| Fragmentos de Aurora | ||||||||||||
Fragmentos de Aurora 1 Revelo-me amplamente, sem rodeios. Espero-me ainda. Talvez a morte seja a �nica sa�da: um grande encontro entre ansiedade e prazer. Minha intui��o restabelece meus contornos e satisfeita aqui estou eu. Algum tempo se passou e Aurora nasceu, hoje mulher crescida carrega em si ela toda, pesada como uma gr�vida pronta a parir. Aurora descrente, atenta nada espera, pois tudo �. Fixa vive. Agora; agora; agora; que �; que �; que �. Por fora Aurora; por dentro Aurora. Que um dia partiu a procurar-se num mundo fragmentado como o seu pr�prio ser. Aqui, nestas p�ginas, alguns desses fragmentos surgem numa procura desesperada de encontro. Numa tentativa de vida... Aurora. Decora. Est� na hora 2 Peda�os de mulher jogados ao acaso. M�ltiplas dire��es. Segmentos rompidos. Medrosos partos de vida. Alma t�mida, que um dia nasceu Mulher. Aurora 3 Eu, subjugada � sua m�rbida vontade de n�o me amar, � sua falsa mod�stia. Devo a voc� meu desencanto pela vida. Devo a voc� minhas convuls�es de solid�o. Devo a voc� meus passos, meus atos, meu eu. Aurora. 4 Escrava da sorte. E eu aqui dentro de um banheiro min�sculo, mal cheiroso, pensando na vida, dan�ando a vida, sentindo a vida, sendo feliz. E eu aqui e em todos os lugares. Sentindo o prazer de sentir. S� sei que tudo � claro, tudo � muito vivo. Isso � ser? O que � isso? Se procurar saber, entender; sofro. Perco as coordenadas, o sabor de sentir e caio na antevida. Na vida sem gosto, no mar sem sal. E aqui as horas n�o passam. Porque todos os minutos, segundos s�o vividos. Um quarto espelhado, infinito: meu banheiro. �s vezes me perco, n�o sei mais viver. Ent�o escrevo o que vivo, ent�o assim retorno a viver. � � procura de vida, a procura de �gua; ou tenho sede ou quero voc�, quero sentir voc� todos os segundos, quero ter voc� em mim e eu quero estar em voc�. E eu aqui no banheiro, pensando, sentindo, sendo voc�. O que � isso? Isso � ser? Ent�o n�o sou sem voc�. Meus cabelos, gosto deles; gosto tamb�m de dan�ar, cantar e gosto de amar voc�. O resto � compromisso. Viver sin�nimo de amar. Quem diria. Algo t�o bom de sentir. Ent�o a vida � boa, viver � bom. Bom demais pra eu querer parar de viver; bom demais pra eu poder parar de te amar. E assim vivo, vou vivendo feliz. Tudo � claro, espelhado, infinito... Minha toalha ca�da, meu perd�o. Minhas desculpas aos vizinhos. Deixar cair? Voltar a ser natureza? Ou n�o; qualquer outra coisa qualquer? O que? Minha d�vida. Meu desafio. Desafio do medo. Desafiar o inimigo e combater. Pra que? Quem grita? O desejo. Esconder pra que? De quem? Mas porque vou enudecer; pra emudecer, tornar-me mais, diferente? E o desejo sem descanso, sem pensar combate o inimigo. E o medo pensa, mas n�o � t�o inteligente. Perde da sensualidade do sentir. O sentir ganha em charme. E de charme vou vivendo. Entre d�vidas e l�grimas medrosas. Mas o querer ter nas m�os? Ainda chego l�. � o enterro do medo festejado pelo desejo. Mas o �desejo medroso�, n�o o �desejo instinto�. Um desejo, um instinto que j� foi pensante e que nele se fez parte ou que dele abocanhou parte. Mas o fantasma do medo? O que ser� feito dele? Ati�ar� o �desejo medroso� vivo? Mas amanh� � tempo de pensar, de encontrar solu��es, por hoje durmo e sonho bons sonhos. Mas quando o sono acabar; acabar� de vez, nem mais as belas estrelas me seduzir�o, e nem os travesseiros gostosos, macios que a vov� fazia. E meus anjos n�o deixar�o de me tocar nem um instante. E eu aqui a contar meus anseios. 5 Porque? A quem? Pela Esperan�a, por seus verdes olhos sedutores que me mostram o caminho da felicidade, do estar vivo e pisar fundo na terra. S�o os detalhes da vida, procur�-los e aos poucos encontr�-los. E a cada nova descoberta mais convidativos tornam-se os olhos da Esperan�a, Madame Dona que esconde os segredos da verdade feliz. E mam�e sempre entrando na est�ria e meus filhos correndo o risco. E eu aqui no banheiro a pensar na vida, e a contar, a descrever. Pra que? A quem? Minha m�e � Dona Esperan�a Madame Dona, sabe ela � boa de papo, gosta de dan�ar, cantar, amar, e escrever, gosta de sol e tamb�m de seus cabelos; sedutora e amiga da sorte que espanta o azar; amiga da terra e do mar, minha m�e � teimosa e dengosa e gosta de gozar a vida. Mam�e! Cad� voc�? E a menina chora e procura a boneca para amar, a m�e. Mas �s vezes o sol quente, acoberta o frio dos pobres e a crian�a ri e aconchega a boneca em seus bra�os. Esquece da m�e e n�o chora mais. Cresce e aprende a dan�ar e cantar e amar e tamb�m a cuidar bem de suas bonecas. E a Maria foi embora, deixando-me na desordem. Na desordem libertadora. E a Maria quer ordem e eu quero a desordem juntamente com a ordem da Maria. Que dilema. Minha ordem, minha desordem. Qual delas, Maria Eu, Eu Maria; qual, qual delas � a minha ordem? Quem sou? E eu aqui no banheiro pensando na vida, escrevendo a vida. Com os p�s na terra e o cora��o no sol. Algo bem diferente do amor sentido; algo bem diferente da vida. Ser� a morte? Quererei a morte? E as m�os esfriarem, e me sentir viva. Como viver melhor? Viva ou morta? Quem �? O que �? E a r�dio cidade, e eu aqui no banheiro. � de rir. Prefiro mudar a r�dio e levantar, fumar, dan�ar, cantar e sentir voc�. O sentimento revive e com ele a vida viva, que cria linguagem, express�o. � uma op��o desejar, gostar ou n�o de uma m�sica. O desejo do agrado; o excessivo amor a si. O ego�smo maior, e por isso, bondoso. E as reca�das. As idas e vindas. Sol ou terra? Terra ou sol? Ou algo diferente, at� religioso, at� sacana? S�o deca�das da vida moral. Que import�ncia tem? � a l�gica escorregando, esbarrando nos seus �ltimos destro�os. � o pensamento voando. O �louco� pensamento, ou o pensamento dos loucos. � um louco pensante, amante da raz�o mesmo em seus maiores devaneios. Assim como uma m�sica pensante. � a vit�ria do pensamento rebelde. O guarda-chuva das grandes torrentes, mas tamb�m sou corpo; incontin�ncia do pensamento. E chega de filosofia. Chega de ser parcial, de ser pensamento. Quero a arte, a cria��o, � vida inventada. O pensamento amoralizado e relaxado. A raz�o desejando sem medo. E eu aqui no banheiro, hoje n�o t�o feliz, meu banheiro sem espelhos. Um banheiro bem pequeno e o ch�o est� gelado. N�o � t�o bom ficar aqui no meu banheiro. O que falta hoje? Ou ser� a realidade, o banheiro mostrando-se a mim, como ele nuamente �, sem adornos espelhados? Ou ser� minha gripe? Ou a noite de ontem n�o me deixou boas lembran�as ou ainda impress�es? 6 Porque hoje meu banheiro est� diferente? Mas escrever me faz bem. Ent�o escrevo e relaxo at� sentir-me espelhada, ensolarada. E � bom viver. A vida morta ganhando em vida da vida viva. E viver � bom. Viver aqui no meu banheiro � muito bom. Aqui me amo te amando. E te esque�o vivendo. E o meu banheiro � o meu melhor brinquedo. Sensa��es que viciam, que nos transformam em deuses doentes, carentes. E o trapezista corajoso cai do trap�zio e as vezes se machuca. Perdeu o p�. Perdeu o sentido do trap�zio. Por segundos morreu. Esqueceu da aten��o da vida. Viver, ser todo o tempo pro tempo parar de ser. E me conven�o; me aceito te aceitando e amando todos e nenhum. E me revivo e repito a minha sombra sombria. Pra l�, de l�, quase acima de qualquer coisa. E o mar cobre meus p�s e o sol minha cabe�a. E o �Sem-p�-nem-cabe�a� encarou a vida e caiu com for�a, de suas f�rias de vida, com os p�s na terra. E o seu maior cuidado foi o de n�o afunda-lo demais, contrariando novamente a gravidade. E minha filha cresce sadia. Quem diria, eu escrava da sorte. Que sorte. O que seria dos meus filhos se assim n�o fosse? Por isso sou esperta e desperta, mais e menos. Qual ser� minha estrela? Mas toda vida tem um sentido, ent�o quem vive tem sorte. O gostar de viver � a estrela. A minha �Grande Estrela� que me faz ser escrava da sorte. A pr�pria vida atribuindo-me o seu sentido, o seu ser. Eu e ela juntas. Corpo e alma. Algo t�o velho e t�o discutido que parece estar se tornando uma teoria praticante, ou um sonho vivido. Um Plat�o marxista, j� pensou? Um Plat�o que sente suas teorias, n�o como id�ias, mas como corpo vivido. O que seria de Marx sem Plat�o? E o que ser�amos sem os dois? Dois errados que juntos tornaram-se certos. A heran�a cultivada que matou e reviveu o homem. Mas isso ainda est� nas m�os da Esperan�a: Dona Madame. E hoje a gripe aumentou e com ela o meu entusiasmo pela vida. Pelo meu quarto bagun�ado, livre da Maria, pelo meu esquecimento nietzschiano e pelo novo livro que estou lendo da Clarice Lispector. E se esqueci de dizer a Maria foi uma boa empregada que tive durante cinco anos. Cinco anos de mordomia pobre, de encosto sufocante. E o tempo passou sem passar, e minha gripe aumentou meu mal estar e meu mal estar o desejo pela vida. As vezes me assusto com a comodidade do sentir f�cil, do "viver" todas as situa��es, com a liberdade com que corre o rio. Mas s�o agitos naturais, como os raios das chuvas pesadas. E um dia me falaram que para ser uma boa atriz era necess�rio ter uma t�cnica. A t�cnica de saber ser atriz, como por exemplo, Fernanda Montenegro que sabe "ser" todos seus personagens. Agora ser o que se �, exige uma t�cnica bem mais apurada. Ser atriz de si pr�pria exige mais que ast�cia e compreens�o; exige ingenuidade e passividade frente aos grandes �perigos�, exige o olhar limpo que s� os sinceros t�m. 7 S� aqueles que se reconheceram no espelho sorrindo, chorando, se amando e se odiando. S� aqueles que se sabem como algo compacto, recheado; os que conhecem a ilimita��o dos seus limites. S� eles possuem a t�cnica para viver bem. Ent�o a vida � t�cnica. � uma quest�o de saber aplic�-la melhor ou pior. Assim como os melhores ou piores profissionais. Cada um ganha o retorno de sua boa ou m� pr�tica. Ent�o me pego escrevendo coisas t�o distantes das paredes do meu quarto. E por instantes contraio-me, sinto meu corpo, minha gripe e sinto-me viva. N�o importam as idas e vindas do dia e da noite. Todos os dias, noites e dias acontecem, assim como agora escrevo ou fumo um cigarro. E os acasos s�o os guias do tempo parado. Os acasos necess�rios que nos pegam pelos p�s. Lembro-me de Clarice Lispector e meu cora��o aperta. Quem diria? Eu n�o a conhecia a n�o ser de leves lances de aten��o. Agora a admiro por achar companhia. Sinto-me uma amiga que agradece aliviada, ter tido ela a vida que teve. E escrevo mais livre, mais eu, mais ela. O encontro que n�o despede, mas acumula. A agrega��o de vidas sentidas. Os encaixes dos contornos superpostos e entrela�ados a vontade. O sem forma formado. E me desculpo por agradecer. E me desculpo por pedir desculpas; sem me desculpar, sem agradecer. E assim apreendo o aprender, acumulo em mim o conhecimento vivido. Ent�o lavar a lou�a, arrumar as camas, varrer o ch�o j� n�o � t�o ruim. S�o acasos necess�rios que me fazem ser. E se n�o fossem eles agora, o que seria de mim sen�o a abstra��o do momento eterno? E viva a falta. O querer mais. O sentido ou a vida ocasional. Ent�o vivo como sei viver; como posso. E de repente percebo-me no c�u, no mar, no vento sem dire��o. O que estou fazendo? Estarei vivendo? Isso � viver? N�o sei. Vivo como posso. Dona Esperan�a, mulher ambiciosa que �, grita e me acorda e ent�o eu desperto e vivo bem. Pois ent�o sei viver; se vivo bem, feliz, tanto na vida morta como na vida viva, sei viver, serei feliz. E nestas d�vidas, entre banheiros ou quartos pequenos e bagun�ados, vivo eu podendo ser o que sou. E escrever � bom e ler o que se escreveu � melhor. Como se a express�o da alma tivesse se cumprido dando forma. De como algo ocorreu em dire��o �. Dar sentido a vida como algo buscado e sentir que se est� buscando �realmente�. � a loucura atenciosa que se percebe. Sei atender ao telefone e o interfone de uma forma social pra avisar meus bons amigos que hoje n�o poderei sair; que estou gripada e que telefonarei outro dia. Isso me fortalece. J� pensou se eu me transformasse num animal assustador, incomunic�vel? Poriam-me no hosp�cio ou sei l� aonde. E como ent�o buscar? Ent�o quando escrevo ou ainda quando atendo ao telefone sinto-me uma viva s� ou uma louca s� incorporada por uma s� loucura. E meu amor por voc� hoje diminuiu. Isso me lembra que quando te amo estou tamb�m viva. Amanh� lembrarei de voc�. Disso fa�o quest�o. E te lembrando e te esquecendo vou vivendo. E �s vezes me assusto com seu susto. E o estranhamento passa e n�o gosto de falar sobre voc�. 8 Prefiro falar de mim. E essa m�sica que n�o me inspira voc�, que transforma seus olhos em espiadores, terap�uticos. Ent�o me sinto um bicho interessante por ser bonito e por tudo isso sinto medo de voc�, de mim. E a m�sica acaba, e descubro que quando te realizo sonhando, paro de te amar. Ent�o sou a maior das doentes. E o avesso se torna aceso. T�m coisas que n�o se misturam. Aprendi tamb�m isso com James Taylor. Na �poca em que amava o menino. Alto e forte, lindo, amor ing�nuo e real. E seus bra�os fortes me apertavam dentro do carro pequeno, t�o grande dentro de n�s. Suados. Amor, que vivi com voc� e disso posso e sei falar. Nossas infantilidades, nossos v�cios e at� nossos filhos. James Taylor, menino, meu �nico e maior amante. E o passado �s vezes tamb�m vive, ent�o se torna presente. E assim os passados e presentes misturam-se at� tornarem-se futuro presente. E o tempo perde o espa�o garantido na consci�ncia. Assim o menino � meu grande e vivido amor passado, mas vivo o passado ent�o ele se torna um passado presente na aus�ncia do tempo. E o avesso continua comandando. E a gripe melhora, meu mal estar diminui e eu aqui no meu quarto esperando o tempo passar. E a vontade que inspira diminui e quero parar de escrever. Minha express�o acaba. Torno-me inerte, paralisada pelo cansa�o do entusiasmo que a vida proporciona. Mas se escrevo vivo, ent�o quero escrever. E escrevo. A ansiedade maior, que anseia dando tempo pra ansiedade menor ansiar. As sutilezas da vida, assim como meu amor por voc�. Mas a ansiedade esgotada, com sono de vida torna-se tr�gica e faz o despertador tocar pra me acordar; pra eu escrever. Ent�o escrevo acontecendo. E os acasos da vida, e o r�dio tocando Elba Ramalho e eu aqui no meu quarto medroso. E a vontade esquece que vive e o despertador para de tocar e eu consigo dormir. E eu durmo rezando acordada. E a gripe melhora e aumenta a minha fome. Quero viver pra comer e matar a fome. E tamb�m pra escrever e viver. E a ansiedade parada traz prazer pra vida. E eu vivo. E eu aqui no meu quarto sendo trag�dia grega. E o Plat�o marxista pende pra direita. Mas as oposi��es tomam a frente de ataque e eu levanto e vou comer bolachas com gel�ia. Assim me defino e acho sentido na vida e no sabor salgado com sol. E me expressando vou eu vivendo aqui na minha cama c�moda e aconchegante que me faz lembrar voc�. E pensando nas bolachas vou escrevendo e vivendo redundantemente. Cheia de vidas. Cheia de mim. E o fim torna-se o come�o de algo que ainda n�o aconteceu. Mas tudo acontece e sucede. E o tempo passa com mordomia. E minha gripe. A gripe que faz eu me sentir e saber que eu sou eu. A minha individualidade, as minhas diferen�as. A minha gripe, o meu mal estar. E as coisas n�o deixam de ser e o ser delas se agrega ao meu eu gripado. O mundo sentido pelo filtro do meu corpo doente. O que seria da minha gripe se n�o pudesse sentir-se? O que seria da minha gripe se n�o fosse meu sof�, minha televis�o etc. O que seriam dos brinquedos? 9 Seriam brinquedos esquecidos. O esquecimento da vida simples que se percebe percebendo tudo, at� a migalha de p�o que me incomoda, por me arranhar o assento. E eu aqui na sala pensando possuir o mundo, possuindo o retorno de ser possu�da. � minha extens�o contornada pelos acasos. Meu corpo acariciando e sendo acariciado pelo mundo que toca. E minha liberdade se refaz se libertando. E o desejo livre respira e liberta mais e mais a liberdade. E me torno alada, humana. E a vida voa e vive. E cria. Reinventando-se sempre e sempre. Lembro-me que algu�m me disse que o homem cresceu. Um dia se tornar� alto e magro, com narinas largas. O sentir esguio que respira profundo. E torno-me dona da verdade, uma deusa martirizada pela honra de ser deusa. Mas a esperan�a surge e torna-me uma deusa humilde, que sabe que peca porque vive. A deusa louca, que s� sabe perder-se na confus�o da vida pensante. Ent�o enxuga a testa e se livra do peso de ser grande e torna-se t�o pequena que se assusta com sua pr�pria respira��o. Ent�o escrevo e olho por vezes a televis�o. Eu, escrava da sorte, do sentido otimista, da procura feliz. Que de pernas cruzadas sinto-me uma bela mulher gripada com um belo par de pernas. E querer mostr�-la, senti-las! Pois eu as sinto e as mostro a quem eu mesma queira mostr�-las. E eu s� ou com meus anjos. Que diferen�a faz? Se o meu corpo tem febre por estar gripado. E o sentido de amar voc�? Amor que me deu a liberdade de ser s�, que me impulsionou para a vida livre. E eu aqui quente, de febre e do teu amor. Escrevendo e gostando de viver. Ser� realidade ou um sonho inventado e vivido? Mas tudo que se sente n�o �? E eu sinto tudo isso. E a loucura aumenta e pede socorro pro deusa. Mas a deusa cansada se recusa a ajudar. E a louca dorme escrevendo tentando viver. E a vida passa alegre entre deuses loucos ou loucos deuses. E a escrava da sorte encontra boas sa�das pra vida feliz. E a redund�ncia aumenta e a roda gigante n�o para de rodar entre gritos felizes e choros de crian�as vivas e mortas. Mas a sensualidade da sorte sensibiliza a escravid�o e a escrava da sorte est� otimista, se esbarrando nos acasos perdidos. E Alice se perdeu no pa�s das maravilhas. Tantos espelhos a confundiram. Eu escrava da sorte, que �s vezes se pega com medo. Medo de que as torradas queimem no forno. Medo que o c�u caia e torne a terra um para�so. Que vida seria? Seria vida? e as perguntas me questionam e n�o me deixam dormir. O amor torna-se amoral e sobrevive na moral revolucion�ria da Am�rica e faz a vida nascer. E o pa�s das maravilhas de Alice enegrece. E Alice perde os seus reflexos. E a chuva cai e eu fumo, e ajeito-me na cadeira tentando me inspirar, viver. Luz do sol! Traga a luz pro pa�s de Alice! Queremos Sol! Sol! Murmuravam os adeptos da morte. E Alice perdida na escurid�o imaginava uma luzinha que brilhava e trazia esperan�a de vida. Que vida Alice? N�o seja ing�nua. A escurid�o � a vida dos vivos. N�s mortas devemos aprender a viver no escuro. E Alice gritou assustada e mudou de assunto, dizendo que sua luzinha crescia e por isso estava feliz. E eu nasci inspirada por Alice. 10 A menina Alice que sabe das coisas. Alice buscava o seu ritmo e a medida que o encontrava, sua luzinha brilhava mais forte. Luz e ritmo n�o se diferenciavam. O sentido de estar viva meio a escurid�o. Procurar-se para encontrar-se. Era esse o seu guia. E tocando-se no escuro via claro. O toque suave que desperta sem assustar. E Alice renasceu num pa�s pleno que ela inventou e tornou-se a dan�arina da vida. A vida dan�ada numa cad�ncia natural. E os acasos faziam Alice dan�ar esquecida de si, emanada pelo ritmo da natureza. Sabia-se por intui��o divina, pelo v�cio de viver plena. Situada num mundo sem plan�cies, nem montanhas, de clima quente e �mido, sentido por sua vis�o clara. E Dona Esperan�a acomodou-se e Alice largou suas bonecas. E a escrava da sorte pensou ser Alice. 11 Um dia. Foi assim. Era uma tarde de sol, um dia claro e triste e de repente algo aconteceu. Minhas fantasias voaram pro outro lado do mundo. E eu senti, e a tarde ensolarada tornou-se hist�rica para minha vida. Uma metamorfose. Uma mistura de dor e alegria. Sinto-me diferente, penso deferente. Talvez d� passos mais largos e abaixe mais vezes a cabe�a. N�o sei. Momentos ofegantes e ofendidos. Mas a vida cresce e aparece, surgindo em mim, no meu pulsar. A vida intensa que d�i e mata. E n�o mais o meu canto de amor, mas meu canto de vida que tamb�m sabe amar. E tudo corre e decorre como o Rio Tiet�, cheio de impurezas humanas. E um clima diferente rodeia a sala de estar. Uma inocente mal�cia ou um grito sonoro. Uma moral amoralizada. Um novo homem velho. O disc�pulo amestrado como a noite ensolarada. Uma id�ia sentida. As bandeiras perdidas. O poder do relaxamento do poder podendo. Os meus bra�os soltos. Meus ouvidos atentos e um canto sinistro. O sentimento morto e a sensibilidade do artista viva. Limites livres em longitude e latitude. E corpos se amando e gerando. O amor erotizado. O equil�brio sentido. A neutralidade viva da raz�o emocionada. O jogo que n�o acaba. A vida se transformando. E o homem sendo. O presente morrendo no passado e o futuro surgindo a cada presente. E Hilke encontrando seus anjos na terra. E a natureza aparecendo sem sombras com contornos fortes e vivos. A linguagem se desdobrando e se simplificando. Hoje me dou � liberdade completa. Teoricamente j� sei ser livre. Um passo ao desconhecido. Meus p�s alcan�am mais firme o ch�o. Piso forte e sinto-me forte. Tento esclarecer-me. Sei-me al�m, por�m s�. Desejo a solid�o para saber-me. Nela n�o me sinto s�, apesar de estar s�. Sinto o mundo, todos em mim. Amo a vida e sou estupidamente feliz. Entretanto, nos momentos de tristeza refugio-me na solid�o s�, sem mim e procuro-me com asfixia at� apaziguar meus dist�rbios. Sinto-me ent�o pronta a recome�ar, por�m sem entusiasmo. Mas o sol, o c�u, a lua acompanham-me por todo dia e noite. N�o sou s�. A natureza me abra�a e me acalenta. Nos meus dias mais tristes, o c�u parece compartilhar comigo, mostra-se mais azul, o sol mais quente; amenizam meus dias tristes. Ent�o os sinto em meu peito e agrade�o-lhes profunda e sinceramente. 12 Grandes amigos que me iluminam. Sinto-me iluminada e feliz, pronta a dar, esbanjando eu que estou de plenitude. Mas por nada disso sinto-me poderosa, ao contr�rio, sinto-me sempre ansiosa de poder, um poder que se confunde com a morte. Um poder c�smico, de �xtase disperso, que abrange o mundo. Cada momento uma vida que se esquece. Passos deixados pra traz sem rastros. Um mundo sem voltas nem lembran�as. Sem esperan�as. O tempo presente me resta. Um saber intu�do que aponta dire��es sem futuro. E dentro da vida passeio devagar. Num ritmo que me esque�o. Numa sintonia que aquece. Quando n�o, carinhosamente me abra�o e por vezes choro. Jogo a algu�m um grande amor que supera medidas e a esse algu�m fa�o pertencer minhas irresponsabilidades. Na sua presen�a obscure�o, apago e nem mais a natureza consegue me iluminar. Ent�o choro. Descrente de mim. Mas o sol vai ent�o aos poucos, brilhando na janela do meu quarto sombrio e por segundos esque�o a dor. Dor que se confunde com uma car�ncia que � original do ser humano. Por isso �s vezes duvido desse grande amor. Reconsidero minhas l�grimas e tento encontrar-me inteira, sem car�ncia e dor. Atribuo a mim mesma esse grande amor e tento amar-me, superar-me. Fragmentos meus, deixados aqui, j�, perdidos no tempo. J� duvidei dos meus p�s. J� duvidei da minha cabe�a. Hoje duvido da vida. Lembran�a herdada da morte. Solst�cio de ver�o. Lua cheia de algod�o. Merecimentos � parte. N�s, inquilinos naturais. Poderosos homens s�rdidos e temerosos. Meu est�mago satisfeito, abundantemente alimentado participa de mim. Claramente pare�o destituir a claridade das palavras. Palavras obscuras que soltas me fazem pertencer a um mundo claro. Correntes pesadas. Caretas de dor. Aboli��o dos escravos. Liberdade conquistada pela hist�ria que agita homens impacientes de descend�ncia selvagem. Hoje falsos argutos, escondem-se de si. De portas fechadas saboreiam a ferocidade aprisionada. Acreditam-se livres e nem ao menos conhecem seus pr�prios nomes. Absortos em sua esperteza racional saem de �taca rumo � destrui��o an�mica. S�o Homeros por falta de vontade e amor. Guerreiros por profiss�o n�o escolhem seus inimigos. Sempre prontos a combater, protegem-se de suas pr�prias almas. Matam-nas e tornam-se s�s buscadores de si. N�s, descendentes de Homero, carregamos por toda vida sua cren�a arguta. Nossa car�ncia original herdada por uma cultura arguta. Fomos culpados por nascimento de algo que n�o t�nhamos culpa. Rebelo-me contra qualquer tipo de acusa��o original. Nasci livre e inocente. Que me perdoem os acusadores. Transgrido regras originais por op��o da minha pr�pria liberdade. Desafino no coro, mas afino-me a mim. 13 Minha voz l�nguida e grave intui minha ess�ncia aparente. Minha ess�ncia inocente, cuja culpa foi formulada por homens fracos, escravos da arg�cia de homens enganados de si. Caracter�sticas? Homens de falso car�ter. �dolos quebrados, conservados por outros tantos homens fracos de f�. Titubeio. Porque n�o? Na minha f� titubeio no asfalto gelado. Meu p� procura a terra fofa e quente. E em meu peito uma paix�o ardente como o fogo. Esc�ndalo de vida. Discorrendo o presente satisfa�o-me sem abusos. O controle de um infinito sentir rege a vida equilibrada. Por muitas vezes perdi-me num sentimento sem fim. A cada presente mais um impulso na vontade de sentir o desejo pulsando em meu peito. Desfaleci. Perdi-me da vida. O controle � fundamental. O sentimento n�o deve ir al�m de um ponto x sen�o ca�mos no dram�tico da vida. No presente momento anseio eliminar o sentimento, que � o caminho e n�o o fim. O fim � livre de sentimento. E n�o cheguei no fim porque o sentir vicia. � bem isso, tenho que lutar contra um v�cio. Regro-me. � necess�rio para que eu n�o caia no caos. Intuitivamente respondo-me. Sobre o fim ou sobre o come�o n�o falo, falando a n�o ser para expressar alguma situa��o como, por exemplo, a do sentimento. Foi uma maneira de situ�-lo. Porque o fim n�o �, assim como o come�o. O meio � o presente, sempre o meio que se modifica porque � m�vel. E m�vel no sentido descrito e n�o no vivido, porque no vivido o presente � fixo. Sempre um ponto fixo. Comodamente um ponto fixo. Meu corpo completamente situado em si. Tudo me � percebido, desde a ponta dos meus dedos, passando pelos meus ouvidos at� os fios dos meus cabelos, sem falar dos meus acess�rios como an�is, brincos, roupas; sem falar do ambiente onde agora me participa uma experi�ncia c�moda e natural. Se imaginarmos um prego enterrado numa parede, grotescamente estaremos fazendo uma analogia com uma situa��o c�moda e natural. O prego perfeitamente ajustado na parede s�lida. Assim me situo na vida. Comodamente sinto meus passos, que sentem o ch�o, cujo ch�o tamb�m parece sentir meus p�s. Uma situa��o fechada e por isso livre. Uma liberdade fechada. A intera��o dos opostos. Uma teoria que ameniza o duelo entre corpo e alma. Por isso apresenta-se diferente. Reflete em sua linguagem uma unidade circular que � pr�pria do pensamento ocasional, intu�do. Um saber que � originado pelo interesse de autoconhecimento. Um saber experimentado, bem diferente do conhecimento hist�rico, pol�tico, que � um saber que vem de fora para dentro, calcado sobre interesses econ�micos egoc�ntricos, que visam um poder de possess�o. 14 Hoje, porque hoje? Hoje me sinto ofegante de amor e ofendida por te amar tanto. Dramaticamente sinto esse amor que me enfraquece ou me fortalece. �s vezes duvido de tudo, perco-me nas minhas intui��es. Destruo minhas alternativas. Racionalizo e vivo erradamente no que � mais importante pra mim. Pois eu me conhe�o na medida do meio e me surpreendo por n�o poder me satisfazer no que mais quero. Quero voc�, n�o quero t�-lo possessivamente. Quando digo quero, digo a mim que devo ser livre. Minha liberdade completa me oferece voc�. Acho sinceramente que agora estou mais pr�xima de mim, t�o pr�xima a ponto de sentir voc�. Esque�o: adorme�o de amor. E por momentos sinto-me uma deusa. Meu peito queima me fortalecendo inteira. N�o sei viver sem uma grande paix�o. Por isso vivo escandalosamente, no sentido de sentir profundamente a vida. Sabe, acho que me aceito hoje bem mais que ontem. E para dizer isso: vivo um presente fora de mim que v� o tempo. A liberdade com a ajuda da imagina��o de viver o presente como se quer. Com voc� por enquanto s� em fantasias. Fantasias absurdas e deliciosas. S�o momentos sublimes de infinito �xtase. Sou paciente e te espero. Minha aten��o sem descanso ultrapassa o tempo perdido. Agora tento me situar. Vou vivendo fora do trilho, �s vezes para a direita, �s vezes pra esquerda. Meu peito j� n�o tem mais esperan�as. Hoje, porque hoje? Um presente adormecido pela minha impot�ncia an�nima. E dito por n�o dito, j� disse de algum modo minhas incoer�ncias. Apresentei-me durante todo o tempo de maneira conivente. Hoje, por�m digo sem dizer, recatada que estou de mim. Um pra dentro que se despede do pra fora. Recusa-se a falar. Espectro. Relato sombrio. Perdido da vida. E apesar do des�nimo for�o-me a continuar, como se fosse necess�rio lutar; guerreira faminta. Falo de mim, fora de mim. Tento encontrar-me, � medida que escrevo tento aproximar-me. Em v�o, tudo � em v�o. Meus p�s me chamam. Vejo-os distante, como se n�o me pertencessem. Meu cora��o acelera, estico-me pregui�osa, longe de mim. Por que hoje? Presente amorfo, desconexo. 15 Mas mesmo assim relato. Tudo �. Hoje �. Ou�o uma bela m�sica. Minha alma t�mida parece sorrir. Uma singela suavidade em meu ser. Esperan�a solta dispersa no tempo. Falo com voc� que n�o me refuta. Deixe estar. � bom falar s�, � bom ouvir s�. Minha atividade me acompanha, meu �nimo ressurge. Minhas pretens�es sem descanso. Meus gritos abafados. At� quando? O drama recobre meu ser de sentimentos exagerados. Meu �nimo sem f�, descrente de ti. Sem exageros percebo exagerar. Contrariada percebo que estou a me contrariar. Meu desamor por mim me instiga ansiedade. A m�sica toca e eu a acompanho, dou-me a ela, um pouco dela em mim. Escolhi por pura vontade minha solid�o, minha liberdade que �s vezes me sufoca. Muita liberdade pra um p�ssaro sem asas. Meu Deus! Ganharei asas? D�vidas que me atormentam e me d�o dores de cabe�a. Pensamentos tristes. Luzes apagadas, cigarros acesos. Minha imagina��o agu�ada inventa novas situa��es felizes. Quem sou? Sem voltas. Eu, mulher. Lembran�as inoportunas. Luto em v�o. Meu sangue quente palpita. Eu, uma mulher poderosa, imune de ti. Novos amores passados. Fazem-me tremer e meu corpo deseja, lateja. Refugio-me na dor, na falta, meu peito s�. V�o em dire��o ao meu Menino her�i. Hoje um homem cheio de her�is. Parte de mim roubada de mim por mim. Tudo em v�o. Voc�? Acabou. A m�sica toca, minha liberdade cala-se e escandalosamente vivo. Aqui. Com meu passado, presente e futuro. Minha respira��o ofendida recente e eu choramos. Meu sentir, minha felicidade transl�cida. Momentos trai�oeiros que aspiram sempre mais. Nunca parar. Ansiedade infinita. Momentos �ngremes, sem solu��es plaus�veis; loucos momentos que desfiguram o figurado e trazem � superf�cie novas figuras. Sempre novas figuras. Conflitos superados, imagens livres. Confesso: apaixonei-me profundamente pelo mar, por sua suavidade surpreendente e inigual�vel. Um dia vi um homem loiro corpo dourado refestelando-se ao aroma do mar calmo: bra�os soltos cabe�a altiva. Estaria ele sentindo o mar como eu o sentia? Sua ousadia me enrubesceu e eu o odiei. O mar em mim, pensei... E amei o mar. Afoguei-me em seus bra�os e meu �dio esqueceu-se, minha possess�o infantil destronou-me. Por segundos sofri e agora percebo que n�o h� posse. O mar � de todos aqueles que o queiram. O homem loiro nem me notou absorto ele que estava. Olhei-o com admira��o. Coincid�ncias paralelas, transversais. Todas situa��es tran�adas ocasionalmente. E novas alus�es coordenam novas situa��es tran�adas tamb�m aleatoriamente. Situa��es que do profundo emergem, simplificando-se. Mas o superficial que n�o submergiu n�o conhece o simples da superf�cie, perde-se no profundo que emerge. 16 Uma poesia em mim Uma vida confessada. Uma sinceridade que anestesia meus pecados. Levito em meu corpo, feliz, uma felicidade que n�o � plena porque quer mais. Ou ca� da linha do meio ou estou preste a situar-me em uma nova linha do meio. Um meio m�vel. Cada vez mais situada. Sem fim. J� falei sobre isso, no entanto repito sem repetir, porque nada � um em si duas vezes. Estar completamente sintonizada, harmonizada. Poder cantar, dan�ar, pintar e amar. Ser artista. Deixar de vez de pensar. Esquecer as situa��es tran�adas. Simplesmente um verso, como uma respira��o profunda. Um minuto sentido, uma poesia em mim. Tudo bem. Hoje recome�o minha vida. Medidas irrevers�veis. Meu bem estar pro�be-me de falar. Desisto de mim. Satisfeita. 17 Faz de conta Faz de conta que eu sei viver. Faz de conta que eu sou feliz. Faz de conta. Tudo faz de conta. Ontem eu cresci e me arrependi. Hoje sou grande e penso no amanh�. Realizo meus atos, meus passos. N�o esque�o da noite porque � escura. Nem do dia que � claro. Nunca esque�o daquilo que posso perceber. Meus atos, meus passos. Ontem cantei bem alto uma m�sica que havia escutado h� muito tempo. Acho que hoje esqueci. Nada permanece. Tanto faz, sei levar. Meus saltos altos, minha boca pintada. Sei levar. Perdida na noite escura eu sei levar: olho o c�u, as estrelas, sinto-me em casa. Faz de conta que estou presente. Num c�modo qualquer, sinto-me no �tero da vida. Eu sei levar. Penso em Caetano, luz acesa, ultra-acesa, atr�s do pano; sei te levar. Desconfio, aprimoro, repito e nada sei. S� sei levar. Tanto faz. Meu corpo quente de vida. Meus olhos tristes ou alegres. Perdida em mim eu sei levar. Uma m�sica bonita como a de Chopin eu sei levar. Gosto de viver, amo a vida mais que a mim mesma. Atenta. Incompleta. Tento levar; meu desejo que aspira vida. Sentido intuitivo que reclama e faz levar. Blusas desabotoadas. Mulheres. Eu. Enigmaticamente sei me levar. Uma mulher entre tantas. Acaso me ouviu? Responda, agora. Sem respostas eu sei levar. Perguntando eu sei levar. Devagar. E minha jovem exist�ncia duela com o ar. De espada na m�o, rasgando o ar compacto eu sei levar. Obsessivamente eu sei levar. Na noite que chove, eu molhada, feliz; chuva pesada eu sei te levar. Sobre uma �rvore alta pego nuvens no c�u, entre meus dedos gotas de orvalho, olho-me faceira, sei-me levar. E l� em cima um azul forte me ati�a, posso voar, eu sei voar. De asas brancas eu sei levar. E cansada tombo no mar e nadando, boiando sei-me levar. E j� na praia, areia quente,;sei-me levar. No sol quente teseio o ar. Tiro a roupa e nua reclamo vida. Sei-me levar. Em campos abertos, vacas pastando eu cheiro o ar, cheiro o ar. Volto pra casa perdida em mim. Sei-me levar. Eu, tanto, tudo, todos. Sei me levar. E voc� me ouviu? Viu-me? Eu sei levar. Respostas que respondem meus anseios; me animam. Eu sou rom�ntica, eu sei levar. E l� em algum lugar, j� n�o sei falar. L� onde nada acontece, onde tudo �, eu sou. E aqui meu corpo quente repete, repete, diz sim. Atenta, incompleta, mulher. Teu corpo em mim. Anseio assim, assim, devagar; sei me levar. Sintonia: at�nita te percebo. Perco-te. Sei te levar. E nessa grande brincadeira; metamorfoseando-me eu sei levar. Percebendo-me. Sonhando, aqui, agora, eu sei levar. Bem devagar. Ouviu-me? Eu sei levar. Digo-me: vacas, cabras, zebras, tigres, porcos, ratos eu sei levar. Perdida. Eu 18 Um louco Fazia calor, o morma�o quente esquentava e dissolvia minha pele; al�m do mais escutava Lob�o: Decadance avec elegance... Perdi-me no espa�o; eu era o pr�prio calor, a pr�pria m�sica. E um �xtase calmo tomou-me todo. N�o me pensava, sentia-me, mas sem contornos e sem preenchimento. Sentia-me algo, simplesmente algo que � sem se dar conta. Foi bom, mas mais do que bom foi penoso quando casualmente dei por mim, por meu corpo queimado e suado e por minha saliva seca. Com desespero tentei viver e sem f�lego, assustado, aspirei em mim o mundo. Eu era um louco. De p�, cambaleante, fugi de mim em dire��o ao mar. Meu corpo quente esfriou e minha cabe�a cresceu. Um homem cujas pernas n�o se sustentavam e cuja cabe�a tombava hora para direita, hora para esquerda tentando equilibrar-se sobre o corpo esquecido. Eu era um louco, um louco �vido de entendimento. N�o mais me suportava sem contornos e nesse af� de vida bebi a �gua salgada at� saturar-me de sal e o sal fez-se carne e eu renasci. Sa� ent�o do mar, inteiro; pernas firmes. Sentei na areia quente e pensei ser Deus. Um pensamento louco. Ent�o eu era um louco e olhei, tentei enxergar o fora eu e vi outros deuses, outros loucos. Todos eram loucos. Ningu�m me percebera. Eu era livre de mim, dos outros. Mulheres, homens, crian�as. Todos loucos e deuses. O sentido de viver � louco. A pr�pria vida � uma grande loucura. Maior ou menor n�o se pode dizer. Tanto faz sentir minha cabe�a abranger o mundo como sentir meu p� queimando na areia quente. Tanto faz a crian�a brincar na areia ou no mar. Tudo � sentir; sentido de vida. E aqueles jovens jogando v�lei tentando viver? S�o jovens loucos que procuram um sentido de vida, assim como procuro por meus contornos. � uma quest�o de op��o meio a tantas alternativas. Poderia estar jogando v�lei, nadando ou ainda correndo e nem por isso deixaria de ser louco, de estar fazendo algo. O fazer algo � louco. Todos poderiam se quisessem estar agora procurando por seus contornos. N�o est�o n�o querem; nem por isso deixam de ansiar a vida. O homem s�o n�o existe, o que n�o mais anseia porque �. E por isso sinto-me um louco aliviado; identifico-me com meus companheiros de esp�cie e vou jogar v�lei, e jogo sabendo que sou um louco jogador assim como todos os jovens que me cercam. E os amo quase mais que a mim mesmo. Sorrio pra garota da direita, pro garoto meu advers�rio e acho simp�tico v�-lo me chamar de filho da puta porque consegui com extrema loucura rebater com sucesso uma bola. Sou um louco feliz. Talvez minha �nica diferen�a. E paro agora em mim e me paraliso. O ontem � agora. O agora, j� n�o existe. E percebo que posso reviver sempre. Mas quando revivo, vivo o ontem e o j� acontece pleno, sem ansiedade, tranq�ilo de vida porque � a pr�pria vida. E por segundos parados sinto a vida parada. E � bom demais pra eu esquecer que ontem existiu. E n�o � um final feliz; � um agora, um momento feliz. Um acontecimento acontecendo. E hoje posso ver. E mod�stia � parte, meus lindos olhos pretos podem enxergar, assim como meus largos ombros ou meus belos p�s. Todo meu ser enxerga amando, sentido. E hoje � dia de festa. O andarilho anda. Todos tornam-se andarilhos. E a festa explode a vida e vira rotina. E amo a loucura do padeiro entregando p�o ou da crian�a chorando ou do meu mundo acontecendo. Ent�o ontem aprendi que todos s�o loucos e que posso ser o que sou e tamb�m melhorei o meu v�lei e minha apar�ncia. Minha pele queimada atrai as belas mulheres. E mais, aprendi tamb�m que posso dirigir minha loucura. � uma quest�o de saber optar e ir em frente. Por vezes, r�pidos momentos surpreendem-me. Momentos plenos. Minha ansiedade acalma-se. S�o situa��es de �xtase passivo como e sede saciada. Se n�o fosse o meu medo de ser seria sempre, porque a morte perderia o sentido. Recuso-me, no entanto a continuar. Quero ser louco como meus companheiros de v�lei. N�o suportaria nascer s�, ou talvez... E isso me faz pensar em Deus. Poderia eu viver num mundo solit�rio, desinteressado de anseios, desejos, que s�o por sua vez sentidos de vida, loucura? Talvez, �s vezes penso, encontrasse homens s�os quando realmente tivesse-me tornado um iniciado. Mas quem pode dizer? Eu? Um louco que tenta obter a plenitude de ser? N�s que aprendemos a viver alinhados; sair da fila da classe sem que a professora nos chame a aten��o e nos d� um castigo. E mais, poder correr pra onde quiser. Pra onde ir? A liberdade que a sanidade completa d�. Eu a desejo medrosamente, e por medo deixei escap�-la, como um p�ssaro que opta pela comodidade de sua gaiola. A escolha � dif�cil; � bem mais f�cil ter uma geladeira farta, mas a fartura engorda os gulosos. E por isso reclamo-me na minha apresenta��o. Apresenta��o que se representa e acalma meu �ntimo, torna-me transparente e minha pele queimada reflete minha vida. Ent�o me lembro do mar, do sol. Mar, musa inspirada e torna-se mulher. Retrato sentido. E subitamente lamento e deixo acontecer. La�os desfeitos, abra�os abra�ados. E eu aqui no mar, perto do sol, perto de mim, ofegante e vivo. Porque o mar � minha mulher. Todas as noites nos encontramos clandestinamente. Ela, amante de todos. Seu abra�o frio e salgado desperta-me pra vida, pra mim. Ent�o eu vivo pelas noites, pelos meus banhos mar�timos. E aqui eu, cansado de mim da vida. Numa rede esperando anoitecer, esperando o mar, me esperando. Mas hoje longe da minha musa, do sol, olho-me vaidoso no espelho. Meus cabelos loiros minha pele morena lembram-me de ontem, de hoje e da noite que vir�. E sentado espero. 19 Hiperb�licos movimentos situam-se na esfera do conte�do humano pessoal e universal. Uma linguagem aparente, por isso estranha e redundante como a pr�pria natureza. Uma superf�cie que extingue detalhes. Acumula-os em si. Uma linguagem gen�rica que abrange o m�ltiplo. Mas � una. Por isso direta e simples. Estranho � tamb�m me supor cavernosa. Repleta de precip�cios. De quedas bruscas. Desconfort�veis surpresas. Eloq�entes passagens subterr�neas das quais tento desvencilhar-me procurando novos caminhos. Superando abusos. Preferia j� ter nascido leve. No entanto n�o dispenso a levitude que as profundezas me proporcionam. Como dizer? Sofisticadamente viva. Talvez diga melhor de outra forma. N�o importa. Importa sim, meu peito que rege meu destino. E meu destino que h� por vir. Minhas realiza��es. Isso realmente importa. Simp�ticos momentos. Pr�ximos. Eu, eles: N�s. Revitalizantes. Pac�ficos. Incongruentes situa��es que escapam no tempo infinito. E solta no ar me delimito como uma ef�mera, entre tantos ef�meros. Num �xtase rotineiro que aquiesce. Sobretudo: inteiros, pessoais. Momentos simp�ticos como a pr�pria exist�ncia, como o pr�prio �dar-me conta� que estou viva. Um novo cap�tulo desinteressado. Surpreendente. Asfixiante. Intoler�vel como a pr�pria exist�ncia. Meu credo. Teu medo. V�rias proposi��es desarticuladas tentando finalizar. Mas cada final empreendido super objetivado. Uma queda que d�i e surpreende a comodidade de ser homem. A grande transforma��o que incita a vida radiosamente vivida � pega de surpresa pela vida hist�rica que � acad�mica, que puxa pra tr�s. Porque n�o ir ter que necessariamente ir e vir. N�o atribuo-me responsabilidades deixo na m�o do acaso tal peso. Submeto-me simplesmente. Meus grandes objetivos que se perdem no seu pr�prio caminho tra�ado. Reconsidero, reconsiderando-me. 20 Meus cap�tulos inacabados. Sobre o ritmo adequado. O momento sentido. Uma presen�a que sente o presente. A lucidez aut�ntica. Sem res�duos passados, nem ac�mulos futuros. Tudo muito simples. Uma corrida sem tempo que faz o tempo passar. Dia, noite. Sauda��o de mim. Um canto contente, dois, tr�s cantos contentes. Imaginados, vividos. Realidade a postos, sem dep�sitos. Desejo fluente sem fim. Ouvidos atentos, sentidos alertas, descobertos. Um modo de ser. Casulos abertos sem contin�ncias, sem esguios. Absortos pensamentos vivos, sem hist�rias a contar. Comedidos. Interminavelmente comedidos. S�lidos. Acometida por mim devaneio s�lida e livre. Triunfante. Finalmente. Voc�. A integridade da dispers�o. Tudo ocupa um lugar no espa�o. O preenchimento absurdo que esclarece d�vidas. Meu ser ouvindo o universo. A ansiedade exposta com respostas. Respostas que me imprimem e me fazem ser expressa. O homem gen�rico, sua individualidade como esp�cie. O cosmos livre e Deus podendo viver. A integridade da dispers�o. Um mundo lil�s. Os v�us retirados e as noivas sem padres e os padres sem noivas, novos homens poderosos sem bata. Todos sem f�, sendo a f�. O vento, o destino apontando. Os rel�gios guardados, sentados na hist�ria. �s uma gueixa oriental. T�mida e serena. Deusa do amor. Bela tu �s. Amor dar�s. Receber�s. Que bom viver. Rezo por ti. Sem me esquecer. Que dimens�o. Meu cora��o. Sou mesmo eu. Vou explodir. Minhas alcoolices. Minhas disfun��es. Meus apetrechos. Minhas distra��es. Tudo maior. Sentir o qu�? T� sim. T� n�o. Adoe�o. Esmore�o. Meu bem, meu mal justificado. Desconfio. Aprimoro e nada sei. To desconfiada. To quase parada. Ser todo ser. Desperta. Alerta. Ta bom. To nessa. Despe�a. Atesta. Seq�estra. Sem valorar. Emoldurar. 21 Cantos Um canto, dois, tr�s cantos e um conjunto encantado que relembra e aspira. Cantos que sugerem, que mobilizam o pensamento; cantos im�veis que participam passivamente do meu ser. E inesperadamente um verme se arrasta asqueroso e cinzento aos meus p�s. Um intruso. Eu grito tentando expurg�-lo de mim, do meu conjunto encantado. E uma vassoura assassina ansiosamente o mata e o varre para o lixo. E eu mudo e decoro tentando esquec�-lo. A beleza reflui. Aspiro um, dois, tr�s cantos encantados; cantos im�veis que me mobilizam, e que me fazem ser. Cantos que se repetem, que se encaixam como quebra cabe�as me refazendo. E minha vida esquecida dos vermes foge deles sem saber, agu�a meus olhos e eu brinco mudando e decorando. 22 Uma janela aberta. Sem descrever. Observando e vivendo. Uma janela aberta que respira escutando e encontrando o mundo; sendo. O sentido da vida invadindo-me atrav�s de uma janela. E as �rvores sacodem ao ritmo do vento e de Vivaldi que toca na vitrola. Vento? Vivaldi? Qual a diferen�a? Sensa��es que me fazem ser. Algo antigo: o homem. Algo novo: uma janela aberta. Sem invadir. Sem repetir; sendo. E o vento p�ra, Vivaldi continua e as �rvores sacodem sem se sacudirem. E eu vivo fantasticamente num mundo que � tamb�m seu. Meu mundo, seu mundo. Quantos mundos existir�o? Uma janela aberta mostra minha vida que � diferente e igual a de todos os homens. E eu respiro e deliro sem limites, delimitando-me a cada momento. E minha alma em sil�ncio vive. Uma janela aberta. O mundo em mim. Uma janela que escurece pela noite que amortece a vida. Penumbras. Somente silhuetas que retratam uma janela aberta, que no escuro da noite transborda de luz. Eu apare�o e cres�o. Meus olhos cansados e meu corpo transparente sugerem-me que feche a janela. 23 Nada escrevo. Por�m escrevo. Palavras que n�o dizem. Eu digo. Sem dizer. Os momentos desaparecem. Agora, por�m sou. Aconte�o. Escrevo. Incr�vel poder ser sem se ater. Deixar de analisar. O acaso sem escolha. Por�m discorrido. Talvez sem sentido. Mas sendo. E agora escolho para deixar os acasos acontecerem. Quero escrever sobre o esquecimento. E me lembro de esquecer e esque�o acontecendo. Sem medo. Sou sem ser. E tudo � ou n�o �. Nenhuma ang�stia. Nenhum desejo. Algo por si. Agora os acasos casualmente s�o a pr�pria dire��o. E tudo corre devagar. Sem esperan�as. E posso dizer porque posso dizer. E digo. Talvez sem dizer. Esque�o tudo e tudo �. Um tudo que se resume no agora que �. Um sentido claro e louco. J� passou. J� chegou. Presente. Poucas quest�es que n�o perguntam, n�o esperam respostas. E a vida flui. Meus sintomas dogm�ticos. A car�ncia adormecida pelo amor. Um grande amor criado e sentido. Um sonho? Talvez. Um contato real. Um ponto fixo que me faz andar firme e situar qualquer um que por mim passar. Uma presen�a descansada, sabidamente humana e por isso viva. Vivacidade ou vitalidade. Cora��o quente e p�s frios que pisam e sentem o solo. Um solo que alerta meu ser. Tudo isso e mais um pouco. Palavras que n�o dizem. Sufocam a liberdade de express�o. Uma vida inspirada. � isso. Poderia assim talvez dizer. Ou ainda um sil�ncio concreto. Poderia talvez, tamb�m assim dizer. Porque o medo de ser levanta filosofias inteiras. A sanidade se torna doen�a. A doen�a se torna normalidade. Os estere�tipos que ausentam a felicidade. Tornam-nos descrentes de n�s. Poderosos estere�tipos fracos de vida. Ser-se leal, digo. E confesso minha suposta dire��o. Porque tudo � suposto. E nas suposi��es andamos e tentamos nos encontrar. Pois � assim que deve ser. Digo eu, supostamente. 24 Pregui�a l�dica. Vulgarmente chamada de ociosidade do pensamento brincalh�o, ou seja, do pensamento infantil; Sem compromissos. O pensamento livre, desejoso, criativo. Uma pregui�a de gravata, que sabe resumir e imprimir. Quando quer. Ou um homem sem sapatos. Ou um cavalo disparado. Ou um espelho quebrado. Uma inaugura��o que despede. Qualquer coisa que satisfa�a, estenda e acha gra�a. Que procura discernir. Que vira adulto sem pai nem m�e. Que exclui o que � teso. Que teseia o mundo inteiro. Que se arredonda. Salta como bola. Desenrosca. Saculeja. Que separa e mistura modelos. Que n�o sabe copiar. Que n�o sabe dar fim. Pregui�a l�dica. Inspira��o otimista. L�nguidas ret�ricas ling��sticas. Presun�osas vertentes da vida. Rom�nticas, sem�nticas traduzidas. Inconseq��ncia que pretende e desmente. Sobretudo anda e fareja o ch�o. Repudiada pela hist�ria est�tica que dispensa movimentos c�clicos, que reclama aten��o. S�nscritos perdidos, esquecidos que adormecem no tempo parado. 25 Sequer saber por onde iniciar. Procurar um fio. Cad� o fio? E a procura torna-se o pr�prio fio. A procura de dire��o. Dire��es. Tudo. Nada. A abstra��o completa, real. Um mundo paralelo que complementa. Uma exist�ncia tranq�ila. E o meio inicia. Sempre o meio que � falho porque n�o gosta de falar. Esquece a linguagem. Pontos. Cantos. Tantos. Santos. Tudo. E o som sobrevive fazendo a exist�ncia cantar. Um nome qualquer que soe o som da exist�ncia. Uma inven��o intu�da. Uma filosofia cansada. Talvez a filosofia do artista. E sem querer tudo acontece e sucede. O corpo expressado. E as figuras, met�foras, dizem mais salgadas; menos picantes. A agressividade est�ril e as mariposas invadindo meus sonhos e me fazendo ser suposta. Minha suposta vontade que sup�e j�, novas vontades. E eu a vontade podendo amar o andarilho e a prostituta. Escrevendo a minha pregui�a com pregui�a. E mesmo assim agindo, vivendo. Meus p�s doem, minha cabe�a reclama. E me enrolando e me enroscando na superf�cie vou penetrando vagarosamente no meio. A estabilidade ainda � fic��o, mas j� � suposta e viva no mundo das mariposas. Serei mariposa? N�o sei. Penso e suponho. 26 Arriscar implica no risco expl�cito do pr�prio arrisco. Arriscar significa praticar uma teoria. Arriscar conota coragem e vontade. Arrisco, pensamento positivo que afirma o talvez. Arriscar, sin�nimo de desejar. E quando o arrisco se torna o pr�prio sentido da vida, transforma o homem em animal po�tico. A realidade arriscante � diferente da realidade c�moda. Da passividade do desejo. Ele reprimido desconhece-se. Falar sobre desejo � falar sobre amor. Sentindo universal que prop�e um pessoal mais definido. 27 O que � fora eu? N�o sei. Sei-me apenas. At� onde eu projeto. Tudo que me �, � impresso por mim. Meus guardanapos de papel. N�o sei o que sinto agora. Sinto frio e me encolho buscando calor, aque�o. Sobrevivo na luz. E minhas m�os frias escrevem quentes. Eu em mim. � bom. Sou s�. T�o s� a ponto de me amar. Me amo, sou s�. Eu com todos. O calor de todos em mim. Meus encontros. Minhas mil vidas. Com todos e comigo. E meu p� levanta e eu escrevo com frio. E assim falo com o corpo. Meu corpo me �. Eu que penso. Abstrata e viva. S� corpo. Sinto o mundo aquecendo meu corpo e por isso vivo quente. Sem perdas. Sem hist�rias a contar. Um sem passado. Vivo. Minhas fic��es, meu eu. A irresponsabilidade sobre a minha responsabilidade de me ser. Falo estranho. Penso. Sou-me estranha. E corro em vida pela vida. Pelo verdadeiro sentido dela. E tento filosofar e fico feliz porque penso estar conseguindo. Minha filosofia, minha vida que me ensina a ser. E sou at� n�o poder mais. Respiro profundamente e seguro a respira��o para deter-me no meu pr�prio sentido. E caindo sempre em mim: um passo em dire��o, sempre um passo em dire��o. O que � fora eu? �quilo que percebo. Voc� pode perceber-me. Fazer-me parte de voc�, mas nunca me ser�. Nossas intersec��es. Nossos eus aumentando. Agora quero amar, ent�o amo. E torno-me redonda. Sem in�cio e fim. Sendo. Fortemente sendo. E o sil�ncio � bom. Muito bom. Ent�o silencio e o sil�ncio toma forma compacta e �. Expressa-se. Tudo em mim. E n�o adianta mentir sinceramente. N�o levanto bandeiras simplesmente me assumo. Canto a vida com paix�o. Anseio-me e abaixo bandeiras suspendidas. Acredito-me. Sem religiosidade, mas com uma f� apaixonada. Pra que falar delas ou deles, se eles j� me s�o, sem deixar de serem-se. E lembro de Nietzsche e amo Nietzsche. O narcisista maior que virou artista. �s vezes me possuo e sou transparente. Sei andar t�o leve que contrario a gravidade. E um final feliz pra n�o contrariar a dire��o do vento que bate forte e me arrasta, me levita e me faz rir. E nas entrelinhas ando tentando me equilibrar, tentando me expressar. E as palavras repetem-se. Sin�nimos. O sentir verdadeiro n�o fala. A palavra perde o sentido, n�o comunica. A palavra s� serve pro canto como fundo. A voz importa: o som da voz. Um homem atento, desperto. Os sentidos sabendo, porque a raz�o ilude, nos exporta pro mundo dos resignados. E Plat�o levanta e abaixa a cabe�a humildemente e Nietzsche sentado aperta freneticamente as m�os quentes, rindo e chorando. Um assassinado por sua l�gica doente e outro pelo corpo cansado e viciado de l�gica. Faltaram-lhes dire��o e p�s. Dois sem p�s. Dois aleijados que hoje curam aleijados. Dois sem charme. E a cozinheira bota tempero no feij�o agu�ando minha fome. E eu caio das entrelinhas pra um lugar qualquer. A avers�o dos opostos que fazem o meio se desequilibrar. Nem t�o perto do norte, nem t�o perto do sul, sen�o o lugar sonhado vira fantasia e a realidade passa desapercebida, e passamos pela vida de rasp�o. Somos caf� com leite nesta grande brincadeira. E a vida rir da gente porque n�o soubemos seduz�-la. E eu choro por incapacidade. Apenas momentos. Ent�o aspiro vida e reclamo vida. 28 Justificativas. Abordar e perceber os outros me justificando me encobrindo. Meus medos. Minhas justificativas. Meu olhar de esguio. Minha lentid�o ansiosa, indiscriminada. Minhas quest�es. Desconfio de mim. Percebo que estou viva, pois sei errar; e o erro torna-se eficaz. Perco o p�. O que �? O que n�o �? Nada sei. Um novo sopro de ar. E viva a falta de ar que descobre tudo isso e mais um pouco. Sentada, dois p�s, uma cabe�a. Algo. O que �? Quem sou? E a m�sica toca. E eu sou. Tudo �. Sem pensar escrevo e respiro. Sou. Obscure�o-me. Apare�o. Simplesmente sou. Um canto, dois, tr�s cantos encantados que relembram e aspiram. Uma m�quina, duas m�os, minhas m�os. Meu cora��o. E a m�quina de escrever bate no ritmo do meu cora��o. Uma boca, dentes, unhas, garras. E lembro-me do le�o feroz que corre atr�s da presa. Seu alvo. Sem medo. Meu alvo. Eu. O mundo a meus p�s. o mundo sobre mim. Encontros. Hoje voc�. Palavras aflitas. Poucas palavras aflitas. minhas unhas e meus dentes t�m fome. Meus olhos brilham e procuram. Ansiedade. Vida. Hoje � dia de guerra. A guerreira prepara-se para atacar. Aque�o e esque�o. Sou-me. J� ent�o preparada. Pronta. E agora posso sorrir e amar. 29 O semi-c�rculo A corrida inicia-se �s 13 horas. Homens e mulheres saltam freneticamente em seus bancos duros. Pretendem a vit�ria. O rel�gio bate em seus ouvidos, 17 horas e a corrida tem que parar. N�o h� vencidos, nem vencedores; apenas alguns homens amarrotados e cansados tentam respirar. Ofegantes homens que procuram a autenticidade da vida. Descont�nuos relances de paz parecem pairar sobre seus cora��es euf�ricos. Somente aplausos podem acomodar os andarilhos que correm. Por seus espectadores almejam o fim. 30 Talvez eu v�. Talvez n�o. Parei. Nem fui, nem fiquei. Estou, sem estar, em algum lugar. Vivo nesse lugar que n�o �. E nele coloco regras. Tudo � percebido agora. Falta-me coragem. S� isso. Percebo o grande desencontro de mim comigo. J� � um passo. Faltam-me impulsos de vontade. Falta-me eu. Sou um tu perdido num mundo de eus. Procuro por meu ego, procuro em v�o. Solidifico o inef�vel. Procuro c�mplices. Anseio a morte. Transbordo de mim sem mim. Quase pronta, sinto-me a cada dia mais fixa, concentrada e madura. Pronta a cair como o fruto maduro. Mas sei que para estar pronta necessito de paci�ncia e otimismo. E por isso saboreio todos os meus momentos de vida, por mais cru�is que eles possam parecer. Tudo que o destino me oferece � absorvido por meu ser. Sou-lhe receptiva. Se isso lhe vale? S� ele poder� responder. Se me extravio da vida? Se perco-me em futilidades? Percebo agora que estou a criticar. N�o estou pronta realmente. Espero com tranq�ilidade o pr�ximo acaso que o destino me proporcionar�, ou talvez ainda algum impulso por ordem da raz�o, das poucas regras a que me submeto. E lembro-me de Nietzsche. N�o digo, nem pretendo apoiar estruturas subalternas que se enrijecem �s custas de homens passivos e dominados. N�o falo sobre escravos, falo sobre homens livres que adquiriram a passividade de ser. E tamb�m n�o fa�o distin��es, com isso pretendendo-me superior ou inferior. Sobre o que falo n�o existe dom�nio de alguns poucos valores. Pois � justamente a falta, ou melhor, a supera��o deles que ocasionam o nascimento da verdadeira liberdade. Quantos homens sobre isso escreveram e viveram. Sim; viveram, pois s� quem vive pode falar. Agora me acredito, compartilho meu ser por pr�pria convic��o e vontade. 31 A verdade � natural. � org�nica. � o sol, o mar, a lua. � tudo o que carece de maiores explica��es. � apreendido e manifesta-se atrav�s de qualquer express�o sincera. 32 Palavras; S�mbolos desconexos; anexados pelos acasos. Com rima. Anima-me. Dizer o imposs�vel plausivelmente. Sem pausa, atrasados versos. Canudos. Cautela. Desvela. Assimila. Vis�o. 33 Um pouco de tudo Uma �rvore singela. Uma janela aberta. Um recurso sem discursos. Um vaso florido. Um peito que gema. Uma mo�a que ria. Tudo que fa�a. Uma faca que corte. Um pente largo prum cabelo crespo. Uma semente que d� frutos. Um esconderijo que esconda. Tudo isso e mais ainda. � a vida. 34 Do nada, o livro. Um livro. Que �. Sem ser. Sua falta lhe diz sim. Por isso n�o � sendo. Representa-se representando seu conte�do que nada � sen�o um nada poss�vel e delimitado. Inventa recursos e tenta representar o nada que n�o � vazio porque o vazio � tamb�m nada. Situa-se acima do n�vel do mar sem sair do seu pr�prio recurso. D� sentido ao nada, tirando do nada sua originalidade preenchida. Desprega pregos. Reboca buracos. Levanta paredes. Preenche com o nada o nada. E do nada saem nomes que nada s�o. Forma o desconexo, retira do nada a superficialidade que nada simboliza. E dos nadas, o livro surpreende. Enfatiza o nada, realizando um nada cheio de nadas que complicam a pureza do pr�prio nada. Que �. Simplesmente �. Sem adornos nad�sticos. Complementa o nada, materializando o nada de nada. Redescobre em cima do descoberto o descobrido que j� � descoberto. E redesdobra; e redesdobra Aprofunda o sem profundidade. Ent�o o nada camuflado, escondido de si por si pr�prio empola-se orgulhoso como um pav�o sem penas. E supondo-se complicado, confundido, ele que est� de si, regurgita seus nadas, seu pr�prio si e assim destempera-se, sufoca-se e desatando-se inescrupulosamente ressurge empoeirado e infantil, procura o seio da m�e e quer leite. Um livro. Anedoticamente: um livro que nada �. 35 Carolina Carolina, mil perd�es. Sempre alheia, sonhadora Carolina que n�o te vi crescer. Carolina que tateia, me perdoa. Ser cruel me perdoa. Aqui te pe�o. Soletro. De escanteio te vejo passar, me ateio e jogo l�. Sem falar em Pedro e Paulo, protetor dos poderosos. Perdoa-me Carolina, j� cansei de desmentir, sacudir e dizer sim. Vejo agora e amanh� verei tamb�m. De manso sempre de manso vejo passar. Me perdoa Carolina, linda, que te vejo mulher. Sonhadora Carolina que esqueceu de andar, falar. Ent�o te pe�o de antem�o, no meu sono colorido, sem medo. Vamos. S� desejo. Ensino-te a viver. 36 Di�rio Aconteceu a maior experi�ncia da minha vida: uma certeza de mim. Canto. Desconto. Escondo. Atravesso desertos. Atrozes sem tr�s. 37 Ser�? Inicia-se a guerra dos deuses. A linguagem mitol�gica parece come�ar a ser novamente entendida. Deuses vivos que comandam a ordem natural da vida. A loucura s�. Um amigo fiel: um cachorro. O sol entrando pela janela. Dois olhos enxergando pela consci�ncia. Sem dessecar, acumulando sem pensar. A onda do mar. O galope do cavalo selvagem. O pulsar do cora��o. Um ritmo natural que remete � vida. Os espelhos revelando luzes misteriosas e extasiantes. Todos nus de alma. - Encontros. Fortuitos encontros. Luzes lilases e roxas. As trovoadas mostram a ira dos deuses. Deuses impiedosos que esquecem seus poderes. Brigam pelo amor e pelo �dio. E a V�nus vaidosa olha-se no espelho. Atribui a si a responsabilidade de acalmar os raios. Pesados raios que indicam a dire��o do fim. Poucos homens piedosos e ardentes que fazem a V�nus nascer. 38 A luta pelo poder se trava sempre; instantes importantes, perdidos. Mas surgem luzes que ultrapassam o entendimento poderoso; surgem os avatares. N�o mais os poderosos, mas os avatarosos. Eu avataro, tu avataras, ele avatara, n�s avataramos,... Mais perto de Deus, mais perto da vida, e lembro-me de Clarissa, minha irm� que sempre me ensinou a amar. Agora penso nela e a percebo aqui, ao meu lado. Tenho a certeza disso e me sinto bem. S� me entristece � a vozinha chata de Carolina que brinca presun�osa no quarto ao lado. Minha filha. Apresento-a. Dramaticamente apresento minha dram�tica fam�lia. Carolina; abaixe a televis�o, grita meus sentidos e ela os repele, os dispensa dramaticamente. Dou-me por meus atos. Tranq�ilizo-me O Romantismo acabou, minha linguagem dram�tica se envergonha da vida: Carente, perdida. Reflete sentimentos. Silencia . 39 F�. Sem refr�es, ora��es. F�. S�. Pra�a da S�. Sin�nimo de desejo. Sem dor nos joelhos. Sem calo nos p�s. F�. Ferida que d�i. Car�ncia perdida. Escondida no �mago. Que desafoga o alem�o, o franc�s e preenche as horas de lazer do brasileiro. Sem dinheiro. Rapadura. Queimadura. Que arde no peito. Sem jeito. Que anda nas ruas. Que bate no peito. Que diz com lamento: n�o ou sen�o; e o talvez do franc�s sustenta a f�. Fora os desastres horizontais do g�nero homicida: Droga que mata o caos e que faz reviver a peste celeste. No c�u. F�. Ardente. Diz crente: - Tem f�. Diz n�o o alem�o de origem prosaica. Repugnante em sua frieza, desconhece a tristeza da f�. Aqui jaz com jazz um brasileiro ardente de f�. Desejo at�, n�o sei mais dizer, que d�i. Olho largo de saber. De desd�m sobreviver. De intui��o inspirar, inspirar ar rarefeito que fugiu da polui��o. Sem abrir m�o do cora��o, abrindo m�o da ora��o, descansa pensativo; aludido brasileiro derradeiro de antem�o. Sofreguid�o. Falta de p�o. F�. 40 De p�. Um p�, dois ou tr�s ou quatro. N�o importa. P�s que sustentam um corpo. Apoiam-se na terra que puxa pra baixo. E um corpo que cai seduzido pela gravidade. De p�. Dois p�s, tr�s ou quatro. N�o importa. Uma cabe�a que puxa pra cima e um corpo que fica no meio. � pra cima. N�o, � pra baixo. � pra cima. � pra baixo. E nesse vaiv�m, um corpo esticado, alongado, ereto. Sem p�, De p�. Com cabe�a. sem cape�a, com b�s? N�o importa. Situado ent�o. Firmemente situado como o vag�o no trilho. Anda um p�, dois p�s; tr�s ou quatro N�o importa. Sem p�. Com p�. Nada importa. De p�. Um ponto fixo que se acha e se perde. Tensiona e libera, repele e absorve. Sem dissolver. Gratuitamente achado. Que isola e dispersa. Consola e transgride, intermedi�rio, inquilino das paix�es. Absorto no si. De p�. Com p� e pernas que sustentam um tronco com bra�os e uma cabe�a. Destrona os sentidos. Reflete amigos. Simboliza o representado. E o corpo d�i e os bra�os cansam e a cabe�a destronada balan�a pra direita e pra esquerda. De p�. Com pernas, sem pernas. Com tronco ou sem. N�o importa. Os p�s que pulam e pulam fazendo o tronco nascer e a cabe�a se estabelece bem acima do pesco�o. E freia pra frente e freia pra tr�s. De p�. Com pernas e tronco e bra�os. Com cabe�a. Sem cabe�a. N�o importa. Que no desequil�brio das dire��es se refugia no pr�prio desequil�brio. Recorda dos p�s. De p�. Concorda sem p�s. Transforma-se em p�s. Elasticamente tenta atenuar-se. E realiza-se no p�, de p�. E o p� na cabe�a. E a cabe�a nos p�s. N�o importa. De p�. Com p�. Sem p�. Sem cabe�a, com cabe�a. N�o importa. De p�. 41 Sol. Se por acaso te entriste�o, me perdoa. Quem sou eu perto de ti. Tanta grandeza! Tanto amor! Choro por ti, reclamo por ti. Querer-te: Me perdoa, eu ignorante de ti. Meu maior pecado : possuir-te. Um desejo lateja em meu peito, te chama, reclama sucumbe. Me perdoa. Audazes momentos de felicidade junto de ti. Momentos de vida. Meus poucos momentos de vida junto de ti. Lindos momentos vividos. Sorrateiros momentos espertos. Atrevo-me, por�m, a te dizer sentindo, intuindo teu aroma que enternece meu ser. Sol clandestino que brinca comigo e me aquece: meu destino. Tuas m�os. A ti concedo. Com f� e paix�o. Meu ser palpitante. S� tu. todos. tudo. Sol. 42 Cad� o doce? Cad� o doce? O mel... O c�u aberto hoje ? O doce hoje est� salgado. Conflitos: perda de significados, perda de sabores. 43 A linguagem incompleta, repleta do que � sup�rfluo. A confus�o dos detalhes sup�rfluos que distancia o gen�rico e confunde a vida. A vis�o impregnada do que � sup�rfluo. A compatibilidade dos opostos. Recursos da natureza descontente. O indiz�vel procurando sa�das. E enquanto n�o as encontra, surpreende o ser asfixiado, que respira lento. Subitamente: respostas articuladas que aliviam o entendimento. Sustenidos de vida, respons�veis sustenidos aspirantes que fazem os olhos ver sem v�us. 44 A Discreta A discreta hoje n�o consegue pensar sonha em algum dia ser uma indiscreta discretamente. Por enquanto � discreta indiscriminadamente. 45 Agora de l� de dentro de mim falo do fora eu, sem ser, sendo "voc�" ou qualquer um. Aprendo que devo dar vida � morte. Acordo no sono sem deixar de dormir. Agora n�o te amo porque n�o tenho sexo. Sou de fora. Sou sem ser, sendo. Mas voc� me incentiva a continuar. A cada dia morrer. E depois aprender novamente com voc� que devo tornar essa morte viva. Voc� quer me transformar numa deusa. E me torno uma claridade que d� luz mas d� medo. Pois sou morta meio aos vivos. Transito nos meus pr�prios limites. E agora sinto-me crescida e mulher. Amo a vida simplesmente porque ela � vida. Acho que aprendi a negar a nega��o. Acredito no sim, somente nele. Este � o meu sentido. Minha extrema profundidade me encobre de mim, mas � tamb�m ela que me incita a mim. E neste vai e vem tento me delimitar at� sumir, tornando o tudo nada. Hoje aprendo e ganho a vida. Neste momento sei absolutamente que posso ser. Por�m, num ser long�nquo, perdido no �xtase da morte. Mas volto tranq�ilamente quando o frio sugere. Talvez diga algo, talvez n�o. 46 O que � o limpo? Falando claramente: como falar? O que � o limpo? Dizer o que se quer, na hora que se quer como se quiser. Como ser transparente de alma? A pr�tica facilita. A teoria esfuma�a o simples. Mas linguagem � teoria. Falar que te amo quando na verdade te amo. Amanh� deixo de te amar e amo outro. Como falar se posteriormente virei a te amar, como se amanh� pudesse ser previs�vel? Te encontrar algumas vezes, te amar algumas vezes, outras outros. Sem rodeios o que sou? Somente momentos. Sou agora e agora e agora e assim por diante, a cada momento. Sei que sou, mas como ser? Num mundo que tenho que escolher, sempre escolher. E assim dividir-me entre meus desejos e o discernimento. A escolha precisa de dire��o e objetividade. � isso. Uma objetividade que me � exterior, na qual situei-me por mero acaso e que sou obrigada a aceit�-la. Mas meu �ntimo n�o aceita, poderia ser tudo bem diferente. Como? Tamb�m n�o sei. Vivo tateando e intuindo. Tentando coordenar. Talvez se tivesse nascido entre animais selvagens fosse mais objetiva." |
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| Sobre Fragmentos de Aurora escrito em 1984: | ||||||||||||
| Celso Favaretto | ||||||||||||
| Natali Caseir | ||||||||||||
| In�cio |
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