| Totem Quebrado | ||||||||
1 Inicio neste momento o relato de uma ou mais semanas, vividas por mim, de uma loucura intensa. Acredito j� ter for�as suficientes para conseguir este intento, apesar de encontrar-me ainda em estado de recupera��o. Foram momentos terr�veis, dos quais acredito, jamais esquecerei. Conto aqui, dentro da minha �tica os fatos ocorridos; �tica esta que pretende hoje, ap�s duas semanas �desvendar� de uma forma retil�nea, esses momentos de loucura, de confus�o mental intensa; momentos de grande sofrimento e prazer. Momentos t�o loucos, t�o irreais e ao mesmo tempo t�o sinistros, s�rios e reais. Como relatar a minha sonol�ncia de vida onde minha consci�ncia desviou-se do seu meio fio caindo nas profundezas daquele mar de id�ias t�o pr�ximas da desventura do ser doente, por�m meu eu sustentado pela f� e pelo meu amor a vida deu-me for�as, mesmo surgindo apenas em momentos de crucial perigo, para sustentar-me nas profundezas, sabendo que l� era um habitat provis�rio, passageiro do meu ser desagregado e mais que isso, soube sempre, desde quando me sintonizei com o grave problema de eu ter perdido o meu eu. Pelo menos aquele conhecido por mim, que a minha vida dali por diante, se eu conseguisse sair do ponto onde eu me encontrava para o meu verdadeiro eu, renovado pelos novos acontecimentos, seria outro, muito diferente do anterior, bem mais cheio de responsabilidades porque eu estava aprendendo muito; algo talvez que somente eu mesma pudesse relatar, porque minha preocupa��o com a verdade do ser humano sempre foi posta entre as maiores da minha vida, levando dessa maneira toda ela direcionada aos meus estudos; deixando minha vida conjugal ou meus casos amorosos em primeiro plano somente enquanto nutria meu eu, com a viv�ncia do amor enquanto tal, seguindo em regra a filosofia de que seja eterno enquanto dure; j� meus filhos n�o, esses sempre foram para mim minha grande responsabilidade, mais inclusive que os estudos, por�m acabo hoje acreditando que eu poderia ter feito mais por eles... A educa��o como base para uma vida digna e verdadeira sempre foi minha grande meta a alcan�ar...Na verdade essa � uma verdade da qual acredito ainda mais hoje, a cada dia ela se torna mais consciente, o que realmente procuro � a educa��o mais apropriada para eleva��o da alma humana, onde o ser conhecedor de si seja algu�m realizado e dono da sua pr�pria vida que � de outros tamb�m; aquela educa��o onde o polimento seja extremo a ponto de n�o s� eu amar o outro tanto quanto a mim mesmo, mas amar-me com educa��o e respeito assim respeitando o outro sempre...A dificuldade do polimento dentro de uma cultura onde o primitivo n�o s� � ex�tico esteticamente, mas � vivido como formas de vida cabendo em si a viol�ncia como beleza e forma de express�o vi�vel a uma civiliza��o como a nossa. Deus que me perdoe, mas no meu entender isso � pura decad�ncia da alma; minha ira � tanta quando, por exemplo, leio um jornal que minha vontade perde as estribeiras do polimento e torno-me cheia de indigna��o afetada pelo pr�prio veneno daquilo que gera a cultura dos desafortunados, ent�o acabo por ser tamb�m uma desafortunada igual, por osmose, dentro de uma maldi��o imposta. Hoje sei que ningu�m consegue fugir a regra, depois dos momentos de loucura que passei perto dos meus entes mais queridos, daqueles que eu mais confiava; sei sim, que eles assim como eu s�o frutos dessa sociedade t�o primitiva em que o conceito de igualdade tamb�m � tiranicamente imposto como sendo verdadeiro as almas mais nobres; penso tamb�m que a maioria forma o consenso que � a adequa��o exata da moral de determinado povo vivida para a sua pr�pria evolu��o. Qual do mais primitivo homem cujos v�cios fossem demasiadamente grandes gostaria que algu�m fosse melhor que ele pr�prio?Sua for�a da inveja e do ci�me, entretanto � maior que a do homem realizado e feliz que por sua vez n�o possui tantos v�cios; com certeza nessa briga quem vai ganhar vai ser a inveja assim como todos os v�cios morais; est� bem que no fim da hist�ria quem ganha � sempre o virtuoso...Mas �s vezes a hist�ria demora pra acabar, ent�o nesse processo de desenvolvimento dessa hist�ria o virtuoso aprende que a igualdade em nossa sociedade � um fato e se iguala ou se submete ao homem invejoso, cheio de for�a venenosa e m� �ndole. O que voc� acha? Pense nisso, ser� poss�vel sermos felizes perto de gente invejosa...Acho que n�o, na verdade nem longe, porque os pensamentos dos invejosos perseguem sempre a fim de evolu�rem, de receberem as d�divas do mais virtuoso e por isso justamente s�o mais fortes no momento da �guerra� por que almejam o ouro que � a virtude do virtuoso, ao contr�rio do virtuoso, que quer fugir do ser invejoso, a fim de n�o sofrer o mart�rio da inveja do outro ser que se diz seu igual ou superior, porque a evolu��o do invejoso dentro dele diz que deve ser assim; ent�o assim caminha a humanidade...Tudo isso pra dizer que a aprendizagem que eu tive nesses fat�dicos dias com meus familiares tenha sido talvez a que mais realizei na minha vida, porque atrav�s deles pude sentir mais de perto o ser humano; por isso agrade�o por ter recebido de volta minha vida e poder hoje novamente simplesmente ser. 2 Havia seis meses que eu dera a luz a uma linda menina chamada Eva; minha vida desde que engravidei foi direcionada a este fruto que guardava em minhas entranhas. Passei por momentos de intensa solid�o, aprendi a viver s�, eu e ela, que na verdade �ramos uma; Eva nasceu e eu me apeguei a ela com todas as for�as do meu amor. Pouco sa�amos de casa, a n�o ser para irmos ao pediatra ou passearmos no quarteir�o de casa. Meus filhos mais velhos tratavam-na com muito carinho e a nova empregada tamb�m. Eu, entretanto tentava evitar que Eva fosse o centro das aten��es, dirigia ent�o a todos o mesmo amor que era dirigido a ela, uma afei��o �mpar, assim sentia-me bem, confort�vel, feliz; evitava, por�m pessoas que de alguma maneira modificassem este meu estado de aten��o e afeto. Houve alguns momentos durante esse per�odo, em que senti uma certa falta de equil�brio, em que aquela felicidade t�o grande era afetada por algo que vinha do exterior e que eu tentava, mas n�o sabia evitar, minha testa turvava, meu peito do�a profundamente e eu n�o podia suportar. Recorri ent�o aos exerc�cios de psicodrama que havia aprendido nas se��es abertas de psicodrama que freq�entei durante a gravidez: trancava-me no quarto ou no banheiro e gritava toda minha dor at� expurg�-la de meu peito, ou ent�o cantava bem alto uma m�sica qualquer, tentava drenar assim minha dor que era um �dio de nada, um �dio sentido, simplesmente sentido. Voltei a freq�entar o terapeuta que visitei at� o quinto ou sexto m�s de gravidez e voltei tamb�m a ter uma certa paz, transcendia as dores de alguma forma, podia perceber de maneira ainda t�nue de onde vinham �aquelas energias" fortes e nocivas. Assim come�ava a entender aqueles sentimentos que chegavam fora de hora e me deixavam num estado de dor e �dio. No entanto minha vida parecia correr bem, eu estava feliz por Eva e n�o deixava que nada de ruim pudesse mudar aquele meu estado amoroso d'alma, apesar dos problemas que surgiam e da necessidade dos exerc�cios de psicodrama. Fui tamb�m demitida da faculdade que lecionava por problemas de ordem pol�tica; eu estava voltando da licen�a por causa da gravidez e os alunos estavam em greve por causa da demiss�o em massa dos professores de humanas, eu por minha vez era tamb�m professora de humanas, dava aulas de filosofia, mas somente acompanhei o caso durante as aulas que eu ministrava aos alunos que furavam a greve e iam as aulas assim como eu. Eles me contaram que os professores da �rea de humanas foram os fundadores do centro acad�mico, que haviam lutado por isso durante o meu per�odo de licen�a e quando finalmente conseguiram foram demitidos deixando os cargos do rec�m formado centro aos professores de biom�dicas que tinham ideologias opostas. Acredito que eu tenha sido demitida tamb�m porque eu como professora de filosofia analisava e argumentava muito sobre a situa��o da greve e provavelmente algu�m viu segundas inten��es nas minhas observa��es e me dedurou; fui tamb�m demitida. Nessa mesma �poca capotei o carro que havia ganhado de meu pai e que n�o possu�a seguro. Foi assim: eu, meu irm�o e ex-cunhada fomos pegos de surpresa por uma Kombi quando eu no volante estacionava o carro para entreg�-lo a meu irm�o que parecia tenso; eu n�o sabia se pelo modo como eu guiava ou por motivos pessoais relacionados � situa��o com sua ex-mulher que se encontrava no banco detr�s; eu havia prometido para mim mesma que n�o entregaria mais o volante para ele, que eu mesma iria guiar o meu carro, eu havia acabado de tir�-lo do mec�nico, mas percebi que esta minha decis�o naquele momento talvez n�o fosse a ideal �um clima no ar t�o desagrad�vel�.De in�cio achei que uma boa m�sica poderia melhorar o astral, mas o clima tenso superava a musica, ent�o para amenizar aquela situa��o resolvi n�o levar adiante minha promessa e perguntei a meu irm�o se ele preferia guiar, ele me disse que sim e quando eu tentava estacionar no acostamento que se encontrava entre as duas pistas de m�os contr�rias, quando tentava cruzar por isso da direita para esquerda indo ao acostamento fui pega de surpresa pela Kombi branca que surgiu sem que eu a visse, de repente, num piscar de olhos nos batendo em cheio; a Bras�lia rec�m sa�da do mec�nico deu tr�s cambalhotas, das quais contei uma por uma acreditando que poderia me machucar feio ou at� mesmo morrer; mas Gra�as a Deus nada aconteceu de grave, somente meu irm�o se machucou na testa, com um pequeno corte; mas tive perda total do pequeno carro velho, n�o sobrou nada da t�o querida Bras�lia. Fiquei desse modo a p� e desempregada e agradeci muito a Deus por Eva n�o estar conosco sen�o seria com certeza fatal para ela. Em estado de recupera��o do parto, cuidava do meu corpo fazendo gin�stica; j� come�ava a sentir falta dos amigos, de viver novamente uma vida normal. Os problemas aos poucos se resolveriam, pensava feliz... Nem mesmo o fato de Marco, pai de Eva, n�o t�-la ainda registrado me abalava, neste momento de minha vida, no �ntimo sabia que tudo correria bem, que logo o pai apareceria para registr�-la. Algo, por�m come�ava a me preocupar; minha fam�lia, meus pais e irm�os passaram a questionar minha situa��o, pareciam n�o estar mais me entendendo, eu tentava faz�-los perceber que tudo estava bem, que tudo iria se arranjar, mas n�o adiantava, havia muitos sen�es e na verdade eles pareciam n�o estar aceitando algo que eu n�o sabia exatamente o que era, n�o me tratavam mais como antes e eu preferia n�o me dar conta, que algo terr�vel estava realmente prestes a acontecer e que na verdade j� estava acontecendo.De in�cio pensei que eles estavam preocupados com minha situa��o financeira, mas eu n�o dependia financeiramente deles a n�o ser do im�vel que eu morava; apesar de ter perdido o emprego eu ainda recebia pens�o do meu ex-marido, pai dos meus filhos mais velhos e tamb�m estava por receber a bolsa da p�s-gradua��o que eu pretendia dar continuidade aquele mesmo ano, fora a pens�o do pai de Eva que logo eu haveria de receber tamb�m pois ele havia me prometido antes mesmo dela nascer. Sabia desde j�, no meu �ntimo que eu os estava perdendo, mas por acreditar fortemente em meu cora��o sabia tamb�m que meus passos eram certos e que eu deveria naquele momento deixar tudo nas m�os de Deus que para mim estava instalado confortavelmente no meu ser feliz. Nada poderia tirar, pensava eu...Aquele transbordante estado d�alma cheio de plenitude e paz que me assolava; nada, nem mesmo aquelas dores insuport�veis que por vezes me afligiam. 3 �s v�speras de Natal viajamos para o litoral eu e meus filhos a S�o Crist�v�o na casa de meus pais, a fim de encontrar-nos com toda fam�lia. Foi l� que gradativamente fui tornando-me uma louca mesmo, quase que assassina. Ao chegarmos um ambiente t�o natural: muitas �rvores, um c�u maravilhoso; o mar pequeno limitado de um lado por uma ilha e do outro por uma praia de areia branca e fofa. As ruas sem asfalto do pequeno local remetiam-me a um tempo primitivo e distante; um ambiente rodeado de montanhas altas e verdejantes que contrastavam em vista a um c�u de intenso azul. As cigarras e os morcegos noturnos livres para cantarem e voarem respectivamente, tudo isso trazia � tona uma atmosfera m�stica quase irreal. O bairro de S�o Crist�v�o, onde meus pais moravam chamado Praia dos Sete la�os enfeiti�ava-me fazendo com que meu amor por Eva transbordasse. Sentia que meu cora��o vibrava de encantamento, e l� na casa de meus pais sentindo-me � vontade n�o escondi meu estado d'alma, ao contr�rio pensei de in�cio que eles poderiam compartilhar comigo deste sentimento pleno que me evadia... Meus pais compraram essa casa quando a filha primog�nita separou-se, a fim de distra�rem essa irm� e seus filhos. Logo depois acabei eu mesma me separando, em seguida minha irm� do meio e por fim meu irm�o mais jovem. Todos os quatros s�s, por�m com seus filhos, sendo que Eva minha filha mais nova era de um segundo relacionamento do qual eu havia tamb�m terminado e estava convalescente. Nossos pais inconformados, principalmente nossa m�e, refugiaram-se na Praia dos Sete La�os, deixando para os filhos e netos tr�s apartamentos na capital. Somente Solange, a irm� do meio possu�a condi��es de manter-se nesse momento em seu pr�prio apartamento sem a ajuda de meus pais. Nas v�speras de Natal a casa da praia estava cheia. Eu e meus filhos: Laila, C�ssio e Eva; Solange, a irm� do meio e sua empregada Alice; Matilde, a irm� mais velha acompanhada de seus filhos Ricardo, Reinaldo, Soraia e Leda, a velha cozinheira Marieta e meus pais. Ainda esper�vamos uma tia, primos e nosso irm�o e sobrinha. Eu estava feliz, com saudades da fam�lia e da praia. Levei comigo meus apetrechos de pintura e entreguei-me �quele mundo natural, ao suposto colo familiar. Dei-me mal, muito mal. De in�cio tudo parecia bem, sentia-me � vontade. Logo que cheguei tentei ponderar com minha m�e e minha irm� mais velha Matilde a possibilidade de eu ocupar com minhas filhas o quarto com cama de casal, isto porque eu estava amamentando Eva e o outro quarto vago estava muito empoeirado e sem camas; isto porque a casa estava em reforma e as acomoda��es eram realmente prec�rias. Matilde muito nervosa parecendo ressentida n�o aceitou de forma alguma e minha m�e quieta assentiu com a cabe�a para Matilde; chegamos a discutir, pois eu n�o via possibilidade de cuidar de Eva t�o nova em condi��es t�o prec�rias; impotente eu acabei concordando e ficando no quarto empoeirado e sem camas, senti-me, no entanto bem, quando acabei de arrum�-lo: acomodei quatro colch�es estendidos no ch�o, um bom ventilador. Tudo estava bem. O quarto com cama de casal ficou ent�o reservado para tia Val�ria e seus filhos que logo chegariam a fim de passarem o Natal e o Ano Novo conosco. 4 Desde crian�a, nunca havia percebido o alcance das minhas palavras, o quanto elas ofendiam e maltratavam o cora��o de todos os meus familiares. Quando solteira, na �poca em que morava com meus pais, sempre me sentia s�, com o cora��o apertado e a voz sufocada. Nunca era eu mesma, algo me impedia, na verdade eu n�o podia; por vezes, j� na adolesc�ncia, quando me sentia demasiadamente reprimida eu era rebelde e mal educada chegando a extremos, minha m�e algumas vezes chamava o m�dico que era nosso vizinho e que sempre me receitava alguns calmantes, outras vezes, nesses acessos, meu pai me socorria procurando-me acalmar com palavras de consolo dizendo que eu estava certa que eu tinha raz�o de sentir-me daquela forma e que eu devia me acalmar para o meu pr�prio bem, at� que por fim eu melhorava. Mas nunca me sentia amada verdadeiramente; perto de minha m�e sentia-me mais � vontade pelo menos na inf�ncia, envergonhava-me �s vezes na presen�a de meu pai acreditando falar besteiras, sentia-me uma crian�a boba mesmo. Minha m�e achava-me bonita e isto me dava uma certa seguran�a. � medida que me tornava mo�a passei a me entender melhor com meu pai e com minha m�e as coisas mudaram, ela mudou a maneira de me tratar, antes t�o dedicada, na verdade ela sentia um certo ci�me de meu pai em rela��o �s filhas mo�as e n�o sem uma certa raz�o, ao meu entender, pois meu pai por nos amar demais, perto da gente parecia n�o a ver, por este motivo, eu nunca me sentia realmente bem perto deles. J� Solange, a irm� do meio, sempre foi ciumenta e maldosa, mas eu a amava muito mesmo assim. Quando era jovem ela era bela e por isso �ramos amigas, pouco mal ela podia me fazer. Ela um ano mais velha que eu, era mais olhada pelos rapazes; eu n�o me importava com isso, ao contr�rio sentia-me orgulhosa dela. And�vamos sempre juntas. Algumas vezes eu soube que ela havia feito uma ou outra intriga a favor de suas amigas contra mim em rela��o a um amigo ou namorado meu, mas eu n�o ligava muito, j� havia me acostumado e afinal ela era a �nica em casa que me dava uma aten��o que eu considerava verdadeira. �s vezes, por�m eu reclamava a meu pai da forma maldosa que Solange me tratava, mas ele n�o me dava muita aten��o e me dizia que eu era ainda crian�a e que ela n�o fazia nada por mal e uma vez irritado, sem paci�ncia comigo, chegou a me dizer que eu parecia querer ser sempre a v�tima assim como minha m�e o que me deixou em prantos, mas acabei concluindo que ele disse isso para me fazer ver o quanto ainda eu devia crescer, para que eu pudesse adquirir for�as para resolver os problemas que fossem surgindo na minha vida. Eu sempre considerei meu pai um homem s�bio, mas naquela �poca eu ainda n�o podia direito perceber o alcance de suas palavras e hoje ressentida ainda com os acontecimentos da praia dos Sete la�os, acredito que sempre fui v�tima sim; deles. Porque naquela �poca, sentia-me profundamente desrespeitada, por ser diferente deles, ing�nua e tola acreditando que eu podia me entregar e ser eu mesma. Minha irm� mais velha era distante, pouco nos relacion�vamos, no entanto eu a amava e a entendia. Depois do fracasso do seu segundo casamento ela se tornou muito dura e fria e n�s nos distanciamos pouco a pouco completamente. Meu irm�o, por sua vez, sempre foi meu amigo, parecia gostar de mim, nos momentos dif�ceis ele me apoiava, ele o ca�ula da casa sempre foi o centro das aten��es de todos, inclusive das minhas, at� que ele se casasse; depois do seu primeiro casamento tudo se modificou. Na verdade tudo mudou com o passar dos anos, aquele perfil antigo familiar, aquele que eu havia aprendido a conhecer durante os anos de minha inf�ncia e adolesc�ncia e que por pior que tivessem sido me davam a seguran�a de ter uma fam�lia. Nesses dias que passei em S�o Crist�v�o, na praia dos Sete la�os, tudo mudou. Hoje sei bem mais sobre eles, talvez por saber mais sobre mim,... Esses fat�dicos dias foram cruciais para que eu pudesse finalmente me libertar das "amarras familiares"; sei a realidade de cada um deles, seus m�nimos e mais perversos segredos. Por isso quase enlouqueci, quase n�o ag�entei a barra. Eu, o filtro de todos eles. 5 N�s t�nhamos que nos manter num fio muito suave de vida, para que todos vivessem, para que eu n�o ca�sse em crise, para que o mundo n�o acabasse. Uma trag�dia vivida por todos n�s. A �nica a expressar essa trag�dia num teatro vivo fui eu. Quase morri. Tanta hipocrisia, tanta dor: uma necessidade real de morte. � tarde de Natal se passou, Matilde e J�lio meu irm�o, voltaram para S�o Paulo. Ficou em S�o Crist�v�o na casa de praia; Solange, Eva, C�ssio, Laila e alguns sobrinhos, fora eu, meus pais e as funcion�rias. Tudo estava bem, o Natal havia passado tranq�ilamente. Alice, a empregada de Solange ajudava Marieta com os afazeres na cozinha. Meu pai sempre na biblioteca, com exce��o das horas do almo�o, lanche e jantar. As crian�as maiores brincavam quase todo o dia na praia. Minha m�e pela casa sempre ocupada tamb�m com os servi�os dom�sticos. Eu passeava com Eva, conversava com Marieta, �s vezes estudava, pintava ou mesmo ficava na biblioteca fazendo companhia a meu pai, evitava, por�m Solange que n�o desgrudava os olhos de mim, sem nada falar.Essa irm� passava por uma fase de recupera��o psicol�gica, h� pouco havia tentado se matar: vivia em estado de alcoolismo, por�m estava melhor, mas parecia querer comer-me com os olhos, o que me incomodava muito. Eu por minha vez escondia-me dela na cozinha com as empregadas, ou estava entre as crian�as: tudo caminhava relativamente bem. Meu pai, por sua vez, parecia preferir a companhia de Solange, acredito que fosse por causa de seu estado, mas isto de alguma forma me retraia, sentia falta da fam�lia, ent�o para me alegrar e distrair comecei a pintar, a olhar para beleza da natureza local. Minha m�e parecia estar triste e achei que ela devia estar se sentindo assim como eu; na verdade eu estava bem triste tamb�m, um sentimento come�ava a absorver minha alma l�cida e branda, por motivos que eu n�o me dava realmente conta. Uma certa tristeza me evadia, e se eu fosse verificar racionalmente o porque, acharia motivos que outrora eu n�o daria import�ncia, neste momento, entretanto, enchiam-me de uma car�ncia inexplic�vel. Sentia-me cada vez mais sem espa�o dentro da casa de meus pais, do meu suposto colo familiar; minha alegria anterior refugiou-se apertada para algum canto do meu ser. Minha filha Laila parecia atenciosa comigo, nas poucas vezes em que ela estava na casa, apesar de sua pouca idade percebia o meu estado de �nimo, talvez por me conhecer melhor, sabia que eu estava caindo e que eu precisava de ajuda para que n�o despertasse em mim aquele pensamento abissal, em que a trag�dia logo se transformaria em realidade. Ainda menina e linda, Laila, de muita personalidade, n�o se importava com os olhares maliciosos das tias e muitos menos com as brincadeiras do av�, ao contr�rio com a voz meiga sabia agradar a todos, inclusive minha m�e que se alegrava tamb�m com a sua presen�a. C�ssio, por sua vez, por possuir muita sensibilidade j� come�ava a entristecer-se por mim e fugia do av� que n�o perdia uma s� oportunidade para implicar com ele; eu por minha vez tomava as dores de C�ssio e ofendia-me, sem, entretanto nada falar, mas Solange percebendo em mim certa afli��o, apoiava meu pai nas brincadeiras a fim de me tirar � tranq�ilidade. Acabei ent�o me retraindo, ficava em meu quarto com Eva, sentia-me ent�o num mundo � parte, cheio de amor e felicidade, arrumava o arm�rio, colocava as coisas em ordem, enquanto Eva no ch�o, entre seus brinquedos brincava tranq�ilamente; seus bichinhos de pel�cia espalhados, no colch�o, remetiam-me a um passado pr�ximo, relembrava assim nosso canto na capital onde �ramos felizes. Saia do quarto ent�o para assistir televis�o, pouco conversava a n�o ser com as empregadas que pareciam sentir-se bem ao meu lado e de Eva. Minha m�e, por sua vez, parecia sentir uma certa irrita��o toda vez que eu me entretia com meus pinc�is e tintas; deixei por isso de lado a pintura... O interessante era que antes de Eva nascer eu suportava essa maneira arisca que minha m�e tinha algumas vezes de me tratar, entretanto naquela situa��o eu n�o podia suportar, sentia-me penetrada por um �dio, uma aspereza t�o doentia que era imposs�vel me conter; come�ava a sentir vontade de gritar de desabafar aquele mal estar t�o grande adquirido naqueles poucos dias em que estava na praia dos Sete la�os. A cozinheira Marieta, t�o querida foi embora passar o Ano Novo com os seus chegando em Sete la�os tia Val�ria, minha tia mais jovem, por parte de m�e, acompanhada por seus quatro filhos, Matilde que retornara da capital a fim de passar o Ano Novo conosco e J�lio nosso irm�o ca�ula que tamb�m voltava para festejar o Ano Novo. Leda a filha do segundo relacionamento de Matilde, e Anita filha �nica de J�lio estavam em Sete la�os aos cuidados de minha m�e; as duas um pouco mais velhas que Eva, brincavam juntas e eu algumas vezes tomei conta delas com todo carinho e amor, o mesmo que dispensava a Eva eram transmitidos as duas sobrinhas das quais eu tamb�m amava, preocupava-me em cuidar das crian�as, alegrava-me em estar com elas e poder participar de suas gracinhas e brincadeiras. 6 Aquelas lembran�as... Hoje ap�s duas semanas na capital, acredito j� na minha capacidade de ter uma vida normal, fica mais distante a lembran�a daqueles dias em que vivi fantasias, vivenciei sonhos, num mundo real, em que meus p�s encravados no ch�o, principalmente o direito, situavam-me perto de mim, por�m distante, t�o distante. Foi preciso arrastar-me como um verme, andar torta para que eu pudesse viver. Meu p� t�o pesado, acorrentado mesmo pela for�a de uma "raiva"; for�a essa que minha m�e aconselhava-me a vivenciar dizendo-me que era a for�a "da direita", da vida; a �nica que poderia nos fazer viver na realidade e n�o nos sonhos, a for�a dos sonhos ao seu ver, essa sim era perigosa. Logo que cheguei na praia dos Sete la�os, dentro da casa dos meus pais um peda�o do c�u. Eu acordava toda manh� ao som dos p�ssaros, o c�u aberto parecia gerar um clima de paz intensa. Dentro do nosso quarto com Eva e Laila sentia-me leve, um bem estar t�o poderoso, t�o irreal, t�o vivido. Minha m�e na cozinha era simples, eu podia sentir, t�o simples quanto a terra e meu pai quieto, sentado na sala era alto, t�o alto quanto o c�u. Tudo era perfeito, um clima de sublimidade encantava minha alma feliz. Sentia-me bela, feliz e cheia de simplicidade aberta para transmitir tudo o que sentia aos meus entes queridos, podia e tinha certeza disso; transmitir a quem quisesse esse estado de felicidade, de alma. Mas aos poucos comecei a ver coisas terr�veis, das quais era necess�rio lutar para combater, n�o s� n�o podia transmitir felicidade, como aos poucos ia perdendo a minha pr�pria. As pessoas transfiguravam-se e comecei a v�-las no meu entender, como elas realmente eram. Solange transfigurou-se em Gorgona ou algo parecido, mito lend�rio, uma bruxa malvada que transformava quem a olhasse diretamente nos olhos em pedra, eu devia evit�-la ao m�ximo , devia desviar-me do seu olhar assassino, que me cegava e me torturava a mente; Solange atrapalhada era toda estapaf�rdia, perseguindo-me como uma ca�a, trai�oeiramente me surpreendia dirigindo-se a mim com cobran�as de todos os tipos. Matilde por sua vez, devia ser a �cabe�a�, s�bia e extremamente ciumenta e perigosa: n�o era capaz de olhar-me de frente, sempre curvada olhando para os p�s assim escondia suas terr�veis inten��es, uma bruxa ardilosa que acabava por me reprimir, retirando de mim minha inoc�ncia, espontaneidade e alegria; obrigando-me a ser como ela ou submeter-me a sua for�a de filha primog�nita que exercia de certa forma o comando familiar. Come�ava a perceber onde havia me metido e que de l� seria dif�cil sair, eu n�o podia contar com minha m�e que oscilava entre �s vezes ser santa e outras o pr�prio dem�nio. Nada tinha coer�ncia de acordo com a minha forma de encarar a vida, em que a alegria, a simplicidade, o trabalho natural e espont�neo, a rela��o amig�vel e verdadeira entre as pessoas, principalmente entre familiares seria normal; n�o, n�o podia ser verdade! No entanto aquela realidade confirmava-se a cada momento.Meu pai n�o participava diretamente deste contexto fant�stico e terr�vel, sempre estudando, nas poucas vezes, em que se encontrava com todos, a situa��o mudava, ele era o centro das aten��es, contava casos interessantes, conversava muito e era reconfortante saber que pelo menos ele era um ser normal; entretanto no meu del�rio em alguns momentos ele se transformou em Zeus, o justo e bom deus dos gregos, nele eu via uma sa�da poss�vel para os meus infort�nios, eu sabia que devia convenc�-lo das minhas convic��es, devia mostrar para ele que eu n�o estava ficando louca como todos pensavam ou gostariam que fosse; haveria meu Deus! Uma sa�da plaus�vel...Pensava... Afinal Deus n�o poderia ser t�o perverso! Eu que possu�a tantas qualidades, pelo menos eu acreditava nisso... Deveria ent�o me agarrar com todas as for�as, naquilo que eu acreditava ser verdade, para n�o desaparecer o meu eu, as minhas pr�prias convic��es, para que eu n�o me fragmentasse e acabasse de verdade completamente louca; por isso eu, Afrodite, a deusa do amor, com minha for�a do amor e da beleza iria vencer. Era uma guerra e eu haveria de ganhar para poder sobreviver, que a for�a de Deus me invadisse e com sua sabedoria eu pudesse vencer a racionalidade de Atena, que no meu del�rio tr�gico era Matilde e que R�ia minha m�e pudesse atrav�s da sedu��o do meu amor compreender-me. Apolo, meu irm�o tamb�m poderia ajudar-me, porque eu sabia que a �nica grande inimiga de Afrodite, a que nunca seria por ela seduzida era Atena.O maior perigo, entretanto era sua influ�ncia em meus pais e nesse momento em Solange que por estar passando por um per�odo ruim n�o aceitava minha felicidade, meu irm�o apesar de me amar sempre foi seu grande aliado. Meus pensamentos turvos e meu pouco conhecimento de mitologia faziam-me viver devaneios e loucuras que o meu ser consciente jamais aceitaria; vivenciava o meu inconsciente retalhado por fantasias e imagina��es que surgiam n�o de uma fonte racional, mas de um campo inexplorado at� ent�o por mim, completamente desconhecido, que flu�a das circunst�ncias absurdas que eu estava vivendo na casa de meus pais. Esqueci-me completamente de Eva, acho que a entreguei para minha m�e, n�o sei na verdade a quem entreguei minha pequena filha, n�o tinha mais condi��es de cuidar dela; momentos existiam de consci�ncia ent�o eu a pegava, mas vinham tremores dentro de mim e uma excita��o intensa fazia-me larg�-la por medo de machuc�-la interiormente, da mesma forma que meu cora��o sangrava de dor, mart�rio, excita��o intensa. Eu n�o podia mais trat�-la do mesmo modo que antes, eu quase j� n�o tinha mais controle das minhas atitudes e dos meus pensamentos, um fio t�nue de consci�ncia por vezes surgia no meu pensamento e me direcionava, outras vezes me punha a rodopiar frente a meu pai, na sala e n�o conseguia falar nada; n�o tomava mais banho e meus cabelos come�avam a se encarapu�ar na cabe�a. Laila uma vez em que me viu nesse estado me colocou na banheira e me banhou acariciando-me a cabe�a e me reconfortando. 7 Naqueles dias. Durante todo o dia algo me penetrava, algo ruim que eu n�o sabia direito de onde vinha, a ponto de me transtornar... E me transformar num monstro...! Pensava ent�o que seria a for�a da raiva de Matilde: minha intui��o fazia-me crer que era Matilde que n�o suportando minha felicidade, por inveja odiou-me a tal ponto que me transformava num ser monstruoso; Solange por sua vez compartilhava com Matilde do mesmo sentimento; ela n�o era, entretanto a autora principal. Em meu peito um som boi-bumb�, boi bumb�, t�o forte, t�o forte! Era preciso gritar com todas as for�as do meu ser contra o �dio, contra a maldi��o que se apoderava de mim. Nas primeiras vezes em que gritei, em que n�o suportei a dor, fui socorrida por tia Val�ria, que ficava tentando tirar "o mal� de mim. Rezava muito e me benzia, mas era em v�o, eu por minha vez tamb�m tentava rezar, mas a loucura aumentava, e meus pais estagnados me olhavam friamente como se nada estivesse realmente acontecendo, nada falavam, e aos meus olhos acontecia o contr�rio do que seria normal dentro de uma fam�lia cujos entes se amam, minha loucura transformava minhas irm�s que pareciam regogizar-se com toda situa��o. Minha apar�ncia tornava-se cada vez mais desleixada e eu muito confusa; meu medo aumentava e mais intensa tornava-se aquela for�a que me assolava; quanto mais eu lutava contra ela, maior ela parecia ficar; perdia o ar, minha alma arrepiada me trazia uma sensa��o de asco que parecia vir de meu irm�o, como algo que interiormente me arrancava peda�os, uma sensa��o de um nojo t�o profundo, um som de quiasco, quiasco... Escutava isso mentalmente e no meu peito um �dio excitado de quero mais, quero mais, quiasco, quiasco, quero mais, quero mais, o pr�prio dem�nio em mim pensava. Como suportar? Pedia a Deus for�a, quase sem f�, apenas um fio t�nue de consci�ncia e ajoelhada em meu quarto sobre os colch�es estendidos no ch�o, pedia for�as e quase que com o cora��o seco, n�o conseguia mais chorar. Uma trag�dia vivida pensei, lembrava-me das aulas de filosofia quando estudava a trag�dia no �Nascimento da Trag�dia� de Nietzsche e ent�o esperan�as novas surgiam no meu peito tr�mulo, dilacerado. Em alguns breves momentos, por�m encontrava-me bem; momentos em que acreditava enfim ter superado aquela for�a maligna, pois tinha em mim, dentro do meu peito a certeza do meu amor pela vida, pelo mar, pela natureza e pelos meus filhos. Nesses raros momentos encontrava respostas na natureza; corria para o mar atordoada e pedia a Iemanj� que significava para mim a for�a do mar da qual aprendi a amar; sua simbologia remetia-me a for�a do amor de Poseidon, de mim mesma e bem dentro do meu ser uma resposta �alta" e �lenta" ent�o por alguns segundos tudo parecia se normalizar. Nesses momentos pensava em meus filhos, principalmente em Eva e sentia-me forte, capaz de suportar as maiores penit�ncias. Acreditava ent�o no fundo de minha alma que deveria mesmo passar por tudo aquilo, que um dia eu ficaria boa e feliz novamente. 8 Logo que meu irm�o J�lio retornou a casa em Sete la�os contei a ele minha tristeza, desabafei minha situa��o de forma pitoresca, n�o possu�a muita lucidez, estava emocionalmente abalada e chorava muito, entreguei-me a ele acreditando que ele seria a minha salva��o: ele calmamente disse-me que eu devia entender nossos familiares, e que eu devia ter calma... Na verdade sempre tentei compreend�-los e percebo hoje que foi preciso n�o entend�-los para poder realmente sab�-los e talvez a mim mesma. Sem muito envolvimento deixou-me s� e foi para varanda reunir-se com meus pais e irm�s que estavam l� conversando muito, rindo... Pensei que a vida continuava para eles, eu, entretanto estava s� sem que nenhum deles se preocupasse comigo, pensava, ao contr�rio, eles pareciam estar mais felizes do que nunca. Ser� que eu n�o existia para eles , seria normal o que estava acontecendo comigo? Porque meu Deus! Porque eu havia ido para l�, Pensava e chorava... Minha liberdade havia me deixado, e n�o podia dar sequer um passo, meus p�s estavam presos, eu estava tornando-me uma louca. Meus pensamentos confundiam-se e uma vertigem tomava conta do meu �ntimo. Apesar de tudo, dos meus pensamentos, ou mesmo do que via ou pensava ver, tentei acreditar que os meus primeiros momentos de �loucura� n�o teriam sido t�o terr�veis e que tudo poderia voltar ao normal, tentava agir espontaneamente, esperando dar a eles a impress�o de que depois da conversa com J�lio, eu havia melhorado, for�ava-me a acreditar nas palavras de meu irm�o achando que ele poderia realmente me salvar daquela situa��o detest�vel; eu sabia, no entanto que sua ex-mulher, exuberante e m�, amiga de Matilde, da qual ele havia se separado recentemente, nutria grande inveja e revolta por mim, motivos pelos quais, inclusive n�o gostava que eu me aproximasse muito de sua filha, parecendo mesmo, no meu modo de ver, nutrir um certo grau de desconfian�a a meu respeito; mas na verdade eu seria incapaz de algum ato de maldade com alguma crian�a, principalmente com uma sobrinha e J�lio apesar de me amar, ou pelo menos sempre ter demonstrado isso, parecia j� h� algum tempo, acho que desde o nascimento de Eva, desconfiar de mim tamb�m, talvez influenciado pelos maus sentimentos de sua ex-mulher, evitando que eu me aproximasse de Anita, mais que isso parecia competir com Eva. Eu tamb�m j� come�ava h� algum tempo n�o gostar do modo como ele olhava para Eva, sempre por cima, sem lhe dar uma aten��o verdadeira, de tio, como sempre deu a C�ssio e Laila; parecia estar querendo provar uma certa superioridade em rela��o a mim e a Eva ou ao meu amor, de m�e pra filha, n�o sei, talvez quisesse provar algo pra ele mesmo ou para os outros familiares, ele o ca�ula da fam�lia e tamb�m o �nico homem...S� podia ser isso...Ci�mes do meu amor por Eva...Ele parecia estar representando mesmo, como num teatro; na realidade todos agiam sem a m�nima espontaneidade, representavam e mal... Pareciam olhar demais da conta pra Eva, assim como faziam comigo, me olhavam muito, sem amor e aten��o, simplesmente me reprimindo, sem nenhum tipo de afeto; meu pai chegou a compar�-la a um macaquinho, querendo ao meu ver agradar a maioria, que eram meus irm�os, pois ele sabia que eu o entenderia, como sempre o entendi, eu por minha vez, naquele momento ri da sinceridade de meu pai, acreditei ser uma maneira dele mostrar uma esp�cie de carinho, meio �quela situa��o t�o formal, cheia de representa��es... Mas Matilde e J�lio mais que Solange ou outra pessoa qualquer da casa a olhavam de maneira diversa daquela que seria o normal entre tios e sobrinhos que se amam; havia sim algo por detr�s que soava no ar, que eu podia perceber, como uma m� inten��o, algo realmente brutal como um sentimento de guerra que eu traduzia sentindo que eles queriam para eles aquilo que eu dispensava a Eva; o que me maltratava a alma, porque jamais podemos roubar o amor de maneira sincera e verdadeira, podemos sim compartilhar... Ent�o conclu�a que eles n�o possu�am cora��o, porque qual o problema de uma m�e amar muito uma filha, e por isto eles me enlouqueciam, tirando-me daquele estado maternal em que me encontrava, fazendo-me o mal de ser possu�da pela invas�o de seus maus sentimentos...Jamais eu poderia perdo�-los, aquilo tudo me aterrorizava! Acreditava ent�o estar louca, n�o era poss�vel que meus amados irm�os estivessem agindo de forma t�o estranha; seriam meus olhos. Estaria eu vendo o que n�o existia. Mas eu via e no fundo acreditava nos meus sentimentos... Pressentindo o pior, sabendo que n�o teria a quem recorrer, que eu estava s�, estrategicamente fiquei a vontade, sabendo que estava lutando contra for�as contr�rias as minhas, acreditei que o fato de eu ter gritado vivenciando um teatro vivo, era fruto de meu conhecimento em psicodrama e que foi necess�rio para aliviar-me das press�es externas, e que na verdade estava colaborando com os problemas familiares, por este motivo eu n�o estava louca, e todos deveriam saber, por isto n�o me davam aten��o... Ao contr�rio, me ignoravam e se sentiam, pelo menos pareciam, mais dispostos do que nunca. Porque ent�o eles pareciam preferir a minha posi��o de louca a de fil�sofa ou terapeuta?Pensava... Deveria explicar para eles, detalhar meus conhecimentos at� convenc�-los, mas seria dif�cil, ent�o calada apeguei-me a esta verdade, para poder continuar vivendo sem sucumbir. 9 Foi no ano novo! Foi no ano novo, exatamente � meia noite, no momento em que deveria abra��-los para festejar a entrada do novo ano: depois de sentir tamanha frieza por parte dos meus pseudo-s familiares (assim que eu j� os considerava), as tentativas freq�entes de J�lio e de Matilde apoiados por Solange e minha m�e de simplesmente esquecerem da minha exist�ncia, ignorando-me completamente e mostrando a quem quisesse ver a superioridade deles sobre a minha filhinha de apenas seis meses. Pude ent�o perceber claramente a minha posi��o dentro daquela estrutura familiar que infelizmente era a minha pr�pria; pude ver com clareza tudo o que estava acontecendo e por isto fiquei calada e entreguei-me a eles sem outra alternativa, por mim, por Eva e talvez por meu pai, do qual jamais duvidei de sua sabedoria e amor para comigo e com meus filhos; quanto a Laila e C�ssio eu estava tranq�ila, eu os havia educado com grande apego a esta fam�lia e eles eu sabia estavam bem entre outros jovens e primos. Foi um grito alucinante, tanto quanto a minha dor, dentro do meu peito! Todos correram para me socorrer, principalmente J�lio que depressa me levou para o quarto de meus pais e come�ou a rezar, minha m�e ao lado com Anita em seu colo o acompanhava. N�o me sentia bem, um ambiente cheio de lamento, escuro. A dor j� havia passado...No entanto aquela reza, minha m�e n�o estava l� por mim, aquela crian�a participando de um ambiente sombrio. N�o pude evitar, sai do quarto sem pedir desculpas e senti-me bem por ter gritado, e correndo muito fui para o mar s�... Minha ansiedade era grande e j� n�o pensava em Eva ou em C�ssio ou mesmo em Laila, queria naquele momento festejar minha loucura, transgredir minha felicidade e sabe Deus matar o que em mim... Entrei no mar s�, nadei at� onde pude alcan�ar, quando sai finalmente pude ver minhas irm�s, tia e alguns sobrinhos na areia festejando o ano novo; fizeram de conta que n�o haviam me visto e ao lembrar-me de Eva corri para casa, vi ent�o meu pai e meu filho aflitos me procurando, pensei feliz... Eles sentiram por mim, n�o estou completamente s�, os abracei com for�a e lhes desejei feliz ano novo. Minhas irm�s, tia, primos e sobrinhos haviam ido a praia que ficava bem pr�xima da casa de meus pais, sem se importarem com meu grito de dor festejavam alegres aquele novo ano que despontava. Na inf�ncia eu amava muito Val�ria, era assim que eu a chamava por ser a tia mais nova, n�o costumava cham�-la de tia, ela sempre foi bonita e eu tinha por ela uma admira��o �mpar, pensava em ser como ela quando crescesse. Sem muita sorte no casamento havia tamb�m se divorciado e por isso Matilde a sobrinha mais velha, mais pr�xima de sua idade lhe acompanhava em tudo; quanto a mim bem mais jovem n�o havia tanta identifica��o para sermos amigas insepar�veis, mas eu sabia que ela me amava, seu modo de me olhar era materno. Matilde, por sua vez, sempre desviava o olhar, como se minha presen�a n�o lhe agradasse, talvez estivesse envergonhada por meu grito pensei... N�o sabia realmente, s� sabia que uma esquisitice total tomava conta de todos. Eu estava por demais confusa, j� n�o sabia o que pensar, o que dizer, nem como agir; lembrava-me apenas que eu havia antes de gritar na entrada do novo ano, me entregado a eles, eu e Eva, mas agora tudo tinha mudado, n�o mais olhavam com ar de superioridade, estavam esquisitos demais, pareciam loucos, na verdade a casa da praia mais parecia um sanat�rio, todos andavam curvados como Matilde, cabisbaixos; aquela situa��o passada em que os via se divertirem acabou, somente Solange parecia alegre meio aquela barbaridade que assolava todos, mas com exce��o de Solange, meu pai, crian�as e jovens todos sempre quietos, falavam muito pouco e baixo, porem aos poucos pude ir percebendo o que cada um pensava telepaticamente. Um fio t�nue em minha mente; era necess�rio respirar lento para que eu n�o morresse, para que a loucura n�o fosse despertada. 10 Hoje penso, longe daquela parafern�lia, sei que tive como tarefa l� na praia dos Sete la�os, por obra do acaso, ou do meu pr�prio destino, desencurv�-los mostrando a eles atrav�s da minha loucura, a loucura da pr�pria fam�lia. Talvez, acredito, tenha os visto mais do que eles poderiam resistir, ensolarada que estava com o nascimento de minha filha, pelo grande amor que nutria por ela; talvez tenha por isso retirado deles a m�scara que os envolvia, e por isso paguei caro. A verdade � que nada foi intencional da minha parte, n�o queria ofend�-los, simplesmente queria ser eu, algo que nunca tive oportunidade no meu seio familiar. Talvez meus olhos tivessem olhado demais, por minha filha Eva, por minha vontade de trazer a verdade � tona; o amor. N�o somente o amor por Deus, mas o amor pela vida. Acreditava na possibilidade de ser artista, na vida assumida como encontros de for�as e de aceita��o do todo, ou seja, dessas for�as reais se relacionando. Havia escrito muito durante a gravidez de Eva, estava praticamente s�, em minha companhia tinha Laila e a nova empregada. O pai de Eva havia me abandonado no terceiro m�s de gravidez e C�ssio h� alguns meses havia ido morar com seu pai; ocupava-me com meus estudos da p�s-gradua��o e em registrar o tempo todo pensamento sobre uma poss�vel rela��o real entre os homens, queria chegar ao ponto exato da rela��o e acreditei ter chegado. Parecia ent�o que na praia dos Sete la�os estava vivenciando de alguma forma tudo o que acreditava em teoria, s� que as duas coisas realmente eram muito diferentes: haveria ent�o eu de provar a mim mesma que eu seria capaz de vivenciar minha pr�pria teoria, jamais imaginei ter que me relacionar o tempo todo com for�as contr�rias as minhas; teoricamente a guerra, a competi��o faziam parte da vida, n�o, entretanto da vida da minha fam�lia, passei a senti-los como os meus maiores inimigos. Pensava que isto n�o poderia ser realidade, pelo menos quando �ramos mais jovens, antes mesmo do nascimento de Eva, n�o cheg�vamos a tanto; o que de diferente haveria ocorrido; de quem seria a culpa? De Matilde? De minha m�e por apoiar Matilde? De J�lio por desconfiar de mim como tia? Da ex-mulher de J�lio, que era amiga de Matilde e que me odiava? O que havia eu feito de t�o injustific�vel para ser execrada? Talvez eu os estivesse vendo melhor, na verdade eu os via... Era necess�rio lutar, e eu haveria de aprender com a for�a de meu amor por Eva, por Laila e C�ssio; por mim mesma e tamb�m por que n�o, por eles.Porque enquanto procurava o ponto de liga��o dos seres, n�o pensei na possibilidade do outro n�o aceitar o encontro, havia partido do princ�pio que o amor venceria, mas a verdade � que houve a for�a contr�ria utilizada como a n�o aceita��o, muito estranho... Quem poderia n�o aceitar o b�sico para uma vida feliz, quem evitaria o contato com o amor? Dentro, entretanto de minha �tica pude constatar, quando procurei o ponto de contato entre mim e eles, entre cada um deles, entre nos todos, que todos apesar de n�o aceitarem o amor como b�sico, acredito que por pura falta de viv�ncia e conhecimento deste, possu�am grande intelig�ncia e muito orgulho, menos Marieta, a cozinheira; as crian�as espont�neas e verdadeiras, os jovens cheios de sensualidade e vida. Neles pude somente desencorajar a covardia, o medo de ser o que se � realmente. Porque nos meus estudos preocupei-me com aquilo atinente as rea��es de prazer na vida, aos prazeres reais e sublimes da vida, das quais todos se mostram como s�o, trocando intensas for�as: os jovens s�o exemplos disso, brigam e se amam e numa reciprocidade vivem tranq�ilos, cheios de esperan�a vivem venturosamente.O importante � saber que nunca estamos prontos... Pensava. S� assim estaremos prontos realmente para aceitarmos as novidades que a vida nos oferece no decorrer do tempo, da nossa hist�ria de vida. Posso falar com certeza que foi a minha teoria que me salvou. Meio a tanta confus�o, meio aquela tremenda loucura houve momentos em que me tornei professora, eu comigo mesma, eu professora de mim, ent�o acabava encontrando por fim o fio da sanidade; sabia em meu �ntimo, l� bem no fundo, um fundo quase apagado que eu n�o estava louca, que era somente uma quest�o de tempo para que tudo se normalizasse. Sentia-me ent�o mais confiante e tentava relacionar-me com meus familiares de uma maneira sincera, entregava-me a eles por pura falta de op��o, sempre havia sido assim, a ca�ula das mulheres, obediente e ing�nua, sempre sufocada e reprimida por falta de op��o... 11 Eu era Nietzsche... Esta loucura vivida por mim na praia dos Sete la�os, chegou ao �pice quando achei que eu fosse o grande pensador Nietzsche, ele que eu tanto amava, cujos livros eram lidos, relidos! Trechos de seus fragmentos copiados em minha agenda; na praia dos Sete la�os acabei doando meu corpo � personalidade deste pensador do final do s�culo passado; tantas respostas poderiam ser dadas para esta situa��o; por exemplo: o espiritismo diria que eu poderia por mediunidade estar possu�da ou pelo esp�rito do pr�prio pensador, ou talvez por algum outro que se passasse por ele; n�o sei realmente o que se passou comigo, sei apenas que em meu �ntimo eu era Nietzsche, acreditava realmente ser Nietzsche carregando em mim uma dor quase insuport�vel, um medo da vida e dos homens, um poder dentro de mim maior que o humano, capaz de morrer ou matar pela veracidade dos meus pensamentos, da felicidade de toda humanidade. Tornava-me Nietzsche e confiava com voz austera a meu pai meus pensamentos sombrios, meu pai escutava-me e respeitava-me. Em um certo momento de loucura, em que dizia a meu pai que eu era Nietzsche, que me deixasse ir embora da praia dos Sete la�os, que eu sabia exatamente o que estava fazendo e que ningu�m no mundo haveria de novamente prender-me ou levar-me a um sanat�rio, minha m�e surgiu entre n�s como uma louca, com olhos esbugalhados encarando-me e dizendo-me, que se eu era Nietzsche ela era Hitler, que ela era o Anti-Cristo, ou melhor, que ela era Deus. Nietzsche ent�o estupefato (que era eu), louco esticou-se todo e gritou cheio de prazer e entusiasmo:- --Saias de perto de mim mulher venenosa! Tu tens muito veneno pro meu gosto! Saias, saias e retorcendo-se, com olhos exaltados esperou a resposta... Hitler com olhos esbugalhados respondeu: ---N�o tenho medo de voc� e de ningu�m, eu sou Hitler! E Nietzsche:- - Tu me amas, eu sei que tu me amas... E Hitler (minha m�e) saiu do quarto; mais calmo Nietzsche ent�o perguntou a meu pai -- E tu quem �s? Meu pai nada respondeu e Nietzsche disse rindo alto e dan�ando:- --Tu �s uma bailarina, uma bela bailarina. Meu pai olhou-me com ternura. Sai ent�o do quarto, extremamente ansiosa e pensei que tudo n�o havia passado de um teatro psicodram�tico.Fui para o quarto arrumar minhas malas para finalmente ir embora, afinal acreditei t�-los convencido que estava bem. E acredito hoje que este tenha sido o auge de minha confus�o ps�quica. Levei minhas malas prontas para sala.Consegui! Pensei, finalmente consegui provar que sou s�.Vou me embora. Acreditei realmente ter convencido meu pai de que eu estava bem; ele deitado em sua cama parecia estressado, querendo descansar sem, no entanto conseguir; neste momento Solange o chamou e os dois sa�ram. Eu por minha vez estava pronta para voltar para o meu lar, onde a felicidade me esperava, estava ansiosa e cheia de mim e com Eva nos bra�os preparava-me enfim para partir. Quando meu pai surgiu na sala gritando furioso:- -Voc� n�o vai para lugar nenhum! Solange e minha m�e ou Hitler. J� n�o sabia o que pensar! Atr�s dele gritavam: -ela n�o vai, n�o vai! Eu horrorizada gritei: -Eu vou pai, eu estou bem! e Solange atr�s dele percebendo que ele vacilava gritou:--N�o pai, ela est� louca! Desesperadamente retruquei: -Eu vou, eu vou, por favor, deixe-me ir...Chorando. Meu pai ent�o me agarrou completamente irado: -N�o! Voc� n�o vai. Entre seus bra�os senti-me um p�ssaro grande, branco que bateu as asas em v�o.Todos sa�ram da sala ap�s o ultimato de meu pai e eu fiquei s�, paralisada, pronta a morrer. Fui ent�o para o meu quarto, liguei o ventilador sobre mim. N�o sabia onde estava Eva, n�o sabia mais nada, pedia a Deus uma solu��o, sentia medo, muito medo de minha m�e. Pensava...Meu pai havia me deixado ir embora, eu tinha tanta certeza disso, porque ent�o mudou de id�ia? Via Solange atr�s dele gritando!Ela � louca, � louca, � louca pai! Minha m�e...Olhando para mim.Voc� vai ficar, vai ficar. Lembrei... Eu sou Hitler...Hitler! Uma vertigem...Ai meu Deus, pensei... Vou morrer, n�o suporto mais ficar aqui... Quero morrer, ir embora... Pensava e chorava baixinho para ningu�m escutar. Sentia que estava num manic�mio, no meio de muitos loucos, outros loucos, loucos perigosos, mais loucos que eu pr�pria.O que eu poderia fazer, como me salvar? Pensei em Deus estarrecida! De repente tive uma id�ia, t�o simples: iria tornar-me igual a elas, as minhas irm�s e assim minha m�e me amaria, e com muito jeito teria a permiss�o para ir embora...Consegui ent�o relaxar e dei um tempo levantei, troquei de roupa, soltei os cabelos, pintei os l�bios e fui para sala; todos me olhavam de esguelha, inclusive Val�ria. Meu pai havia sa�do com Solange novamente.Eu temia por ele, por seu cora��o e sabia que naquele momento Solange deveria estar lhe envenenando, falando sobre a minha m� sorte! Deus!Pensei, eu precisava ser fria, deveria confiar em Val�ria ela que sempre me olhou com olhos de que estou com voc� e n�o abro...Por vezes procurava-me em meu quarto para falar que me amava... Com certeza ela poderia me ajudar, acreditei nisso por alguns instantes e prossegui com meu plano: no entanto fui primeiro at� o clube, ao lado da casa de meus pais, tentei fazer uma liga��o para Aruama, cidade onde possivelmente estaria meu ex-marido, talvez pensei... Quem sabe ele me ajudasse possuidor que � de tanta for�a e malicia, minha m�e e irm�s sempre o respeitaram tanto, sempre mais do que a mim; quem sabe ele as seduzisse por mim e me levasse de volta ao meu lar... Mas um, por�m... Ele deveria provavelmente estar com sua noiva que por sua vez me odiava, sem d�vida, n�o...Pensava...N�o daria certo. Mesmo assim iria tentar... Mas n�o havia ficha telef�nica no clube. Voltei para casa, uma quadra do clube, rebolando, olhando de esguelha, jogando os cabelos para tr�s, sabia que me parecia nesse momento com a ex-mulher de J�lio.Tornei-me uma mulher venenosa e extremamente sensual. Sem pensar em Eva e minha nova vida, entrei na varanda da casa de meus pais, sentei aos p�s de minha m�e e a olhei com paix�o, com olhos de mulher perigosa, disse ent�o a ela que todos eles tinham raz�o, que eu achava que seria bom mesmo que eu ficasse l� mais um tempo, que l� estava t�o bom...Fazia carinho nela e ela me correspondia. Acreditei, pensei...Deu certo meu Deus! Continuamos a conversar e minha m�e ensinava-me com suas palavras e gestos a ser mulher, a largar a filosofia (meu estudo e profiss�o) dizendo que s� me traria problemas na vida. Ela conseguiu convencer-me e eu sentia-me feliz pela fam�lia que Deus havia me dado! Matilde e Val�ria aproximaram-se de n�s, sentaram-se ao nosso redor, come�aram a se acariciar tirando cravo das costas uma da outra, num clima de amor e veneno; riram e eu ri tamb�m, sem saber do que. Os sobrinhos, primos, filhos vieram aos poucos se chegando a n�s e sentaram-se na varanda ao nosso lado, e ent�o eu percebi que eu tamb�m era uma mulher venenosa.Olhei com mal�cia para todos e nada de mal aconteceu, ao contr�rio, todos pareciam gostar mais de mim.Entendi! Pensei: todos agem por meu pai, perguntei por ele; ele estava no quarto deitado, fui ent�o at� l� me aproximando com suavidade porque vi nele a bailarina t�o bela, t�o delicada; acariciei suas m�os, lhe dei um pouco de minha mal�cia rec�m aprendida, do meu veneno e lhe agradeci por ser meu pai, por n�o ter me deixado ir embora e ele me correspondeu com felicidade e al�vio dizendo-me:- -obrigada por voc� ter compreendido. Deitei-me ao seu lado, e minha m�e n�o se importou. Algo aconteceu, eu mudei, as pessoas mudaram pensei com mal�cia e fui para sala rebolando, jogando os cabelos para tr�s, olhando de esguelha e minha m�e olhou-me com raiva. Acho...Pensei, passei dos limites, deve haver uma medida certa.Qual ser�? Na verdade n�o queria ser a sofredora como Matilde, minha irm� mais velha que sempre foi t�o aceita e amada; muito menos pensei ainda, insegura e vulgar como a �bruxa� da Solange. Como devo meu Deus, como devo ser para agrada-los, a todos, para poder ir embora daqui e ser eu mesma! Irei seduzi-los, continuei pensando...Na medida deles, at� quanto eu possa suportar. Com minha sensibilidade perceberei quando deverei parar. O tempo passou... Anoiteceu; a casa acalmou-se. Todos haviam sa�do. Fiquei s� com Marieta e Eva. Levei Eva para dormir e nesse momento senti no peito um forte sentimento de amor e medo, cantei baixinho para minha filha boi da cara preta, rodopiei no quarto com ela no colo e lhe transmiti todo meu sentimento. Acreditei realmente que eu havia aprendido algo, algo de novo em meu peito. 12 Voltei � sala e logo meus pais chegaram meio estranhos; na verdade nada havia mudado, eu ainda era uma louca para eles. Deixei-os na sala e fui para o quarto tentar dormir tamb�m, e junto com Eva, em mim, no meu peito um sentimento muito conhecido da minha inf�ncia.Reagi! Antes chorava s�, escondia-me quando esse sentimento inexplic�vel surgia, uma mistura de medo e ansiedade, dessa vez levantei e fui para sala reclamar da minha enorme dor de cabe�a. Minha m�e deu-me algumas gotas de novalgina, deitei-me no sof� com a cabe�a apoiada em seu colo, ela me acariciou os cabelos com medo, meu pai por sua vez, sentado a nossa frente contava casos estupendos �demais� ao meu peito ainda ressentido, nesse estado eu mal conseguia lhe escutar. Assim como me sentia preferia minha m�e que nesse momento eu amava e compreendia, talvez por estar dando-me um pouco de aten��o. Realmente... Pensava... que saco meu pai! Mas minha m�e s� podia ser em rela��o a ele, meu pai. Algo entre eles que eu percebia dessa maneira: meu pai era um cachorro bravo, mas se portava assim por causa da forma com que minha m�e interagia com ele...Ent�o a minha m�e era a louca, porque ela transformava a bailarina doce num cachorro bravo, mas mesmo assim eu a amava e a compreendia naquele momento. Na minha cabe�a um eco, o que �, o que �, o que �? Um clima perigoso rondava a sala. Escutei minha tia Val�ria, que tamb�m estava presente no local, falar na orelha de Matilde: �Ela se entregou e vai perseguir a noite toda. Fiquei com medo, quem vai perseguir? Eu perseguirei? Ou minha m�e me perseguir�? E acreditando ser sobre mim pensei: E da� que eu tenha me entregado a meus pais? O que havia de errado, porque eu n�o poderia me entregar?Confiar? Levantei e dispersei meus pensamentos enquanto minha m�e foi para varanda, ela estava muito p�lida e parecia tamb�m muito tensa conversando com Val�ria. Meu pai na sala assistia � televis�o.Algo estranho ocorreu ent�o aos meus sentidos, o notici�rio parecia responder �s perguntas que eu pensava. Nesse instante o notici�rio falava sobre um cachorro louco de extrema periculosidade e explicava com detalhes como ele deveria ser tratado caso o encontrassem. Minha m�e, nesse momento era o cachorro louco e eu acreditava que todos n�s sab�amos: eu, Matilde, Val�ria, meu pai, inclusive os jovens, os tr�s filhos de Val�ria e a filha... Os filhos de Val�ria: Alan bonito e meigo, o primog�nito Carlos e o ca�ula Paulinho jogavam baralho com Matilde na sala de jantar que dava pra sala de televis�o onde estava meu pai. Todos pareciam estar atentos ao notici�rio sobre o cachorro louco, no perigo que est�vamos correndo. Em minha mente a loucura era a pr�pria realidade. Com medo do perigo que todos n�s est�vamos correndo percebi que minha m�e agora na cozinha sentia-se amea�ada devido a sua grande perspic�cia, inclusive porque eu pude perceber, com minha extrema habilidade perceptiva, (nesse momento era assim que eu me sentia, como se eu fosse a mulher maravilha, com uma sensibilidade al�m da conta...) que ela olhava para Matilde desconfiada, � filha querida que sempre foi sua c�mplice. Eu, esgueirando a vista de um lado a outro conversava telepaticamente com todos tentando escapulir das investidas de minha m�e, pois afinal ela era o cachorro louco. E o assunto era como dever�amos agir para enfrenta-la e acalma-la. Todos juntos contra minha m�e. Lembrei-me de Hitler e tudo em meu pensamento parecia se encaixar; lembrei-me de Anita e a vi como num filme: ela a neta preferida de minha m�e com dois anos arrastar o p� direito ao andar, parecia na verdade carregar um certo peso, pois n�o tinha nenhum tipo de problema nas pernas nem no p�; pensei que talvez pudesse ser o peso da direita que minha m�e me falava que deveria ser vivenciado. Essa neta, a filha de J�lio que sempre foi muito ligado a minha m�e assim como Matilde. Pena deles! Acreditei...T�o confinados as verdades de Hitler. N�o poderia nesse momento ir alem e analisar melhor os fatos, minha loucura conclu�a isso. Pensava na forma de amor que havia aprendido com minha m�e e sentia um agarrar no peito, um matar a todo instante aquilo ou aquele que n�o fizesse as coisas direito, ou melhor, que ela n�o considerasse direito. Nesse momento senti falta de Marieta (a cozinheira) que estava de viagem para Minas, perto dela tudo para mim estaria melhor, pois eu nutria por ela um alto grau de confian�a; ela que amava tanto minha m�e, que trabalhava h� vinte anos em sua casa e que ultimamente j� n�o sabia direito onde estavam as coisas, rodopiava pela cozinha, entrava nos ambientes da casa onde estavam todos sem saber direito porque e depois acabava se lembrando entre os risos dos presentes que deveria ter levado o caf� e que havia esquecido; chorona, reclamava muito, mas n�o conseguia sair da casa de meus pais. Para mim ela era aut�ntica demais, uma companheira desde quando eu era crian�a; todos sentiam muito carinho por ela. Mas minha m�e que parecia sentir-se perseguida deu-nos boa noite e foi para seu quarto.Todos assentiram com a cabe�a sem, entretanto lhe darem muita confian�a, afinal todos n�s est�vamos atentos ao perigo do cachorro louco. Ela foi para seu quarto, mas logo voltou, sentou-se a mesa na minha frente e olhou-me com ar de coniv�ncia como querendo me dizer: deixa essa gente toda comigo. Come�amos a jogar baralho eu, ela e Paulo ca�ulinha de Val�ria. Eu estupefata mal podia respirar, minha m�e jogava surpreendentemente bem. Tentei seguir seus olhos, sentir em mim sua intelig�ncia j� que na minha loucura tudo parecia poss�vel. P�xa! Era demais. Quanto eu aprendi e quase tombei. Eu n�o podia ag�entar. Larguei as cartas. Matilde que jogava com Val�ria ao lado, na mesma mesa, estava ao contr�rio do que era seu costume, muito � vontade com ares de independ�ncia e apoiada por Val�ria n�o deu a m�nima aten��o a nossa m�e, um certo desprezo no ar, ou mesmo um certo deboche, bem t�pico dela, quando est� de bom humor. |Nesse momento absoluto de tens�o, onde nossa m�e percebia uma situa��o amea�adora, um amea�ador choro irrompeu na sala, vindo do quarto onde dormia Leda, filha ca�ula de Matilde. Essa irm� tremendo, espantada levantou-se rapidamente pegou sua filha e a entregou para Hitler e ele disse:- � preciso que ela vomite e enfiou os dedos na garganta da menina para que ela vomitasse. Matilde estremecida voltou a ser a filha fiel de sempre com ares de sofredora. Meu pai logo se levantou e foi dormir; eu bem depressa segui seus passos e tamb�m fui me deitar. Durante a noite tive pesadelos com brinquedos e brincadeiras que me assustavam. De madrugada acordei com os passos de Valeria no corredor; depois escutei a porta do banheiro fechar e novamente se abrir. Uma inquieta��o na casa, um clima de ansiedade no ar; eu por minha vez assombrada com os pesadelos que me assaltaram pulei da cama e fui ter com Valeria, pensei...J� que ela estava acordada seria bom encontra-la e trocar com ela algumas poucas palavras, mas qual n�o foi minha surpresa que ao me levantar tudo estava calmo, n�o havia ningu�m andando na casa e t�o pouco havia algu�m no banheiro ou algum sinal de que por l� havia acabado de sair algu�m.Um tanto atordoada fui ao quarto de Val�ria para tirar a limpo, talvez ela estivesse acordada; meti a m�o na ma�aneta e a porta estava trancada ent�o forcei a ma�aneta e gritei: -Val�ria, Val�ria. Ningu�m respondeu; lembrei-me que Val�ria havia dito � Matilde que algu�m perseguiria aquela noite, um medo terr�vel tomou conta de mim fazendo-me gritar mais alto: - Val�ria, Val�ria! Mas n�o houve respostas ent�o deduzi que Val�ria estava amedrontada tamb�m, mas comigo e que mesmo acordada n�o estava me respondendo. Decepcionada corri ao quarto de meus pais e chamei meu pai.Ele estava acordado e tranq�ilamente disse-me que eu n�o devia ter medo dos brinquedos e eu n�o pude entender como ele soube dos meus pesadelos. Ele dizia quase dormindo:- S�o apenas brinquedos, brincadeiras. Voc� tem medo disso?E eu agoniada lembrei de minha m�e, que era ela quem brincava me assustando nos pesadelos e pensei que meu pai deveria saber algo mais do que eu poderia supor sobre a sua mulher, mas mesmo assim confusa e amedrontada pedi para ficar l� com eles um pouquinho. Alguns minutos foram o suficiente para que eu voltasse ao meu quarto junto com Eva e Laila que ressonavam transmitindo-me uma certa paz, tranquei a porta do quarto assim como Val�ria e dormi segurando meus p�s. 13 No dia seguinte, na casa, um clima de quartel. Eu estava num quartel, tinha certeza disso. Hai Hitler! Uma for�a poderosa tomou conta do meu peito direito. Todos na casa andavam como se estivessem andando num quartel. Um quebrar bem l� dentro do peito direito do�a e gritava Hai Hitler! Ordem! Tudo deveria estar no seu devido lugar, mas eu n�o sabia qual realmente era o lugar em que tudo deveria estar, ent�o feito alucinada eu procurava em minha mente algo que me aliviasse daquela tens�o. Minha m�e levantou-se da cama e todos da casa estavam tensos. � ela pensei...Que est� nos controlando com sua for�a da direita, ela � Hitler meu Deus, minha m�e foi Hitler na outra encarna��o, mas ent�o eu fui Nietzsche. Hitler...Continuei pensando, completamente, absurdamente estupefata... Leu Nietzsche, mas n�o o compreendeu, utilizou-se de sua filosofia de forma ego�sta, retirando dela somente o que queria que fosse e n�o o que realmente era. Meu Deus, mas eu sei que Hitler amou Nietzsche, mas eu estou louco, sentindo e vendo coisas absurdas. Sentia-me um homem. 14 Antes, bem antes de eu me tornar Nietzsche e minha m�e Hitler, antes que meu pai fosse a bailarina, minha m�e, �s vezes era santa e outras o pr�prio dem�nio. Pensei mesmo ter visto, v�rias vezes, ela fazer milagres. Um dia me senti muito mal, como se eu tivesse sido invadida por uma for�a sobrenatural em que j� n�o sabia mais quem eu era, em que pensava ter perdido completamente a minha individualidade. Nesses momentos eu agia como se fosse Matilde crian�a, representava como num teatro, para minha m�e e ela sabia... Percebia que �eu era Matilde�, pelo menos eu acreditava que ela soubesse, pois ela me tratava com um amor diferente daquele que ela me dedicava normalmente; nem maior, nem menor simplesmente diferente; �s vezes ela me dava algum rem�dio e me dizia:- Toma tudo at� o fim; mata!Na realidade eu sabia que estava curando minha irm�, que cresceu t�o seca, t�o dependente emocionalmente da nossa m�e; sempre atr�s da m�e, porque na verdade ela n�o podia expressar seus sentimentos verdadeiros, por se sentir reprimida e por isso sofria. Era dessa forma que eu a sentia nesses momentos em que acreditei ter vivenciado situa��es doentias de sua personalidade, ainda em desenvolvimento, mas que estava no meu entender bem viva dentro dela ainda. Ela que foi a �nica filha amamentada at� mais de um ano, com todo amor, por nossa m�e, que talvez se tivesse sabido lidar com a depend�ncia dela na inf�ncia teria agido de maneira diferente, libertando a primog�nita de seus la�os maternos, dando-lhe a liberdade de poder ser s�. Pode ser tamb�m que minha an�lise n�o seja coerente e que analisando assim eu esteja tirando de Matilde aquilo que � seu em �ess�ncia� e culpando erroneamente nossa m�e.Porque sempre foi, de verdade, uma depend�ncia m�tua, uma pela outra; somente pensei que minha m�e por ser a m�e deveria saber mais. Matilde sempre escondendo seu verdadeiro eu, usando m�scaras e tentando mostrar uma seguran�a t�o distante da realidade dela, tamb�m sempre foi incapaz de chorar. Tratou-me com tanta indiferen�a na praia dos Sete la�os que beirou o sadismo... Num determinado dia eu a puxei para meu quarto e a s�s com ela abri meu cora��o, lhe pedi piedade, amor e ela secamente respondeu-me que nada poderia fazer por mim e me vendo chorar desesperadamente olhou-me friamente nos olhos e disse-me:- E eu que nem sei mais chorar. E saiu do quarto me deixando em prantos sozinha, logo mais na sala l� estava ela aos risos conversando com minha m�e e Valeria e quando olhei nos seus olhos ela rapidamente desviou o olhar para minha m�e com cumplicidade. Minha m�e era capaz de me tornar s� quando ela assim o desejasse; o que queria dizer que dependia do desejo de minha m�e para que eu pudesse ser Jennifer, ou seja, eu mesma. Por isto acreditava que ela era capaz de fazer milagres, tamanha era minha confus�o mental, pois dependia do seu querer a minha recupera��o. Mas o pior � que ela n�o desejava minha sanidade, talvez porque eu n�o lhe suprisse, algo seu, interiormente, que necessitava e por isso preferisse Matilde crian�a, assim ela poderia recuperar sua filha querida esquecendo-se um pouco da presen�a da filha ca�ula cheia de si e de felicidade transbordante. P�xa vida, mas e eu? �s vezes ela me fazia lembrar que eu era Jennifer, quando me tratava como tal, quando ela precisava de um descanso, ent�o eu sentia-me bem normal e saia para praia, para o clube; sai enfim da pris�o. Essa minha teoria se concretizava cada vez mais � medida que percebia que Matilde estava melhor, bem melhor que antes. Todos ganharam muito com a minha loucura, e o pior � que sabia disso, mas n�o podia evitar que os acontecimentos se dessem dessa maneira com minha completa submiss�o e entrega. Jamais me entregarei a eles novamente. Foi uma grande li��o. � l�gico tamb�m que de tudo se tira um pouco e eu tirei para mim nessas experi�ncias tudo que pude para o meu crescimento... 15 J�lio em minha mente era o quiasco... Quiasco, e no meu peito uma dor raspada, apertada que me tirava o ar quando ele me olhava com olhos penetrantes que pareciam me dizer eu vi! Viu. O que ele viu? E percebia um �som mental� quiasco, quiasco e aquela dor t�o forte que penetrava meu peito materno que somente queria amar Eva e viver pleno de paz; mas o quiasco tamb�m era um invasor que n�o pedia licen�a para penetrar naquele meu mundinho t�o particular. Solange, por sua vez, em seu estado normal, quer dizer entre haspas n�o �? Porque na verdade ela nunca esteve num estado normal; a filha mais bonita de meu pai, pelo menos ele a achava. A paix�o de meu pai por ela era rec�proca e por todos n�s tamb�m porque no fundo o que sempre nos moveu foram �s paix�es. Era normal para nosso pai toda e qualquer paix�o, s� vivia em estado de paix�o e nos ensinava a sermos assim tamb�m. Afinal, ele, o homem t�o maravilhoso de lindos olhos azuis, de intelig�ncia de g�nio era nosso pai e por isso o nosso exemplo, amor e guia. Nossa m�e nesse contexto poderia ser a bruxa que maltratava com seus ci�mes apaixonado toda harmonia de amor que nosso pai nos ensinava, com sentimentos sublimes de grande efeito colateral aos cora��es fracos, nos surpreendendo a cada dia. Mas � �bvio que essa forma apaixonada de ser de meu pai tinha a ver de certa maneira com a paix�o que minha m�e nutria por ele. Bom, meu pai amava Solange, ele sempre a achou linda e tamb�m desinibida e carinhosa; mas pra Solange n�o deve ter sido f�cil carregar esse �fardo� (da filha mais bela), principalmente quando os anos v�o se passando e nossa beleza tamb�m. Fora isto, a mulher para nosso pai seria a intoc�vel, de fortaleza sem igual cujo poder paterno ficaria a deriva, deixando o homem que ele simbolizava no sentido mesmo universal da palavra, subjugado a seus p�s, frente ao comando da mulher fatal. O que poderia restar ent�o para Solange sen�o ser o que ela hoje � vivendo t�o longe de si mesma e dos seus reais sentimentos, principalmente dos mais nobres, pois se � vergonhoso ser humilde onde o orgulho de ser a mais bela filha � o tra�o mais forte de seu car�ter, independente do que se possa mudar exteriormente nela, o interior parece lutar para que essa pseudoverdade determine suas palavras e seus atos. Eu, por minha vez, a ca�ula das mulheres, sempre fui a humilde por excel�ncia, a boazinha, bobinha, amada sem �mpar. Sempre fui amada como menina e por isso n�o cresci interiormente como mulher, sentindo-me, no entanto bonita, mas sem a menor possibilidade de me tornar uma mulher aut�ntica, independente. Sempre buscando em mim o amor pleno e est�vel que me reconfortaria de toda aquela balb�rdia de sentimentos e emo��es vividas na inf�ncia e no in�cio da juventude enquanto morava com todos eles, das quais eu n�o poderia ainda compreender. � medida que crescia meu pai puxava-me pela cabe�a, ou seja, pelo intelecto; talvez ele detectasse j� em mim a minha tend�ncia natural... E hoje sou uma intelectual crescida, mas meu cora��o infantil � cheio de mimos e sei chorar. Orgulho-me de ser o que sou e da fam�lia que tenho, no entanto eu ainda sentindo-me como crian�a, quero crescer s�. Utilizei meus conhecimentos de filosofia, psicologia e arte, para me expressar dentro da minha fam�lia que pareceu a mim na praia dos Sete la�os completamente estranha. Na verdade o que houve talvez tenha sido � falta de aceita��o de uns para com os outros. Parecia que fug�amos a todo instante de n�s mesmos; buscando sempre um prazer maior que poderia estar no outro, e neste caso estava em mim, e eles para conseguirem o meu prazer foram capazes de tudo, esquecendo inclusive que a base da felicidade est� no amor que compreende o outro e o v� e o aceita como ele �, ou n�o aceita at�, mas de forma coerente e verdadeira e principalmente esqueceram-se de mim nesta tentativa de roubarem a minha felicidade rec�m despertada pelo nascimento de Eva, esqueceram-se da minha luta pela vida, do quanto naquele momento eu necessitava deles, do quanto eles eram importantes para mim. A luta pela sobreviv�ncia sem o niilismo nietzschiano em que as for�as em quest�o s�o os grandes prazeres e as hist�rias de seus autores na vida cheias de guerras e amores. Talvez este problema seja universal e n�o s� da minha fam�lia. Porque todos os problemas, por pior que possam parecer, eu sei l� bem dentro da minha consci�ncia, bem ainda escondido dela, que sempre acabam dando certo, de uma ou outra forma, como num jogo de xadrez, que quando termina, independente de quem ganhou o fim dos problemas enfrentados durante o jogo terminam, os jogadores cresceram em mais uma viv�ncia e experi�ncia e a esperan�a de um novo jogo em que o perdedor pode se transformar em ganhador faz o mesmo sobreviver sem danos.Ent�o gra�as � intelig�ncia e sensibilidade de todos na nossa fam�lia, eu sei, ou assim espero, tudo no final das contas acabar� um dia dando certo. Mesmo eu saindo derrotada, prestes a parir um mundo novo onde minha fam�lia j� n�o possa mais fazer parte diretamente; em que da� pra frente tudo, acredito hoje, ser� mais f�cil na minha vida tamanha desilus�o frente �quilo que era a coisa mais importante da minha vida: eles. 16 No in�cio, quando eu ainda estava bem, l� na praia dos Sete La�os, saia o dia todo com Eva; nad�vamos muito; eu pintava enquanto curtia a natureza. Estava sempre com minha filhinha e as empregadas ou com as crian�as e tamb�m com os jovens cheios de vida. Mas dei mesmo com os burros n��gua quando tentei me relacionar com os adultos da fam�lia. E as coisas pioraram mesmo pra valer quando Matilde retornou a casa de nossos pais para o Ano Novo, eu conversava com ela e ela simplesmente n�o me respondia e acontecia o mesmo quando eu me dirigia a minha m�e, ela tamb�m n�o me respondia. Doen�a cr�nica pensei... Disse a elas brincando que n�o conhecia essa nova moda de relacionamento, que ent�o passaria a agir assim tamb�m e que n�o responderia mais nada quando algu�m viesse me perguntar algo. Matilde n�o gostou da brincadeira e emburrou feio sem, no entanto falar nada. Eu dei de costas, mas meu bom humor come�ou a acabar assim como minha consci�ncia de mim mesma. Talvez penso hoje, que Matilde seja mesmo ruim, a pior de todos; foi ela quem fez minha m�e me aprisionar, a palavra certa para aquilo que eu sentia seria acorrentada; assim eu me sentia; meu corpo possu�do, controlado, n�o me deixando escapat�ria por se mais forte que eu; a inveja de Matilde por minha felicidade foi muito grande e eu n�o tive for�a suficiente para suport�-la s�; para continuar a ser feliz. Nessa situa��o minha compreens�o fundamentada no amor pela vida sucumbiu frente aos ci�mes dessa irm�, ao seu orgulho sem fundamento em que sua condi��o de primog�nita gritava mais alto dentro dela; ningu�m nesta fam�lia poderia ultrapassar seus limites de entendimento e aceita��o, e no meu entender t�o egoc�ntricos! Eu posso inclusive entende-la e am�-la hoje, apesar do ressentimento profundo que me atingiu, mas n�o poderia jamais aceitar sua filosofia de vida como sendo a minha. No entanto em nossa fam�lia ningu�m est� muito preocupado em acertar na vida realmente, naquele sentido mesmo do qual procurei tanto durante a gravidez de Eva; do ponto de relacionamento entre os seres, uma vida real cheia de comprometimento, consigo e com o outro. Penso tamb�m que as coisas s�o como s�o e tudo est� certo como est� por motivos na maioria das vezes invis�veis aos nossos olhos. Assim me tranq�ilizo acreditando que neste grande palco da vida cada um representa o seu papel e que todos somos parte do todo em que o bem e o mal fazem parte, e que tudo simplesmente �; assim fujo da trag�dia e por momentos uma onda de amor, simplesmente uma onda de amor passando sobre mim, acalentando minha liberdade moment�nea, ap�s aqueles malditos dias. Todos meus familiares s�o s�os, porque na verdade ainda n�o existe sanidade verdadeira entre os homens. Assim penso... A ra�a humana ainda luta pela sobreviv�ncia. Porque n�o acredito que Matilde tivesse consci�ncia daquilo que realmente eu estava passando, nem desejou tanto. O que ela gostaria, acredito, � que eu fosse embora da casa da praia o mais breve poss�vel, mas deu no que deu e ent�o ela se aproveitou da situa��o.Foi isso, acabou competindo comigo e ganhando quando na verdade eu somente me entregava a fam�lia; mas hoje estou aqui, consegui sobreviver. Sei tamb�m que saindo da vulgaridade, ou seja, saindo da realidade dos sentimentos corriqueiros cotidianos em que a car�ncia da falta de plenitude ainda grita em nossos peitos, posso perceber toda situa��o de uma outra forma, com outras palavras: que Matilde n�o tem culpa de ser o que ela �, que cada um � o que �, ou aquilo que pode ou consegue ser; ela com certeza deu o m�ximo dela para acertar dentro de sua pr�pria �tica e filosofia de vida. Ela foi art�fice de seus atos o que gerou e gerar� conseq��ncias exatamente proporcionais. Quanto a mim pe�o a Deus para que um dia eu possa perdoa-la; para ela, talvez, se sinta vingada e feliz por algo que eu jamais poderei entender. Como seria bom... Pensava naqueles dias, inesquec�veis, na casa de meus pais...Se ela se transformasse naquela irm� que eu amava tanto quando eu ainda era uma crian�a. Em meu �ntimo sabia que poderia dar muito de mim por ela, ou melhor, j� estava dando; est� bem que n�o houve outra alternativa. Nesse nosso jogo, como num jogo de xadrez, eu fui desbancada, o meu amor perdeu frente ao �dio do tirano advers�rio; mas no meu entendimento tanto o ganhador como o perdedor trocam entre eles, for�as humanas e o que vale simplesmente � a troca vivenciada do ser consigo estando com o outro, vendo o outro e vendo a si. Bem, eu podia crer que n�o foi o fato de ter praticamente enlouquecido, que me faria rever ou descordar da minha �obra prima�, que acreditei ter escrito durante a gravidez de Eva; pelo menos ainda me restava essa �nica alternativa para continuar vivendo sem perder o breve fio da minha consci�ncia: idealizar um mundo melhor e acreditar que ele poderia ser vivido realmente. Quanto ao �quiasco� sentido: o eu vi t�o silencioso e invasor de J�lio. O asco frente � realidade nua e crua de tudo o que ele podia enxergar e ver. Um nojo da vida ou talvez se saiba l� do que, talvez de uma verdade que o seu bom senso n�o pudesse mudar, mas tamb�m n�o pudesse aceitar.Um olhar penetrante cheio de sangue e dor; era assim que eu via meu irm�o. Somente a sensa��o e n�o o racioc�nio; somente a dor. Uma determinada noite eu vi um verme nojento rastejando pela sala, ent�o gritei e chamei minha m�e: _ Olha m�e esse verme nojento aqui na sala! Ufa...quiasco... Toda cheia de repudio e nojo eu mostrava a minha m�e a verdade nua e crua do eu vi de J�lio... O pior daquele piolho de cobra...Qual n�o foi minha surpresa ouvi-la calmamente me dizer: _ Deixa filha, at� amanh� ele j� foi embora, deve ter passado por debaixo da porta... Nesse momento uma luz se ascendeu em minha consci�ncia. Meu nojo perdeu, frente � grandiosidade de minha genitora...Como ela poderia suportar o quiasco assim como Julio! Que capacidade meu Deus! Que capacidade! Eu a amava, na verdade eu sempre a amei. Ela era capaz. Pensava...Se for preciso morrer por sua felicidade, morrerei sem pestanejar; ela � grande. Sempre me ensinou a todo instante poss�vel como as coisas s�o.Foi capaz de segurar o meu nojo daquele verme rastejante, quando tornei a olhar o piolho de cobra ele j� n�o era t�o perturbador para mim. 17 Todos n�s l� na praia dos Sete La�os em alguns momentos soubemos daquela verdade estonteante: convers�vamos telepaticamente o que quis�ssemos; todos sempre prontos a participar daquela angustiante roda girat�ria sem fim em que um perguntava mentalmente ao outro algo, e esse outro respondia perguntando a outro, que dava continuidade perguntando a outro, que respondia e assim por deante. J�lio perguntava em mim e eu respondia em meu pai que perguntava a minha m�e, que recorria a Matilde que chamava Val�ria que falava com Solange que recorria a meu pai que vinha a mim. Isso sempre num fio constante, telepaticamente.Marieta tamb�m participava ativamente dessas nossas conversas... Logo que chegou de Minas percebeu algumas diferen�as nos h�bitos da casa. Alice a empregada de Solange, que n�o saiu da praia dos Sete La�os fazia j� parte de nossa brincadeira desde o in�cio. Tudo acontecia intuitivamente; at� a mosca que sobrevoava meu rosto era um alerta para eu n�o dormir; uma atmosfera densa, pesada mesmo percorria toda casa.Meu pai parou de ficar o dia todo na biblioteca; minha m�e tamb�m deixou de se dedicar tanto aos afazeres dom�sticos, andava muito, ia para o centro da cidade com Valeria e Matilde; Solange sempre na praia sozinha ou com Renata. As crian�as brincavam ora em casa, ora na praia tamb�m. Eu sempre em casa, jamais saia, deitada ora na rede, ora estava na sala, ou na cozinha, sempre a me ocupar com alguma coisa qualquer. Meu pai possu�a grandes poderes; est�vamos no Olimpo, ele era Zeus que necessitava do calor e da aten��o de todos para sobreviver e comandar. Todos depend�amos dele, da sua satisfa��o e felicidade. Matilde sabiamente resolvia grandes problemas para que mantiv�ssemos a harmonia t�o fr�gil; resolvia ent�o os ci�mes que Solange nutria por mim de maneira que resolvidos os conflitos pud�ssemos satisfazer mentalmente meu pai. Soube ent�o naqueles momentos que seu poder podia ser utilizado a meu favor quando ela quisesse; mas ela n�o queria; na verdade aquela atmosfera no�tica, suprema era de fidelidade a Zeus. Solange como G�rgona, a bruxa lend�ria, perigosa e mal�fica que me odiava e queria me matar e por sinal algumas vezes quase conseguia. Eu podia sentir claramente seus poderes de vil�. Uma fuma�a preta me invadia todo o corpo e eu me tornava muito feia; seu olhar parecia querer roubar o meu eu, minha ess�ncia e transformar-me na pr�pria falta, sem nada, oca e disforme. Um perigo mortal, eu precisava ter cuidado para n�o olhar nos seus olhos. Eu tamb�m era uma deusa, a deusa do amor e da conc�rdia, tinha por finalidade sempre estabelecer a paz. Eu respeitava a todos e todos se respeitavam mutuamente, num jogo intenso de for�as poderosas. Toda nossa fam�lia descendente de Zeus. Meus filhos e sobrinhos todos descendentes do grande e poderoso deus. Haviam tamb�m aqueles preferidos, cada m�e protegia e lutava pelos seus filhos. Solange lutava a favor dos dela, mas tamb�m amava os meus. Por isso, dentro de seu limite de autoridade dava e tirava poderes, de acordo com seu senso parco em justi�a que fazia pesar na balan�a �quilo que considerava ser do seu pr�prio interesse, interesses, ao meu ver, f�teis, sem profundidade, sem finalidade �til e real na maioria.N�o se preocupava com a harmonia, ao contr�rio, parecia n�o estar participando conscientemente do fio telep�tico que nos unia. 18 Hoje ap�s tr�s semanas, as lembran�as tornam-se distantes, muitas coisas aconteceram aqui na metr�pole, nesse meio tempo. Ainda sinto medo, �s vezes uma ansiedade exagerada, mas consigo controlar-me; tenho por isso certeza de que estou bem, somente n�o quero por enquanto pensar na possibilidade de um dia voltar a praia dos Sete la�os... Lembro-me da noite dos vampiros. Foi depois de uma crise de loucura, de um dia muito agitado. Acordei num quartel, sentia-me espiada; eu corria realmente perigo, minha m�e vigiava-me a qualquer dist�ncia, ela sabia tudo que acontecia nos quatro cantos da casa e eu n�o podia pensar na possibilidade de estar s�, eu comigo, como fazia quando meditava no meu apartamento em S�o Paulo, pois ela estaria l�, sempre l� a me vigiar e perseguir. Nesse dia eu acordei zonza e confusa, inclusive j� havia parado de tomar os rem�dios que o Dr. Ciro, psiquiatra da cidade havia me recomendado, atendendo ao pedido de meu pai, para que eu pudesse me acalmar.Mas talvez por seq�ela dos rem�dios, eu n�o conseguia por mais que tentasse coordenar minhas id�ias; n�o havia em minha consci�ncia um ritmo linear, natural, que me fizesse tomar atitudes corriqueiras e cotidianas; eu zanzava pela casa, simplesmente zanzava feito Marieta, perdida, sem dire��o nem sentido; somente sentia um clima de suspeita no ar que rondava a todos, mas o mais incr�vel � que n�s todos est�vamos entrela�ados uns aos outros, todos ligados em algo superior de interesse comum, sem alternativas para uma outra viv�ncia grupal sen�o aquela da qual eu vivenciava e acreditava na participa��o de todos. Eu podia sentir, sabia na verdade que todos da casa estavam amedrontados, e alguns tentavam me ajudar com discri��o. Eu, por minha vez temia minha m�e, tinha naquele momento a certeza de que ela era capaz de �matar� se tudo n�o corresse do modo �certo�. O que significava que se as coisas n�o corressem do �modo certo�, ela poderia sofrer graves conseq��ncias da minha loucura, e eu acreditava nisso com todas as minhas for�as. Eu sabia tamb�m que eu n�o estava louca, mas l�, naquela situa��o e circunst�ncias eu cumpria esse papel, como uma atriz num palco, e isso somente eu parecia saber. Algo muito grave acontecia na nossa casa da praia. Todos andavam bem devagar. Val�ria dava-me a todo o momento dicas de como eu deveria fazer para agir �certo�, como eles; para que eu me tornasse �normal�, ou seja, para que eu n�o perdesse de vez minha identidade dentro da fam�lia e de mim mesma. Eu tamb�m sabia que deveria me precaver dos intrusos, Solange, por exemplo, torcia a favor da minha loucura e C�ssio sem ter muita consci�ncia do que acontecia me confundia mentalmente ainda mais quando tentava defender a tia me colocando na condi��o de vil� frente �s investidas grosseiras de Solange.Eu sentia-me triste por ele, culpada, gostaria que ele me deixasse em paz. Minha m�e parecia tamb�m n�o haver percebido com exatid�o o que acontecia; parecia sim sofrer muito, lavava a roupa ou se ocupava com outro trabalho qualquer e me culpava em pensamentos. Eu sabia disso, por isso eu tamb�m perigava morrer, cair na loucura completa. Pensava...Na verdade minha m�e � a louca, mas ela culpa a mim nesse momento tentando escapar da verdade, que ela no fundo sabe, mas agora ela n�o poderia aceitar esse fato, nem eu suportaria v�-la sucumbir, eu deverei ag�entar a culpa. A casa estava numa completa bagun�a, todos os cantos estavam bagun�ados, o que mostrava como todos n�s est�vamos desorientados frente aos fatos que se davam na casa da Praia dos Sete la�os, apesar de todos acharem que estavam agindo do modo certo e que somente eu estava descontrolada. Progressivamente a casa foi se tornando desse jeito.Meu quarto que antes estava sempre arrumado, agora era completa desordem: aquele meu canto antes de ref�gio foi descoberto, penetrado mesmo pela desordem, pela falta de equil�brio de todos. Mas todos se seguravam como se nada estivesse acontecendo. Ent�o naquele momento tomando a dianteira pensei...Que era preciso estabelecer uma certa ordem, tornar aquele quartel frio numa casa aconchegante, numa casa digna de n�s. De uma fam�lia normal sem Hitlers, Nietzsches ou bailarinas. Comecei ent�o estrategicamente a limpar meu quarto, bem devagar porque tudo era perigoso e nada poderia ser feito contra as ordens de minha m�e. Eu havia me entregado desde o momento em que l� cheguei, na verdade eu estava mesmo aberta para o mundo com o nascimento de Eva e por isso deixei meu cora��o e meu corpo entregues tamb�m a eles naqueles dias, fora Eva que eu j� nem mais via, nem mais percebia seu ser. Tudo l� na casa da praia, ou melhor, minha pr�pria sanidade, dependia da sanidade da maioria, n�o havia outra maneira, as coisas haviam caminhado daquela forma, e eu sabia l� no meu �ntimo quase que apagado que eu iria conseguir resolver aquela trama cheia de percal�os, da qual eu havia mentalmente me envolvido. Imaginei que estava num castelo e que eu era a Cinderela e por isso tinha o dever de trabalhar muito, limpar tudo, mas com cuidado porque minhas irm�s eram perigosas porque n�o possu�am por mim um amor verdadeiro e minha �suposta� m�e tamb�m que apesar de nada falar, por sua forma de agir tornara-se a madrasta da Cinderela. Eu sabia que vivia um teatro e que seria necess�rio ir em frente, pois era verdadeiramente vital para que eu pudesse encontrar uma sa�da plaus�vel...Que eu botasse ordem no peda�o bem devagar, que ningu�m percebesse, para que eu n�o fosse alvo de nada, que eu passasse por todos como nada. S� assim eu poderia ser eu, a Jennifer, mas eu sabia no meu �ntimo que eu s� poderia ser Jennifer, eu mesma, longe daquela casa e de todos que talvez sem perceberem me acorrentavam. Ela ou eu mesma, ou seja, Jennifer...Pensava...Nos tornamos o alvo das aten��es, uma aten��o desprovida de amor, ao contr�rio, cheia de �dio e inveja das minhas pseudoirm�s e atrav�s delas da minha m�e tamb�m, que havia se transformado nessas circunst�ncias na madrasta da Cinderela. Essa era minha realidade, uma situa��o em que eu n�o tinha mais for�as, mas dentro do meu peito uma ansiedade maior que a minha falta de for�a; seria preciso ser escrava...Pensava... Cinderela e arranjar aliados para conseguir superar a loucura que parecia ter abra�ado todos n�s, pois a loucura era da fam�lia, agora da rejei��o dela por Jennifer; rejeitando a fam�lia Jennifer existia bem quietinha, muda, o que se expressava era a loucura da falta da forma de n�o poder ser ela mesma.Na verdade eu deveria alcan�ar o nada, ser nada para me salvar das garras doentias da inveja e dos ci�mes, talvez da pr�pria humanidade, aqui representada pela minha fam�lia... Logo encontrei aliados. A primeira foi tia Val�ria; senti por ela uma amizade profunda. Ela j� possu�a por sua vez olhos de louca, seus olhos estavam mesmos arregalados e assustados, n�o se arrumava mais nem ia a praia ou a outro lugar qualquer. Mas ainda possu�a um fio de consci�ncia e eu podia confiar nela, sabia disso. Junto comigo passou a arrumar a casa bem devagar, me dava toques de como devia ser, de como eu devia agir para n�o despertar a curiosidade ou aten��o dos demais. Marieta tamb�m parecia me ajudar com cautela. Senti-me mais forte quando meu pai tamb�m pareceu perceber a situa��o e sutilmente trocou comigo olhares de coniv�ncia. Minha filha Eva jogada ao acaso, nas m�os de todos estava bem, era bem tratada; Laila parecia tranq�ila, em meu �ntimo sentia seu apoio; saia normalmente com as amigas, sempre de bom humor e confiante e C�ssio j� n�o me importunava mais. Os filhos de Val�ria me faziam companhia, e me apoiavam em alguns momentos dif�ceis; quando, por exemplo, minha m�e aproximava-se arisca para me atacar com olhares ou mesmo mortificada em si ou ainda com palavras. Matilde e Solange aproveitavam a praia como nunca, cheias de energia sem me darem a menor aten��o, indiferentes a mim.Minha tristeza e loucura a alegravam, ao contr�rio da minha felicidade que era alvo de cr�tica e mau humor por parte delas. Mas acredito ter errado, pisado na bola, pois nessa brincadeira de Cinderela acabei por chamar a aten��o de minha m�e; logo percebi que algo de errado havia acontecido quando senti no meu peito uma dor muito forte, igual a uma facada, seguida de uma falta de ar absurdamente sufocante. Eu sabia que meus pais e tia estavam sofrendo e eu, a louca, a culpada de tudo, precisava resolver este enorme problema em que havia me metido. Procurei ent�o por minha m�e para lhe dar um pouco de amor, achando que poderia acalm�-la como �s vezes acontecia e indo ao seu encontro olhei para seus p�s com carinho, pois sabia do enorme complexo que ela tinha pelas varizes adquiridas durante a minha gravidez, mas ele estava preste a morrer e nada naquele momento mudaria aquela situa��o. Em meu peito direito um quebrar forte, Hai Hitler, mata!Pensei...Minha m�e � louca, ela quer me matar, sentindo t�o profundamente aquela dor que me assolava o peito...Irei at� o fim. N�o h� rem�dio sen�o endoidar de vez, morrer se for preciso! Gritei, um grito de dor profunda, toda minha dor: daquela casa, daquela gente que sofria por mim ou por sei l� o que. Por minha m�e n�o ter paz, por meu pai n�o ter mais for�as, pelos olhos de Val�ria. _ minha culpa! Gritei._ Quero ir j� para o manic�mio. Internem-me vamos; eu sou louca. Ontem fui Nietzsche e hoje sou Hitler. Hai Hitler, Hai. Gritava em contin�ncia com toda for�a da alma de minha m�e. Ela me olhava estupefata; era ela a louca e eu a representava naquele momento, a sua loucura. Gritei com toda for�a do seu �dio. Meu pai calmo segurava-me fortemente querendo me conter; esperneei como uma crian�a mimada e gritei at� drenar o meu �dio, a minha dor gerada por aquelas malditas circunst�ncias. Minha m�e sem se dar conta da minha afli��o que era a dela pr�pria voltou para a cozinha me dando as costas e eu pensei... Matando em mim a dor dela, que eu compreendia e que me penalizava. Pensava que ela teria sido realmente Hitler, que nunca tivera o amor de uma m�e, ela, t�o dolorida; que era brilhante, surpreendentemente inteligente. Ningu�m, eu sabia, poderia supera-la e, no entanto ela era t�o triste, faltava-lhe o amor materno, de compreens�o jamais tida para ela apesar de minha av� materna ter sido enquanto viva t�o dedicada a fam�lia de oito filhos. Gritei t�o fundo e joguei para o alto a mesa de m�rmore que ela gostava tanto. Provava assim minha loucura.E Pensava...Que agora eles me levariam a s�rio, pelo menos na minha loucura, j� que a Jennifer sempre foi caf� com leite nessa fam�lia, que sempre foi literalmente usada por todos por sua ingenuidade e entrega que se esque�am da Jennifer e saibam que aqui... Gritava eu, dentro desse palco da minha vida..._Est� uma louca que precisa ser internada. N�o me larguem a s�s nesse momento, n�o me matem, me internem, eu preciso da ajuda por voc�s. Fui para rua pulando e gritando: _ Eu sou louca, eu sou louca, olhem-me...E me rasgando gritava com todas as for�as do meu ser: _Eu sou louca. Minha filha Laila e meu pai foram atr�s de mim, na cal�ada da casa e tentaram me acalmar. Acabei por fim me acalmando e comigo parece que todos. Minha m�e por sua vez continuava a fazer o almo�o como se nada estivesse realmente acontecendo. Nesse momento Val�ria conversou seriamente comigo, com ares de professora, na frente de todos, me aconselhando a manter a calma, tentando mostrar seguran�a, e eu lhe respeitei. Ela a �nica mulher, adulta e familiar digna de respeito, que carregava em si um pouco de amor. A mesa para o almo�o foi colocada por Marieta. Sentei-me em uma das cabeceiras; olhei para a mesa e vi a mesa repleta de asnos; minha m�e era o pr�prio boi Zebu. Toda comida cheirava a macumba, o frango inclusive me pareceu nojento, todos eram nojentos, a mesa era nojenta e eu como num ritual engoli o asco, o quiasco da verdade nua e crua daquele momento; todo meu asco engolido em pequenas garfadas de comida. Olhei em linha reta e percebi o perigo, tudo se cruzava, mata! E eu matava, trocava, quebrava a cada momento. Lembrei-me de Marieta riscando o ch�o em cruz quando caia uma faca ou garfo e quando eu lhe perguntei porque fazia isso ela me respondeu que era preciso, que minha m�e havia lhe ensinado, na verdade eu mesmo havia feito isso algumas vezes sem saber porque. Mas naquele momento na praia dos Sete la�os, todos juntos matavam, trocavam e quebravam em cruz, e faziam de conta que tudo estava normal, como se nada estivesse acontecendo. A casa estava um lixo, lut�vamos contra uma for�a maior que a nossa, era a do pr�prio boi zebu, minha m�e era. Tudo era perigoso: uma correria mental de todos em fun��o do mata! Pratos com restos de comida no ch�o da cozinha, como se Marieta e Alice n�o estivessem mais dando conta do recado. E um pensamento t�nue, sem fim na cabe�a de todos, uma corrente de pensamentos interligados e doentios. Eu sentia-me suja, meus cabelos engordurados e minha pele seca. Corri ao banheiro e tentei tomar um banho sem, entretanto conseguir; Laila me socorreu levando-me � su�te de meus pais e me deu banho na banheira, cuja �gua suja que l� deixei era verde, da cor da mata. Vesti ent�o uma roupa branca e lembro ter visto ao meu redor uma luz t�o branca, capaz de matar aquele clima de penumbra e morte que nos rodeava. Fui para sala e sentei-me ao lado de meu pai, logo recomecei a rodopiar feito um pi�o e a falar coisas sem nexo. Meu pai quieto somente assentia com a cabe�a. 19 Quantas lembran�as...Desconexas lembran�as. Eu, por minha vez, j� n�o mais me agachava como antes em fun��o de uma for�a maior que a minha, na verdade sempre todos agachavam muito, de cabe�a baixa trabalhando feitos formiguinhas, sem parar. Uma for�a que me fazia lembrar da ex-mulher de J�lio, quando ela freq�entava nossa fam�lia, ela sempre se agachava dando a impress�o que estava fazendo for�a, como se estivesse mesmo pronta a parir, ou como se estivesse segurando algo muito pesado entre as pernas. Meu pai por sua vez n�o suportava �a maldita� diferente de J�lio que parecia am�-la muito, sem se dar conta que a mulher freq�entava magia negra e que era trai�oeira etc e tal. Minha m�e a tratava muita bem; o que eu n�o conseguia entender direito porque nossa m�e que sempre foi submissa a meu pai, referente a algumas coisas n�o o era principalmente naquilo que dissesse respeito a J�lio, devido seu grande amor por ele, n�o o colocava na balan�a da justi�a de meu pai, pois para ela o filho tinha raz�o sempre, lembrando-me inclusive do mito grego que Zeus matara Cronos seu pai apoiado por Reia sua m�e, o que me deixa pensar que Young estivesse certo quando falou do inconsciente coletivo enunciado pelas origens; bom a� j� seria uma outra discuss�o que eu n�o gostaria de levar a cabo neste momento de minha vida em que relembro e relato os fatos, em que muros de medo se ergueram a minha frente, naqueles dias fat�dicos, que passei na praia dos Sete la�os. Na verdade nossa m�e sempre tratou a ex-mulher de Julio bem melhor que a mim e que a Solange tamb�m, com todo apoio de Matilde que era amiga �ntima da cunhada, diferente de meu pai, que apesar de ter tido uma educa��o muito en�rgica, cheia de moralismos acabou se tornando liberal, talvez por ter sido um grande jurista, um burgu�s mesmo intelectual, quase que sem resqu�cios daquela educa��o machista, em que a mulher era um ser inferior comparada ao homem; pelo menos tratava as filhas como iguais ou mesmo como superiores a ele; j� em rela��o � maioria das outras mulheres inclusive a nora e minha m�e as consideravam inferiores, cheias de instintos e pouca capacidade de reflex�o; assim referia-se, por exemplo, a minha m�e, quando ele presenciava atitudes irracionais, que poderiam ao seu ver refletir negativamente nas filhas queridas, podendo prejudica-las emocionalmente; quanto � nora para ele n�o havia nada que a salvasse, suas atitudes lhe pareciam interesseiras e nela n�o havia nada de natural e verdadeiro, o que com o tempo confirmou-nos ser a mais pura verdade quando descobrimos sua verdadeira personalidade. Minha m�e, entretanto e Matilde tamb�m continuaram a trata-la muito bem, mesmo depois da separa��o de J�lio; o que me fazia ficar com uma pulga atr�s da orelha e a desconfiar tamb�m de minha m�e e Matilde, mas acabava por acreditar que a tratavam assim por meu irm�o que continuava a respeita-la, mesmo depois que as m�scaras da mulher ca�ram ao ch�o deixando seu rosto nu mostrando seu real car�ter, o de uma mulher sem escr�pulos; talvez pensava... J�lio agisse assim pela filha Anita, para que ela n�o sofresse tanto quanto ele. Nosso pai sempre a tratou com certo deboche e ao meu ver com muita coer�ncia frente � realidade dos fatos. Ele por sua vez nunca foi perfeito possu�a alguns defeitos que eram vistos com transpar�ncia, por exemplo, nunca soube agradar uma mulher como um verdadeiro cavalheiro, ao contr�rio esquecia-se freq�entemente de detalhes que faziam minha m�e sofrer; n�s filhos sab�amos do sofrimento de nossa m�e por que ela sempre reclamava, contava-nos hist�rias passadas em que ele a havia machucado por alguma falta de aten��o a pequenos ou grandes detalhes; como por exemplo, uma vez em que ele a esqueceu gr�vida dentro do �nibus e acabou dando por sua falta quando j� caminhava pela cal�ada, voltou rapidamente e a encontrou entalada na porta do �nibus sendo ajudada pelo motorista. Essa hist�ria n�s (filhos) escut�vamos pelo menos uma vez cada tres m�ses, entre outras tantas...De um ano para c� nosso pai passou a dar mais aten��o para ela; passou mesmo a admira-la muito, talvez desde que mudaram para praia dos Sete La�os; eles pareciam felizes, nunca se largavam, mas juntos agora reclamavam dos filhos; claro que as reclama��es eram direcionadas principalmente a Solange e a mim porque minha m�e jamais admitiu que se falasse algo sobre Matilde e J�lio, e a tudo que direta ou indiretamente lhes pertencia, sendo assim eu a ca�ula que sempre amei Solange, que fui mais educada por ela do que por meus pais porque sempre me largaram a sua merc�, acabava levando por mim e por ela; quando, minha m�e reclamava dela, eu era sua advogada nunca admitindo que Solange fosse t�o errada quanto minha m�e gostaria de provar, j� meu pai oscilava entre minha opini�o e a de minha m�e acredito que ele tentasse ponderar as atitudes de Solange para diminuir o seu pr�prio sofrimento; Matilde, entretanto era pior que minha m�e, colocando Solange abaixo do p� da rua. Eu por minha vez nunca gostei dessa forma que Matilde agia pelas costas, mas tamb�m jamais fui capaz de entrega-la a Solange, tentando por panos quentes; entretanto hoje, quando sou eu a v�tima, Solange se agarra com unhas e dentes a minha m�e e Matilde contra mim e ainda piora a situa��o quando cheia de inveja envenena meu pai. Esta trai��o � por demais grande e penso que talvez eu n�o consiga nunca mais am�-la da mesma forma que antes. Por vezes penso tamb�m, p�xa...Que ela tem o direito de agora que eu sou para eles motivo de infort�nio, que ocupei de vez o seu posto, de obter um pouco mais de carinho de minha m�e e Matilde, afinal sempre foi ela a maldita, apesar de sempre ter amado muito Matilde, e sair dessa pra melhor dentro do �suposto� colo familiar n�o deixa de ser uma situa��o atraente para ela. Eu, por minha vez, tamb�m sofria por minha m�e e por meu pai quando sentia d� deles. Perguntava-me se era normal aquilo tudo quando via minha m�e em crise tomando atitudes excessivas, como por exemplo, quando naquele dia nefasto em que tentou se atirar pela janela, ou quando eu ainda crian�a a vi com uma faca na m�o, querendo mata-lo; dia em que desesperada sa� correndo a procura de socorro e chamei minha av� paterna que apesar de ser dona da casa onde mor�vamos morava nos fundos com meu av�; minha av� correu comigo para casa grande e quase bateu na nora, gritando muito; minha m�e me olhou e eu chorei de d� dela.Corri ent�o para o meu quarto que era tamb�m dos meus irm�os e pensei muito... O que havia de errado com meus pais E sempre foi assim, talvez muita paix�o. Porque hoje eles est�o t�o juntos, meu pai c�u e minha m�e terra. Lembro-me certo dia na casa dos Sete la�os em que meu pai estava sentado no sof� da sala olhando pro nada, um olhar vago, at� mesmo vazio e Marieta entrando na sala olhou para ele e foi rapidamente para cozinha dizendo para Alice que ela deveria esquentar o patr�o e que Alice se apressasse e fizesse um caf� e logo ent�o trouxe um caf� a meu pai e conversou um pouco com ele. Tive nesse momento um insight, pressenti que era necess�rio que minha m�e fosse t�o quente, no sentido mesmo dela ser furiosa para que meu pai vivesse quente, sen�o ele esfriava e morria. Marieta que era acostumada com os dois, afinal depois de 20 anos trabalhando para eles, agia de acordo com os costumes da casa geralmente controlados por minha m�e. Um outro dia tamb�m aconteceu de eu ficar boquiaberta quando minha m�e falava com Marieta enquanto segurava a m�quina de lavar que parecia querer voar, dizia que era para segurar o cora��o dele (de meu pai) e desesperada repetia: _ Segura, segura o cora��o do Leopoldo. E eu observava as duas penduradas na m�quina velha que queria sair correndo e minha m�e: _Segura forte, n�o deixa, olha o cora��o dele!Cuidado! At� que a m�quina milagrosamente ficou normal e passou a bater regularmente ent�o minha m�e e Marieta se afastaram da m�quina como se tivessem finalmente cumprido a imensa tarefa de acalmarem o cora��o de meu pai. Meio a minha loucura, mais tarde revelou-se, ficando muito claro para mim que nosso pai era capaz de alcan�ar n�veis estupendos de abstra��o. Possuidor de extrema racionalidade, mas tamb�m de um cora��o fraco, j� tivera alguns enfartos e no �ntimo era um nenez�o, muito mimado pela minha av�, continuava entre tapas e beijos sendo mimado pela minha m�e e por todos da fam�lia apesar dos contra. Com certeza nossa m�e sempre ansiou por seus olhos azuis que parecem exprimir o c�u, e haja ansiedade pra se chegar l�. Certa tarde l� na praia, um tio, irm�o de minha m�e foi visitar-nos; eu ainda sentia-me bem; eu estava no jardim esbo�ando uma pintura na tela e pela porta aberta da sala eu podia escuta-los e v�-los; meu pai conversava com meu tio. Houve um momento que meu pai sumiu, seus olhos pairavam no c�u. Observei bem seus olhos e lembrei-me dos olhos de Solange, imaginei que ele poderia estar pensando nela, algo de id�ntico entre os dois no olhar. Os olhos de meu pai ficaram gravados em mim ent�o fui mais al�m, sentei-me no jardim e olhei o c�u. O c�u estava baixo e forte. Um c�u t�o forte, denso e baixo. Percebi ent�o que meu pai alcan�ava grandes alturas. Nos dois dias seguintes continuei a ver o c�u baixo e eu amei muito meu pai por isso. Na verdade n�o queria separar-me dele para poder continuar a ver o c�u baixo, afinal era t�o bom. Acredito que Solange sentisse o mesmo e minha m�e tamb�m; s� que minha m�e como mulher dele tinha a obriga��o de mant�-lo sempre junto dela olhando o c�u. Talvez quando ela percebia que ele olhava o c�u por outros olhos que n�o fossem os seus sofria. Sempre arisca puxando para si seu homem. Houve bons momentos em que tive a sensa��o que meu corpo queimava com um fogo que ardia vindo das montanhas refletido na casa da praia t�o forte, insuportavelmente forte. Todos pareciam viver esta mesma sensa��o que vinha da uni�o de meus pais, para eles tudo parecia ser normal. Acredito que seja essa a vida deles dois s�. Um arder eterno. Talvez entre eles n�o exista mais sexo, o que exista seja esse queimar que se expande. Um casal maravilhoso, digno de uma filha louca. Entendo, no entanto que eu invadi o mundo deles, sem as suas devidas permiss�es, por isso era necess�rio eu me afastar e eu tinha plena consci�ncia disso apesar de tamb�m ter sido envolvida naquela teia de fatos, sentimentos e sensa��es...At� onde seria eu? Pensava ent�o na unidade, em Deus e finalmente no ponto, livro que acabara de escrever e que ainda era o centro da minha vida. Tudo aquilo que eu sentia e via me fascinava e ao mesmo tempo me inspirava medo, medo do desconhecido, mas era preciso saber, entender, ir at� as �ltimas conseq��ncias. 20 Na mesma tarde do dia em que tive uma grande crise de loucura, que sai na rua gritando, minha m�e e minha tia levaram-me para dentro de um t�xi; eu n�o sabia para onde �amos, pensei que elas estavam me levando para um m�dico ou talvez para um manic�mio, uma cl�nica qualquer de doentes mentais, mas n�o, elas levavam-me para um centro esp�rita n�o sei se era de umbanda, acho que sim; acreditavam que eu estivesse com algum tipo de encosto espiritual. Chegamos l� no tal centro. Sentei-me calada no banco gelado de cimento e ficamos esperando sermos atendidas: minha m�e, eu e minha tia; enquanto esper�vamos eu aprendia muito, pelo menos acreditava que atrav�s da minha vis�o alterada pela loucura eu aprendia algo sobrenatural.Logo que l� entrei num pequeno quintal, bem simples vi um bode amarrado, e quando eu o olhei firmemente interessada pelo inesperado, pois n�o imaginava encontrar l� um bode, ele come�ou a berrar: o mo�o que o puxava pela corda que estava amarrada no seu pesco�o dizia: _Essa vai ser dif�cil. Eu, dura como um pau, tensa, acreditei e achei que o berro do bode tivesse a ver com o fato de eu t�-lo olhado demais e ele sentindo-se invadido assim como eu me sentia, por exemplo, quando minha m�e ou Solange me olhavam desse modo, gritou! Achei ent�o que por isso o dono do bode havia percebido tudo e por isso disse que eu iria ser dif�cil, como se o meu encosto, que todos pensavam existir, fosse um ossinho duro de roer, dif�cil de ser tirado de mim e que eu realmente deveria ser tratada...Pensava sentada e quieta; num outro momento, sentia-me pesada, olhava para os p�s e era dif�cil ficar na mesma altura de todos, procurava-me encolher tentando diminuir meu tamanho que era absurdamente grande; isso tudo me esgotava e eu continuava a ser o centro das aten��es. N�o sabia como eu devia agir pra me relacionar com aquelas pessoas que estavam l� esperando como n�s; minha m�e por sua vez conversava com os presentes, mas n�o me largava um s� instante, ela estava dentro de mim. Meu p� estava preso, podia sentir isso, sabia que eu estava presa nela, na minha m�e que por sua vez trazia dentro de si Matilde...N�s tr�s estropiadas, que �ramos uma, que n�o �ramos ningu�m. Eu mal podia falar, mesmo assim, nessa pris�o, tentei me expressar, afinal estava l� para ser ajudada e acreditava ou pelo menos tinha esperan�a de poder melhorar. Levantei-me � frente de minha m�e, soltei meus sentidos e quase penetrei nela, quase cai sobre ela com a perna direita esticada para traz, presa. Eu era uma bailarina, eu era minha irm� Matilde, extremamente t�mida, presa a minha m�e nas entranhas. Eu era jovem, pelo menos assim me sentia: devia ter uns 12 ou 13 anos. Disse a minha m�e que eu era a bailarina, que eu era Matilde, ent�o ela assentindo com a cabe�a permitiu que eu continuasse. Estiquei minhas pernas e quase cai em espacarte, rodopiei com o corpo para direita e n�o pude parar: era preciso rodopiar, rodopiar sem parar. Val�ria que me observava com aten��o nesse momento disse-me: _ Chega Jennifer! A bailarina agora n�o! Parei sentindo-me presa ainda. Tinha medo de desagradar minha m�e, ela provavelmente estava passando vergonha, minha tia havia avisado-me para parar. Eu precisava controlar-me. Na minha cabe�a um pi�o que rodava e rodava; lembrei-me nesse momento, da filha mais jovem de Matilde que �s vezes punha-se a rodopiar voltas e mais voltas sucessivamente. Fui ent�o finalmente chamada para ser atendida por um homem vestido de branco que me p�s sentada e em seguida sentou-se em frente a mim pronto a ler b�zios, na sala pequena e abafada com cheiro de incenso, achei uma loucura que eu naquele estado fosse levada �quele homem para que ele me lesse b�zios, quem sabe numa outra situa��o eu at� gostasse, mas pelo amor de Deus pensei... Pouco pude falar, disse-lhe apressadamente, num desabafo, como se vomitasse as palavras pra mim t�o dissonantes e soltas naquele espa�o t�o sem sentido e amedrontada sem respirar falei que eu era fil�sofa, artista pl�stica e que eu estava h� algum tempo com meus pais na praia dos Sete la�os e que eu queria voltar pra minha casa na capital urgentemente e que ele deveria me ajudar. Ele pareceu me entender, olhando-me firmemente largou os b�zios.Chamei ent�o minha m�e, que estava � porta, como que lhe pedindo socorro, pois n�o suportava tamanha tens�o que se assolava sobre meu eu afobado e ela me devorando com os olhos entrou na pequena sala e ficou em p� atr�s de mim falando que j� n�o sabia o que fazer... Ele ent�o tentou acalma-la dizendo-lhe que eu deveria voltar para minha casa na metr�pole que seria muito bom pra mim. Ela estava furiosa e eu tinha muito medo. Sai e a deixei s� com o tal homem de branco.L� fora tinha um gato que dormia duro com as pernas para cima. Minha m�e que saiu logo atr�s de mim apontou-me o gato; eu gelei e um grande frio percorreu minha barriga porque nesse mesmo momento vi como uma lembran�a viva Anita, filha de J�lio repetindo Eva, Eva, Eva; como se houvesse intrinsecamente �quela situa��o uma amea�a e que o gato duro apontado por minha m�e furiosa e a lembran�a de Anita repetindo obsessivamente o nome de Eva pudessem me coagir, me tornar impotente frente ao meu medo de Eva ser atacada de alguma forma; assim me submetiam tiranicamente para que eu fosse instrumento deles e n�o Jennifer, dona de si, fil�sofa e feliz; nesse instante a imagem de Eva surgiu em meus pensamentos, eu tinha muito medo que ela sofresse conseq��ncias por tudo que n�s est�vamos vivenciando l� naqueles dias na casa da praia; olhei novamente para o gato duro pensando que ele poderia estar morto, mas ele sorrateiramente espregui�ou-se e levantou dengoso; em meu cora��o senti que Eva estava bem. Fui rapidamente para o quintal, onde estava o bode e l� vi surgir meu pai com J�lio que acabava de retornar e que vinha ao nosso encontro muito preocupado e ansioso, a fim de saber das �ltimas novidades a meu respeito, sobre meu estado. Em minha cabe�a, em meus pensamentos j� havia apelidado J�lio de Quiasco: o �nico filho homem de minha m�e, aquele que sempre engoliu o nojo, aquele que aprendeu a levar facadas. De imediato senti-me melhor, sustentei-me firmemente em p� lembrando-me do homem de branco. Mas em sua ansiedade eu vi J�lio empolado, orgulhoso como um galo e suas palavras para mim n�o tinham sentido, pois eu o ouvia como um galo cantador: _Co-c�-r�-c�-c�. O que? Por que? O qu�! Sem piscar, atento, curioso, exaltado. Sempre na mira. Fomos embora daquele lugar. Vivenci�vamos juntos um t�nue pensamento novamente: aquele fio de linha telep�tico...Est�vamos melhor, J�lio um pouco menos ansioso dirigia o carro de meu pai. Meu pai, minha m�e, Val�ria e J�lio estavam presentes comigo dentro do autom�vel de volta a casa da praia. Num ar de respeito m�tuo, naquela atmosfera t�nue pairava no ar um �deixa que agora eu seguro� vindo da seguran�a ansiosa de Quiasco.Todos pareciam acreditar, preocupados, que estavam resolvendo um problema extremamente dif�cil: eu. E eu preocupada em resolver um problema extremamente dif�cil e peculiar: eles... Chovia muito forte quando chegamos na praia dos Sete la�os, em casa e j� era noite.Consegui finalmente relaxar, deitei no quarto de minha tia, na cama de casal, fechei a porta e descansei alguns minutos. Levantei para ver se Eva estava bem; n�o me lembrava com quem ela havia ficado na casa enquanto est�vamos fora; conversei um pouco com minha tia e ela disse-me para ficar sossegada que tudo corria tranq�ilamente. Deitei novamente e fui assombrada por um vulto vampiresco: era o vulto de minha tia. Levantei-me rapidamente saindo do quarto, amedrontada e comecei a reparar em Val�ria; na mesa do lanche ao lado de meu pai e minha m�e ela saia-se muito bem, com um olhar profundo que sabia das coisas ela se portava entre eles como uma mulher. Eu a imitava tentando aprender...Um ar vampiresco percorria o castelo, que era nossa casa. Solange j� havia ido embora para capital juntamente com meu filho C�ssio, o primog�nito de Val�ria e Matilde tamb�m, e isto sem d�vida facilitava a atmosfera que era �mida, verde escura e tranq�ila. Quiasco logo percebeu que est�vamos diferentes e aquietou-se entre n�s participando do ambiente noturno e vampiresco, como num teatro, ele simplesmente entrou no palco atuando majestosamente. De in�cio quando chegou na casa, falava alto e tentava movimentar o ambiente, mas bem r�pido percebeu que era preciso o fio telep�tico da rela��o familiar calmo e horizontal para que todos ficassem bem. Minha filha Laila tamb�m era uma pequena vampira, o filho de Val�ria tamb�m um pequeno vampiro.Meu pai e minha m�e calmos. Tudo t�o calmo, t�o verde, t�o �mido. Minha m�e avisou-me que Eva iria dormir com ela, eu deixei apesar de sentir ainda medo de minha m�e; n�o sabia bem do que, afinal tudo estava diferente, mas no meu �ntimo sabia que aquela tranq�ilidade aparente guardava dentro de si algo que n�o era do meu Deus interior, aquele palco verde cheio de ares vampirescos n�o era na verdade o meu mundo e o de Eva aquele no qual est�vamos acostumadas a viver na capital, sim...Pensava...Tudo era teatro, est�vamos num palco, mas esse palco era o palco das nossas vidas; uma realidade irreal para minhas convic��es de fil�sofa. Bem, mas tudo parecia estar melhor, Matilde e Solange n�o estavam mais l� e eu haveria de me conter, de n�o ter mais crises. O nosso quarto, meu, de Laila e Eva havia sido inundado pelas �guas da chuva que penetravam pelo lustre, ent�o dormir�amos no escrit�rio de meu pai em colch�es provisoriamente espalhados pelo ch�o. Eu e Laila nos acomodamos aos colch�es a fim de dormirmos; Laila com sono n�o queria conversar apesar da minha insist�ncia. O clima verde escuro e vampiresco me amedrontavam. Eu sabia que todos tinham habilidades especiais, podiam sumir quando quisessem; inclusive eu possu�a essa habilidade ou mesmo, pod�amos virar morcegos. Minha imagina��o vivia tudo isso de forma intensa, se quisesse eu podia passar desapercebida: era s� pensar...Sou um morcego. Em segundos ent�o me imaginava voando, talvez um p�ssaro preto. Aprendi essa habilidade de virar p�ssaro ou morcego l� no quintal, onde o bode berrou quando eu o olhei atentamente, l� no centro onde o homem de branco nos atendeu, foi num momento de emerg�ncia em que aprendi a voar ou sumir; quando a situa��o apertava, quando meu medo tomava propor��es demasiadas grandes eu imaginava que sumia e ningu�m podia me ver e parecia dar certo, depois de muitas tentativas v�s eu havia conseguido, ent�o para me distrair �sumida� que estava, voava alto na figura de um p�ssaro preto. Mas � noite no escrit�rio escuro e verde sentia medo, n�o um medo absurdo como no centro, n�o estava sendo amea�ada diretamente por ningu�m numa situa��o sem escolha; ao contr�rio, meu medo era suave, mas constante. Temia J�lio, ele estava muito ansioso, apesar dele estar mais calmo do que quando chegou com nosso pai em S�o Crist�v�o, mas sua ansiedade ainda me mortificava, meu cora��o dava saltos. Eu sabia o quanto ele era ligado a minha m�e e minha m�e a todos e eu tamb�m temia minha m�e. Gritei em p�nico e olhei desesperada para Laila que estava ao meu lado, ela n�o se abalou absolutamente, continuou a dormir profundamente; meu irm�o correu ao escrit�rio em meu socorro e minha m�e andando r�pido pela casa n�o se importou com meu grito assustado; eu podia ouvir seus passos pesados por toda a casa. J�lio foi dormir comigo e com Laila no escrit�rio apertado de meu pai. A noite toda eu fiquei de alerta, n�o podia realmente dormir, sentia-me respons�vel pelo bom andamento da casa, devia sim protege-la. Talvez pensei...Que eu estivesse a tal ponto desagregada do meu eu que eu estivesse sentindo meu irm�o, aquilo que ele sentia por mim naquele momento, mas eu estava realmente mais calma com J�lio por perto...Pensava ent�o mais solta no que havia aprendido naqueles dias absurdos na casa da praia; sabia que aprendera muito, que podia com um piscar de olhos, ou com um movimento do nariz mudar os fatos quando estes n�o estavam ao meu ver retil�neos, numa ordem linear e natural, mas eu deveria manter a calma sempre e acreditar firmemente que eu realmente podia, assim eu fazia... Ser� que aquilo que faz�amos era feiti�aria...Pensava absorta, lembrando que eu havia visto sim, inclusive as crian�as praticando esta arte...Mas esta loucura t�o real tamb�m me assustava, essas revela��es de um poder t�o sobrenatural...Mas eu sabia que nada acontecia sem passar antes pela peneira, daquilo que realmente deveria acontecer para se manter a paz, ou para salvar a paz em momentos de guerra, aprend�amos o sobre natural para solucionarmos os problemas que j� n�o tinham salva��o; �ramos na verdade obrigados a aprender o que jamais poder�amos imaginar que fosse poss�vel, para sustentarmos a vida e n�o cairmos no caos devastador do desconhecido mundo da loucura do inconsciente; ent�o soberanos super�vamos a minha loucura que na verdade era do conjunto de todos que estavam na casa ou mesmo fora dela, mas que de alguma forma estivesse participando daquela roda viva de situa��es, o que me fazia novamente pensar no inconsciente coletivo de Young e de uma liga��o de todos com todos. Pensava que felizmente o meu Ponto, do livro que acabara de escrever estava vencendo e trazendo � tona coisas incr�veis, era preciso ir at� o fim e eu j� havia chegado l�, pois no dia seguinte iria voltar a capital. Eu havia conseguido superar a fragmenta��o do meu ser, apesar de estar ainda com a sensibilidade em carne viva, � flor da pele, mas eu sabia que iria superar, pois eu estava bem. 21 O dia seguinte foi incr�vel, na verdade um dia maravilhoso! O sol voltara a nascer branco e l�mpido. Eu estava bem melhor; arrumei minhas malas com capricho, entretanto estava dispersa, mas consciente, como se estivesse vivenciando outra percep��o diferente daquela que havia conhecido durante toda minha vida; andava pela casa e punha os objetos no seu devido lugar. Nesta busca de ordem acabei por notar que em cada canto da casa havia lembran�as de amor, mesmo no banheiro da su�te dos meninos havia porquinhos de pl�sticos rosas e amarelos espalhados de uma maneira uniforme e retil�nea. Vasos de flores colocadas ao acaso de uma forma bela. Em cima da cama de minha m�e uma desordem ao meu ver ordenada; encontravam-se l� os apetrechos da mala que ela esvaziou para me emprestar; sobre a cama um casaco antigo e um gorro de pele de lontra. O quartel havia desaparecido por completo. Na cozinha um cheiro bom de comida, Val�ria preparava uma boa sobremesa, por falta de bolachas de maisena utilizava p�o umedecido ao chocolate. Meu pai sentado na sala estava tranq�ilo, sumia quando queria; minha m�e arrumava as roupas no varal sob o sol claro. J�lio dormia refestelado ao sof� da sala ao lado de nosso pai. Os jovens jogavam baralho na sala de jantar, escutavam m�sica e riam moderadamente. Sem a mesa de m�rmore que eu havia quebrado no dia anterior a sala tornou-se espa�osa e arredondada. Eva no carrinho comia a papinha de legumes que eu lhe dava. De repente olhei para meu pai e vi Plat�o. N�o acreditei! Olhei novamente e l� estava o disc�pulo de S�crates, o grande fil�sofo grego, cheio de emp�fia e sabedoria. Pensei absorta...Que tudo agora parecia se encaixar, que Plat�o via S�crates foi � verdade o grande professor de Nietzsche e que Nietzsche de alguma forma influenciou Hitler...Houve mal entendidos entre eles, pois Nietzsche criticou a racionalidade de Plat�o, mas se n�o fosse essa racionalidade o fil�sofo moderno n�o poderia ter engendrado seu super homem que superou a racionalidade plat�nica ou socr�tica e se tornou livre, intuitivo, criativo; a crian�a dan�arina por excel�ncia... Surpresa eu pensava estupefata em Hitler que por sua vez amou Nietzsche, mas infelizmente n�o conseguiu entende-lo verdadeiramente, ao contr�rio, simplesmente decepou os pensamentos do fil�sofo alem�o em prol de seu pr�prio ser bestial pensante. Mas agora tudo parecia se encaixar...Pensava... Porque eu, Jennifer havia descoberto a minha identidade passada e mesmo que d�vidas existissem, n�o fazia mal, porque era assim que eu me sentia. Da mesma forma minha m�e, no seu inconsciente ela escolheu a figura de Hitler para se contrapor a mim, naquele momento de loucura em que eu dizia ser Nietzsche, porque na verdade houve uma identifica��o com seu estado de �nimo; nossas linguagens inconscientes foram sem d�vida reveladoras de nossas almas, mesmo que eu nunca tenha sido Nietzsche ou ela Hitler; mas agora meu pai se revelava aos meus olhos como Plat�o? Seria poss�vel meu Deus, eu poderia suportar tamanha emo��o no meu peito ainda convalescente... Talvez... Lembrando-me que o cora��o tratado por minha m�e e Marieta era o de meu pai e que ele deveria estar sustentando o meu nesse momento... Mesmo assim levantei tr�mula e fui para um canto da cozinha chorar, l� onde ningu�m podia me ver, uma grande emo��o invadiu meu cora��o. Meu pai era Plat�o! Meu Deus eu o vi. Voltei a sala e olhei para meu pai novamente e ele seguro, tranq�ilo me dava seguran�a de que tudo estava bem...Eu podia sim perceber que ele em sua maestria, sem a m�nima ansiedade atingia n�veis incr�veis de abstra��o e solu��es moderadas e iluminadas para tudo. Podia ao mesmo tempo perceber-nos todos e individualmente; telepaticamente arranjava solu��es plaus�veis para todos n�s. Na verdade ele devia ter tamb�m aprendido muito naqueles dias...E cortando o sil�ncio perguntei-lhe se ele conhecia o mito da caverna de Plat�o o que ele n�o muito entusiasmado disse-me que n�o profundamente, parecia preferir o sil�ncio, mas um sil�ncio preenchido do nous plat�nico, t�o estudado por mim...Mesmo assim insisti devido a minha ansiedade falando-lhe da minha grande admira��o pelo fil�sofo grego principalmente por sua Paid�ia, t�o bem apresentada no mito aleg�rico e que no meu entendimento desse mito, o meu maior medo era sobre a loucura que poderia haver dentro da caverna onde os homens acorrentados que s� viam suas sombras e que acreditavam estar vendo a realidade, mas que s� conheciam ilus�es, o mundo dos sentidos irracionais sa�ssem apressadamente da caverna em rumo ao sol e enlouquecessem, pois n�o tinham dado os devidos passos do conhecimento dentro da caverna , mas a ansiedade de atingirem a sabedoria e a felicidade era tanta que aos trambolh�es caminhando entre os s�bios que encontravam na caminhada rumo a sa�da da caverna, julgando-se espertos ou talvez por pura insanidade captando sinais do nous de forma doentia, prejudicando a jornada dos verdadeiros s�bios acabavam enlouquecendo e pereciam na dor e no sofrimento das suas ambi��es desmedidas. Que o verdadeiro s�bio que passava verdadeiramente pelo caminho do conhecimento percorrido dentro da caverna, da Paid�ia plat�nica, este sim veria a luz do sol a olho nu, cheio de verdade e felicidade. Exemplo disso acrescentei...Hitler, que foi um louco, grande sofredor que s� soube espalhar sofrimento e que jamais soube ouvir a voz da raz�o...Afinal dever�amos perdoa-lo por ser um ser humano imperfeito e doente. Meu pai entendeu o perigo que eu assinalava, j� havia entendido antes. Pensei ent�o que ele provavelmente j� devia ter sa�do da caverna do mito plat�nico e que minha m�e tamb�m s� que ela aos trambolh�es e que eu um dia sairia tamb�m... Tive a certeza. Para tal intento seria preciso matar a ansiedade ainda jovem dos meus sentidos e aprender a caminhar com sabedoria evitando percal�os...Pensei... Nem que para isso fosse necess�rio que eu me afastasse da fam�lia t�o presente ainda em mim. Uma �rdua caminhada me esperava e eu daria conta dela assim como j� havia dado na teoria do ponto. Nietzsche tamb�m se perdeu na caminhada, na decad�ncia da vida, porque sua filosofia foi outra, foi a da viv�ncia verdadeira inclusive dos sentidos, para encontrar o seu �mago, mas analisou cada segundo de sua vida caindo nos aforismos, que cantavam seu ser assim como os poetas pr�-socr�ticos s� que mais consciente, pois j� havia vivido a racionalidade plat�nica mesmo sem querer ou pretender. Mas naquele dia, Jennifer, eu mesma, sabia que a compreens�o do todo matematicamente, atrav�s da racionalidade � que me levaria a sa�da da caverna de Plat�o. E Nietzsche, seu fil�sofo amado que a desculpasse naquele santo dia pois Jeniffer deveria agradecer por seus pais, pela racionalidade de seu pai e pela loucura de sua m�e por lhe terem mostrado por toda aquela viv�ncia tr�gica daqueles dias a sa�da da caverna de Plat�o. Depois da sa�da � volta para ensinar aos outros a verdadeira forma de caminhar dentro da caverna para que a consci�ncia adquirisse a ilumina��o.Finalmente eu podia entender e tamb�m agradecer a minha fam�lia. Eu estava muito emocionada e resolvi sair e dar uma volta pela praia, pedi consentimento a meus pais e com rever�ncia sai com Marieta e Eva. A praia estava cheia de pessoas e um vento forte libertava e transgredia regras normais de conduta. Eu podia notar que uma espontaneidade generalizada envolvia a todos que encontrava: todos mais donos de si. E eu em certos momentos desequilibrava-me apoiando-me em Marieta. Algumas crian�as e jovens vieram brincar com Eva; pude perceber que eu n�o estava solit�ria nem Eva, que possu�amos ainda aquela aura de amor que irradiava seguran�a para quem de n�s se aproximasse. Deixei ent�o Marieta em casa e fui at� o clube pr�ximo de nossa casa com Eva, achei que seria poss�vel, que eu deveria tentar, afinal logo estaria em meu apartamento na capital e l� n�o teria ningu�m para me acompanhar, tudo estava bem. Quando chegamos na piscina do clube fomos recebidas por crian�as que vieram ao nosso encontro; olhei ao redor e vi casais de namorados se beijando com amor dentro da piscina azul, num clima de sensualidade sem desperd�cio. N�o cansava de dizer a mim mesma que eu estava bem, estava bem...Quando era preciso, quando de alguma forma sentia-me sufocada por olhares invasores, eu sumia, e tudo estava normal, eu n�o era uma louca. Voltei para casa de meus pais; dei banho em Eva e a fiz dormir. Eu sentia-me de certa forma segura, j� andava como Jennifer, gra�as a meu pai que me via e sabia de tudo. Por vezes sentia em meu peito um desajuste, tentava captar o que estava acontecendo ent�o logo percebia com clareza uma inseguran�a qualquer em um de n�s da casa. Meu cora��o ent�o como uma b�ssola juntamente com outros que me acompanhavam corriam em fun��o desse algu�m. Nesse momento foi Laila, eu estava no quarto pensando sobre os acontecimentos da praia dos Sete La�os, revendo os fatos e todo meu conhecimento rec�m adquirido; refletia sobre quando pensava em algu�m e podia instantaneamente ser esse algu�m, sentir seus olhos e sua sensibilidade. Pensei no pai de Eva e tornei-me um p�ssaro perspicaz com olhos de carcar�, vi com seus olhos e pude perceber sua ast�cia. Vi tamb�m com os olhos de galo de J�lio e percebi seu alcance; pensei em Laila e senti que ela n�o estava bem; corri para sala peguei algumas revistas de arte para folhear dando assim tempo para senti-la melhor e fazer o que fosse poss�vel por minha querida filha primog�nita, vi ent�o as paginas da revista com uma nitidez incr�vel, com um colorido claro e uniforme, as letras e o entendimento saltavam aos meus olhos; eu n�o estava conseguindo largar psiquicamente minha filha, talvez por perceber sua sensibilidade genial e sabia que eu nada poderia fazer de positivo para ela somente lhe transferir meu estado ainda convalescente e cheio de ansiedade por querer saber mais sobre ela; eu refletia aflita que n�o deveria invadi-la assim como eu mesma fui invadida; meu pai logo percebeu minha afli��o e foi ao meu encontro, pegou uma folha de papel e come�ou a rabisca-la e em minha cabe�a altas geometrias; sentia um pi�o rodar sobre minha cabe�a e cada vez com maior intensidade e ia al�m num fluir cont�nuo. Fui procurar Laila e ela estava no jardim tomando sol discretamente sentada numa cadeira de praia; sentei-me ao seu lado no ch�o e abaixando minha cabe�a, como era meu costume ao seu lado em sinal de amor e rever�ncia, continuei lendo a revista de artes com seguran�a tentando transmitir essa seguran�a rec�m recebida de meu pai; em seguida puxei conversa com ela e ela estava triste, atrapalhada, era preciso que ela continuasse em S�o Crist�v�o s�, sem mim. Eu iria pra capital e nada poderia fazer por ela, na verdade ela havia feito muito por mim, t�o jovem...Meu cora��o era s� piedade e amor, agradecimento, eu n�o podia fazer mais nada, somente larga-la, deixa-la procurar-se s�.Todos pareciam saber o que eu sentia, minha m�e disse-me: - Fique tranq�ila que eu fa�o ela largar. Pensei...Largar do que? Pois sou eu que a estou segurando...Pensei! Mesmo sem entender direito o que minha m�e queria dizer tranq�ilizei-me, sempre soube do amor que minha m�e nutria por Laila e sabia que ela iria ajuda-la, isso se n�o a pusesse contra mim pensei rapidamente... Arrumei nosso quarto novamente ensolarado, com esmero, do jeito que fazia no nosso apartamento, deixei em seu arm�rio alguns sapatinhos de Eva e algumas roupas minhas que eu sabia que ela gostava; perfumes, shampoos e um talco de Eva sobre a mesinha que eu havia posto ao lado de sua cama. Sobre seu colch�o estendido ao ch�o um len�ol xadrez colorido de preto e vermelho; arrumei seu banheiro com cuidado e fui embora sem despedir-me. Ela j� estava no clube nesse momento com os primos. Eu, meu pai e J�lio sa�mos com precau��o; minha tia e minha m�e nos acompanharam at� o carro; antes de partirmos minha m�e correu para o banheiro; fato engra�ado � que minha m�e sempre precede de alguma forma todos; iniciou-se a fase dos cag�es: foi geral. No caminho ao inv�s de tomarmos o caminho da direita como de costume tomamos o caminho da esquerda passando por todas as praias; foi uma viagem agrad�vel. Meu irm�o guiava, meu pai ocupava o banco da frente e eu o de traz com Eva nos bra�os. Eva dormia a maior parte do tempo. Lembro de nos termos comunicado por telepatia. Nosso pai carregava consigo minha m�e, eu podia percebe-la ao nosso lado, �s vezes ele quebrava o peito direito numa for�a de direita que era bem conhecida por n�s, ser de minha m�e, mas ele estava firme, pelo espelhinho retrovisor eu podia ver seu rosto que era o de Plat�o.J�lio, por sua vez, n�o parecia estar entendendo direito � profundidade da nossa rela��o. Por vezes eu sentia-me presa na sua freq��ncia, na verdade eu me sentia for�ada, ele n�o me via o suficiente para me deixar s� eu comigo. Estava sempre a me perturbar querendo saber algo de mim. O que? Por que? O galo cantador. Meu pai ent�o acima de n�s dois direcionava o di�logo telep�tico de forma a equilibrar as freq��ncias. J�lio, no entanto n�o percebia a superioridade de meu pai, acreditava que era ele pr�prio quem direcionava tudo. 22 Num determinado dia, J�lio me disse que era preciso sintonizar certo, o que significava que todos deveriam estar na freq��ncia dele, quer dizer, naquela que ele pensava ser �A Freq��ncia� porque assim ele se sentia bem; claro que ele n�o colocava a freq��ncia de meu pai em quest�o ou mesmo a de qualquer outra pessoa, a n�o ser a de sua filha ou de sua ex-mulher, porque pra ele, o mimado da fam�lia, era f�cil acreditar que tudo que ele pensava ser fosse realmente a realidade, porque todos na fam�lia sempre acabavam fazendo o que ele queria; o que lhe tornava imaturo, sem chances de amadurecimento e por vezes at� insensato. Aos meus olhos ele era um pequeno tirano com tend�ncias a crescer...Bom, foi nesse dia, quando lhe perguntei se ele na capital havia sentido algo diferente, pois acreditava que ele estivesse mesmo � dist�ncia participando de tudo que acontecia na casa da praia; tateando, entretanto ao lhe perguntar, sentindo um certo receio de falar sobre a telepatia abertamente, mas ele parecendo me entender prontamente disse que sim, mas que precis�vamos sintonizar melhor, na mesma freq��ncia, acho que querendo dizer na freq��ncia dele, o que me pareceu inoportuno, porque no meu entendimento, sua freq��ncia n�o era das mais harmoniosas. Eu j� sabia a essa altura, que ele homem e n�o menino era o galo cantador, mas ele n�o sabia que eu sabia; eu tamb�m sabia que ele mais que eu entrava na freq��ncia errada e isso ficou claro na nossa volta a S�o Paulo. Lembrei-me que quando ele chegou pela primeira vez a S�o Crist�v�o em que tive um pesadelo terr�vel, que ele me invadia psicologicamente; meu olho esquerdo puxava pra direita com tanta for�a, que sangrava e durante toda a madrugada, eu em sua freq��ncia sonhei com mortes, assassinatos e libidina��o.Quando acordei logo pensei em minha ex-cunhada, que todos n�s sab�amos freq�entava magia negra e como eles acabavam de se separar... Pensei na possibilidade dela estar enviando mentaliza��es negativas para ele, j� que a escolha de separa��o foi dele...E ela vingativa e m� que era, poderia estar querendo se vingar de Julio com magia negra. S� podia ser isso! Eu podia sentir que ele n�o estava mesmo bem. Na primeira oportunidade lhe disse que eu tinha lido um artigo muito interessante sobre chacras e que falava sobre os pontos a�ricos do corpo por onde havia transfer�ncias de energia e que ao meu ver, era preciso que tom�ssemos cuidado com o chacra, principalmente o da barriga, isto porque eu j� come�ava a me sentir verdadeiramente incomodada justamente com este chacra, quando me aproximava dele; sentia-me mesmo possu�da , quando ele levantava, eu tinha necessidade de levantar; como se eu fosse for�ada a fazer tudo o que ele fazia e eu n�o tinha for�as para lutar contra: eu quase n�o tinha mais controle dos meus passos, sentia-me levada , al�m disso eu podia notar ele me perseguindo psiquicamente, isto ficava n�tido quando eu passava por ele, sentia-me muito mal porque J�lio mais at� que Solange ficava a me olhar absorto, a tal ponto, que parava de conversar com os demais como que hipnotizado... Uma aten��o demasiada para meus passos, me fazendo sentir uma extraterrestre ou algo parecido. Cheguei a pensar num compl� contra mim, porque Solange e J�lio agiam daquela forma; eu estava cheia e passei a cham�-lo em pensamentos de machista, o que ele n�o admitia apesar de ser e muito... Diferente, entretanto de nosso pai que sempre foi liberal em rela��o �s mulheres.Mas o que ocorreu...Pensei...Foi que ele, assim como Solange e Matilde, se surpreendeu tamb�m com meu novo estado de esp�rito, pelo fato de eu estar, l� na casa da praia, me sentindo plena e feliz, por amar muito minha filhinha rec�m chegada ao mundo e por minha forma livre de me relacionar sem medo, por causa do livro que acabava de escrever sobre o ponto exato da rela��o entre os homens, que tinha como ponto de partida a espontaneidade no agir e no pensar encontrando assim a transpar�ncia do ser.Mas apesar de fazer o poss�vel para entender meus familiares, eu comecei justamente nesse dia a ficar bastante decepcionada com toda a fam�lia. Eu que jamais falava palavr�o gostaria de atirar todos contra eles, procurava assim me libertar daquelas amarras que eu j� come�ava a sentir, como que possu�da, perto deles. E me sentindo presa, pensava na ex-mulher de J�lio e em todo o seu sofrimento e que ele poderia estar sendo v�tima de magia negra assim como tamb�m meus familiares ou at� quem saberia, eu mesma. Acalmei-me por n�o haver outro rem�dio, n�o podia lutar com meu estado de �nimo ainda t�o tranq�ilo e apesar de tudo eu o amava porque na verdade ele sempre foi um bom irm�o; senti pena dele e percebendo o desinteresse dele sobre minha conversa de chacras parei de insistir sobre o assunto. Finalmente ele voltou novamente a capital a fim de logo retornar a praia;n�o me lembro bem, mas acho que levou consigo Anita, sua filha. J�lio nutria por Anita uma tal preocupa��o que ao meu ver beirava a loucura; quando ele estava por perto eu n�o conseguia ficar � vontade e me relacionar com ela de maneira natural e espont�nea, diferente de como fic�vamos quando est�vamos longe dele; em sua frente quando eu a pegava no colo, ele a retirava em seguida dos meus bra�os limpando suas m�os como que para purifica-la de mim. Anita estranhamente, algumas vezes, ficava repetindo baixinho o nome de Eva sem parar, entretanto sem Eva estar por perto, o que me afligia muito porque eu n�o entendia e J�lio ou mesmo minha m�e faziam de conta que nada acontecia, ignorando o fato; sempre soube, entretanto que crian�as imitam os adultos e que possivelmente tinha ali obra da m�e, ex-mulher de meu irm�o. Quando em um ou outro momento me sentia � vontade, tentava ent�o dar alguns conselhos a J�lio; assim o desculpava interiormente, falava como quando �ramos crian�as, com ares de irm� mais velha que sabia das coisas, dizendo-lhe para ele tranq�ilizar-se em rela��o � filha, que ele era pai de primeira viagem e que era normal ser preocupado etc e tal, tentando assim falar o que eu achava porque no fundo tudo aquilo me irritava muito; ele, no entanto me escutava com um ar de superioridade que me valha Deus...Como se minhas meras palavras n�o lhe alcan�assem. Houve vezes, por�m que eu lhe abracei e fui correspondida num abra�o fraterno em que ele dizia que era preciso rezar muito. Eu acreditava e rezava todas as noites por ele. Quando meu irm�o estava na capital, eu podia sentir que na verdade ele n�o tinha se ido: seus medos e suas d�vidas pareciam estar em meu ser, na minha sensibilidade j� afetada por um mal estar crescente; ele continuava presente apesar de estarmos distantes; sua persegui��o continuava; e tudo que acontecia na casa da praia, ele na capital de alguma forma sabia. N�o exatamente sobre os fatos, mas nos sent�amos, ligados que est�vamos todos. Numa noite em S�o Crist�v�o, na corrente telep�tica, nos dirigimos em pensamento a J�lio e ele acabou participando da mesma, sem, entretanto estar na casa da praia.Era assim, ningu�m deixava a bola cair; �s vezes ele dizia:- Passa a bola! Ou: -Bola na rede! Sempre num tom brincalh�o que dava continuidade a corrente; sem ansiedade, apenas numa brincadeira gostosa, cheia de humor em que ele era o centro das aten��es, mas num determinado momento acho que penetramos demais em sua �forma� e pudemos perceber quem ele realmente era: um menin�o t�mido, mimado; um supercara legal, mas problem�tico. Imediatamente eu me transformei em J�lio menino e entrei no lavabo por me sentir muito mal; era preciso, entretanto sair de l� inteira, com for�a interior pra que ele n�o sucumbisse; eu me sentia impotente, naquele momento como J�lio, e eu acreditava que dependia de mim acabar de vez com aquela situa��o de desajuste, para que n�o houvesse danos psicol�gicos de qualquer esp�cie, para ningu�m, mas em verdade sentia-me mesmo impotente, muito t�mida n�o conseguia agir livremente e quanto mais eu demorava no lavabo pior a situa��o ficava, porque eu sabia ou acreditava que todos, na sala estavam me esperando...At� que finalmente abri a porta e sai para a sala sem pensar em nada, simplesmente querendo sair daquela situa��o e qual n�o foi minha surpresa que todos que me esperavam em aten��o me acolheram com amor e abnega��o, quer dizer: acolheram J�lio que aceitou e se sentiu confort�vel sentando-se entre eles quieto; pude ent�o perceber a forma de J�lio se relacionar com a fam�lia e o grau de aceita��o para com ele, t�o diferente da forma que agiam comigo, t�o diferentes da forma que eu os via e os sentia! N�s sentados ent�o na sala, quietos continu�vamos a recorrer um ao outro em pensamento, sempre numa corrente cont�nua e �amos obtendo respostas adequadas para que a corrente continuasse. Foi uma experi�ncia bastante agrad�vel ou diferente e chegou mesmo a ser engra�ada quando n�o tr�gica. Todos participavam, inclusive as crian�as, as pequenas como Eva e a filha mais nova de Matilde, meus pais, irm�s, Val�ria e as empregadas. Em determinados momentos meu pai recorria a Nietzsche, na verdade ele sempre recorria a mim e a C�ssio, algumas vezes a minha m�e, Solange e Matilde, pouco recorria a Val�ria, a Laila ou as crian�as. Minha m�e recorria a Matilde, a Val�ria, a Marieta e finalmente para recorrer a mim recorria a Eva. Menos eu e meu pai, todos outros imitavam minha m�e, talvez por n�o terem intelig�ncia pr�pria, ou por n�o saberem exatamente como o jogo se dava realmente, na verdade aprendizes, finalmente recorriam a Eva, como se ela fosse forte e capaz de segurar qualquer ansiedade ou tens�o provocada no decorrer do jogo, no desespero de n�o dar o devido tempo para o pensamento, por abusos e atropelos eles corriam agarrando psicologicamente Eva, da mesma forma que algu�m que est� se afogando se agarra a outrem que esta por perto para salvar-se do afogamento. Eu a louca...Pensava... L�gico, como eles poderiam me entender ou me aceitar como uma fil�sofa que encontrou o ponto de rela��o exato do ser? Eles que eu via agarrarem psicologicamente minha filhinha com pouco mais de seis meses de maneira t�o avassaladora extremamente medrosos de si mesmos...A fim de possu�rem, quem sabe o si do fruto do meu amor, ou seja, de Eva, roubando de mim meu eu feliz e pleno porque eu a respons�vel por Eva quieta e assustada entrava quase em p�nico frente aquela for�a cruel sem medidas; e eles ent�o vitoriosos se punham a conversar alto, com caf�s e cigarros cheios de ansiedade, desfazendo assim a corrente telep�tica, como se tivessem finalmente atingido o alvo. Isso me fazia lembrar da preocupa��o exagerada de J�lio por Anita pondo-me em d�vida se n�o haveria mesmo algum perigo na rela��o familiar, alguma m� inten��o por tr�s, por falta de sabedoria e excesso de vontade de poder frente a mim e a todos que quisessem ser diferentes deles, encabe�ada por Matilde e por tabelinha minha m�e, numa disputa de vida ou morte. Contra minha filosofia do amor n�o mediam esfor�os inclusive jogando trai�oeiramente contra meus entes mais amados, tentando provar assim que eu n�o era aquilo que na verdade eu era, algu�m plena e feliz cheia de despojamento... Afinal punham at� Eva na berlinda naquele jogo telep�tico que virou tremendamente assustador pelo menos para mim, a fim de simplesmente se encherem de j�bilo pela vit�ria; mas que vit�ria? S� poderia ent�o ser mesmo de mim...Pensava ainda relutando contra a verdade que me assolava...Porque somente eu sentia o mal estar de uma derrota inesperada, eu que me entregava procurando o ponto da rela��o, sofrendo a conseq��ncia devastadora por amar Eva. Talvez eles n�o fizessem de prop�sito, quem sabe simplesmente fossem ing�nuos ou ent�o meu Deus!Meus familiares eram monstros assustadores em ess�ncia... Nessa brincadeira que n�o terminava nunca, que sempre existiu e que s� naquele momento eu tomava consci�ncia do modo de relacionamento de meus familiares, tendo na roda, entretanto a novidade do meu novo sentimento frente ao mundo, nesse empurra empurra de direita e esquerda at� finalmente atingir Eva e a mim, num desafio que �s vezes organizava e equilibrava for�as opostas: minha m�e sempre muito arisca desafiando pela direita. Era um jogo de �dio e amor que ningu�m vencia na realidade, pelo menos era esse o objetivo do jogo, vencia o equil�brio que era o tal fio linear telep�tico, se por acaso esse equil�brio n�o se desse de forma desej�vel para eles, ou seja, de forma que o controle da corrente n�o estivesse em minhas m�os, ou nas m�os do amor que Jeniffer acalentava em seu cora��o, porque ent�o minha m�e acelerava desconfiada, e influenciada ou apoiada por Matilde atacava Eva, esquecendo o objetivo central do jogo. Era mais ou menos assim: Matilde me odiava e odiava a ex-mulher de Quiasco apesar dela nunca ter demonstrado isso a ela, ao contr�rio sempre demonstrou am�-la; minha m�e odiava a todos que Matilde odiava porque Matilde quando odeia quer que todos que ela n�o odeia odeiem tamb�m os que ela odeia. J�lio n�o odiava ningu�m, mas era influenciado por minha m�e, Matilde e meu pai, por isso n�o odiava tanto as pessoas que Matilde e minha m�e odiavam, por meu pai n�o odiar ningu�m somente ser arisco com C�ssio. Eu por minha vez n�o odiava ningu�m, s� refletia o �dio que me mandavam como um espelho. Nessa pseudopersegui��o de uns pelos outros, eu na minha procura do ponto de rela��o fui assim percebendo; de in�cio todos se perseguiam com os olhos deixando claro, sem conseguir esconder, suas inten��es de amor ou inveja, como se as m�scaras tivessem sido submetidas � verdade de cada um, e para n�o sucumbirem a si pr�prios em alguns momentos em que incidiam particularidades pessoais se fazia necess�rio estrat�gia e ast�cia nesse jogo de for�as; eu inclusive fui obrigada a lutar em um ou outro momento a favor de minha ex-cunhada, assumindo seu papel e entendi o quanto deve ter sido insuport�vel para ela ter sido o centro do �dio daquela fam�lia, mas afinal ela tamb�m sabia odiar como ningu�m; minha ex-cunhada, dessa maneira, tamb�m psiquicamente esteve presente no jogo telep�tico, chegando sem saber, eu acredito a me ajudar em alguns momentos quando J�lio me perseguia muito; eu pensava ent�o nela e pedia sua ajuda, era por sua vez um pedido certo de ajuda, com uma f� certeira, sem explica��es, a� eu virava ela, que era por sua vez muito forte, ag�entava todos os desafios de minha m�e desafiando-a ainda mais e corria por amor atr�s de Matilde sem saber que ela era sua maior inimiga ou talvez porque soubesse que minha m�e jamais faria mal a Matilde. De in�cio foi assim, muitos olhares e poucas palavras que deixavam claro as afei��es de cada um. A coisa foi ficando mais n�tida e a tentativa de cada um se esconder dos outros, maior, at� que n�o teve mais jeito, eu invadi Matilde que tamb�m me invadiu, s� que eu estava expressa, fui ent�o ponto de rela��o, e nenhum mal eu podia lhe fazer, mas ela deu-me seu eu que era infantil, inseguro etc. Ela percebeu, colaborou comigo porque n�o havia outra alternativa, assim colaborando com ela pr�pria principalmente; cresceu interiormente, pelo menos passou a se conhecer um pouco mais, J�lio tamb�m; at� que todos se relacionaram de uma forma integral, por falta de op��o, expressando seus maiores potenciais; era uma luta real de poder e for�a. Assim come�amos a falar telepaticamente, quer dizer fomos obrigados a falar telepaticamente devido �s circunst�ncias. Todos tiveram que colaborar por n�o haver outra sa�da. Talvez acredito, que essa corrente linear era r�pida e sem descansos por causa da grande ansiedade que havia na m�dia. De todas as for�as juntas havia uma m�dia e essa m�dia era ansiosa. O pai de Eva, mesmo longe, tamb�m participou em alguns momentos da corrente telep�tica; algumas vezes eu o �imitei� sentindo seu ser, para alcan�ar meus objetivos no jogo. Quer dizer que eu na minha �pseudoloucura� utilizava-me do �seu poder�, quer dizer da sua m�xima potencialidade para que eu n�o sucumbisse naquele jogo louco que o acaso me colocou, devido aquele relacionamento � procura do ponto dos meus familiares, que ao meu ver eram t�o descentrados de si a ponto de quase me deixarem louca de verdade, quando entreguei meu cora��o em suas m�os; nesse momento era preciso ir at� o fim e acabar de vez com aquela loucura que nos assolava; eu n�o poderia sucumbir, pois seria o meu fracasso. No decorrer do jogo eu podia ser quem eu quisesse, principalmente na frente de meu pai que me dava liberdade para isso ou me obrigava a isso. Na verdade eles me projetavam essas outras personalidades que eu assumia em seus potenciais como pessoas atrav�s do jogo de espelhos. Meu pai brincava desta forma comigo, assim ele conhecia melhor determinada pessoa, �s vezes eu ouvia telepaticamente:_Agora Jennifer! Ent�o eu me tornava novamente a doente em recupera��o, que era o m�ximo que eles poderiam aceitar como sendo eu; porque Jennifer cheia de si e de amor, essa s� havia l� dentro de mim, esquecida e vencida pela for�a do �dio deles, que eles consideravam intelig�ncia, pois na guerra o �dio vencia, pelo menos nesse primeiro momento ele havia vencido e eu sabia disso; que para recuperar dentro de mim o meu amor e a minha vida feliz e plena seria |
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