RESPOSTA A UM CERTO dEUS

por Ricardo Medeiros

Caro dEUS,

Recebi e li com atenção sua carta a mim endereçada. Confesso que você conseguiu mostrar possuir uma boa argumentação para suas idéias. Lembra coisa dos sofistas da antigüidade. Aqueles que tentavam por meio da palavra e da persuasão convencer a qualquer um qualquer ponto de vista que quisesse, mesmo se não concordasse com ele. É o velho problema da Verdade, meu caro dEUS; daquela verdade da qual ninguém é dono.

Não responderei a suas perguntas, pois, se assim o fizesse, estaria apenas tentando dar respostas ao seu problema particular, o que parece não ser do interesse de mais ninguém. Perdoe-me se estou sendo um tanto rude.

Está claro que você realmente não tem nada de perfeito, para não dizer de divino. Óbvio que homens criaram a imagem que você pôs na sua carta. E como poderia ser diferente? É "imagem e semelhança" dos homens e não de um Deus. E você é homem, não Deus (não entrarei no mérito da falsidade ideológica aí caracterizada). É animal com algumas características ditas superiores que o diferencia dos outros animais. Nessa condição, seria uma grande falta de modéstia (ou prepotência) arvorar-se a falar do divino, do transcendental. Esqueceu que o melhor meio de expressão de que você dispõe é a linguagem. E essa, senhor dEUS, é muito, muito pobre. Nem mesmo as sensações mais simples podem ser definidas de forma inquestionável, não acha? O que é o branco para você? Com certeza não é a mesma coisa que um esquimó do Alasca vê de trinta diferentes formas. E o frio e o calor? Você já deve ter sentido um deles enquanto o outro ao seu lado sentia o oposto, não? É, meu caro dEUS, em nosso estágio atual da evolução, nossa linguagem é basicamente aquela expressa por tacanhas combinações de letras: a palavra. E já se disse que palavra só pode exprimir palavra. Não vai além disso. Seria prepotência muito grande achar que poderia explicar ou mesmo conceber a existência de uma divindade com o simples vocabulário de que dispomos. Até na mitologia antiga os deuses para aparecerem para um humano eram obrigados a despir-se de suas vestes celestiais.

No entanto, infelizmente o resto da população mundial não tem seu QI ou o seu grau de discernimento; não teve acesso aos meios para conseguir uma educação como a sua. Há pessoas que simplesmente vêem como única verdade a existência física de Adão, Eva, da serpente e da maçã. Há pessoas até que precisam dessa representação para poder se sustentar. Aqui entre nós: estariam elas erradas em acreditar nessa verdade, mesmo que não tivesse ocorrido exatamente da maneira como pensam? A própria ciência (não é também ela uma religião?) tem coisas estranhas e difíceis de entender. A noção de infinito, por exemplo, não é fácil de ser digerida por qualquer um. Aliás, causou-me até uma certa decepção você não conseguir ir muito longe nesse sentido. Você usa de um ardiloso artifício ao dizer que é "difícil conceber a existência eterna". Uma tentativa de fechar a questão de forma elegante. Como difícil?! Eterno é eterno, sem fim, infinito, inalcansável, intangível. Deve ser mesmo difícil para qualquer mortal como nós dois. Já lhe ocorreu que se o tempo infinito realmente existe, todas as combinações de átomos, energias, fenômenos e leis obrigatoriamente já teriam ocorrido antes? Infinitas vezes? É isso mesmo: você já foi você igualzinho a hoje, e também um pouquinho diferente, e muito diferente, etc., etc., etc... infinitas vezes! Não fique chocado. É só lei da probabilidade. Absurda? Pode ser. Não creio também ser fácil conceber como a luz pode ser ora onda, ora partícula, conforme a hipótese quântica de Planck e o princípio da incerteza de Heisenberg. E isso é ciência pura!

A suposta origem do mundo do nada também seria inconcebível para algumas mentes. Se o mundo teve um princípio, o que havia antes? Ou simplesmente o antes não existia, pois não existia o tempo? Como é não existir o tempo? Complicado, não? Chegamos a um ponto no qual ficamos com duas possibilidades para resolver o problema do início do mundo. Ou ele é eterno, o que você vê dificuldade em conceber, ou ele teve um princípio e você certamente terá a mesma dificuldade em conceber aquele não-tempo.

Para tentar impingir falhas no Criador, você passeia nos defeitos que encontra na Criatura. Por que apontar para todos os defeitos da humanidade, como se nós homens tivéssemos a obrigação de sermos perfeitos? Acaso está escrito em algum livro sagrado que a Terra e o céu são a mesma coisa? Não. Definitivamente não moramos no céu, caro dEUS!

Percebe-se que você está angustiado com as perguntas sobre o "porquê de tudo" que está a nossa volta. Não é defeito seu. Pelo contrário, é uma virtude e um ato de coragem levantar essas questões. Mas não espere conseguir respostas fáceis. Temos alguns milhares de anos de história atrás de nós, com muitas cabeças pensando e questionando o mesmo que você – e olhe que teve gente muito boa nesse ínterim. Não parece que ninguém ainda tenha chegado a uma conclusão límpida e irrefutável. Há muitas verdades dentro de cada um de nós. Não creio que a minha seja melhor ou pior que a sua. Você também não deveria achar. Ambos temos, pelo menos em certos pontos, total convicção do que achamos. E o grau de convicção que temos, mesmo que para conceitos opostos, é exatamente igual tanto para você como para mim. São nossas verdades.

Talvez concordemos em alguns pontos, quando, por exemplo, você coloca a dificuldade de aceitar atributos humanos no Deus do Universo. O caráter antropomórfico de um Deus não combina com o que esperaríamos d’Ele, não é mesmo? Um Deus que fez o mundo, mas não foi forte suficiente para impedir o surgimento e perpetuação do inferno e do satanás; que ama, mas odeia; que tudo pode, mas permite que coisas más aconteçam; que gosta de ser adorado; que contabiliza os pecados humanos para decidir quem terá a glória de sua companhia eterna. Tudo isso também não consigo aceitar. Mas outras formas há de se conceber um Deus, como por exemplo, o Deus que é Tudo, como assim o dizem os panteístas, ou o Deus que não é nada que possamos definir ou conceber, como tenta explicar a teoria da teologia negativa ("aquele que está além de qualquer essência e qualquer saber"). Não digo que estas concepções estejam isentas de questionamentos. Mas, pelo menos elas excluem o lado humano – e falho – do Deus de todas as coisas. Concordo também quando diz que o homem criou um deus à sua imagem. Vou mais além: o homem não criou um, mas vários deuses para si. É só olhar em volta e ver quantas religiões, crenças e doutrinas espalhadas por aí, cada uma com uma divindade "legítima" para se acreditar. Mas, como você mesmo deve concordar comigo, é o homem que está fazendo essas criações. É o máximo que ele pode fazer. Misturou uma quantidade enorme de ingredientes em um só caldeirão. Quem sabe, inconscientemente, no meio de todos esses ingredientes esteja uma pequena parte do verdadeiro Deus que tanto se busca.

Desculpe ter interceptado sua carta, caro dEUS. Na verdade, não sou o teólogo a quem você endereçava. E que mal há nisso? Você também não é DEUS.


Contribuição de Ricardo Medeiros

HOME | LINKS | FRAGMENTOS | PENSADORES | TRABALHOS

Hosted by www.Geocities.ws

1