Grandes Intelectos são Céticos
""Não nos enganemos: grandes intelectos são céticos. Zaratustra é um cético. A
força e a liberdade que surgem do vigor e da plenitude intelectual se manifestam
através do ceticismo. Homens de convicção estática não são levados em
consideração quando se pretende determinar o que é fundamental em matéria de
valor e desvalor. Homens de convicção são prisioneiros. Não vêem longe o
bastante, não vêem abaixo de si: para um homem poder falar de valor e desvalor é
necessário que veja quinhentas convicções abaixo de si – atrás de si... Uma
mente que aspira a algo grande, e que também deseja os meios para isso, é
necessariamente cética. A liberdade de qualquer tipo de convicção constitui
parte da força, da capacidade de possuir um ponto de vista independente... A
grande paixão do cético, o fundamento e a potência do seu ser, é mais
esclarecida e mais despótica que ele próprio, coloca toda sua inteligência a seu
serviço; lhe torna inescrupuloso; lhe concede a coragem para empregar até meios
ímpios; sob certas circunstâncias, lhe permite convicções. A convicção enquanto
um meio: muito só pode ser alcançado por meio de uma convicção. A grande paixão
usa, consome convicções, mas não se submete a elas – sabe-se a soberana. – Pelo
contrário, a necessidade de fé, de uma coisa não subordinada ao sim e não, de
carlylismo, se me permitem a expressão, é a necessidade da fraqueza. O homem de
fé, o “crente” de toda espécie, é necessariamente dependente – tal homem é
incapaz de colocar-se a si mesmo como objetivo, e tampouco é capaz determinar
ele próprio seus objetivos. O “crente” não se pertence; apenas pode ser o meio
para um fim; precisa ser consumido; precisa de alguém que o consuma. Seus
instintos atribuem suprema honra à moral da despersonalização; tudo o persuade a
abraçar essa moral: sua prudência, sua experiência, sua vaidade. Todo tipo de fé
é em si mesma a expressão de uma despersonalização, de um alheamento de si...
Após se ponderar sobre quão necessários à maioria são os regulamentos
restringentes; sobre quão necessária é a opressão, ou, em um sentido mais
elevado, a escravidão, para possibilitar o bem-estar ao homem de vontade fraca,
e especialmente à mulher, então finalmente se compreende o significado da
convicção e da “fé”. Para o homem de convicção a fé representa sua espinha
dorsal. Deixar de ver muitas coisas, não possuir imparcialidade alguma, ser
sempre de um partido, estimar todos os valores com uma ótica severa e infalível
– essas são as condições necessárias à existência desse tipo de homem. Mas isso
faz deles antagonistas do homem veraz – da verdade... O crente não é livre pra
responder à questão do “verdadeiro” e do “falso”; segundo os ditames de sua
consciência: a integridade, neste ponto, seria sua própria ruína. A limitação
patológica de sua ótica faz do homem convicto um fanático – Savonarola, Lutero,
Rousseau, Robespierre, Saint-Simon – o tipo desses encontra-se em oposição ao
espírito forte, emancipado. Mas as grandiosas atitudes desses intelectos
doentes, desses epiléticos das idéias, exercem influência sobre as grandes
massas – os fanáticos são pitorescos, e a humanidade prefere observar poses a
ouvir razões...""
Fonte: O Anticristo