| Idealizando o Projeto Fun'art- Aula na Ladeira da Memória- |
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| Pichadores na parada. São Paulo,1999 - relatório- Os pichadores do centro da cidade de São Paulo são jovens, adolescentes e até mesmo algumas crianças que se reúnem todas as sextas feiras na Ladeira da Memória a partir das 13 horas. Iniciei aulas de artes com o intuito de pesquisar sobre a “arte deles”. Há um mês e meio atrás, talvez menos,meu temeroso desafio de estar atuando em praças públicas com pichadores me dava calafrios. Medo da pobreza e da marginalidade humana, que de uma certa forma os pichadores simbolizam, pelo menos os daqui do centro da cidade de São Paulo. Hoje meus amores, lindos. Aprendi a respeita-los e tentei extrair deles o que de melhor eles pudessem dar. Minha tarefa era então a de ensina-los a expressar a arte autêntica de um mundo interior cheio de vida e fantasias próprias de cada um. Na verdade suas expressões usuais são hieróglifos de fácil compreensão, parecidos com a escrita normais, somente mais rebuscados, com adjetivos como haspas a mais ou traçinhos a mais, junções de letras parecidas.Para eles essas expressões pichadas ou faladas contêm todos os seus valores como indivíduos que jogam no joga da vida – com a polícia, por exemplo. Eles amam a polícia e socorro! Disputam com ela todos os dias. O pichador que corre mais, que sabe se safar da polícia é o melhor. O que já passou pela cadeia parece possuir perante os outros um certo prestígio. Talvez se acostumem a essa vida como se essa fosse a única possível: a luta com a polícia, a aventura da pichação, são para eles o grande prazer da vida, a única verdade possível de ser vivida. Essa vida de marginalidade lhes dá prazer realmente. Não são meninos tristes como poderíamos supor, ao contrário são alegres e cheios de vida, sapecam, de lá para cá, o tempo todo, cheios de coragem e humor. São amáveis, fugazes e cheios de si por suas atividades que é a de serem pichadores. Gostam de fumar maconha; desenham-na com freqüência. Geralmente são presos por portarem cigarrinhos de maconha. Nesse combate diário com a polícia, são encontrados também spray de tinta nas mochilas. É interessante como procuram nas suas apresentações se pronunciarem através de uma zona de ação: a zona norte ou a zona leste ou ainda a zona sul e assim por diante. Amam a mídia, na verdade gostam de obter status. Estão sempre preocupados em aparecer: na televisão, nos jornais etc. Eles possuem um estilo próprio. A maioria usa gorro, óculos escuros, pois sempre estão com os olhos vermelhos porque usam maconha e cola.Sobre o cachimbinho ouvi pouca conversa. Alguns querem ser grafiteiros, mas a grande maioria não pretende ser nada, é o que respondem como se quisessem dizer que estão felizes sendo o que são, ou seja, pichadores. Alguns parecem gostar da idéia de seguir uma carreira artística. Gostariam de ser grafiteiros, poucos ou quase nenhum se entusiasmam com a possibilidade de serem artistas plásticos. Acredito que para “selar” bem o início deste estudo é necessário fé e confiança. Acreditar na prudência de Deus quanto ao destino destes meninos cheios de arte e coragem, mas capazes de transgressões de toda espécie. Verifiquemos a necessidade do resgate deles para a superfície do mundo. Já que existe um mundo “belo” diferente daquela beleza pseudovivenciada por eles, por ser fora da lei do nosso país e por isso marginal. Penso então em trazer a arte deles para o papel, porque no papel a transgressão não existe e sua arte pode ser apreciada, entendida e valorizada socialmente; porque valorizar o mundo deles fora das paredes da cidade é uma opção que podemos aceitar melhor. No entanto “a transgressão” deixa de ser quando sua arte é colocada no papel e desta forma pode não ser apreciada por eles, já que o que conta é a aventura da transgressão, o combate com a polícia, a coragem de subir nos prédios altos e ou lugares perigosos, assim transgridem,e contrabalançam a carência de suas vidas, por serem pobres sem uma infra-estrutura familiar adequada para uma condição de vida normal, levando em conta o crescimento sadio emocional e físico. E esta situação agravada pela marginalidade e maus tratos aos meninos pichadores pela polícia principalmente transformam esta realidade de revoltas em prazer nas transgressões, acreditam estar se vingando de serem conjuntamente com suas famílias o substrato da sociedade, de um mundo mal acabado, que de suas arestas vivem uma vida asfixiada de dor e fome. E essa situação é para eles uma realidade que não muda nunca, é a sua condição de existência; lembrados somente pelos policiais de cada dia que acabam por amar entre tapas e maus tratos na luta diária e exaustiva das perseguições. Esses jovens crescem num campo minado, marcado pela repressão, pelo ódio e pela rejeição da sociedade, em primeira instância, por sua condição de pobreza e carência, fruto desta mesma sociedade. Não há jovens “burgueses” pichadores aqui na Ladeira da Memória, no centro de São Paulo. Dentro da minha ótica, posso observar jovens artistas que procuram viver simplesmente,que procuram por seus iguais de sorte, a fim de se unirem e realizarem algo em comum. Formam-se então grandes grupos de pichadores, que privados de uma vida normal, transgridem para que neles surjam suas individualidades, como seres existentes-cidadãos, dentro da ótica deles agora, de uma sociedade repressiva e violenta. Dar a estes jovens auto-estima e liberdade para criarem é dar à uma fatia da juventude brasileira uma vida merecida e digna, mesmo dentro da pobreza em que vivem, para que no futuro quem sabe, desta mesma fatia saiam grandes talentos que vão nos ensinar. Nosso trabalho é restaurar nesses jovens a auto-estima, livre da repressão e do excesso de ousadia e aventura na arte da transgressão, imprimindo neles o amor a arte e a criação em geral, naquilo que eles tem para nos oferecer realmente; partindo do princípio inesgotável, infinito mesmo que a arte aprimora a sensibilidade do indivíduo o educando, à medida que nesse caso a transgressão é a própria evolução do individuo como um todo na sua busca interior de si e de Deus, como símbolo de perfeição. Acredito que poderemos vencer os maiores desafios através de exercícios da criatividade, Ou seja, da arte. São Paulo, 27-8-99 — aula — Após algum tempo volto enfim à Ladeira da Memória a fim de encontrar os meninos pichadores. Mostraram-se receptivos e alegres. Hoje conversei com 4 ou 5 grupos de meninos espalhados pela Ladeira. Apresentei-me como artista que estava trabalhando num projeto sobre pichadores no Ministério Público. Tirei fotos deles tranqüilamente, talvez um não tenha querido ser fotografado. Parecem confiar em mim e eu afinal estou aprendendo a confiar neles. Hoje conversei com muitos, talvez uns 20 ou 30 pessoalmente, fora o grupo que contava com mais de 160 meninos. Eu ia contá-los, talvez no próximo encontro eu faça isso. Combinamos aulas de dança para a próxima semana, quem tiver C.Ds. levará e eu levarei o aparelho de som. Os meninos são tímidos e as 2 meninas presentes hoje na Ladeira da Memória pareciam menos. Falei sobre a Funarte e todos se interessaram. Eles adoram tinta, é a palavra chave para atrair a atenção deles. Se interessam também pelas cores. Sempre saliento as cores belas como o azul, o branco e o amarelo: separando-os em grupos de jovens como os de chapéu branco tiram foto ou só os de camisa azul agora. Hoje notei maior consciência do que nas vezes passadas. Pude notar no jeito deles, na conversa maior lucidez. Do Rag até o Axé foi o que me respondeu um deles quando perguntei sobre o tipo de música que eles gostavam. Hoje pude perceber o quanto é fácil entrar no meio deles e o quanto é difícil sair. Assustei-me com 3 deles na minha despedida. Dei um passo e três deles me abordaram firmemente, pareciam com policiais (com olhos bravos, vingativos). No momento, eu me amparei em Deus. O meu susto foi grande, mas prossegui uma conversa normalmente até por fim despedir-me deles dando-lhes as mãos. Um deles, o menorzinho, era muito mal encarado, parecia um duendezinho cheio de força, ousadia e violência, no entanto, era só mal encarado, não foi violento. Pedi a eles que me dessem as folhas que pichavam com canetinhas preta, azul e vermelha. Muitos me deram seus trabalhos, que serão apresentados mais adiante. São Paulo, 8 de setembro de 1999 |
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