Já o tio Dedé fazia questão de contar a sua vida, e a história que mais repetia era a do filme que fizera em Hollywood. Os mais velhos já estavam cansados de ouvir a história, mas sempre aparecia alguém novo para o tio Dedé impressionar. - O senhor fez um filme em Hollywood, seu Dedé? - Apareço numa cena. - Que filme era? - Você não deve ter visto. Não é do seu tempo. O nome em inglês era ailand ovilovi. - Como é? - Ailand ovilovi. Acho que nunca passou no Brasil. - Com quem era? - Dorothy Lamour. Não é do seu tempo. - E como foi que o senhor entrou no filme? - Eu fazia parte de um conjunto, Los Tropicales. Tocava bongô e cantava. Isso foi lá por quarenta e poucos. Época da guerra. Mas conjunto se desfez em Los Angeles porque a cantora, Lupe, uma cubana, descobriu que o marido dela, que tocava pistom e se chamava, sabe como? Rafael Rafael. Assim mesmo, um nome duplo. Descobriu que o Rafael Rafael estava namorando uma pequena americana, aliás um pedaço... E lá se ia o tio Dedé com a sua história, que mudava em alguns detalhes mas era sempre a mesma, mais ou menos elaborada de acordo com o grau de interesse de quem ouvia. Com Los Tropicales desfeito o tio Dedé precisara se virar em Los Angeles e acabara contratado como figurante num filme passado nos Mares do Sul, mas todo filmado em Hollywood mesmo. A cena em que o tio Dedé aparecia, segundo ele, era forte. Era num bar em que a Dorothy Lamour cantava. Ela passava pela sua mesa, cantando, tirava o cigarro da sua boca e Ihe dava um beijo. "Até ficamos amigos", contava o tio Dedé. Um dia... - Titio! O seu filme não se chama Island of love. - É esse mesmo. - Vão passar hoje na televisão! Grande sensação. A família toda se reuniu e convidou gente para ver "o filme do tio Dedé". Que estava estranhamente quieto quando se sentou na frente da TV. O filme começou, continuou e parecia estar terminando e nada de aparecer a cena do tio Dedé. - Quando é, tio? - Calma. Mas o filme terminou e a cena não apareceu. Todos se viraram para o tio Dedé, numa interrogação muda. E então ele, depois de um instante de hesitação, pulou da cadeira e bradou aos céus, indignado: - Cortaram! Cortaram!