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:: Os Finalistas de Pintura


Rui M. Pereira

Director Municipal de Cultura

Olhar o mundo não é um acto neutro. Vemos o que amamos e o que nos desgosta, e com pudor admitimos que existe muito mundo que mais não faz senão deixar-nos indiferentes. Basta olhar? Não: o mundo provoca-nos para agir.
A representação do mundo, quando reflectida ou simplesmente liberta no impulso criador, eleva-se à condição de Arte. Mais do que uma afirmação estética, é o testemunho da nossa capacidade de não deixar a realidade dormir sossegada, da nossa capacidade de ser jovem e de, quando felizes, vivermos novos até velhos...
As Belas Artes são um desses jardins da eterna juventude, da inquietação, do olhar que se interroga e se estende além, na mão artífice que trabalha e recria — e a sua Faculdade de Lisboa é uma instituição que honra a Cidade. Aqueles que nela são formados, sabemos bem como se constituem sempre numa reserva de esperança do velho mot Baudelaire: “que a vida pareça bela! Bela!”
Assim, foi com natural e caloroso agrado que acolhemos mais uma exposição de pintura dos alunos finalistas da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, este ano na galeria do Palácio Galveias. É um acto singelo de boas-vindas aos jovens artistas que hoje aqui nos mostram os seus trabalhos: mas é também, seguramente, um ate já e um obrigado!, nossos e da Cidade, pelo caminho que ousaram escolher.

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Professora Doutora Sílvia Chicó

Vice-Presidente do Conselho Directivo
da Faculdade de Belas-Artes

 

Uma nova exposição de trabalhos recentes de finalistas do curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes. Uma vez mais se constata com agrado o clima de liberdade propiciador da expressão individual de cada jovem artista.
Acerta-se com o tempo que se vive esta diversidade de atitudes criativas em que um crescente experimentalismo se vai afirmando. Verifica-se que existe em muitas obras não a vontade deliberada de procura de um estilo próprio eventualmente patenteável, mas sim uma pesquisa que a diferentes imagens poderá conduzir, o que revela uma atitude de grande disponibilidade e agilidade no pensar o objecto de arte. Que não é mais coisa fechada em si própria, mas via para futuros desenvolvimentos.
Assim a contemporaneidade se revela, deixando a marca de um tempo em que o saber se organiza de modo lúdico e dinâmico, em que o estudo e a investigação são facetas indissociáveis de uma mesma moeda, e em que as novas tecnologias, provam ser instrumentos estruturantes do saber contemporâneo.
Estes instrumentos trouxeram uma inegável melhoria nos ambientes de trabalho e de estudo da pintura e da arte experimental e objectual que nesta exposição se pode ver.
O que me parece claro - e tenho constado nas novas gerações de estudantes de Belas Artes dos vários cursos - é que cada aluno possui uma ideia clara do seu projecto de trabalho, frequentemente um processo a desenvolver em várias fases , sendo as obras agora mostradas apenas partes desses projectos mais amplos.
Vão longe os tempos em que os artistas se queriam produtores de objectos decorativos para um fruidor medianamente culto. Sem uma exacerbada concepção romântica da individualidade artística, mas procurando naturalmente uma atitude informada pela época em que vivemos - por isso moderna, por isso interveniente - assim se pode, em poucas palavras, classificar as muitas poéticas que estes jovens fazem o favor de nos oferecer.

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Professor Carlos Vidal



UNIDADES TEMÁTICAS

Esta é a exposição colectiva de alunos finalistas da disciplina de Pintura da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, respeitante ao ano lectivo 2004/2005. Esta colectiva prossegue projectos anteriores, é também um balanço selectivo (não nos participantes, mas nas obras escohidas em função do espaço com que nos confrontamos – Galveias – e da representatividade das trajectórias individuais); é um balanço e desafio organizativo complexo e, desejavelmente, marca projectiva, esboço ou amostragem já desenvolta de discursos que se vão afirmando (sendo alguns já conhecidos publicamente).
Esta, como as exposições anteriores de colectivos idênticos da Faculdade (e aplicar-se-ia a mesma consideração aos finalistas de Escultura), é uma justaposição de opções e vias individuais, sendo o seu critério principal a apresentação de um conjunto de pessoas que durante um ano trabalhou em partilha de espaço. Trata-se de um balanço de actividades num momento em que os alunos-artistas já não operam em rígidas fronteiras disciplinares nem numa separação de blocos escola-exterior-mercado-crítica, pois estão, muitos deles, conscientes das necessidades profissionais e de circulação que melhor respondem às suas opções estéticas. Tudo isso sairá clarificado e demonstrado numa medida, digamos, directamente proporcional à disparidade de propostas possibilitadas.
Contudo, não se deve mecanizar a lógicas das «diferenças», como se o pluralismo fosse um valor absoluto e os discursos não tivessem valias distintas. Têm valias e pensamentos distintos e, além disso, têm recorrências ou obsessões constantes. Isto é, de ano para ano, de colectivo para colectivo, de disparidade para disparidade, seja qual for a quantidade de autores presentes, a sugestão mais interessante que podemos fazer é a de convidar o espectador a uma busca e análise de alicerçes comuns, recorrências, obsessões reiteradas, em suma, constatar a unidade destas distantes proposições. Pode ser difícil numa mostra como esta, mas se nos quedarmos na «diferença» e «disparidade» apenas constatamos a faceta superficial da exposição.
Podemos sugerir algumas pistas, até porque, da parte dos docentes, acompanhar estes trabalhos na sua evolução contínua (ou «avaliação contínua») implica conhecê-los; conhecer os trabalhos desde a sua génese, e as motivações ideológicas, programáticas, teóricas e estéticas dos seus autores e autoras.
Vejamos alguns tópicos (formais e conteudísticos) sempre presentes, inerentes à existência da própria linguagem plástica: corpo, forma, matéria, objecto. Apesar de recorrentes e omnipresentes, estes assuntos têm abordagens muito pessoalizadas, mas o entendimento de cada tema enquanto tal diz-nos, por muito diferentes propostas que assegurem, que o tema permanece uma unidade (complexa). Corpo, forma, matéria e objecto têm abordagens por vezes opostas, mas vincadas ligações: em Daniel Melim, por exemplo, o corpo da pintura é nitidamente um objecto; mas é também uma inversão do ready-made: se este antevia (desprezando a manualidade e a opticalidade) o objecto como o futuro da arte e da pintura, nestas suas frágeis obras é a pintura que surge como o futuro do objecto, agora dependente da dimensão precária da manualidade.
Além disso, a pintura pode surgir como coisa orgânica, e aqui o objecto dará lugar ao pequeno gesto, quase visceral, gestualidade que remete ou para o interior da pintura (Joana Félix), das formas da pintura (que, enquanto formas, tornam ilegíveis as suas partes, como nas camuflagens de Carla Tavares), ou para o interior do corpo (Inês Barracha, que também teatraliza a pele como se fosse orgão interno ou víscera). Em Paula Augusta, corpo e objectualidade confundem-se em esculturas de formas simbólicas revestidas de tecido. Márisa Nunes convoca uma poética simbiose entre o corpo, as memórias de afectos pessoais e elementos naturais.
Mas o corpo está ainda presente quando se trata de retratar o eros (Bruno Souza) ou a própria estrutura da pintura, o corpo da pintura – as traves compositivas acentuadas e, ao mesmo tempo, apagadas gestualmente, em Conceição Lacerda, ou os gestos como ténues resíduos, em Luciana Rosado. Em Tânia Diniz, o corpo da pintura é um magma de tecidos ou materiais sintéticos que se autonomizam tridimensionalmente fora da tela. Temos também o corpo como sugestão atmosférica ou convite voyeurístico (nos objectos de Catarina Preto). Aparecerá ainda como escultura que desmultiplica performativamente as dimensões do espaço (Cláudia Mateus). Ou fantasma, em Nelson Correia. As auto-representações de Carlos Lérias ou Ana Casimiro, também o transportam tematicamente: o primeiro consciente do efémero e da contingência extrema (nalgumas obras procurou registar/fixar a sua respiração), a segunda recorrendo a vias mais perenes, físicas e matéricas. Que atingem um paroxismo nas naturezas mortas de Marta Almeida, onde copos e garrafas se agigantam em densas redes lineares, tratando figura e fundo como corporalidade una. Em Rodrigo Machado, o corpo é tratado segundo um falso realismo, aparentemente clássico, mas irrealmente fragmentado. E de fragmentos e multiplicações nos falam ainda Sérgio Correia e Pedro Vaz, transferindo figurações corporais para a esfera da natureza, estilhaço ornamental pulverizado no primeiro, investigação plástica e conceptual no segundo.
Ainda na natureza, de certo modo, reside o contexto da figuração de Rute Coelho, onde mãos se transformam em montanhas, comparando a exorbitação da escala do corpo com a paisagem. Ou Susana Resende com as suas paisagens de eco simbolista, inscrevendo laboriosos detalhes em imagens oníricas. Na natureza se quedam igualmente as pinturas de Silvia Lança, em registos imaginários e expressivos em que o gesto condiciona a forma e a cor (de uma natureza pessoal visionária). Rui Pais, por seu lado, também trabalha o corpo, agora em termos de organização social por exemplo – o corpo é o tecido social, os mecanismos de vigilância e condicionamento. O corpo abstractiza-se depois em Rita Costa e Rita Paz, ambas assegurando à matéria, cada uma a seu modo, valores tácteis e compositivos auto-referenciais.
Do corpo (que, como vimos, em determinadas ênfases matéricas também é corpo da pintura) chegamos ao objecto (entidade física) e, posteriormente, ao espaço; à espacialidade como tema, que convoca situações como as de ordem e entropia (ver as fotografias de João Santos, onde a luz, como no minimalismo, é ordem e forma, e o espaço é uma teatralidade e cenário de decomposição e finitude), ou vazio, sinal mínimo de presença ou desfocagem perceptiva (que também são apelos de contingência e, ao mesmo tempo, inscrição pictórica: Isa Gonçalves, Carmen Pavia). O objecto pode ter como limiar de reconhecimento uma desfuncionalização que o leva a perder-se num território apenas estético, o da escultura, por exemplo; digamos que há neste ponto uma reavaliação do ready-made e uma combinação entre a pintura, a mera observação do quotidiano e o registo fotográfico (Bruno Caracol).
Esvaziamento de marcas, de sinais, do espaço – ou o espaço convertido em palco para que os objectos brilhem como jogos de linguagem (Maria Caldeirinha) ou relicários non sense (Cátia Guimarães). Mas a pintura também se associa à fotografia para tratar de questões como as da identidade cultural (o trabalho desenvolvido durante todo o ano por Ana Telhado), ou ao video para formular registos «científicos» de situações banais (a análise dos tempos e perspectivas da queda de um copo, um video sintomático de Duarte Perdigão, que também explora vias mais documentais ou fantasistas), ou à linguagem, de novo (os títulos das pinturas de Maria J. Rato remetem para uma actualização dos nomes e dos lugares biblícos, conotando-os com a política e a sociedade actual).
Entretanto, nunca a pintura deixou de aportar à figuração (igualmente entre a narrativa, a fábula e a política, em Cristina Maldonado) e à investigação de processos expressivos, formais e gestuais abstractos (Francisco Sarmento), por oposição a uma (aparente) abstracção em que o sinal se geometriza e estiliza convocando valores óptico-lumínicos que acabam por reconduzir à figura, paradoxalmente, de modo mais intenso (Catarina Flores). Ou a uma narrativa sígnica em Vera Bettencourt. Ou à forma geométrica pura e auto-referencial, em Nuno Baptista. O oposto pode residir numa pintura que persegue a representação do vazio figurativo-espacial, onde somente se apresentam restos de figuras como se se tratasem de aparições ou volumes ambíguos quase ilegíveis (Joana Caparica e Iolanda Araújo). E considerem-se ainda as figuras voláteis e liquefeitas, impossibilitando a percepção convencional, em Sara Antunes.
Mais explícitos são os trabalhos de Margarida Boavida e Catarina Albuquerque; na primeira, a figura (gatos) é claramente uma aparição, aparentemente narrativa, embora paralisada sem «antes» ou «depois», reunindo a pintura e o fulgor imediato do registo fotográfico como surpresa, susto e medo; na segunda, a pintura regista justaposições de figuras, signos, mensagens em que a cultura urbana se reveste de um estranho misticismo, entre o imaginário new age, o graffiti e um código desconhecido, mas tribal e impositivo (pela luz, cor e saturação de elementos desencontrados). Patrícia Beja ironiza ou simula uma calculada ingenuidade, pretendendo perverter universos aprazíveis. Patrícia Feio, por seu lado, cruza a figuração pictórica com o cinema, criando situações e espaços de adensamento psicológico suspendendo narratividades. Ricardo Coxixo e, de certo modo, Rita Borges, transformam corpos em figurações sofridas ou animalizadas, corpos tornados monstros revelando que a pintura pode aceder a realidades insuspeitas.

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Professor Lima Carvalho



Faltam dois anos lectivos para terminar a experiência pedagógica iniciada com a reforma, após o 25 de Abril de 1974, que deu origem ao curso de Artes Plásticas — Pintura. Quero, desde já, sublinhar que esta experiência não termina por desajuste, por insuficiências curriculares ou por outros problemas. Aproxima-se dos últimos anos com o êxito que o testemunho destes recém-licenciados confirma. Trata-se de uma mais valia resultante do número extenso de cadeiras artísticas, científicas e tecnológicas, que possibilitaram uma elevada capacidade de entender e fazer, no campo artístico das Belas-Artes e, muito especialmente, na Pintura.
Os ensinamentos, as práticas e as orientações, que influenciaram o percurso destes jovens, vão ter reflexos durante muito tempo e, porventura, vão ser considerados exemplo e objecto de comparação com os resultados do recente curso de Belas-Artes -Pintura, iniciado em Outubro de 2004, segundo as directrizes do processo de Bolonha.
É certo que ainda é cedo para se perceber as vantagens e desvantagens do encurtamento do curso, de cinco anos lectivos, para quatro anos. Mas, hoje, o que está em causa é este pequeníssimo conjunto de obras, realizadas pelos finalistas de pintura, de 2004-2005. A Faculdade de Belas-Artes e os seus Professores, em especial, desejam os maiores êxitos para todos, pois acreditam que esses êxitos, vem beneficiar a Arte e, principalmente, a Cultura do nosso País.

As sementes estão lançadas.

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Professor Pedro Fortuna

 

Uma Exposição de Finalistas é um acontecimento simultaneamente importante e secundário. Para vários participantes, será provavelmente uma entre outras que fez ou há-de fazer e a sua importância certamente pequena: para outros tantos poderá ser a altura de todas as promessas de que o tempo desdenha e que amolece: para muitos equivalerá a descer as escadas da Faculdade para sentar na soleira da porta... e sorrir. A todos um brinde de congratulação.
A Faculdade não faz pintores! Familiariza-os(as) com ferramentas que esperamos possam aguçar-lhes os sentidos, afim de interpelarem o mundo e a si mesmos. Alguns fá-lo-ão pela via plástica — espero que muitos — outros pela sua análise e decisão, pelo seu contributo consultivo — timidamente alguns lugares fora dos grandes centros vão procurando fazer da arte um bem de consumo corrente — alguns hão-de estar junto dos mais novos estruturando uma linguagem visual simultaneamente universal e uma fala de cada um, parecendo (talvez ingenuamente) que melhor podem entender o mundo — que o façam tantos (mas só!) quantos o desejarem. Outros serão levados pelo correr dos dias -olhando daqui não se percebe facilmente como poderá a existência fintá-los dando-lhes tudo quanto não prometeu.
Um trabalho por aluno é certamente insuficiente para que cada um se explique. O entendimento com quem o olha é decerto fugaz, mas a escola também é assim, querendo preparar para o mundo sem p’ra ele ter as chaves. Com um jogo de espelhos decompondo a luz e acreditando (também eu) que assim se agarra o sol. No entendimento da arte progride-se de modo indirecto e duvidando: na construção dos discursos caminha-se sedimentando lentamente a banalidade e o espanto. Nesses termos o estudo das disciplinas parece por vezes inútil, parecerá porventura demorado, mas a pintura é feita desse crescimento atempado e fervorosamente lúcido a cada momento, carregado de dúvidas compulsivamente esmagadas, mesmo que regressadas mais adiante.
Uma Exposição de Finalistas pode ser uma charneira entre uma face e outra como uma marca num “quadro” entre as outras, essencial no momento que se faz e depois um lugar fictício, tão absolutamente necessário nos estudantes de Pintura, que se arrisca a parecer gratuito.

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