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Management  &  Marketing



A revolução de consumidores virá da Internet

Nadja Sampaio  - O Globo -  17.07.2006

 
  O francês Georges Chetochine, um dos mais importantes especialistas europeus em estratégia, marketing e comunicação, defende a idéia de que o consumidor hoje, no mundo inteiro, coleciona frustrações. Ele prega uma mudança radical no gerenciamento das marcas, na qual o marketing deverá centrar sua atenção no comportamento dos clientes. Chetochine está no Brasil para lançar o livro 
O blues do consumidor — por que seu cliente não está satisfeito”, pela Editora Pearson, e para uma série de palestras sobre o tema “O marketing tradicional está obsoleto”. Nesse livro provocativo, o autor explica que o marketing que cria necessidades para o consumidor comprar mais está morto. E defende que é preciso passar para a economia psíquica, na qual o princípio fundamental é responder às frustrações do consumidor. Ele diz que um consumidor frustrado é raivoso e pode ter uma agressividade destruidora para as marcas. Para Chetochine, a grande arma do consumidor será a internet, mas ainda não é possível compreender os efeitos dessa hipercomunicação.
  QUALIDADE E MARKETING:
  “Hoje, a qualidade dos produtos não é ruim. O que não é bom é o atendimento. Quando você compra um carro, compra junto o atendimento. É a noção de castigo e qualidade. Tenho uma recompensa de comprar um bom produto, mas tenho o castigo de pagar o preço e de ter um atendimento ruim. Eu chamo isso de a frustração da frustração. Em todos os países é assim. Conheço poucas empresas que realmente levam em conta o consumidor. Todos dizem que o marketing existe para satisfazer as necessidades do consumidor. Isso não é verdade. O marketing é um meio para a companhia ter lucro, mas o consumidor não está no centro do sistema. E isso é verdade em todas as companhias, do mundo todo. Hoje, se você chega à garagem e seu carro novo não funciona, vai ouvir da fábrica que você não teve sorte. É um processo parecido com a conquista de uma mulher. Se quero uma mulher, digo que quando ela estiver casada comigo será minha rainha, isso para fazer amor com ela, e depois que fizer, eu sumo. É da mesma forma com o consumidor”.
  DIREITOS:
  “Na França, o que mais leva os consumidores a ter consciência de seus direitos são publicações específicas. Uma delas tem 50 milhões de leitores. Outra, que se chama ‘O que escolher’, conseguiu, por meio de campanhas, modificar vários pontos da lei. Por exemplo, com relação ao uso de amianto e de conservantes em sucos de laranja. Penso que o contrapoder das marcas não é o governo, e sim o poder do consumidor. Quanto mais o consumidor for frustrado, mais ele vai reclamar e comunicar essa reclamação, e, com isso, mais poder terá”.
  RECOMPENSA E CASTIGO:
  “Não existem mais diferenças entre produtos. Como não há diferença, é preciso fazer muita publicidade. Um consumidor recebe 1.800 mensagens por dia. Por isso o consumidor está cansado de tanto marketing e da publicidade. O consumidor é vítima do marketing, da comunicação, dos impostos, dos serviços. O marketing é cada vez mais difícil porque existe muita frustração. Os fabricantes prometem um mundo ideal: você vai ser jovem, uma bela mulher, tudo vai funcionar. O consumidor acredita nisso, um dia se dá conta de que não é bem assim. Compra um carro possante, mas, se o acelera, leva uma multa. Se quer pegar um avião, tem de enfrentar filas, atrasos. Se quer reclamar, não é ouvido. São frustrações e mais frustrações. Quando você compra um produto fica diante da recompensa e do castigo. Tenho a recompensa de comprar um perfume e o castigo de pagar o preço. O consumidor tem dois problemas: um castigo factual — vou procurar e não encontro — e um castigo pós-compra — compro um produto e ele não funciona. Hoje o consumidor vê mais castigos do que as recompensas. E a publicidade insiste em dizer que ele tem mais recompensas do que castigos. Por isso, o consumidor está completamente perdido”.
  CLIENTE RAIVOSO:
  “É verdade que o cliente não é fácil. Por isso é muito difícil para a empresa querer o cliente. Hoje em dia a frustração dos dois lados resulta em uma agressividade total. Quando o cliente se sente como vítima da publicidade, do atendimento, frustrado porque a empresa lhe impõe restrições, regras, perda de tempo, ele se torna um inimigo”.
  CONSUMIDOR DE AEROPORTO:
 

“As grandes empresas pensam em um consumidor de aeroporto, onde não há raça, não há fronteira, não há diferença de comportamento. E vemos que pouco a pouco isso se torna uma realidade, nos comportamos de maneira igual. Os consumidores do mundo inteiro usam as mesmas marcas. Em 1982, os franceses diziam que jamais comeriam McDonald’s; hoje, o país onde o McDonald’s tem mais lucro é a França. Os comportamentos são os mesmos. E, uma coisa impensável há 40 anos quando comecei minha carreira, a publicidade é a mesma. Todo o mundo viu ‘Dallas’. Aprendemos a vida de ‘Dallas’. Somos ‘dallásticos’. Aprendemos a vida vendo a vida dos outros. Hoje, existe uma invasão de carros 4x4 nas ruas. Em ruas asfaltadas que não precisam de 4x4. O marketing global fez a destruição de comportamentos nacionais. De um lado, o marketing diz: você é importante e, ao mesmo tempo, fala que você é como os demais. Isso causa frustração. A noção de território se mudou para a noção de comunidades. Algumas marcas, as grandes companhias, estão criando comunidades internas”.

  INTERNET:
  “A comunicação entre as pessoas tem uma velocidade louca pela internet. Quer um exemplo? Em Varsóvia, quando o papa morreu, um rapaz mandou um e-mail dizendo que era uma pena que todas as luzes da cidade não se apagassem em memória de João Paulo II. Uma hora depois, toda Varsóvia estava às escuras. O que vai se passar agora é a revolução do consumidor. Já vimos isso nos Estados Unidos: boicotes pela internet que estão funcionando. Em alguns países pode não funcionar hoje, mas vai funcionar amanhã. O poder dos blogs é imenso, um dia o consumidor vai descobrir esse poder e vai ser terrível para as marcas. E será impossível de controlar. A nova revolução política ou a nova revolução de consumidores virá da internet. A Kodak fechou duas fábricas na França. Não se sabe de onde começaram a circular e-mails dizendo: ‘não compre produtos da Kodak porque a fábrica está demitindo’. As vendas da Kodak despencaram. Essa hipercomunicação ainda vai ter efeitos que não compreendemos hoje”.
  NOVO MARKETING:
  “As empresas têm sempre a mesma maneira de entender o consumidor, de trabalhar sobre as atitudes. Nós trabalhamos com o comportamento. Somos uma consultoria behaviorista. Comportamento é o que o consumidor faz, atitude é o que o consumidor diz. Se você pergunta para o consumidor, você escolhe o produto pela marca? Ele responde: sim. Mas, se você observa a hora da compra, verifica que ele escolhe pelo preço. Hoje em dia, as empresas buscam informações com os consumidores para tomar decisões. Essa informação é unicamente o que o consumidor diz. Do nosso ponto de vista, isso é um erro porque é preciso olhar para o que o consumidor faz. O que ele diz não é o que ele faz. O marketing tem de mudar porque não pode mais levar em conta só as atitudes, o que se fala. Algumas grandes empresas já estão se dando conta disso e começam a desenvolver estudos e pesquisas baseados no comportamento. Temos de entender o que acontece, compreender porque o que dizem não é o que fazem. Esta é a nova visão de marketing”.
 

 

“Quanto mais o consumidor for frustrado, mais ele vai reclamar e,
com isso, mais poder terá”

 

       

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