exposição feira de paixões


Natalinha

1) Vi sua exposição. Vi também seu nome encabeçando a mesma. Por ser um sexagenário, somente esses fatos me fizeram chorar. Por isso e pelo fato de não portar, na hora, um lápis ou uma caneta, nada escrevi naquele caderno que lá se encontra para registro de impressões. Contudo, os registros, li-os todos. E é sobre isto que quero, por este meio, transmitir minhas impressões, não, porém, sem antes, invocar um argumento sociológico preliminar.

2)Há, Natalinha, no mundo, tres tipos inconfundíveis de pessoas vistas sob o prisma sócio-cultural:1º) Os que sabem e sabem o quê e até onde sabem;2º) Os que nada sabem, mas sabem que nada sabem;3°)Os que nada sabem sobre tudo mas pensam que tudo sabem. E nesta última classe, uma grande maioria, apenas sabem uma coisa - e isso esses sabem bem -: é fazer críticas acres sobre tudo.

3)Em relação à pintura, eu me posiciono na segunda classificação. Nada sei, e por isso não opino sobre sua exposição. A única coisa que posso falar advirá exclusivamente do meu sentir, ao qual não consigo, embora me force nesse sentido, associar ao meu raciocínio. De acordo com o meu sentir, muitos dos seus quadros -embora não todos- mexem com a minha alma. Talvez o jogo de cores! Talvez a configuração da pintura!. Não sei explicar porque. Vejo esse jogo de cores ou essa conjugação de pintura como vejo uma moça linda, ou um veículo bonito. Se me perguntarem se o nariz, ou a boca, ou os olhos da moça que achei linda, têm esta ou aquela forma, não saberei dizer. Do mesmo modo se me perguntarem como é o capô ou a trazeira do veículo que gostei, também não saberei informar. E, note, Natalinha, estas observações que faço de alguns de seus quadros, são totalmente abstraidas do amor que dedico a você. Procuro fazer, nestas observações, o que meu pai fazia com os filhos: somente os beijava quando eles estavam dormindo. Com esta forma de raciocinar louvo grande parte das críticas que vi no caderno de registros; sem exagerarem no elogio disseram a você:-- Continue Natália, que um grande futuro te espera. Procure dar melhor conjugação nas cores porque elas tem surgido de um pincel afoito e futuroso.
4)Restaria fazer referência a uns poucos - e graças a Deus foram poucos - que fizeram crítica acre. Pelo próprio teor delas, vê-se de que lavra sociológica elas surgiram. Contudo elas são boas e devem ser arquivadas num arquivo feito por você. Porque o registro no seu arquivo? Servirão de exemplos a futuros ídolos e dentre esses ídolos, um deles poderá ser você.

Se remontarmos à história, ver-se-á que os grandes inovadores em qualquer atividade humana, receberam,no início de suas atividades críticas acerbas chegando até às vezes, a receber sanções injustas e inócuas. Lembre-se do homem que dizia, pelas suas observações científicas, que a terra se movia. Se não desdissesse, seria morto pela Santa Inquisição. No terreno da literatura, relembre-se das primeiras críticas recebidas nos primeiros escritos de Victor Hugo quando implantava a escola denominada romantismo. Para não sair do Brasil, lembre-se das acres investidas nos primeiros escritos de Olavo Bilac. Nas ciências médicas , as infâmias contra Oswaldo Cruz que acabou com sua perseverança, extinguindo famosa epidemia no Rio de Janeiro. Por certo Michelangelo recebeu também críticas na pintura, como deve ter recebido Portinari, porque sempre, no mundo existiram homens que se situam naquela maioria existente da terceira classe de pessoas que acima classifiquei.
O registro nos seus arquivos dessas críticas acres, haverá de servir de resposta a esse tipo de pessoa que infelizmente sempre existirá no mundo. O que elas não podem é ter reflexo na índole da pessoa que quer inovar e que tem como você tem, CONFIANÇA EM SI.
Continue Natalia confiando como sempre, EM VOCÊ PRÓPRIA e agindo como sempre, com Deus no coração.
MEUS PARABÉNS!
CONTINUE!
Seu pai. Julho de 1988
Luciano da Silva Caseiro (1924-93)



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