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Dê-me,
Senhor,agudeza para entender,capacidade para reter,método
e faculdade para aprender,sutileza para interpretar, graça
e abundância para falar. Dê-me, Senhor, acerto ao
começar, direção ao progredir e perfeição
ao concluir.
~ São Tomás de Aquino ~
OS
EFEITOS DA EUCARISTIA
- Summa Theologiae IIIa. Pars Qs. 79-80 –
- Sermão sobre o Corpo do Senhor –
01.
No Sacramento da Eucaristia, em virtude das palavras da instituição,
as espécies simbólicas se mudam em corpo e sangue;
seus acidentes subsistem no sujeito; e nele, pela consagração,
sem violação das leis da natureza, o Cristo único
e inteiro existe Ele próprio em diversos lugares, assim
como uma voz é ouvida e existe em vários lugares,
continuando inalterado e permanecendo inviolável quando
dividido, sem sofrer diminuição alguma. Cristo,
de fato, está inteira e perfeitamente em cada e em todo
fragmento de hóstia, assim como as aparências visíveis
que se multiplicam em centenas de espelhos. O efeito deste Sacramento
deve ser considerado, portanto, primeira e principalmente em
função daquilo que nele está contido, que
é o Cristo.
02. Ele, vindo ao mundo em forma visível, trouxe ao mundo
a vida da graça, segundo nos diz o Evangelho de João:
"A
graça e a verdade, porém, vieram por meio de Jesus
Cristo".
Assim,
da mesma forma, vindo Cristo ao mundo em forma sacramental,
opera a vida da graça, segundo ainda outra passagem do
mesmo Evangelho:
"Quem
me come, viverá por mim",
03.
O efeito deste Sacramento deve, ademais, ser considerado também
pelo que ele representa, que é a Paixão de Cristo.
Por isto, o efeito que a Paixão de Cristo realizou no
mundo, este Sacramento também realiza no homem.
04.
O efeito deste Sacramento também deve ser considerado
pelo modo através do qual ele é trazido aos homens,
que é por modo de comida e bebida. E por isto todo efeito
que a bebida e a comida material realizam quanto à vida
corporal, isto é, sustentar, crescer, reparar e deleitar,
tudo isto realiza este Sacramento quanto à vida espiritual.
E é por isto que se diz:
“Este
é o pão da vida eterna, pelo qual se sustenta
a substância de nossa alma".
De
onde que o próprio Senhor diz, no Evangelho de São
João:
"Minha
carne é verdadeiramente comida, e meu sangue é
verdadeiramente bebida".
05.
Finalmente, o efeito do Sacramento da Eucaristia deve ser considerado
pelas espécies em que este Sacramento nos é oferecido.
Foi por causa disto que escreveu Santo Agostinho:
"O
Senhor confiou-nos o Seu Corpo e o Seu Sangue em coisas tais
que são reduzidas à unidade a partir de muitas
outras, porque o pão é um, embora conste de muitos
grãos, e o vinho é feito a partir de muitas uvas".
E
por isso ele também escreveu em outro lugar:
"Ó
Sacramento da piedade, ó sinal da unidade, ó vínculo
da caridade!".
06.
E porque Cristo e sua Paixão são causa da graça,
e uma refeição espiritual e a caridade não
podem existir sem a graça, por todas estas coisas é
manifesto que este Sacramento confere a graça.
07.
Mas, conforme diz São Gregório na homilia de Pentecostes,
"o amor de Deus não é ocioso; opera grandes
coisas, se de fato existe".
Por
isto, por meio deste Sacramento, o quanto pertence a seu efeito
próprio, não somente é conferido o hábito
da graça e da virtude, mas também esta é
conduzida ao ato, segundo o que está escrito na Segunda
Epístola aos Coríntios:
"O
amor de Cristo nos impele".
Daqui
é que provém que pela virtude do Sacramento da
Eucaristia a alma faz uma refeição espiritual
por deleitar-se e inebriar-se pela doçura da bondade
divina, segundo o que diz o Cântico dos Cânticos:
"Comei,
amigos, e bebei; e inebriai-vos, caríssimos".
08.
Este Sacramento também tem virtude para a remissão
dos pecados veniais, o que pode ser visto pelo fato de que ele
é tomado sob a espécie de alimento nutritivo.
A nutrição proveniente do alimento é necessária
ao corpo para restaurar aquilo que em cada dia é desperdiçado
pelo calor natural. Espiritualmente, porém, em nós
também é desperdiçado a cada dia algo pelo
calor da concupiscência pelos pecados veniais que diminuem
o fervor da caridade. E por isto compete a este Sacramento a
remissão dos pecados veniais. De onde que Santo Ambrósio
diz, no livro Dos Sacramentos, que este pão de cada dia
é tomado
"como remédio da enfermidade de cada dia".
09.
Ademais, a coisa deste Sacramento é a caridade, não
somente quanto ao hábito, mas também quanto ao
ato, ao qual é conduzida neste Sacramento, pelo qual
os pecados veniais se dissolvem. De onde que é manifesto
que pela virtude deste Sacramento ocorre a remissão dos
pecados veniais. Os pecados veniais, ao contrário dos
mortais, não contrariam a caridade quanto ao hábito,
mas contrariam a caridade quanto ao fervor do ato, ao qual é
conduzida por este Sacramento. É por esta razão
que os pecados veniais são perdoados pelo Sacramento
da Eucaristia.
10.
O Sacramento da Eucaristia pode também perdoar toda a
pena devida ao pecado. Este efeito pode ocorrer tanto por ele
ser sacrifício, como por ser sacramento. A Eucaristia
possui razão de sacrifício na medida em que é
oferecido; possui razão de sacramento na medida em que
é tomado.
11.
Como Sacramento, a Eucaristia possui diretamente aquele efeito
para o qual foi instituído. Não foi, porém,
como Sacramento, instituído para satisfazer, mas para
alimentar espiritualmente pela união a Cristo e aos seus
membros, assim como o alimento se une ao alimentado. Mas porque
esta união se realiza pela caridade, por cujo fervor
alguém pode conseguir a remissão não apenas
da culpa, mas também da pena, daqui ocorre que por conseqüência,
por uma certa concomitância ao efeito principal, o homem
alcança a remissão também para a pena.
Não, porém, de toda a pena, mas de acordo como
o modo de sua devoção e fervor.
12.
Mas, na medida em que é Sacrifício, a Eucaristia
possui virtude satisfatória. Entretanto, também
na satisfação mais deve se considerar o afeto
do oferente do que a quantidade da oblação, de
onde que o Senhor disse, no Evangelho de São Lucas, da
viúva que ofereceu apenas duas moedas, que
"ofereceu mais do que todos".
Embora, portanto, a oblação eucarística
pela sua própria quantidade seja suficiente para a satisfação
de toda a pena, todavia torna-se satisfatória para aqueles
pelos quais é oferecida, ou também para os próprios
oferentes, de acordo com a quantidade de sua devoção,
e não por toda a pena.
13.
A Eucaristia também preserva o homem dos pecados futuros,
pelo mesmo modo em que o corpo é preservado da morte
futura. O pecado é uma certa morte espiritual da alma.
Ora, a natureza corporal do homem é preservada da morte
pela comida e pelo remédio na medida em que a natureza
humana é interiormente fortificada contra o que pode
corrompê-la interiormente. É deste modo que este
Sacramento preserva o homem do pecado, porque através
dele, unindo-se a Cristo pela graça, é fortalecida
a vida espiritual do homem, ao modo de uma comida espiritual
e um remédio espiritual. É assim que diz o Salmo
103:
"O pão confirma o coração do homem".
14.
A Eucaristia preserva o homem dos pecados futuros também
defendendo-o contra as impugnações exteriores.
Pois é sinal da Paixão de Cristo, pela qual foram
vencidos os demônios, de modo que este Sacramento repele
toda a impugnação dos demônios.
15.
Ainda que este Sacramento não diretamente se ordene à
diminuição do incitamento do pecado, diminui,
porém, este incitamento por uma certa conseqüência,
na medida em que aumenta a caridade, porque, segundo diz Agostinho
no Livro das 83 Questões,
"O aumento da caridade é a diminuição
da cobiça".
Diretamente, porém, a Eucaristia confirma o homem no
bem, pelo que também é preservado o homem do pecado.
16.
Este Sacramento, ademais, é de proveito para muitos outros
além dos que o recebem porque, conforme foi dito, este
Sacramento não é apenas sacramento, mas é
também sacrifício. Na medida em que neste Sacramento
é representada a Paixão de Cristo, pela qual Cristo
se ofereceu a Si mesmo como hóstia a Deus, possui razão
de sacrifício. Na medida, porém, em que neste
Sacramento é trazida invisivelmente a graça sob
uma espécie visível, possui razão de sacramento.
17.
Assim, pois, este Sacramento é, para os que o recebem,
de proveito não só por modo de sacramento, como
também por modo de sacrifício, porque é
oferecido por todos os que o recebem.
18.
Mas também é de proveito para os que não
o recebem, embora apenas por modo de sacrifício, na medida
em que é oferecido pela salvação deles.
É por isso que no cânon da Missa se diz:
"Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas, pelos
quais nós Vos oferecemos, e eles Vos oferecem também,
este Sacrifício de louvor, por si e por todos os seus,
pela redenção de suas almas, pela esperança
de sua salvação e sua segurança".
19.
O próprio Senhor, ademais, expressou que a Eucaristia
seria de proveito para outros além dos que a recebem,
quando disse, na última Ceia:
"Este cálice é o meu sangue, que por vós",
isto é, os que o recebem,
"e por muitos"
outros,
"será derramado para o perdão dos pecados".
20.
Pode-se, porém, argumentar que sendo o efeito deste Sacramento
a obtenção da graça e da glória
e a remissão da culpa, pelo menos da venial, se este
Sacramento realmente tivesse efeito em outros além dos
que o recebem poderia acontecer que alguém alcançasse
a glória, a graça e a remissão das culpas
sem ação nem paixão própria, por
algum outro ter oferecido ou recebido este Sacramento.
Responde-se a isto dizendo que assim como a Paixão de
Cristo é de proveito para todos para a remissão
da culpa, e a obtenção da graça e da glória,
mas não produz efeito senão naqueles que se unem
à Paixão de Cristo pela fé e pela caridade,
assim também este sacrifício que é a Eucaristia,
memorial da Paixão do Senhor, não produz efeito
senão naqueles que se unem a este Sacramento pela fé
e pela caridade. De onde que no Cânon da Missa não
se ora por aqueles que estão fora da Igreja. Aos que
nela estão, porém, o Sacrifício Eucarístico
é de proveito maior ou menor de acordo com o modo de
sua devoção.
21. Mas, assim como deve-se dizer que o Sacramento da Eucaristia
obtém a remissão dos pecados veniais, assim devemos
também dizer que os pecados veniais impedem o efeito
deste Sacramento. Pois diz São João Damasceno:
"O fogo do seu desejo que há em nós, acendendo-se
mediante aquele fogo que há no carvão",
isto é, neste Sacramento,
"queimará nossos pecados e iluminará nossos
corações para que ardamos e nos edifiquemos pela
participação do fogo divino".
Mas o fogo do nosso desejo ou do nosso amor é impedido
pelos pecados veniais, que impedem o fervor da caridade. Portanto,
os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento.
22.
Os pecados veniais podem ser considerados de dois modos. De
um primeiro modo, na medida em que são passados. De um
segundo modo, na medida em que estão sendo exercidos
em ato.
Segundo o primeiro modo, os pecados veniais de nenhum modo impedem
o efeito deste Sacramento. De fato, pode acontecer que alguém,
depois de ter cometido muitos pecados veniais, se aproxime devotamente
a este Sacramento e alcance plenamente o seu efeito.
Porém, de acordo com o segundo modo, os pecados veniais
não impedem totalmente o efeito deste Sacramento, mas
apenas em parte. De fato, foi dito que o efeito deste Sacramento
não é apenas a obtenção da graça
habitual ou da caridade habitual, mas também uma certa
refeição atual de espiritual doçura. A
qual, na verdade, é impedida se alguém se aproximar
a este Sacramento com a mente distraída pelos pecados
veniais. O aumento da graça habitual ou da caridade habitual,
porém, não é tirado.
23.
Aquele que com o ato do pecado venial se aproxima deste Sacramento
come espiritualmente segundo o hábito, mas não
segundo o ato. E por isto recebe o efeito deste Sacramento segundo
o hábito, não segundo o ato.
24.
Nisto o Sacramento da Eucaristia difere do Batismo, porque o
Batismo não se ordena a um efeito atual, isto é,
ao fervor da caridade, do modo como ocorre com o Sacramento
da Eucaristia. O Batismo é uma regeneração
espiritual, pelo qual se adquire uma primeira perfeição,
que é um hábito ou forma; mas a Eucaristia é
uma refeição espiritual que possui uma deleitação
atual.
25.
Quem está em pecado mortal comete sacrilégio ao
receber a Eucaristia, porque há duas coisas sacramentais
na Eucaristia. A primeira, significada e contida, é o
próprio Cristo; a segunda, significada mas não
contida, é o Corpo Místico de Cristo, isto é,
a sociedade dos santos. Quem quer que, pois, receba este Sacramento,
só por isto significa estar unido a Cristo e aos seus
membros. Ora, isto se realiza pela fé formada pela caridade,
que ninguém pode possuir juntamente com o pecado mortal.
E por isto é manifesto que quem quer que receba este
Sacramento em pecado mortal comete nele falsidade. Incorre,
por este motivo, em sacrilégio, como violador do Sacramento.
Peca, por causa disto, mortalmente.
26.
Os pecadores, porém, que tocavam o Corpo de Cristo não
sob a espécie sacramental, mas em sua substância
própria, não pecavam. Às vezes até
alcançavam o perdão dos pecados, como se lê
no Evangelho de São Lucas a respeito da mulher pecadora.
Isto acontecia porque o Cristo, aparecendo sob a sua espécie
própria, não se exibia para ser tocado pelos homens
em sinal de união espiritual com Ele, como é o
caso quando se oferece para ser recebido neste Sacramento. Foi
por isso que os pecadores que o tocavam em sua própria
espécie não incorriam no crime de falsidade contra
a divindade, como o fazem os pecadores que recebem este Sacramento.
27.
O pecador que recebe o Corpo de Cristo pode ser comparado, quanto
à semelhança do crime, a Judas que beijou Cristo,
porque ambos ofendem a Cristo sob um sinal de caridade.
Esta semelhança compete a todos os pecadores em geral,
porque por todos os pecados mortais age-se contra a caridade
de Cristo, de que é sinal este Sacramento, e tanto mais
quanto os pecados são mais graves.
Mas sob um aspecto especial os pecados contra o sexto mandamento
tornam o homem mais inepto para o recebimento deste Sacramento,
na medida em que, a saber, por este pecado o espírito
é maximamente submetido à carne, e desta maneira
é impedido o fervor do amor que é requerido neste
Sacramento.
28.
Que ninguém, pois, se aproxime desta Mesa sem reverente
devoção e fervente amor, sem verdadeiro arrependimento,
ou sem lembrar-se de sua Redenção.
Maravilhoso é este Sacramento em que uma inefável
eficácia inflama os afetos com o fogo da caridade. Que
revigorante maná é aqui oferecido para o viajante!
Ele restaura o vigor dos fracos, a saúde para os doentes,
confere o aumento da virtude, faz a graça superabundar,
purga os vícios, refresca a alma, renova a vida dos aflitos,
vincula uns aos outros todos os fiéis na união
da caridade. Este Sacramento da fé também inspira
a esperança e aumenta a caridade. É o pilar central
da Igreja, a consolação dos que falecem, e o acabamento
do Corpo Místico de Cristo. A fé amadurece, e
a devoção e a caridade fraterna são aqui
saboreadas. Que estupenda provisão para o caminho é
esta, que conduz o viajante até à montanha das
virtudes! Este é o pão verdadeiro que é
comido e não consumido, que dá força sem
perdê-la. É a nascente da vida e a fonte da graça.
Perdoa o pecado e enfraquece a concupiscência. Os fiéis
encontram aqui a sua refeição, e as almas um alimento
que ilumina a inteligência, inf lama os afetos, purga
os defeitos, eleva os desejos. Ó cálice de doçura
para as almas devotas, este sublime Sacramento, ó Senhor
Jesus, declara para os que crêem Tuas maravilhosas obras.
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