seria, se os
ricos não fossem admitidos nos cargos. Portanto, deve-se antes
chamar
democracia o Estado que os homens livres governam, e oligarquia o
que
os ricos
governam. O acidente faz com que o número seja maior ou menor,
sendo
o comum que o
maior número seja o dos homens livres e o menor, o dos ricos.
Se os poderes
se distribuíssem de acordo com a estatura, como acontece,
segundo certos
autores, na Etiópia, ou de acordo com a beleza, haveria oligarquia,
porque a beleza
e a alta estatura não pertencem à maioria. Mas estas não são
diferenças
suficientes, nem próprias para caracterizar estes Estados.
Sendo a
democracia, como a oligarquia, capaz de conter diversos elementos,
é preciso ter
como certo que não há democracia numa nação onde poucos
homens livres
comandam um maior número de pessoas que não o são, como em
Apolônia, no
mar Jônio, e em Tera, cidades em que, sem considerar a maioria, os
cargos se
concentravam nas mãos de um pequeno número de habitantes, mas
todos nobres e
de raízes muito antigas no lugar. Tampouco seria uma democracia
se os ricos só
fossem superiores pelo número, como ocorria antigamente em
Colofão, onde,
antes da guerra dos lídios, a maior parte dos cidadãos possuía
grandes
heranças. Em contrapartida, trata-se de uma democracia quando os
homens livres e
pobres, formando a maioria, são senhores do Estado, ao passo
que há
oligarquia quando governam os ricos e os mais nobres, embora
inferiores
em
número.
Eis, portanto,
vários tipos de regimes. Sabemos a razão disso. Para conhecer
sua natureza e
suas causas, deve-se retomar o princípio evocado mais acima, em
virtude do qual
um Estado ou uma Cidade não é um todo homogêneo, mas sim
composto de
várias partes, como o animal. Se quisermos formar as diferentes
espécies de
animais, começaríamos por separar tudo o que este animal deve
necessariamente
ter, como certos órgãos das sensações, as partes necessárias
para receber e
digerir os alimentos, tais como a boca e o ventre, além dos órgãos
do movimento.
Depois de ter esgotado a enumeração de todos os membros
necessários e
de todas as diferenças em cada espécie (isto é, todos os gêneros
de bocas, de
ventres e de órgãos tanto da sensação como do movimento), o
número de todas
as suas combinações possíveis dará a quantidade de espécies
animais, pois é
impossível que o mesmo animal reúna várias diferenças de boca e
de orelhas.
Portanto, tomando todas estas combinações, haverá tantas espécies
de animais
quantas combinações de partes necessárias. O mesmo ocorre com os
Estados ou
sociedades políticas.
Como já
dissemos mais de uma vez, elas são compostas de vários elementos.
Há, com efeito,
várias classes de plebeus ou de nobres.
A primeira
classe dos plebeus, ocupada em nos proporcionar alimentos, é
numerosa:
compõem-na os agricultores;a segunda, a dos artesãos, exerce os
ofícios de
primeira necessidade ou de luxo ou de bem-estar que um Estado não
pode dispensar,
quer para viver, quer para ter mais conforto;
a terceira, a
dos comerciantes, freqüenta as praças e aí expõe, para comprar,
revender ou
exportar, as mercadorias ou os trabalhos dos outros;
a quarta, dos
homens de mar, dos quais uns são guerreiros, outros
comerciantes,
outros fazem transportes, outros se dedicam à pesca. Uns e outros
abundam em
alguns lugares, como os pescadores em Tarento e em Bizâncio, os
marinheiros em
Atenas, os negociantes na ilha de Egina e em Quios,
os