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REPRESENTAÇÃO E IMITAÇÃO: UMA ANÁLISE GOODMANIANA |
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Carlos Eduardo Silva
Barbosa
Mestrando
em Filosofia da Linguagem pelo
Programa de Pós-Graduação em Filosofia da
Universidade Federal de Goiás. Goiânia,
2006. No capítulo 1 de Languages of Art: A realidade recriada, Nelson Goodman apresenta algumas de suas idéias sobre representação, descrição, denotação e semelhança.
O posicionamento de Goodman é uma reposta direta à Ernest
Gombrich, para quem o reconhecimento daquilo que está no campo de visão
do observador é estruturado por aquilo que o observador espera ver. Mas
a maneira como se compreende visualmente o mundo requer modificações
decorrentes dos "esquemas" prévios em que se apóia o
observador. Gombrich sugere que podemos ver a história da pintura como
um processo experimental através do qual as nossas aptidões visuais são
gradualmente aperfeiçoadas pelas modificações corretivas que os
pintores introduzem nos esquemas de que se dispõe para representar o
mundo visível . Gombrich
sustenta ainda, em sua História
da Arte, quanto à representação dos objetos serem semelhantes aos
“reais”, que não há necessidade de que o objeto pintado ou
desenhado seja semelhante ao “real” para que o represente: “por
vezes, está certo desenhar coisas de um modo diferente do que elas se
apresentam aos nossos olhos, modificá-las ou distorcê-las de uma forma
ou de outra” (Gombrich, 1985, p.7).
Como será discutido posteriormente, para Goodman, a arte não
pode ser definida em termos de semelhança – a arte não é cópia do
mundo real – um argumento para isto é a emoção da arte, que
é diferente da emoção da vida real: um assassinato que choca
no mundo “real” pode proporcionar “satisfação” na arte.
Em qualquer âmbito, uma análise e interpretação goodmanianas
envolvem a interpretação do símbolo, e a interpretação de um símbolo
envolve quatro funções: denotação, exemplificação, representação
e expressão. A representação é o aspecto figurativo da denotação, enquanto a expressão é a “metáfora” utilizada para figurar a exemplificação. O cerne da interpretação do símbolo goodmaniano é a denotação. A denotação é o objeto a que se refere o símbolo, sua extensão, um aspecto que extrapola o próprio símbolo. Em termos do próprio autor, a relação entre uma pintura e o que ela representa é a mesma relação entre um predicado e ao que ele se aplica. Desta forma, a representação é um tipo especial de denotação (Canán, 2005). Por exemplo, na frase “Pedro não existe”, para Goodman, “não existir” é propriedade de Pedro, ou seja, é denotação – a frase refere-se à não existência de Pedro. Desta forma, Pedro é exemplificação do que não existe. Nelson Goodman divide as denotações em: verbais, em que se encaixam, por exemplo, os textos em prosa e poesia, e não-verbais. Estas ainda são subdivididas em notacionais, como a música, e representacionais (pictóricas, como a pintura e o desenho e não-pictóricas, como a escultura e a fotografia). Entretanto, para representar um objeto, uma pintura tem que se referir a ele, tem que ser um símbolo dele. Se
um pintura deve ou não ser uma representação, não é uma questão
que se de suma importância. Ainda que algumas artes tipicamente busquem
retratar os “objetos do mundo”, como é o caso da pintura e da
escultura, outros, como a música, não encontram, comumente, essa relação
com os objetos. Ainda assim essa relação não é precisa,
observando-se freqüentemente pinturas ou esculturas que não se
assemelham, em princípio, a objetos do mundo, bem como músicas que,
por outro lado, o fazem, como é o caso de “La
mer” de Debussy ou “O
trenzinho do caipira” (Tocata
da Bachianas Brasileiras nº 2), de Villa Lobos.
O autor faz um desafio à representação, propondo que “A
representa B se e somente se A parece-se (apreciavelmente) com B”
(Goodman, 1976, p.3). Este tipo de representação, muito comum em
muitos escritos de representação, não resiste ao argumento de que um
objeto deve-se parecer com ele próprio em um nível máximo, mas
raramente um objeto representa ele mesmo: enquanto uma pintura pode
representar um “objeto do mundo”, como uma pessoa, o inverso não é
verdadeiro: uma pessoa não pode representar uma pintura. Da mesma
forma, uma pessoa não é representação de outra pessoa, ainda que
sejam irmãs gêmeas (idênticas). Conclui-se que “parecer-se” não
é, em nenhuma instância, condição suficiente para “representar”.
Em um exemplo do autor, uma pintura do castelo de Marlborough é mais
parecida com qualquer outra pintura do que com um castelo, ainda que ela
“represente” o castelo e não outra pintura (Goodman, 1976, p.5).
Nesse contexto, “quase qualquer coisa pode ‘significar’
quase qualquer outra” (Goodman, 1976, p.5). Desta forma, uma pintura
que represente um objeto, “refere-se” a, e mais particularmente, o
“denota” – denotação é o âmago, o centro da representação e
independe de “parecer-se”. Goodman (1976, p. 33), exemplifica que Pablo Picasso pintou o retrato da dramaturga Gertrude Stein, e que o retrato não se parecia com ela (não denotava a dramaturga). Entretanto, depois de ter dito do significado da pintura, esta passou a “representar” Gertrude Stein (1874-1946). Desta forma, percebe-se que em Goodman o significado é uma convenção (fig. 1, fig.2)
Figura 1 - Gertrud Stein - Pintura Figura 2 - Gertrud Stein - Fotografia A imitação não é,
portanto, requisito para a representação. Para que um objeto seja
“copiado”, não é necessário uma imitação idêntica; a cópia é
feita segundo a visão de quem a faz: a imitação, portanto, envolve
semelhança, mas a representação, não: as letras “B”, “O”,
“L”, “A”, não se parecem com uma bola, mas representam uma.
Remetendo-se a Ernest Gombrich, de sua obra Arte
e Ilusão, Goodman introduz a idéia de “olhar inocente”: é
relevante não somente “como”, mas “o que” se vê na obra, segundo
os interesses pessoais de quem o faz. “Mas recepção e interpretação
não são operações separáveis” (Goodman, 1976, p.8), elas são
interdependentes, e cita Kant: “o olho inocente é cego, e mente vazia
é virgem” (Goodman, 1976, p.8): a visão mais estética e a mais pródiga
diferem não em “quanto”, mas em “como” elas interpretam.
Fica claro, até este ponto, que para Goodman, arte é ou contém
“representação”, mas não, necessariamente, “imitação”. Desta
forma, a significação da arte depende da relação que esta estabelece
com a realidade, mas em hipótese nenhuma a arte substitui essa realidade.
No artigo “The way the world is”, Goodman (1972) apresenta o seria o mundo,
abordando a noção de representação, e assim como em Languages of Art, argumenta, ironicamente, que a figura mais
realista seria aquela mais semelhante ao objeto real, ou seja, a pintura
é tanto mais realística quanto mais se aproximar de uma fotografia. E
completa: “esta versão do problema é simples, direta, e aceita
geralmente (...). Esta visão descrita tem tudo a seu favor, exceto que
ela é, penso, inteiramente errada.”
Um homem fotografado caminhando na direção da câmera fotográfica,
poderá aparecer com os pés tão grandes quanto seu torso. Se esta não
é a forma como se vê normalmente o homem, ou seja, se esta é uma foto
distorcida, então a pintura mais próxima à foto não é a mais realística.
Isso implica que não se pode dizer que um desenho ou pintura pode ser
mais “fiel” que outro(a). Considerando os diversos pintores: Manet, Dürer,
Cézanne, Picasso, “cada diferente modo de pintar representa um modo de
ver, cada um faz suas seleções, suas ênfases; cada um usa seu próprio
vocabulário e convencionalização” (Goodman, 1972). Sobre esse aspecto Goodman
(1972) diz que “o que percebemos como as figuras mais realísticas são
meras figuras do tipo pelas quais a maioria de nós foi, infelizmente,
educada”. É por esta razão que povos diferentes, como africanos e
europeus, “certamente” escolheriam figuras diferentes que achassem
representar mais realisticamente o
que vêem.
O resultado é que não se pode chegar a qualquer conclusão sobre
como o mundo é de fato considerando os termos ‘fidelidade’,
‘realismo’ ou ‘representação’. ”O que devemos encarar é o
fato de que mesmo as descrições mais verdadeiras não chegam perto de
reproduzir fielmente o modo como o mundo é”. Há muitas descrições
diferentes, porém verdadeira, “nenhuma delas nos diz o
modo como o mundo é, mas cada uma delas nos diz um modo como o mundo é” (1972): A verdade da pintura é o único
padrão de fidelidade possível para um critério de verdade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CANÃN,
Alberto Carrillo, 2005. El concepto
de interpretación en Goodman.
Disponível em <http://www.aparterei.com>.
Acesso em 23 mai. 2006 Gombrich,
E.H. - História da Arte, 4a
ed. Trad por Álvaro Cabral. Rio
de Janeiro: Zahar,1985. p.4-18 GOODMAN,
Nelson. Languages of Arts, an
approach to a theory of symbols, 2 ed.
Hackett Publishing: Indianapolis, 1976 _____.
O modo como o mundo é In: Problems
and Projects, The Bobbs-Merril Company: Indianápolis and New York,
1972. Trad. Por Celso R. Braida e Noeli Ramme. Disponível
em <http://www.cfh.ufsc.br/~braida/goodman.pdf>. Acesso em 22 mai.
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