Os Melhoradores da Humanidade
""Apresentarei um exemplo. Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor, isto é o que chamamos de moral. Porém sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes. A domesticação do animal humano e a criação duma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, a sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito. Chamar melhoramento à domesticação dum animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Quem sabe o que sucede em zoologia? Contudo, duvido muito que o animal acabe melhorando. É debilitado, é feito menos perigoso; com o sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo. O mesmo sucede ao homem domesticado, a quem o sacerdote tornou melhor. Nos primeiros tempos da Idade Média, quando a Igreja era acima de tudo uma casa de feras, combinavam-se com freqüência os belos exemplos do animal louro, melhorava-se, por exemplo, os nobres germanos. E a que ficava reduzido depois disso um daqueles germanos a quem se teria feito melhor introduzindo-se num convento? A uma caricatura de homem, a um aborto; dele era feito um pecador, estava enjaulado, fora encerrado no meio de idéias espantosas. Doente e miserável aborrecia-se a si mesmo, estava repleto de ódio contra os instintos da vida, repleto de desconfiança em relação a tudo que permanecia sendo forte e feliz. Em uma palavra: era cristão. Em termos fisiológicos, na luta contra o animal torná-lo doente é talvez o único meio de enfraquecê-lo. A igreja compreendeu isso perfeitamente: corrompeu o homem, tornou-se débil e reivindica o mérito de tê-lo tornado melhor.""
Fonte: Crepúsculo dos Ídolos