Um Mombacense na Inglaterra
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Estou morando h� seis meses em Sheffield - Inglaterra e gostaria de compartilhar com os amigos um pouco da experi�ncia que estou tendo.
Deixei Momba�a em 1991 pra continuar meus estudos em Bras�lia. Cursei at� a 7a s�rie no Ananias e conclu� o gin�sio e segundo grau no Castro Alves. Quando sa� de Momba�a minha inten��o era estudar computa��o, pois tinha tido contato com inform�tica durante o per�odo que trabalhei como estagi�rio no Banco do Nordeste e havia interesse de continuar na �rea. Por�m, comecei a conhecer outras �reas, sempre tive voca��o para �rea de exatas - Matem�tica, F�sica, Estat�stica, Engenharia e Computa��o estavam definitivamente em meus planos, minha grande paix�o era Matem�tica, por�m infelizmente o mercado de trabalho para matem�ticos (e tamb�m f�sicos) sempre foi bastante escasso. Engenharia por sua vez estava em crise devido ao saturamento do mercado, e Computa��o j� n�o me chamava tanto aten��o como antes. Bom, da� surgiu a Estat�stica. Assim como a maioria das pessoas, tinha a id�ia de que Estat�stica era apenas a tabula��o de alguns n�meros como se v� freq�entemente na televis�o. Por�m, ao conhec�-la mais profundamente fiquei maravilhado! A forma como os problemas complexos do dia-dia eram resolvidos matematicamente atrav�s da Estat�stica me impressionou de tal forma que esqueci todas as outras op��es.
Em 1992, entrei no curso de Estat�stica da UnB, em 1996 me formei e entrei no mestrado tamb�m em Estat�stica, e em 1998 terminei o mestrado. Antes disso, em 1997 fui contratado como consultor t�cnico do Exame Nacional de Cursos (conhecido como Prov�o). Depois que terminei o mestrado, muitas portas se abriram, surgiram possibilidades de trabalho e de doutoramente aqui e no exterior. Meu plano era sair pra o doutorado (Estados Unidos ou Inglaterra) em 1998. Mas o destino nos pregou uma pe�a, na noite de natal de 1998 aconteceu um grave acidente com meus pais (Dona Anatilde e Seu Jo�o Alves) e por esta raz�o, tive que adiar meus planos, pois n�o tinha estrutura psicol�gica pra sair do pa�s. Assim, continuei no Minist�rio da Educa��o at� 2001, quando fui contemplado com uma bolsa de PhD da CAPES para estudar na Universidade de Sheffield - Inglaterra. Sheffield � um cidade localizada no norte da Inglaterra (fria pra danar!), e tem uma universidade bastante conceituada, inclusive com v�rios pr�mios Nobels.
Minha experi�ncia aqui est� sendo muito boa, a gente tem que lidar com as adversidades do dia a dia, os problemas com a l�ngua, a cultura, as pessoas, tudo � muito diferente do Brasil. A primeira dificuldade que tive, claro, foi a l�ngua, apesar de ter conclu�do um curso ingl�s no Brasil, e ter feito exame de ingl�s pra entrar na universidade, quando cheguei aqui fiquei absolutamente perdido, o sotaque deles n�o tem nada haver com o que aprendi no Brasil, n�o conseguia entender nada do que eles diziam. Acho que seria equivalente a ensinar portugu�s a um americano e depois pedir pra ele falar com o pessoal do s�tio a�. Levei algum tempo pra me acostumar, mas � quest�o de costume.
O clima. Quando cheguei o clima estava bom (pelo menos pra eles ingleses!), fazia mais ou menos 8o(!), um frio desgra�ado, chuva fina o dia inteiro, e de vez em quando uma ventania t�o forte que chegava a derrubar pessoas. Nunca tinha visto gente caindo na rua por causa de vento. Os primeiros dias foram realmente dif�ceis, por muitas vezes estive em ponto de voltar, mas meu orientador e alguns pessoas me deram for�a pra continuar. Depois veio o inverno. Pra come�ar, aqui o dia fica pequeno no inverno, o sol nasce umas 9:00 da manh� e se p�e �s 15:30 da tarde, e neve, muita neve! Mas apesar de tudo, acho que o corpo da gente se adapta ao frio e a� deu pra suportar.
A Comida. Se algu�m perguntar pra voc� qual a pior comida do mundo, n�o tenha d�vida, � a comida inglesa! Meu Deus do c�u! eles s� comem batata, a base da comida deles � batata e eles n�o usam temperos. O que ainda salva a culin�ria deles � a comida indiana que � muito boa e muito f�cil de encontrar. Carne todo dia? Esque�a!! Carne aqui � car�ssima e ruim, sem falar do risco de pegar a doen�a da vaca louca!
O povo. Apesar de alguns amigos terem me alertado para a frieza dos ingleses fiquei bastante chocado com o que vi. Pra come�ar, eles dificilmente estendem a m�o pra te cumprimentar, e isso n�o � s� pra estrangeiros, aqui eles n�o se cumprimentam apertando a m�o ou dando tapinha nas costas. Lembro que um dia fui cumprimentar um colega com um tapinha nas cotas, ele olhou assustado pra mim e perguntou por que eu tinha feito aquilo! Tive que dar uma aula de cultura brasileira pra ele entender que aquilo era perfeitamente normal. � estranho, eles n�o s�o muito humanos, n�o ligam muito uns para os outros. Um amigo meu estava andando na rua e teve uma crise de labirintite que o levou ao ch�o no meio da rua, eles teve um r�pido desmaio e quando recuperou a consci�ncia o mundo estava "girando". Ele ficou cerca de 15 minutos sem poder se levantar, e durante esse tempo nenhum bom Samaritano parou para lhe socorrer. Ele teve que andar cambaleando at� o hospital mais pr�ximo. Chegando l� eles n�o souberam diagnosticar o problema dele. Ali�s uma coisa bastante curiosa: eles nunca admitem que est�o errados, as vezes eles encobrem o problema pra n�o se expor como profissionais. Mas voltando hospital, depois de algum tempo eles suspeitaram de meningite, e queriam fazer um exame que introduz uma agulha na coluna da pessoa. Foi a� que meu amigo ficou assustado e come�ou a fazer confus�o no hospital, at� que eles desistiram da id�ia. Depois de muito tempo eles conseguiram perceber que era labirintite.
Coisas boas. Tamb�m n�o podemos s� falar de coisas ruins, ali�s quem sou eu pra julgar uma sociedade t�o antiga e madura. Os ingleses s�o extremamente profissionais e respeitam seu espa�o, eles s�o muito cuidadosos com o apar�ncia - se voc� vai dar uma confer�ncia eles comparecem de terno e gravata. � interessante, eles respeitam muito cada indiv�duo.
Uma coisa que me chamou a aten��o � o respeito que eles t�m por idosos, aqui idosos tem um lugar de destaque na sociedade, todos os lugares (supermercados, banheiros, etc.) s�o adaptados para pessoas com dificuldades de locomo��o. A gente v� velhinhos CEGOS na rua andando sozinhos, fazendo compras, etc.
No geral, � um pa�s muito diferente do Brasil, muitas coisas boas, mas o nosso Brasil � muito melhor, principalmente no que tange � rela��es humanas. Poder�amos dar aula pra eles de humanidade e cordialidade. Acho que � uma vantagem e orgulho pra mim pertencer a um pa�s que n�o tem guerras, inimizades, etc. Aqui tem gente de todo o mundo e sempre que conhe�o algu�m e falo que sou do Brasil, eles abrem um sorriso e dizem: "Brasil! Legal, voc�s s�o muito bons no futebol" e coisa e tal. Eles admiram o futebol brasileiro, muita gente usa a camisa da sele��o brasileira nas ruas, a maioria deles t�m o Brasil como segundo time. Ali�s uma coisa que gostei muito aqui � que eles jogam muito mal futebol, pra voc�s terem uma id�ia, eu sou considerado craque aqui pra eles!! � verdade. Aqueles que me viram jogar a� em Momba�a agora v�o entender como eles s�o realmente ruins!!
Acho que o Brasil � uma grande na��o justamente por causa da mistura de povos, e de certa forma, absorvemos as melhores caracter�sticas do europeu, do �ndio, do preto, etc. Vejo minha estada aqui como um aprendizado. Meu objetivo aqui � muito claro: estou aqui para aprender e dar minha contribui��o para o desenvolvimento do nosso pa�s.
Converso com muita gente do mundo inteiro e acreditem, o Brasil � o melhor lugar no mundo pra se viver, � claro que temos que melhorar ainda muito, crescer como na��o e diminuir a desigualdade social, mas ainda assim temos muitas vantagens sobre os outros pa�ses.
Abra�o a todos.
Jos� Ailton Alencar Andrade
The University of Sheffield
Department of Probability and Statistics
The Hicks Building
Hounsfield Road
SHEFFIELD
S3 7RH UK
E-mail: [email protected]
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