E por falar em amizade
* Por Rosângela Trajano
Sobre as pedras banhadas pelos pingos das chuvas deslizamos nossos pés calejados da boa terra. Tudo está vivo. São as pedras amigas da vida em verdades ou mentiras escondidas embaixo de panos sujos. O corpo, na sua forma perfeita é belo, e a alma não chora de inveja, mas grita porque é a essência. Corre em minhas mãos o desejo de sentir outros dedos tocarem os meus, incendeia-se em mim o desejo de um carinho; dança em valsa a dor da solidão, mas busco o mistério das luzes que se escondem no baile para me acolher ao espetáculo.
Plantei sementes da amizade nos canteiros da minha cidade. Alguns pisaram nas mudas, outros tiveram o cuidado de não machucá-las e ainda tiveram aqueles que mais me surpreenderam: os que conversaram com as mesmas. Ah! Quão belas são as verdadeiras amizades! Trago em meu peito saudades dos amigos do passado, ao mesmo tempo deleito-me com os de hoje. Nos mais belos laços de amizade surgem os dissabores do sentimento, aquém a isso encontra-se o limiar de novos fragmentos do dar e receber. Amigos não têm sexo, não se embriagam de morais e princípios, não se torturam com calúnias infâmias; Vi muitos canteiros lindos arrodeados de grades de ferro é como vejo os amigos que têm medo do nada e assim, deixarem de ter amigos porque não sabem ser amigos de si mesmos.
Guardo forças febris em meus lábios para beijar aqueles que desejem. A amizade bateu à minha porta ontem a noite, caía um temporal, e ela precisava de abrigo. Dormimos juntas, e nem por isso deixei de ser mulher. É preciso saber dormir. Nas curvas do destino debati-me com a solidão, momento em que temi estar viva. Caio em buracos negros, mas há uma amizade sem normas que sempre vai me salvar. Sou amiga da realidade, do todo em sua unidade. Entre alegrias e tristezas, um sonho desfeito ou não, adormeço meu corpo num ombro imaginário.
Fazer amigos é saber dividir a alma e o corpo. Emprestei a estas palavras que ora escrevo um tempo precioso, de alguma forma tornamo-nos amigas. E se um dia elas precisarem de mim, novamente estarei aqui. Canto o mais belo dos cânticos, aplaudo de pé esse sentimento que dá forças ao homem: a amizade. Nos passos da minha vida estão marcados a presença de um amigo que presenciou meu frio e calor. Uma ave veio cantar à minha janela nesta manhã de outono, dei-lhe comida e pedi-lhe para ficar mais um pouco. O livro à cabeceira da minha cama não canta como aquela ave. Ainda que durante pouco tempo o nosso laço afetivo tenha ficado firme... depois a ave voou. Esse vôo da liberdade que só os amantes da amizade conseguem alcançar seja nos sonhos ou na realidade.
* Rosângela Trajano, é poeta e escritora. Autora do Livro Carrossel de Poesias (Literatura Infantil).
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