Nietzsche X Platão
"Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como instrumentos da decomposição grega, como falsos gregos, como antigregos." (A Origem da Tragédia).
"O moralismo dos filósofos gregos desde Platão está condicionado patologicamente; do mesmo modo que sua avaliação da dialética. A equação Razão = Virtude = Felicidade diz meramente o seguinte: é preciso imitar Sócrates e estabelecer permanentemente uma luz diurna contra os apetites obscuros - a luz diurna da razão. É preciso ser prudente, claro, luminoso a qualquer preço: toda e qualquer concessão aos instintos, ao inconsciente conduz para baixo..." (Crepúsculo dos Ídolos - O problema de Sócrates, 10)
"Qual pode ser nossa única doutrina? - Que ninguém dá ao homem suas propriedades; nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele mesmo (- o contra-senso da representação, aqui por fim recusada, é ensinado por Kant, e talvez mesmo já por Platão, como "liberdade inteligível"). Ninguém é responsável em geral por ele existir, por ele ser constituído de tal ou tal modo, por ele se encontrar sob estas circunstâncias, nesta ambiência. A fatalidade de sua existência não pode ser separada da fatalidade de tudo o que foi e de tudo o que será. O homem não é a conseqüência de uma intenção própria, de uma vontade, de uma finalidade. Com ele não é feita a tentativa de alcançar um "ideal de homem" ou um "ideal de felicidade" ou um "ideal de moralidade". - É absurdo querer fazer rolar sua existência em direção a uma finalidade qualquer. Nós inventamos o conceito de "finalidade": na realidade falta a finalidade... É-se necessariamente, se é um pedaço de fatalidade, se pertence ao todo, se está no todo. Não há nada que pudesse julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não há nada fora do todo! Que ninguém mais seja responsável, que o modo de ser não possa ser reconduzido a uma causa prima, que o mundo não seja uma unidade nem enquanto mundo sensível, nem enquanto "espírito": só isso é a grande libertação. - Com isso a inocência do vir-a-ser é restabelecida... O conceito de "Deus" foi até aqui a maior objeção contra a existência... Nós negamos Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente com isso redimimos o mundo." (Crepúsculo dos Ídolos - Os quatro grandes erros, 8)
"A moral da criação e a moral da domesticação são plenamente dignas uma da outra, no que concerne aos meios de se impor. Podemos apresentar como princípio mais elevado o seguinte: para levar a termo a moral é necessário ter a vontade incondicionada do contrário. Este é o grande problema, o problema sinistro, ao qual persegui mais longamente: a psicologia dos "melhoradores" da humanidade. Um fato diminuto e no fundo modesto, este da assim chamada pia fraus
[mentira piedosa], abriu-me um primeiro acesso a este problema. A pia fraus foi a herança de todos os filósofos e sacerdotes que "melhoraram" a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio, nem as doutrinas hebréias e cristãs jamais duvidaram de seu direito à mentira. Eles duvidaram de direitos totalmente diversos... Expresso em uma fórmula, poder-se-ia dizer: todos os meios, através dos quais até aqui a humanidade deveria se tornar moral, foram fundamentalmente imorais." (Crepúsculo dos Ídolos, Os "melhoradores" da humanidade, 5)"Eu tomo um caso isolado. Schopenhauer fala da
beleza com um fervor melancólico, - por que em última instância? Porque ele vê nela uma ponte, sobre a qual pode-se ir mais longe ou então sobre a qual se acaba por ficar sedento de ir mais longe... Ela é para ele a redenção da vontade por alguns instantes - ela impele para uma redenção eterna... Especificamente, ele a elogia enquanto redentora do "foco da vontade", da sexualidade - na beleza, ele vê a negação da pulsão reprodutora... Um santo deveras bizarro! Alguém te contradiz, eu receio, e este alguém é a natureza. Para que há em geral a beleza no tom, na cor, no perfume, no movimento rítmico da natureza? O que faz manifestar a beleza? - Felizmente também um filósofo lhe contradiz. Nenhuma autoridade menor que a do divino Platão (- assim o chama o próprio Schopenhauer) sustém uma outra tese: a de que toda beleza estimula a reprodução - a de que este é justamente o proprium de seu efeito, do que há de mais sensível até o que há de mais espiritual..."Aos gregos não devo absolutamente nenhuma impressão intensa aparentada; e, para proferi-lo diretamente, eles não
podem ser para nós o que os romanos são. Não se aprende dos gregos - seu modo de ser é demasiado estranho, ele também é demasiado fluido para atuar imperativamente, "classicamente". Quem teria jamais aprendido a escrever junto a um grego! Quem o teria jamais aprendido sem os romanos!... Que não venham para mim com uma objeção chamada Platão. Em relação a Platão sou um cético fundamental e nunca estive em condições de concordar com a admiração do artista Platão - uma admiração que é corrente entre os eruditos. Por fim, tenho aqui do meu lado o juiz de gosto mais refinado dentre os antigos mesmos. Tal como me parece, Platão mistura confusamente todas as formas do estilo, ele é com isto o primeiro decadente do estilo: ele traz consigo marcado na sua consciência algo similar aos cínicos, que inventaram a Sátira Menipéia. Para que o diálogo platônico, esta espécie repulsivamente presunçosa e infantil de dialética, possa atuar enquanto estímulo, é preciso que nunca se tenha lido bons franceses - Fontenelle, por exemplo. Platão é entediante. - Por fim, minha desconfiança junto a Platão vai até o fundo: eu o considero tão desviado de todos os instintos fundamentais dos helenos, tão moralizado, tão pre-existentemente cristão - ele já tinha o conceito "bom" enquanto o conceito supremo -, que gostaria de utilizar em relação a todo o fenômeno Platão antes a dura expressão "o mais alto embuste", ou, se se preferir escutar, mais do que qualquer outra palavra, o mais alto Idealismo. Pagou-se caro pelo fato deste ateniense ter estudado com os egípcios (- ou com os judeus no Egito? ... ) Em meio à grande fatalidade do cristianismo, Platão é esta fascinação dúbia chamada "Ideal", que tornou possível para as naturezas nobres da antigüidade compreender mal a si mesmas e pôr os pés sobre a ponte que conduziu até a "cruz"... E o quanto de Platão há ainda no conceito "igreja", na construção, no sistema, na práxis da igreja! - Meu descanso, minha predileção, minha cura de todo platonismo sempre foi Tucídides. Tucídides, e, talvez, o Príncipe de Maquiavel são maximamente aparentados comigo mesmo através da vontade incondicionada de não se deixar engambelar e de considerar a razão na realidade - não na "razão", menos ainda na "moral"... Da lastimável utilização de tons pastéis por parte dos gregos, sob a roupagem de ideal, que o jovem "classicamente formado" carrega em meio à vida como recompensa por sua aplicação no colégio, nada cura tão fundamentalmente quanto Tucídides. É preciso virá-lo de cabeça para baixo linha por linha e decifrar tão distintamente os seus pensamentos implícitos quanto as suas palavras: existem poucos pensadores tão ricos em pensamentos implícitos. Nele a cultura dos sofistas, quer dizer, a cultura dos realistas, alcançou a sua expressão plena: este movimento inestimável em meio ao embuste moral e ideal, que irrompia por toda parte, em meio ao embuste moral e ideal da escola socrática. A filosofia grega enquanto a decadência dos instintos antigos; Tucídides enquanto a grande soma, a última revelação daquela facticidade forte, rigorosa, dura, que residia nos instintos dos antigos helenos. A coragem frente à realidade diferencia por fim tais naturezas como Tucídides e Platão: Platão é um covarde diante da realidade - conseqüentemente, ele se refugia no ideal; Tucídides tem a si mesmo sob controle, por conseguinte mantém também as coisas sob controle..." (Crepúsculo dos Ídolos - O que devo aos antigos, 2)"A “santa mentira” – comum a Confúcio, ao código de Manu, a Maomé e à Igreja cristã – não falta em Platão" (O Anticristo, 55)
"(...) - e nós, homens do conhecimento de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, também nós tiramos ainda nossa flama daquele fogo que uma fé milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina... Mas como, se precisamente isto se torna cada vez mais incrível, se nada mais se revela divino, exceto o erro, a cegueira, a mentira - se Deus mesmo se revela como nossa mais longa mentira?" (Genealogia da Moral - III, 24)
"(...) - a arte, na qual precisamente a mentira se santifica, a vontade de ilusão tem a boa consciência a seu favor, opõe-se bem mais radicalmente do que a ciência ao ideal ascético: assim percebeu o instinto de Platão, esse grande inimigo da arte, o maior que a Europa jamais produziu. Platão contra Homero: eis o verdadeiro, o inteiro antagonismo - ali, o mais voluntarioso "partidário do além", o grande caluniador da vida; aqui, o involuntário divinizador da vida, a natureza áurea. A vassalagem de um artista ao ideal ascético é, portanto, a mais clara corrupção do artista que pode haver, e infelizmente das mais corriqueiras: pois nada é mais corruptível do que um artista." (Genealogia da Moral - III, 25)
"Fui eu o primeiro
a descobrir a verdadeira antítese: o instinto degenerante que se lança contra a
vida com um recôndito desejo de vingança (o cristianismo, a filosofia de
Schopenhauer, de certo modo também a filosofia de Platão e todo o
idealismo como formas típicas) e uma fórmula de afirmação suprema, nascida da
abundância, da superabundância, uma afirmação irrestrita acerca da dor, também a
culpa, além de tudo aquilo que há de estranho e de enigmático na vida...
(...) os decadentes têm necessidade da mentira; para eles essa constitui
uma condição de vida. Quem não somente entende a significação da palavra
"dionisíaco", mas ainda encontra aí a sua própria personalidade, não tem
necessidade da confutação de Platão, do cristianismo ou de Schopenhauer:
cheirará plenamente à putrefação..." (Ecce
Homo - A origem da tragédia, 2)
"(...) Platão se serviu de Sócrates como uma semiótica. para Platão." Ecee Homo - As intempestivas, 3)
"Alfieri, como se sabe, mentiu bastante, ao narrar a história de sua vida para os assombrados contemporâneos. O que o levou a mentir foi o despotismo consigo próprio, o mesmo que demonstrou, por exemplo, na maneira como criou sua própria linguagem e tiranicamente fez de si um escritor: - ele finalmente encontrou uma severa forma de sublimidade, na qual comprimiu sua vida e sua memória: deve ter havido muito sofrimento nisso. - Eu também não daria crédito a uma vida de Platão escrita por ele próprio: não mais do que dou à de Rousseau, ou à Vita nuova, de Dante." A Gaia Ciência, 91)
"(...) todo idealismo filosófico foi, até agora, algo como uma doença, quando não foi, como no caso de Platão, a cautela de uma saúde muito rica e perigosa, o temor ante sentidos muito poderosos, a prudência de um prudente socrático. - Talvez nós, modernos, não sejamos saudáveis o bastante para necessitar do idealismo de Platão? E não tememos os sentidos porque -" (A Gaia Ciência, 372)
"Sim, acreditar que alguém possui poderes sobrenaturais é algo que eleva e entusiasma os homens: neste sentido a loucura, como diz Platão, trouxe as maiores bênçãos para os homens" (Humano, Demasiado Humano, 164)