Nietzsche X Blavatsky
Blavatsky:
Blavatsky ensina a Doutrina da Reencarnação Oriental, onde temos que retornar ao mundo devido a más ações que praticamos e que precisa serem redimidas. Assim, só viemos ao mundo, ou seja, reencarnamos porque temos que pagar algo. A vida mundana seria uma desgraça, então, já que o melhor era não mais reencarnar. Veja alguns trechos de Blavatsky em A Voz do Silêncio:
<< Esta terra, discípulo, é a sala da tristeza,
onde existem, pelo caminho das duras provações, armadilhas para prender o teu Eu
na ilusão chamada “a grande heresia”.
Esta terra, ó discípulo ignaro, não é senão a triste entrada
para aquele crepúsculo que precede o vale da verdadeira luz - essa luz que
nenhum vento pode apagar, e que arde sem óleo nem pavio.
Diz a grande Lei: “Para te tornares o conhecedor da
Personalidade Total, tens primeiro de conhecer a Personalidade”. Para chegares
ao conhecimento dessa Personalidade, tens de abandonar a personalidade à
não-personalidade, o ser ao não-ser, e poderás então repousar entre as asas da
Grande Ave. Sim, suave é o descanso entre as asas daquilo que não nasce, nem
morre, mas é o AUM através de eras eternas.
Mata o desejo; mas se o matares, cuida bem em que ele não renasça da morte.
Mata o amor da vida; mas se matares tenha, que isso não seja pela ânsia da vida eterna, mas para substituir o evanescente pelo eterno.
Abandona a tua vida, se queres viver. >>
Nietzsche:
<< Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas. Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela. O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar há muito doente - eu devo um galo a Asclépio curador". O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso demonstra? Para onde isso aponta? Outrora teria-se dito (ó! Disse-se e forte o suficiente; e avante nossos Pessimistas!): "Em todo caso é preciso que haja algo verdadeiro aqui! O consensus sapientium prova a verdade." Ainda falaremos hoje desta forma? Nós temos o direito a um tal discurso? "Em todo caso é preciso que algo esteja doente aqui" - eis a nossa resposta. Em primeiro lugar temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos! Todos eles talvez não estivessem tão firmes sobre as pernas? Talvez estivessem atrasados? Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria apresente-se sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?...
Os instintos precisam ser combatidos - esta é a fórmula da décadence. Enquanto a vida está em ascensão, a felicidade é igual aos instintos.
Todos os antigos monstros da moral são unânimes quanto a isso: "il faut tuer les passions" (é preciso destruir as paixões). A formulação mais famosa desta sentença encontra-se no Novo Testamento, naquele Sermão da Montanha, no qual, dito de passagem, as coisas não foram consideradas de modo algum desde o alto. Aí mesmo, por exemplo, diz-se com respeito à sexualidade: "Se teu olho te escandaliza, arranca-o fora". Por sorte nenhum cristão age segundo este preceito. Aniquilar os sofrimentos e os desejos, apenas para evitar sua estupidez e as conseqüências desagradáveis de sua estupidez, se nos apresenta hoje como sendo mesmo apenas uma forma aguda desta última. Não passamos a admirar mais os dentistas que arrancam os nossos dentes, para que eles não doam mais...
Não são os impotentes, nem tampouco os ascetas, que lançam o que há de mais venenoso contra os sentidos, mas os ascetas impossíveis, aqueles que teriam tido necessidade de ser ascetas...
A moral, tal como foi entendida até aqui - como por fim foi ainda formulada por Schopenhauer, como "negação da vontade de vida" -, é o próprio instinto da décadence que se transforma em imperativo. Ela diz: "Pereça!" ela é o juízo dos que foram condenados...
Conhece-se minha exigência de que os
filósofos se coloquem para além do Bem e do Mal, - de que eles tenham abaixo de
si a ilusão do juízo moral. Esta exigência deriva-se de uma intelecção que foi
formulada pela primeira vez por mim: a intelecção de que não há absolutamente
nenhum fato moral. O juízo moral possui em comum com o juízo religioso a crença
em realidades que não são de modo algum realidades. A moral é apenas uma exegese
de certos fenômenos; falando mais determinadamente, ela é uma exegese
equivocada. O juízo moral pertence, tanto quanto o religioso, a um grau de
insciência, no qual falta até mesmo o conceito do real, a diferenciação entre o
real e o imaginário: de maneira que, em um tal grau, a "verdade" não faz senão
designar as coisas que hoje chamamos "construções imaginárias". A esse respeito,
o juízo moral nunca pode ser tomado ao pé da letra: ele nunca encerra enquanto
tal mais do que um absurdo. Mas ele permanece inestimável enquanto Semiótica: ao
menos para os que sabem ele revela as realidades mais preciosas das culturas e
das interioridades, que não sabiam o bastante de si para "entenderem" a si
mesmas. A moral é meramente um discurso de signos,
meramente sintomatologia: é preciso já saber do que se trata para tirar dela
algum proveito.
De maneira totalmente provisória, eis um primeiro exemplo! Em
todos os tempos quis-se "melhorar" os homens: este anseio antes de tudo
chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra escondem-se todas as tendências mais
diversas. Tanto a domesticação da besta humana quanto a criação de um
determinado gênero de homem foi chamada "melhoramento": somente estes termos
zoológicos expressam realidades. Realidades das quais com certeza o sacerdote, o
típico "melhorador", nada sabe - nada quer saber... Chamar a domesticação de um
animal seu "melhoramento" soa, para nós, quase como uma piada. Quem sabe o que
acontece nos amestramentos em geral duvida de que a besta seja aí mesmo
"melhorada". Ela é enfraquecida, tornam-na menos nociva, ela se transforma em
uma besta doentia através do afeto depressivo do medo, através do sofrimento,
através das chagas, através da fome. - Com os homens domesticados que os
sacerdotes "melhoram" não se passa nada de diferente. Na baixa Idade Média, onde
de fato a igreja era antes de tudo um amestramento, caçava-se por toda parte os
mais belos exemplares das "bestas louras". "Melhoravam-se", por exemplo, os
nobres alemães. Mas com o que se parecia em seguida um tal alemão "melhorado",
seduzido para o interior do claustro? Com uma caricatura do homem, com um
aborto. Ele tinha se tornado um "pecador", ele estava em uma jaula, tinham-no
encarcerado entre puros conceitos apavorantes... Aí jazia ele, doente,
miserável, malévolo para consigo mesmo; cheio de ódio contra os impulsos à vida,
cheio de suspeita contra tudo que ainda era forte e venturoso. Resumindo, um
"Cristão"... Fisiologicamente falando: o único meio de
enfraquecer a besta em meio à luta contra ela pode ser adoecê-la. A igreja
compreendeu isso: ela perverteu o homem, ela o tornou fraco, mas pretendeu tê-lo
"melhorado"...
Todos os meios, através dos quais até aqui a humanidade deveria se tornar moral, foram fundamentalmente imorais.
Critica da Moral da Decadência. - Uma moral "altruística", uma moral junto à qual o egoísmo definha -, permanece em toda e qualquer circunstância um mau sinal. Isto vale para o indivíduo, isto vale especialmente para os povos. Falta a melhor parte, quando começa a faltar o egoísmo. Escolher instintivamente o nocivo para si, ser atiçado por motivos "desinteressados" nos fornece quase uma fórmula para a decadência. "Não buscar o que é útil para si" - este é apenas o artifício moral covarde para uma fatualidade fisiológica totalmente diversa: "eu não sei mais encontrar o que é útil para mim"... Desagregação dos instintos! Não se pode mais esperar nada de um homem que se torna altruísta. - Ao invés de dizer ingenuamente "eu não valho mais para nada", a mentira moral diz na boca dos decadentes: "Nada vale alguma coisa - a vida não vale nada"... Um tal juízo permanece por fim um grande perigo, ele age de modo contagioso ele se eleva pululante por sobre todo o solo mórbido da sociedade; ora como uma vegetação tropical de conceitos, ora como religião (cristianismo), ora como filosofia (schopenhauerianismo). Uma tal vegetação de uma árvore venenosa, crescida a partir da degeneração, envenena, por milênios sob certas condições, com sua fragrância, a vida...
Moral sempre foi um leito de Procrustro.
É decisivo quanto ao destino do povo e da humanidade, que se comece a cultura a partir do lugar correto - não a partir da "alma" (como era a superstição fatídica dos sacerdotes e semisacerdotes): o lugar correto é o corpo, os gestos, a dieta, a fisiologia, o resto segue daí... Os gregos permanecem por isto o primeiro acontecimento cultural da história - eles sabiam, eles faziam o que era necessário; o cristianismo, que desprezava o corpo, foi até aqui a maior desgraça da humanidade.
Liberdade significa: os instintos viris, alegres na guerra e na vitória se apoderaram dos outros instintos - por exemplo, o instinto de "felicidade". O homem que se tornou livre, e muito mais ainda o espírito que se tornou livre pisa sobre o modo de ser desprezível do bem-estar, com o qual sonham o comerciante, o cristão, a vaca, a mulher, o inglês e outros democratas. O homem livre é guerreiro. - A partir de que critério se mensura a liberdade dos indivíduos, assim como dos povos? A partir da resistência que precisa ser superada, a partir do esforço que custa para permanecer em cima.
Não conheço nenhuma simbologia mais elevada do que a simbologia grega, a simbologia das dionisíacas. Nela o instinto mais profundo da vida, o instinto de futuro da vida, de eternidade da vida, é sentido religiosamente - o caminho mesmo até a vida, a procriação, enquanto o caminho sagrado... >> (Crepúsculo dos Ídolos)
<< Não existem fenômenos morais; apenas interpretação moral dos fenômenos. >> (Para além do bem e do mal, 108)
Blavatsky:
Blavatsky também ensina a doutrina do Karma Oriental, uma lei de ação e reação moral, onde todos estão sujeitos a colherem os frutos das suas ações. Assim, se um sujeito faz ações más irá receber esse mal ou outro(s) de mesmo grau, no sentido de liquidar a divida. E a felicidade dependerá de ações boas. Ações más resultarão em infelicidade.
Nietzsche:
A fórmula mais
universal, que se encontra na base de toda e qualquer religião, assim como de
toda e qualquer moral, é: "Faze isso e isso, deixa isso e isso! Assim, tu te
tornarás feliz!" No outro caso... "Toda moral, bem como toda religião resume-se
a esse imperativo: eu o denomino o pecado hereditário da razão, a irrazão
imortal. Em minha boca, esta fórmula metamorfoseia-se em seu inverso. - Primeiro
exemplo de minha "transvaloração de todos os valores": um homem bem constituído,
um homem "feliz", precisa empreender certas ações e fugir instintivamente de
outras, Ele insere em suas relações com os homens e as coisas a ordem que
apresenta fisiologicamente. Para exprimir através de uma fórmula: sua virtude é
a conseqüência de sua felicidade... Uma vida longa, uma rica prole não são a
paga pela virtude. Ao contrário, a própria virtude repousa sobre aquele
retardamento do metabolismo que, entre outras coisas, tem por conseqüência uma
vida longa, uma rica prole, ou, resumindo, o cornarismo. - A igreja e a moral
dizem: "O vício e o luxo levam um povo ou uma raça à aniquilação".
Minha razão reconstituída diz: se um povo perece e vai ao fundo, se ele se
degenera fisiologicamente, então seguem daí o luxo e o vício (isto é, a
necessidade de estímulos cada vez mais intensos e cada vez mais freqüentes, tal
como os conhece toda e qualquer natureza extenuada). Este homem jovem empalidece
e murcha precocemente. Seus amigos dizem: tal ou tal doença é a causa. Eu digo:
o fato de ele ter adoecido, o fato de ele não ter se oposto à doença, foi
justamente o efeito de uma vida empobrecida, de uma extenuação hereditária. O
leitor de jornais diz: este partido está a caminho de dissolver-se com um tal
erro. Minha política mais elevada diz: um partido que comete tais erros está no
fim - ele não possui mais sua segurança instintiva. Todo e qualquer erro, de
toda e qualquer espécie, é a conseqüência de uma degradação do instinto, da
desagregação da vontade: quase se define com isso o que é ruim. Tudo o que é bom
é instintivo. - E, conseqüentemente, leve, necessário, livre. A fadiga é uma
objeção, Deus é tipicamente diferente dos heróis (em minha linguagem: os pés
leves são o primeiro atributo da divindade). (Crepúsculo dos Ídolos - Os
Quatro Grande Erros, II)