BACHELARD: IMAGEM E IMAGINAÇÃO NA POÉTICA


Gaston Bachelard

Carlos Eduardo Silva Barbosa

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Mestrando em Filosofia da Linguagem

 pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia

da Universidade Federal de Goiás.

Goiânia, 2006.

 

            N’O Ar e os Sonhos, Bachelard esclarece que imaginação é, antes que a faculdade de formar imagens, a faculdade de deformar imagens fornecidas pela percepção – “se uma imagem presente não faz pensar numa imagem ausente (...) não há imaginação. Há percepção” (p. 1).  Essa imaginação é essencial ao poema, uma vez que “o poema é essencialmente uma aspiração a imagens novas”(p. 2). Um problema, entretanto, é a (ou reside na) imagem, que é a geradora dos conflitos da poética bachelardiana (Ternes, p. 36).

Na introdução a A Poética do Espaço, Bachelard sugere que, ao estudar a imaginação poética, o filósofo deve negligenciar a metodologia, hábitos e opiniões prévias: “É preciso estar presente, presente à imagem, no minuto da imagem” (p. 341). Posteriormente diz: “a filosofia da poesia deve reconhecer que o ato poético não tem passado” (p. 341). A imagem, portanto, é instantânea – tentar fixar a imagem em um suporte físico, por exemplo, é problemático. E ainda, que “a imagem, em sua simplicidade, não precisa de um saber. Ela é dádiva de uma consciência ingênua”, diz o filósofo.

            O foco de análise do autor, segundo suas próprias palavras, é a “ontologia direta”. Por dever ser inédita, a imagem poética tem um “dinamismo próprio”, não está submetida ao passado. A palavra é, ou tem em si, uma natureza que lhe é inerente. Recebemos a imagem poética, “mas nascemos para a impressão de que poderíamos criá-la (...) ela é a expressão criada do ser” (p. 346). Bachelard não quer estudar a origem da imagem, e sim o impacto da imagem no leitor, ou receptor.

Apoiado nessa ontologia direta, nesse “ser”, que é ou está na imagem poética, é que se pode afirma que na repercussão é que deve estar “as verdadeiras medidas do ser de uma imagem poética”. Fica mais claro este ser da imagem, quando se nota que “o poeta não me confia o passado de sua imagem e entretanto sua imagem se enraíza, de imediato, em mim”. Desta forma, é “impossível receber o lucro psíquico da poesia sem fazer cooperar duas funções do psiquismo humano: a função do real e a função do irreal” (p. 353) – na poesia, as condições reais não são determinantes, a imaginação instiga o “ser adormecido em seus automatismos” quando toma o lugar da função do irreal.  Bachelard, portanto, parece mostrar ai um dualismo na literatura: a palavra teria algo além de sua estrutura física.

            Entretanto, para se chegar a esclarecer a imagem poética, é necessária uma análise do problema segundo um método que busque a volta da imagem em si, “a partida da imagem numa consciência individual” (p. 343), procurando encontrar a verdade da imagem, sua essência. Seria necessário para isso uma fenomenologia da imaginação: “

 

esta seria um estudo do fenômeno da imagem poética no momento em que ela emerge na consciência como um produto direto do coração da alma, do ser do homem tomado na sua atualidade (Bachelard. A Poética do Espaço. p. 342).

 

Bachelard sugere um método para analisar algo (a imagem poética) que deve ser percebida na ausência de um método. Ressalta, entretanto, que o fenomenólogo “nada tem a ver com o crítico literário que (...) julga uma obra que não poderia fazer” (p. 347). O fenomenólogo analisa o que percebe, de um ponto de vista do poema e de suas “emanações”, e não do escritor. “Um pequeno impulso de admiração é necessário para receber o lucro fenomenológico de uma imagem poética. A menor reflexão crítica estanca esse impulso” (p. 348).

            É notável, todavia, um paradoxo no posicionamento bachelardiano, ressaltado pelo próprio autor, com relação a obras anteriores, quando trata dos quatro elementos da matéria - e a imagem, objetivamente, diante deles:

 

                                              pouco a pouco, esse método [objetivo da imagem

                                              ante os elementos], que tem a seu favor a

                                              prudência científica, pareceu-nos insuficiente para

                                              fundar uma metafísica da imaginação” (Bachelard.

                                              A Poética do Espaço. p. 342).

 

A dinâmica, a fluidez, e parece que o próprio movimento da imagem[1], rejeitam a prudência, a padronização, a metodologia muito rígida análise da imagem. A análise fenomenológica seria um caminho pelo qual seguir a fim de se conhecer algo – a via mais adequada para se analisar a imagem. Esse argumento, em princípio, não seria contraditório, uma vez que não implica em um método específico, não se apresenta como esse caminho deve ser seguido ou por onde caminhar.

            A grande transformação que um “bom poema” causa no leitor, apesar da fugacidade de uma simples imagem, gerada por palavras faladas ou letras em um papel, só pode ser explicada ou, pelo menos, estudada, pela fenomenologia: “essa transubjetividade da imagem não podia ser compreendida em sua essência só pelos hábitos das referências objetivas” (p. 343). Essa subjetividade, entretanto, não pode ser determinada definitivamente, ela é “variacional”. A imagem não é, portanto, um objeto. Nem um substituto deste. A imagem tem uma “realidade específica”.

 

            A imagem existe antes do pensamento, “seria necessário dizer que a poesia é, antes de ser uma fenomenologia do espírito [Geist], uma fenomenologia da alma [Seele]”. Diz Bachelard que “a palavra alma é uma palavra imortal (...) é uma palavra da emanação” (p. 343, 344), uma referência à alma relacionada à respiração, ao ar[2]. A alma “possui uma luz interior, aquela luz que uma ‘visão interior’ conhece e traduz no mundo das cores deslumbrantes” (p. 344). Citando Pierre-Jean Jouve, concorda Bachelard que “a poesia é uma alma inaugurando uma forma” (p. 345). A alma, portanto, é inauguradora, “vem inaugurar a forma, habita-la, deleitar-se com ela” (p. 345).

            Em uma citação do próprio Bachelard:

 

C. G. Jung (…) [diz]: ‘Temos que descobrir uma construção e explica-la: seu andar superior foi construído do século XIX, o térreo data do século XVI e o exame mais minucioso da construção mostra que ela foi feita sobre uma torre do século II. No porão, descobriram fundações romanas e, debaixo do porão, acha-se uma caverna em cujo solo se descobrem ferramentas de sílex, na camada superior, e restos da fauna glaciária nas camadas mais profundas. Tal seria mais ou menos a estrutura de nossa alma” (Bachelard. A Poética do Espaço. p. 354).

 

Apensar de insuficiente para explicar a alma, essa “descrição” de Jung, Bachelard toma a referência da casa como instrumento de análise da alma humana. Uma casa em que os mais escondidos cantos, o fundo de cada gaveta dos móveis, tem grande importância: nossas lembranças, nosso inconsciente, tudo isso está na alma, “nossa alma é uma morada”(p. 355). Essa casa, essa alma, tem em nós um estoque de imagens e lembranças. “E quando nos lembramos das ‘casas’, dos ‘aposentos’, aprendemos a ‘morar’ em nós mesmos”.

 

            Ao distinguir espírito e alma, separa-se “o que diz respeito ao mundo objetivo (do espírito) daquilo que configura o mundo da poesia e da arte, mundo feito de alma”. A imagem é “animada”, “expressão da alma” (Ternes, p. 38).

Segundo Vieira (2006), em Bachelard “alma é feminina, anima, noturna e enigmática, o solo mesmo do devaneio. O espírito é masculino, animus, diurno e solar, o terreno propício à semeadura de experiências racionais”. Dividindo a obra de Bachelard em diurna, voltado para a epistemologia, e noturna, das criações artísticas, "demasiadamente tarde, conheci a boa consciência, no trabalho alternado das imagens e dos conceitos, duas boas consciências, que seria a do pleno dia e a que aceita o lado noturno da alma" (A Poética do Espaço apud JAPIASSÚ, 1976, p.47). A alma se relaciona ao devaneio, e o espírito, à execução. Nesse sentido, pode-se dizer que para Bachelard, a poesia é, até certo ponto, enigmática, noturna. No seu “ser” está o devaneio, as potências da imaginação:

 

[é preciso compreender] que [em Bachelard] a imaginação não é simplesmente reprodutora das impressões da percepção, (...) porque ela se define como uma potência a gerar novas imagens. Nessa qualidade, essa é uma potência de visão, uma potência visionária, que faz ver o invisível (...). É justamente a essa potência que Bachelard denomina poesia: a visão originária, visão que precede a experiência e o conhecimento, as imagens e as narrativas; e é nessa qualidade que Bachelard chama a psicanálise de exploração que visa exumá-la (a poesia) (Benmasour, 2005. p. 1).

 

            As imagens poéticas evoluem no receptor: do devaneio, até a sua execução. O devaneio é “uma instância psíquica que freqüentemente se confunde com o sonho. Mas quando se trata de um devaneio poético (...) sabe-se que não se está mais diante das sonolências”. No devaneio poético, “a alma está de guarda” (p.345). 

           

Nota-se, na evolução da imagem poética, a importância de se distinguir a ressonância da repercussão: “na ressonância, nós ouvimos o poema, na repercussão nós o falamos, pois é nosso”. Ternes (p. 38), completa: “a repercussão se dá nas profundezas da alma. As ressonâncias, na exuberância do espírito” (p. 38). Pela repercussão sentimos um poder poético erguer-se, ingenuamente, em nós.

Bachelard parece, nessa discussão, entrar no problema do receptor, ou, no caso, leitor, ideal. Na ressonância, nós receberíamos a imagem, que é dinâmica, mas inicialmente existe por sua própria conta, ou por conta do poeta. Em seguida, a ressonância parece evoluir para um estado de confluência com o leitor. Essa confluência gera uma “emanação”, a percepção imediata da imagem pertence ao mundo particular do receptor e só a ele. O leitor ideal, portanto, não existe, na medida em que, como já se disse, a imagem é (necessariamente) instantânea. O poeta dá à sua poesia uma imagem que não será percebida exatamente da mesma forma por todos os leitores. E nem por isso se pode dizer que houve uma leitura errada. “Virtudes fenomenológicas da leitura (...) fazem do leitor um poeta ao nível da imagem lida” (p. 347).

            É por isso que Bachelard condena o método psicológico, e psicanalítico em especial, que coloca a imagem poética sempre em um determinado contexto, como que traduzindo uma linguagem (a da imagem poética), em outra linguagem (a verbal) – método esse que não passaria de mera convenção, algo socialmente determinado: a tradição, e não uma posição fenomenológica, determina a tradução de uma forma de linguagem para outra: “traduttore, traditore”. Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura (literária ou sociologicamente), nem a percepção (psicologicamente).

           

Para tentar delimitar a “situação fenomenológica”, há a necessidade de isolar (...) uma esfera de sublimação[3] pura, (...) que é desprovida da carga das paixões. (...) Dando (...) à imagem poética de estímulo um absoluto de sublimação, jogamos uma grande cartada no que é um simples colorido (Bachelard. A Poética do Espaço.  p. 349).

 

            Haveria provas dessa sublimação absoluta na poesia, e quando o psicanalista a percebe, vê não mais que um simples jogo efêmero, com imagens sem significação, mas Bachelard contesta, afirmando que eles negligenciam a significação poética da sublimação. Enquanto para o psicanalista a sublimação não passa de uma fuga, de uma compensação, a sublimação na poesia trata-se do viver o inesperado, da imagem que inaugura algo completamente novo. O psicanalista incorre no problema de “explicar a flor pelo estrume” (p. 350), ou seja, a bela e inespecífica criação (a poesia), pelo defeituoso criador (o poeta), sem reconhecer a individualidade de um com relação ao outro.

            Para o fenomenólogo Bachelard, a palavra se basta, “não há nenhuma necessidade de ter vivido os sofrimentos do poeta para compreender o reconforto da palavra oferecida pelo poeta” (p. 351). A palavra poética não sublima, ela é sublimação pura (Ternes, p. 39).

            Somente a boa poesia é “absoluta criação” (p. 351), e esta é rara. “Na maioria das vezes a poesia está mais misturada às paixões, mais psicologizada” (p. 351). A poesia mista, de qualidade “ruim”, não gera sublimação absoluta no leitor, e sem a região da sublimação absoluta, “por mais restrita e elevada que seja, (...) não se pode revelar a polaridade exata da poesia” (p. 351). Mas Bachelard ainda acrescenta que o ponto em que se atinge a sublimação absoluta, não é o mesmo para todas as pessoas, para todas as “almas” (p. 351).

 

            A poesia, assim como todas as artes, é uma “reduplicação da vida” (p. 352), um meio de se sair de uma vida medíocre e entrar em um mundo excitante à consciência: a imagem não é um substituto da realidade, mas uma outra realidade. A imagem poética não é uma “simples metáfora”. A imagem é um produto direto da imaginação.

 

Um grande verso pode modificar a estrutura de uma língua, fazendo aspectos esquecidos dessa língua reaparecer. A palavra é, portanto, imprevisível. “A poesia aparece, então, como um fenômeno da liberdade” (p. 348).

 

 

 

CONCLUSÃO

 

Diante do complexo universo bachelardiano, uma das inúmeras questões que poderia se apresentar é, considerando que o leitor possui papel importante na recepção da poesia, poderia-se questionar se não ocorreriam eventos em que a “sublimação total” ocorre para determinados leitores, e não para outros.

Isso distinguiria, talvez, o gosto de cada um pela poesia – se a “mínima admiração” é necessária à análise fenomenológica, talvez possa ocorrer de um leitor não me encantar pela leitura de um determinado poeta, mas outro receptor, sim.

Entretanto, Bachelard entende que um leitor também se forma, se cria: assim como dificilmente um filósofo de idéias consistentes “aprendeu a filosofar” sozinho, um bom leitor deve ter aprendido a “ler”.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

Bachelard. Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Abril, 1974. Coleção Os Pensadores.

 

 

_____. O Ar e os Sonhos. Trad. Por Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

 

 

BENMASOUR, Maryan. O inconsciente se lê e se escreve como um poema: condições poéticas do inconsciente psíquico. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 10,  n. 3,  2005.  Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722005000300014&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 09  Set  2006.  doi: 10.1590/S1413-73722005000300014.

 

 

JAPIASSÚ, Hilton Ferreira. Bachelard e a construção do objeto científico. In: Gaston Bachelard. Disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/Gaston_Bachelard>. Acesso a 09 set. 2006.

 

 

Ternes, José. Bachelard e a Psicanálise. [S.l][S.d]. p. 31-43.

 

 

VIEIRA, Ana Christina. Por uma Filosofia Relacional: matéria e mão, solidão e cosmos, homem e universo. Disponívem em < http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/convidado19.htm> Acesso a 09 set. 2006. Dubito ergo sun. Caderno de Literatura e Filosofia.

 

 

[1] Bachelard. O Ar e os Sonhos

[2] Bachelard. O Ar e os Sonhos.

[3] Em O Ar e os Sonhos, Bachelard distingue ainda a sublimação discursiva e a sublimação dialética. Aquela à “procura de um além” e esta, “à procura de um ao lado”. Isso, baseado em seu conceito de que, apesar de infinitas, as viagens imaginárias “têm intinerários muito mais regulares do que se poderia pensar” (p. 7). Na pág. 11, diz: “viagem para cima [como faz o ar, é] (...) sublimação discursiva”. No contexto do movimento e do ar na pg. 9: “o psiquismo aéreo nos permitirá realizar as etapas da sublimação”.

 



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