atuam em vários segmentos empresariais profissionais e acadêmicos.
Personagem
do Estado do Espírito Santo
José Anchieta Fontana (Santa Tereza-ES 1940 – Santa
Leopoldina-ES 1980). Atleta capixaba que participou da Seleção
Brasileira de Futebol atuando na Copa do Mundo de 1970 no México contribuindo
para consagrar o Brasil pela conquista do tricampeonato mundial de futebol.
Para homenageá-lo a Assembleia Legislativa do Espírito Santo através da
Resolução 167/05, instituiu a Comenda
do Mérito Esportivo “José de Anchieta Fontana” para homenagear os
atletas ou personalidades capixabas de destaque que tenham contribuído com o
esporte amador ou profissional no Estado. (jcf)
Bibliografia:
PELLICCIONI DI POLLI, Luciano. Storia della famiglia Fontana, Colassanti & Rosselli, Roma,
Itália, 1969, (depósito: Perugia – Biblioteca Cumunale
Augusta. Sob. Número: H 5156).
CARTURAN,
Celso. 1875-1950).
Storia della famiglia Fontana, in Storia
de Monselice, em manuscrito, agosto 1949, pp. 3034 a
3141. Depósito: Archivio storico
del Comune di Monselice.
[1]Fontana, José Clodoaldo. Acervo familiar, doc. 1840-2007 - Vitória, ES.
[2][Quintius Horátius Flacco- (65 - 8 a.C)]
[3] DERBY, Georges. Estruturas de Parentesco, in. A Idade Média uma Idade do Homem, Teorema, Lisboa, 1988, pp.119 a. 143.
[4] Interessados poderão consultar a hagiografia do Santo.
[5] CARTURAN, Celso (1875-1950). Storia della famiglia Fontana, in Storia de Monselice, , agosto
1949, pp. 3034/3141, em manuscrito Depósito: Archivio
storico del Comune di Monselice.
[6] Citado em: FORNI, Arnaldo. “Memorie per la
storia di Ferrara” (vol.
III), 2ª ed. , Ferrara, 1850, p. 197.
[7] Citado em: FONTANA, Giovanni Jacopo. “Occhiate storiche a Venezia”, Tipr. Di Giuseppe Grimaldo ed, Venezia, 1854.
[8] PELLICCIONI DI POLLI, Luciano de, Storia della famiglia Fontana, Colassanti
& Rosselli, Roma, Itália, 1969, (depósito:
Perugia – Biblioteca Cumunale Augusta. Sob.
Número: H 5156).
[9] PELLICCIONI DI POLLI, Luciano de. Opus Cit.
[10] Canto XIII Giácomo (Jacobus)
Fontana (de Santo Andréa) filho de Olderico
Fontana (de Carrara) e Speronela Dalesamanina.
(n. 1149- m 1199).