PLATÃO
A REPÚBLICA
E O CIDADÃO IDEAIS
A filosofia platônica é uma grande
reflexão sobre a totalidade da cultura e da vida do povo grego, com a
finalidade de lançar bases ou fundamentos para uma construção sólida. Mas, sua filosofia também pode ser considerada
atual pela sua abrangência e importância dos problemas discutidos.
Platão é um grande opositor de Homero e
Hesíodo, devido a explicação da realidade através dos
mitos, e é quem ultrapassa o grande abismo gerado pela contradição das
filosofias de Parmênides de Eléia e Heráclito de Éfeso.
Discípulo de Sócrates, Platão vai
concluir que o homem-medida (de
Protágoras) é, por sua vez, medido por realidade superior; que o conceito
repousa na transcendência do mundo ideal.
Os valores humanos, na apreciação de
Platão, são perenes, não dependendo das convenções humanas. Eles repousam numa estrutura lógica de ser, que transcende a qualquer criação
humana; e todo homem pode conhecê-la, através do uso reto da razão.
Platão fundou uma escola, a Academia, e escreveu os famosos
diálogos, onde Sócrates quase sempre aparece como protagonista, a saber: Hípias menor, Alcibíades, Apologia de Sócrates, Eutífron, Críton, Hípias maior, Cármides, Laques, Lísias, Protágoras, Górgias, Mênon, Fédon, Banquete, Fedro, Ion, Menéxemo, Eutidemo, Crátilo, República,
Parmênides, Teeteto, Sofista, Político, Filebo, Timeu, Crítias e Leis.
O ponto de partida dos vôos metafísicos
de Platão é o conceito, a realidade subjetiva, que fundamenta
o saber humano. Com o conceito, o
conhecimento se define, se fixa e se constitui na sua essencialidade
inteligível. Torna-se possível explicar
a existência de um discurso válido, para todos os tempos.
Platão procurava entender a questão a
respeito da origem da universalidade
e da necessidade do conceito. No diálogo Mênon, ele parece resolver essa
questão. Segundo ele, ao mundo subjetivo
do conceito, corresponde o mundo objetivo das idéias. Resumidamente, uma cor não é sentida senão a forma subjetiva de uma realidade
objetiva. Essa realidade, para Platão, é
a idéia de cor. Existe, portanto, um mundo de realidades
ideais, o mundo da plena inteligibilidade, o mundo das justificativas cabais de
todo o processo racional, o mundo real por excelência.
Parmênides, e sua filosofia do ser, tornaram a
reflexão infecunda. Platão supera esse
obstáculo reconhecendo que, no âmago da idéia de ser, reside a contradição entre o uno e o múltiplo (verso). A
partir daí, ele pode pensar a multiplicidade, sem negar a unidade, e
vice-versa.
Platão estava inserido na cultura grega
que tinha fé na inteligibilidade do real, que Parmênides já expressava com a
sua doutrina sobre o ser. Platão conclui que, se partirmos da hipótese
de que o real é inteligível, ou seja, pensável e justificável racionalmente, o
processo lógico do pensamento, através de articulações racionais, é o caminho
que nos leva ao próprio coração da realidade, a própria estrutura do ser.
A Dialética,
para Platão, seria o processo de desdobramento do conteúdo racional do
pensamento, pois esse desdobramento se efetua em força da contradição. Para ele, o dialético é o filósofo, aquele
que sabe dividir, revelar as contradições, mas também sabe unir, superar as
contradições numa unidade superior.
De degrau em degrau, dá-se a ascensão (dialética
ascendente) à plenitude da inteligibilidade, a unidade absoluta. Chegando a esse ponto, Platão inverte a tese
sofística de que a interioridade ou subjetividade do homem é o fundamento. A medida absoluta passa a ser Deus, a
divindade, a unidade absoluta.
Deus, nos diálogos platônicos, é
conclusão lógica de um processo racional, mas é também plenitude amorosa, Éros, que causa
as tensões para se chegar a harmonia. Esses aspectos são abordados no Fedro (a beleza)
e no Banquete (o amor). No plano transcendente do ser, é a idéia do Bem que explica toda a verdade, torna-a inteligível e boa.
O racionalismo de Platão é, contudo,
realista. A idéia não é mera forma
subjetiva, ela é a própria transparência do real, superando o relativismo moral
e o ceticismo. À
essa suposição platônica de que é possível para a razão intuir a estrutura
inteligível do ser, numa visão de
totalidade (visão da essência), costuma-se chamar hoje de Metafísica, em oposição a Dialética.
Em Platão, aparecem intimamente unidas dialética e concepção metafísica da filosofia, embora ele não
tenha usado o termo metafísica, ainda não existente. Zenão de Eléia,
discípulo de Parmênides, é considerado por Aristóteles o inventor da dialética,
devido as famosas séries de argumentos paradoxais que
refutam o que a experiência nos revela.
Platão chamaria isso de Erística, num sentido pejorativo e oposto à Dialética. Para Platão, a dialética é um sério processo
gradual da mente em busca do primeiro princípio absoluto, e não um jogo verbal
ou virtuosismo da mente. Com a
dialética, foi-lhe possível superar os paradoxos de Zenão,
a teses paralisantes de Parmênides e o relativismo de Heráclito e dos sofistas.
Em diálogos como Fédon e República, Platão apresenta a dialética em seu aspecto ascendente: a partir da multiplicidade
dos seres e da subjetividade, alcançar a idéia suprema, que é
a suprema Bondade, contemplar o mundo das idéias. Em diálogos como Sofista, Político e Filebo, Platão faz o caminho
inverso. É a dialética descendente: perceber na unidade, por um
processo de divisão (diáiresis)
e multiplicidade; colher as diferenças unidas na igualdade.
No contexto da reflexão platônica, por
um lado, o homem é visto como ser racional, pois é o homem que instaura o
processo de justificação racional da realidade.
Por outro lado, Platão era obrigado a admitir que o homem é também
sensibilidade e emoção; é um corpo que faz parte da physis. Como se fez a união
de racionalidade e sensibilidade no ser humano?
Platão vai figurar ou conceituar esse
dualismo em termos de idéia, que é
realidade positiva, plenitude de ser; e de algo que é como pólo negativo, a receptividade absoluta, para o qual não
encontra nome, e que Aristóteles aproxima da sua concepção de matéria (hylé).
No diálogo Timeu, Platão é mais minucioso,
distinguindo a idéia, a matéria, o espaço (chora), a necessidade (ananké) e o demiurgo. O demiurgo usando da matéria que está no espaço
onde vigora a necessidade (a
desordem, a não-racionalidade) dá origem ao cosmos
(ordem, beleza, racionalidade), enquanto aplica as idéias à matéria. A racionalidade é representada pelo demiurgo
e pelas idéias; a irracionalidade é representada pela matéria, o espaço e pela
necessidade. Esse dualismo
espírito-matéria resume a compreensão platônica da estrutura interna do ser
humano.
Com o passar do tempo, o pensamento
platônico se reveste de maior religiosidade.
Em As Leis, Deus torna-se a
medida de tudo, contradizendo o homem-medida
de Protágoras. Para Platão, existe o mundo espaço-temporal e o mundo das
idéias, mundo imaterial ou ideal. O
homem está como mediador, a meio caminho entre esses dois mundos: sua alma
participa do mundo ideal, e o seu corpo participa do mundo espaço-temporal.
A alma se degrada no contato com a
matéria, esquece todo o conhecimento obtido na contemplação das idéias. Recordá-las constitui o aprendizado (maiêutica), tese
do conhecer como reconhecimento.
A matéria para Platão era fonte de
limitação e até de maldade. Nos diálogos
da maturidade como Fédon, Fedro, Banquete e
República ,
o ideal ascético de vida aparece com forte luminosidade, recordando o pitagorismo. O sábio
é sobretudo o asceta, o que se esforça para se
libertar da sensibilidade e para integrar-se ao mundo das idéias.
Em diálogos posteriores, tais como Filebo, Timeu
e Leis, Platão integra melhor
nas exigências da racionalidade (prioritária) aquelas da sensibilidade e do
prazer material. Sábio não é tanto o
asceta espartano que renunciou a beber o vinho e a celebrar banquetes, para não
se deixar perverter pelos atrativos deles. Sábio é muito mais o ateniense
sóbrio, capaz de participar de banquetes, saborear vinhos, gozar da
convivência, sem contudo se entregar à intemperança.
Em A
República, Platão idealiza uma cidade, na qual dirigentes e guardiães representam a encarnação da pura
racionalidade. Neles encontra discípulos
dóceis, capazes de compreender todas as renúncias que a razão lhes impõe, mesmo
quando duras. O egoísmo está superado e
as paixões, controladas. Os interesses pessoais se casam com os da totalidade
social, e o príncipe filósofo é a tipificação perfeita do demiurgo
terreno. Apesar de tudo isso e desse
ideal de Bem comum, Platão parece reconhecer o caráter utópico desse projeto
político, no final do livro IX de A República.
Tendo em vista esse ideal, o trabalho manual
continuava não valorizado no âmbito da cidade-estado. A classe dos trabalhadores não era classe
cidadã, pois não lhes sobrava tempo para a contemplação teórica da verdade e
para a práxis política. Para Platão, o
ideal humano se realizava na figura do cidadão filósofo, livre das incumbências
da sobrevivência, constituindo um ideal altamente elitista.
Para além de todas as
utopias da sua república ideal, da figura dos reis filósofos, devemos apreciar
o ideal ético de Estado e o esforço de Platão para desvendar os vínculos que
ligam os destinos das pessoas ao destino da cidade.
Em Platão a filosofia é ética,
dialética, metafísica, teologia, antropologia, estética; e é também cosmologia
e pedagogia; é sobretudo política, ou melhor, crítica
social. É por isso que ele foi
considerado quase um deus por Plotino e a escola neo-platônica, foi traduzido para o cristianismo por santo
Agostinho, e continua dando, ainda hoje, pistas válidas de reflexão filosófica.